Livros que Recomendo – Uma Conspiração de Estúpidos

confederacy of dunces

Ou no seu título original, a Confederacy of Dunces, título que se inspirou numa frase escrita por Jonathan Swift (o das viagens do Gulliver, sim senhor) que diz “When a true genius appears in the world, you may know him by this sign, that the dunces are all in confederacy against him.”

Li este livro há alguns anos, sugerido por uma amiga e ex-colega de trabalho que já me tem sugerido imensa coisa boa para ler e tem enriquecido imensamente o meu conhecimento literário (Margaret Atwood também foi sugerido por ela). Mas esta sátira é deliciosa, e tem um gostinho muito especial. Foi apenas o segundo livro que o John Kennedy Toole escreveu, e não viria a escrever mais nenhum uma vez que se suicidou a 26 de Março de 1969 em resultado duma depressão parcialmente provocadas pela recusa das editoras em publicar o seu trabalho. Aliás este livro só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1980, graças aos esforços da sua mãe que insistiu em mostrar o manuscrito, bem como ao seu amigo o escritor Walker Percy.

A Conspiração de Estúpidos fala-nos de Ignatius J. Reilly, um personagem muito sui generis e contra corrente. No inicio dos anos 60, quando toda a juventude rumava na direcção da libertação sexual, dum código de valores menos rigido e mais libertador, quando todo o mundo vibrava em busca dum novo ideal, o jovem Ignatius regia-se por principios e códigos de conduta medievais, resistia violentamente a qualquer mudança, e viajar era a sua pequena definição de inferno. Aos 30 anos vivia ainda com a sua mãe, na sua cidade natal de New Orleans e esforçava-se ao máximo por retardar o mais possível o entrar na vida adulta e consequentes responsabilidades que daí advinham.

Todo o livro vai ser uma sucessão de hilariantes peripécias em que Ignatius tem de lidar com a mãe, sucessivos empregos, o novo namorado da mãe e a sua melhor amiga, tudo tendo como pano de fundo a cidade de Nova Orleães que é quase um personagem em nome próprio. Um livro que tem tanto de cómico como de trágico, mas que nos prende do inicio ao fim duma maneira deliciosa. Se virmos para lá da comédia, podemos ver que há um pouco de nós em cada um dos personagens e que por vezes a vida do Ignatius se assemelha assustadoramente com a nossa vida real.

Como já disse, foi editado postumamente e valeu ao seu autor um prémio Pulitzer, e é hoje uma obra de referência da lingua inglesa. Recomendo grandemente, é um livro que nos faz pensar e rir ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

“I suspect that beneath your offensively and vulgarly effeminate façade there may be a soul of sorts. Have you read widely in Boethius?”
“Who? Oh, heavens no. I never even read newspapers.”
“Then you must begin a reading program immediately so that you may understand the crises of our age,” Ignatius said solemnly. “Begin with the late Romans, including Boethius, of course. Then you should dip rather extensively into early Medieval. You may skip the Renaissance and the Enlightenment. That is mostly dangerous propaganda. Now that I think of it, you had better skip the Romantics and the Victorians, too. For the contemporary period, you should study some selected comic books.”
“You’re fantastic.”
“I recommend Batman especially, for he tends to transcend the abysmal society in which he’s found himself. His morality is rather rigid, also. I rather respect Batman.”

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Novas oportunidades

Ainda agora fiz um post em que falava das novas aquisições que fiz, mas toda a acção tem uma reacção, e tenho igualmente que arranjar algum espacinho em casa, que como sabem começa a parecer um casulo.

Por isso espreitem novamente ali no canto direito os livros à procura de casa e vejam se algum vos interessa. Alguns falei aqui no Peixinho (Os Jardins da Luz, Os Anjos Não Comem Chocolate) e estão prontos a encontrar quem também os aprecie.

Boas Leituras!

Dado Não É Comprado

Presentes

Não sei se estão recordados, mas um dos desafios que coloquei a mim própria em 2018 foi o de não comprar livros, para ver se finalmente dava um destino aos livros por ler que ainda tenho aqui em casa e arranjar espaço na estante para os que se começam a amontoar em todos os recantos disponíveis (cadeiras, chão, em cima de caixas de arrumação onde estão livros técnicos… começa a ser dramático).

No entanto os meus amigos sabem que pouca coisa me faz mais feliz que um livro novo, e neste aniversário encheram-me de mimos e títulos novos. E eu não podia ter ficado mais agradecida, porque isso significa que tenho coisas novas na estante para ler, sem ter feito batota! Ora então vamos ver o que tenho para ler nas próximas semanas:

Everything is Iluminated – de Jonathan Safran Foer. Curiosamente ainda há poucos dias tinha andado a investigar este livro no Goodreads nem me lembro a propósito de quê, e tinha decidido que seria um dos próximos a adquirir, assim que pudesse adquirir coisas novas. Acontece que é um dos autores favoritos desta minha amiga que partilha comigo o amor por Neil Gaiman, e foi assim que me veio parar às mãos. Estou ansiosa para o ler.

O Caminho Imperfeito – de José Luís Peixoto. Dispensa apresentações, é um dos meus autores de conforto e esta aventura passada na Tailândia estava na nossa lista de livros a ler ainda ele o estava a escrever.

Luiz Pacheco Essencial – de António Cândido Franco. Este é o tiro no escuro, mas à falta de originais disponíveis de Luiz Pacheco será pelo menos interessante ler uma boa biografia desta figura tão complexa, e é isto que eu espero que este livro seja.

E pronto, depois virei prestar contas da leitura destes títulos, bem como do progresso do desafio. Para mim não comprar poesia está a revelar-se de longe a tarefa mais difícil, já que este ano parece que os livros de poesia estão a saltar de baixo das pedras e aparecem de todos os lados, só para me afrontar, e cada vez descubro mais autores que queria MESMO ter. Felizmente ainda não me cruzei com nenhum livro de Manuel de Freitas em pessoa, porque não sei se conseguirei resistir. Vamos ver como corre a Feira do Livro este ano… se calhar não corre…

Boas Leituras!

Bluebird

bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

Charles Bukowski, Love is a Dog From Hell

Livros que Recomendo – Os Maias

Os Maias

Poucos livros terão sido tão injustiçados na literatura portuguesa como o que eu recomendo hoje. Nada faz pior a um livro do que tornar obrigatória a sua leitura durante a adolescência, aquele período de rebeldia em que só nos apetece fazer o contrário do que nos dizem.

Quando eu andava na escola, os Maias fazia parte da leitura obrigatória do 11º ano, tal como as Viagens na Minha Terra do Almeida Garrett. O meu professor de Português, do qual eu até gostava muito, começou o ano por dizer que na disciplina dele ninguém passava sem efectivamente ler os dois livros. Ora, se há coisa que o Peixinho gosta é de um bom desafio. Os Maias já não ia a tempo, porque tinha lido por prazer (imagine-se) durante o verão antes de começarem as aulas, mas decidi logo ali internamente que não iria ler o Almeida Garrett e que iria passar. Não me enganei, tive 16 como nota final a Português sem nunca ter pegado no chatíssimo livro, situação que se mantém até hoje.

Mas Os Maias era outra história, já que como disse tinha lido durante as férias de verão, em vertigem. Lembro-me de serem 5 da manhã e ter a minha mãe a ralhar comigo para apagar a luz que já eram horas e eu estar vorazmente a ler para descobrir o desfecho da história e o mistério associado.

O grande problema deste livro, para além de ter sido (ainda ser?) de leitura obrigatória é que começava com uma longuíssima descrição da casa do Ramalhete, dos pormenores todos de decoração, que se não me engano dura quase 30 páginas e faz lembrar a descrição bíblica da Arca da Aliança em que descreve ao pormenor quantos côvados media cada item.

Mas se nos abstrairmos de tudo isso, Os Maias é um belíssimo livro. Uma grande crónica de costumes que nos mostra uma Lisboa que evolui, o espírito provinciano de Portugal na altura do Eça, uma visão da classe politica que de muitas formas não é diferente da que temos hoje. Sendo uma obra de ficção não deixa de ser um documento histórico por toda a envolvência que narra. O meu professor de português, que na realidade era um visionário, deu-nos trabalhos de grupo e a mim calhou-me “A Lisboa nos Maias”, que tivemos depois de apresentar em forma de visita guiada, e ainda hoje muitos dos locais me estão gravados na memória como estando presentes na narrativa.

Aconselho a todos os que gostem duma história bem contada, um documento duma parte da nossa história, e que consigam passar a prova de fogo das primeiras páginas com a sua descrição do Ramalhete.

Boas Leituras!

O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixa-la incompleta, exagera-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.

Um Filme que é um Poema

Paterson

Aqui há umas semanas, num daqueles domingos à tarde frios e cinzentos, pesquisámos os filmes que tínhamos aqui por casa para ver e decidimo-nos pelo Paterson. Eu ia completamente sem expectativas porque não sabia bem sobre o que era, só sabia que era de Jim Jarmush e que era com o herdeiro do Darth Vader. Por isso fui completamente surpreendida quando me deparei com um belíssimo filme sobre poesia, cheio dela, com tantas referências a autores que eu ainda não conhecia que estou há semanas a digeri-lo.

Paterson é o nome do personagem principal, um condutor de autocarros na cidade com que partilha o nome, e todo o ritmo do filme é como se fosse um poema. Vemos o acordar diário de Paterson, a sua ida para o emprego, o almoço a contemplar a paisagem enquanto trabalha nos seus poemas num caderno de anotações, até terminarmos com o passeio nocturno com o seu cão e uma cerveja no bar do costume. Toda esta rotina lhe permite observar pessoas e rituais e isso lhe serve de inspiração para a sua poesia, seguindo uma corrente americana que dizia no ideas but in things (expressão que podemos encontrar num poema de Williams Carlos Williams, poeta que serviu de inspiração a este filme) como quem diz que temos que olhar em volta para ter inspiração. Esse é um tema que ecoa muito em mim, que nas minhas fantasias de escrita procuro sempre inspirar-me no meu quotidiano e naquilo que me rodeia, só ainda não tinha descoberto que havia uma corrente literária que o explorava. Também não tenho a disciplina deste condutor de autocarros que escrevia religiosamente todos os dias, como quem se exercita. E vemos toda esta rotina e quotidiano através de imagens muito bonitas, um poema visual também. Um tesouro!

Os poemas do filme, que podemos ouvir serem escritos ao mesmo tempo que vemos as palavras desfilarem no ecrã para melhor nos envolvermos neles foram escritos por um poeta americano chamado Ron Padgett, amigo do realizador, que foi desafiado a trabalhar como consultor poético numa primeira abordagem e mais tarde a contribuir com os poemas que vemos o protagonista trabalhar. Gostei bastante e isso fez-me pesquisar mais sobre o autor, bem como outros autores relacionados.

Portando depois disto tudo posso dizer que se ainda não viram este filme, vejam. Não esperem grande acção, ou mesmo qualquer acção, porque não é essa a intenção do autor. Na realidade este filme é um poema de amor à própria poesia e por isso não poderia deixar de falar nele aqui. Se quiserem ler os poemas do filme vejam aqui. Se quiserem ler uma apreciação interessante vejam aqui, e se quiserem ler o poeta que escreveu os poemas de Paterson espreitem aqui.

Recomendo a todos os amantes de poesia, os que andam todos os dias de autocarro a ver pedaços de vida e a tomar notas mentais, a todos os que têm um emprego repetitivo e monótono mas que o vêem como uma estrofe do seu próprio poema. A todos os que sonham acordados e a dormir, a todos os que não se conformam na sua vida de conformidade, a todos os amantes da beleza.

Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain

Dia do Pai

Ludo

Hoje é dia do pai e simultaneamente faz uma semana que o meu pai faleceu, no dia do meu aniversário. Quando escolhi o “poema de segunda” para os meus 43 anos, e subsequente mensagem (relacionada com Douglas Adams), estava longe de antecipar exactamente quão adequados iriam ser, mas o universo tem destas ironias.

No entanto a intenção deste post não é ser triste, mas sim uma celebração de vida e de alegria. O meu pai, como já tive oportunidade de dizer a várias pessoas, foi a pessoa mais alegre que eu conheci. No trabalho, com o seu amigo e colega, por vezes faziam as outras colegas rir tanto que tinham de fugir para a casa de banho.

Quando eu era miúda a nossa casa era o ponto de encontro de todos os adolescentes da zona. Toda a gente era sócia dum clube de vídeo e alugavam filmes à vez que se viam sempre na minha sala. Quando os sofás e cadeiras não chegavam, o chão chegava sempre. Por vezes os meus amigos brincavam mais com o meu pai do que comigo e isso deixava-me dividida entre os ciúmes e o orgulho.

Em 1991 a nossa vida mudou quando o meu pai ficou paralisado do lado direito e dependente de nós. Mas isso não abalou a sua boa disposição e continuou a ser o pilar de alegria da família, a motivar-nos e animar-nos. Para terem uma ideia, conto-vos um episódio em que em Alcoitão, onde o meu pai estava a fazer fisioterapia e não falava nem andava, ele entrou num elevador com a minha mãe e um senhor que tinha dificuldades de locomoção e fala. E o meu pai virou-se para a minha mãe a rir discretamente das dificuldades do outro doente… que estava bem mais saudável que ele.

Mesmo no meio de todas as dificuldades, o bom humor sempre foi a cola que nos manteve unidos e este é o ensinamento que quero levar comigo. Nem toda a gente à nossa volta compreendia o nosso modo de ser peculiar, mas é assim que se exorcisam demónios e gostava de ter apenas uma pequena percentagem do bom humor do meu pai. Menos queixas e mais boa disposição é o ensinamento que me vai ficar para sempre, e que quero partilhar aqui.

Ficam as boas memórias, como a da foto, um jogo que fez as delicias de todos nós lá em casa e da vizinhança em redor por muitos serões.

Requiem por Muitos Maios

nuno judice

Conheci tipos que viveram muito. Estão
mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?

No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insónia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles – os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer – nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito – os
que nunca souberam nada da própria vida.

Nuno Júdice, in “Teoria Geral do Sentimento”

(O Peixinho faz hoje anos e já não possui o sentido da vida, do Universo e de quase tudo)

Livros que Recomendo – Sonetos de Florbela Espanca

sonetos

Os visitantes do Peixinho sabem que sou uma entusiasta da Poesia, especialmente a poesia portuguesa, e que gosto de a ir divulgando aqui no blog. Por isso acho que já era mais que tempo de vir recomendar um livro de poesia, e resolvi começar por aquele que me iniciou neste mundo.

Comecei por escrever os meus poemas assim que aprendi a escrever. Depois, como todos os portugueses que foram à escola, li as coisas que me obrigaram a ler nas aulas de Português. Coisas chatíssimas, e para as quais ninguém está preparado. Qual o miúdo de 12/13 anos que quer saber das cantigas de D. Dinis? Parecem uma xaropada incompreensível e não é de admirar que a poesia tenha tão poucos seguidores. Mesmo a Leonor caminhando na verdura não é suficiente para angariar seguidores para a causa.

Devo dizer que acho isso grandemente em relação a quase todas as obras que eram obrigatórias no meu tempo, honrosa excepção para Eça de Queirós que foi o único que li com prazer. Ainda hoje não li as Viagens na Minha Terra, e espero que o currículo escolar tenha mudado entretanto, a bem do gosto pela literatura. Mas esta era outra discussão que não é matéria deste post, serve apenas para dizer que eu gosto de ler apesar das minhas aulas de Português e não por causa delas.

O mesmo se passa com a Poesia, e este foi o primeiro livro que eu li por vontade própria, algures na minha adolescência e cativou-me imediatamente. O seu pendor trágico, o amor profundo e muitas vezes não correspondido, caíram que nem uma luva aos meus devaneios adolescentes, e devorei este livro com paixão e fiquei viciada em poesia desde então. Tive a sorte de ter amigas que eram também fãs e com as quais fui trocando impressões e amadurecendo este gosto.

Não sei o que acharia deste livro se o relesse hoje, mas Florbela Espanca é uma poetisa com mérito reconhecido e foi uma mulher muito à frente do seu tempo, apesar de ter sucumbido à sua própria inquietação interior. A sua obra permeou a nossa cultura geral, desde a literatura doutros escritores até à música (quem não se lembra dos Trovante, só para dar um exemplo?)

Recomendo a todos os amantes de poesia, mas sobretudo a todos os amantes em geral.

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos .
O teu riso de fonte … os teus abraços .
Os teus beijos … a tua mão na minha .

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca ..
Quando os olhos se me cerram de desejo .
E os meus braços se estendem para ti. ..

De Novo em Hyperion

Endymion

Há mais ou menos um ano atrás eu li os dois primeiros volumes daquilo que considero os melhores livros de ficção científica com que me cruzei até hoje. Claro que a minha opinião vale o que vale, porque como leitora multigénero que sou, não me cruzei com uma infinidade de livros de sci-fi, no entanto acho que conheço o suficiente para perceber quando estou diante dum belíssimo exemplar.

Hyperion, e a sua sequela The Fall of Hyperion, são espécimes muitíssimo bem escritos, recheados de ideias bem fundamentadas e que nos obrigam a pensar. Mas o facto de terem sido livros tão bons levaram-me a ter alguma reticência em pegar no resto da história, Endymion e The Rise of Endymion, com medo de me sentir de algum modo defraudada.

Mas tendo começado 2018 a um bom ritmo e já com 9 livros lidos, achei que podia dispender umas semanas a saborear o resto da história com calma.

Este primeiro volume, Endymion, começa 274 anos depois dos acontecimentos de Fall of Hyperion, que terminou com a queda da Hegemonia e do mundo como o conhecíamos naquela altura. As viagens interestelares são agora uma sombra do passado, apenas possíveis se dispendermos muitos anos de dívida temporal, e quem governa agora todo o Universo conhecido é a Igreja, através do seu braço armado da Pax, porque são possuidores do parasita cruciforme que confere a capacidade de ressurreição. No meio de tudo isto Aenea está prestes a sair das Time Tombs onde entrou há 250 anos, e é temida por uns e esperada por outros como uma possível futura messias. Raul Endymion é contratado por um personagem nosso conhecido para a acompanhar, e ainda se junta a esta dupla A. Betik, um andróide de pele azul.

Juntos vão embarcar numa aventura por muitos mundos, com muita intriga política e muita especulação cientifica à mistura. Este livro teve alguns momentos mais parados, em que foi preciso alguma militância para continuar a seguir a história e não sucumbir à tentação de pôr o livro de lado, ou intercalar com uma leitura mais leve. Mas à medida que o final se vai aproximando, todas as peças do puzzle complexo se vão encaixando e as coisas começam a fazer sentido, por vezes dum modo espectacular. Há personagens que conseguem surpreender-nos pelas suas atitudes, e outras que mesmo que não nos surpreendam fazem o que é suposto dum modo extremamente competente.

Acaba a meio da história, já que esta segunda prestação vem dividida em duas, e comecei já avidamente a ler o segundo volume, que como seria esperado não retoma no ponto exacto em que este parou.

Gostei, recomendo a amantes do género porque continuamos a abordar temas muito pertinentes à espécie humana, como ecologia, ciência, politica, religião. Porque é que o homem se acha sempre superior a todas as outras espécies e sente que tem autoridade para alterar todos os ecossistemas em que toca, terrestres ou extraterrestres? E para quem pensa que isto está no domínio da ficção cientifica, pesquise terraforming mars ou venus e perceba que a ideia de alterar todo um planeta que existe na sua perfeição há muitos milhões de anos só para ser habitável por uma especiezinha que somos nós é uma ideia que já existe há muitos anos em alguma comunidade cientifica.

Recomendo também a todos os que gostam simplesmente de um bom livro com uma boa história.

Boas Leituras!

Goodreads Review