Os Macacos que não Aprendem

Tom Lutz

Mais uma vez o Netgalley deu-me a conhecer um livro de viagens. Claro que como sou eu que escolho os livros que quero ler, não é inocente estar sempre a ler livros deste tema. A principio estava um bocadinho apreensiva porque este livro é uma imensa colecção de pequenos episódios vividos pelo autor nas suas muitas viagens pelos vários cantos do mundo (acho que só faltou a zona da Austrália). Tendencialmente não gosto muito de narrativas assim desconexas e sem um fio condutor, prefiro que tenha uma história, neste caso uma rota definida como se fosse uma viagem que eu também estivesse a fazer.

No entanto, este livro acabou por ser uma agradável surpresa. Apesar de não terem relação entre si, e mesmo temporalmente não se conseguir perceber uma cronologia, todos os pequenos momentos eram muito interessantes e de algum modo revelavam um pouco do ambiente do país, ou da cultura das pessoas.

Não ajuda a escolher o próximo destino de férias, mas ajuda certamente a ver algumas coisas por um prisma diferente, e pelo menos a mim, ensinou-me algumas coisas novas. Continuo a achar que a Ásia Central é um dos destinos que terei de explorar algures na minha vida.

Recomendado a todos os viajantes empedernidos, ou os que gostam de viajar nas palavras.

Goodreads Review

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Fanny

Vasco Graça Moura
fanny, a grande
amiga de minha mãe,
ossuda, esgalgada,
de cabelo escuro e curto,
e filha de uma inglesa,tinha um sentido prático
extraordinário e era
muito emancipada, para
os costumes da foz
daquele tempo.

uma vez, estando
sozinha no cinema, sentiu
a mão do homem a
seu lado deslizar-lhe
pela coxa. prestou-se a isso e

deixou-a estar assim,
com toda a placidez. mas abriu
discretamente a carteira de pelica,
tirou a tesourinha das unhas
e quando a mão no escuro

se imobilizou mais tépida,
apunhalou-a num gesto
seco, enérgico, cirúrgico.
o homem deu um salto
por sobre os assentos e

fugiu num súbito
relincho da
mão furada.
fanny foi sempre
de um grande despacho,

na sua solidão muito
ocupada num escritório. um dia
atirou-se da janela
do quinto andar
e pronto.

Vasco Graça Moura

Constelações no Teatro Aberto

Constelacoes

Mais uma vez a Junta de Freguesia de Benfica através da sua página do Facebook ofereceu aos seus fregueses a possibilidade de ir assistir à peça no Teatro Aberto a preços muito simpáticos.  E nós, tal como tínhamos feito no inicio do ano, decidimos aproveitar.

Sou grande fã do Teatro Aberto, acho que tem sempre grandes encenações, cenários fabulosos e bons actores. Por isso sempre que o orçamento permite não perco a oportunidade. Este protocolo da nossa freguesia com o teatro vem mesmo a calhar e desta vez ainda arrastámos umas amigas. Todos ficam a ganhar, porque a sala ficou bem mais composta e seria muito triste uma peça tão boa não chegar a mais público só por ser silly season.

Esta peça foi escrita por Nick Payne, um jovem dramaturgo inglês, e é bastante recente (2012). Conta-nos a história de Rodrigo e Mariana, ele apicultor e ela física teórica que se conhecem, apaixonam, separam, reencontram. Mas no multiverso em que vivemos e em que todas as escolhas que fazemos e não fazemos existem e são possíveis essa é e não é a história deles. Na realidade todas as histórias são possíveis, como uma dança com muitos passos e muitos ritmos diferentes. Às vezes triste, às vezes alegre, mesmo os momentos mais angustiantes que vão sendo revelados aos poucos se diluem na certeza que são apenas uma das milhares de opções.

Um texto muito desafiante para quem o ouve, mas incrivelmente difícil para quem o tem de interpretar. Por vezes as mesmas palavras eram repetidas vezes seguidas com apenas ligeiras variações de entoação e de marcação, mas isso bastava para mudar completamente o ambiente da cena.

Gostei muito, aconselho a quem gosta de bom teatro, principalmente fregueses de Benfica que queiram aproveitar o protocolo. Está em cena até 31 de Julho, por isso apressem-se.

O Peixinho fala dos Pokemons

Pokemon Go

Estamos em plena febre dos Pokemons e é impossível ficar indiferente. Pelo menos para mim, que gosto de mandar o meu bitaite sobre estas coisas coisas, é impossível.

Então o que é isto do Pokemon? Não preciso de me alongar muito em explicações sobre uma coisa que até a PSP já emitiu um comunicado, mas para os mais distraídos o Pokemon Go é um jogo em realidade aumentada para smartphone (ios e android) baseado nos jogos de video e desenhos animados que fizeram as delicias de quem era criança nos anos 90.

Ora isso explica em parte a transversalidade deste jogo agora. Quem era criança nos anos 90 tem agora uns saudáveis 30 e picos e vê transposto para uma nova realidade de todos os dias (o smartphone) um dos seus ícones de infância. Seria o equivalente para mim a andar a caçar a Abelha Maia, ou a Candy Candy se alguém ainda se lembrar de tão obscura personagem. Depois tem a vantagem de interagir com a realidade e não ser estático, implica movimento, caminhada e alguma competição com outros jogadores, como quem coleciona uma caderneta de cromos.

Claro que há excessos e disparates, e não é para todos. Não é certamente para mim, que não me imagino de nariz para o ar a olhar para um ecrã no meio da rua, para isso já tenho o kindle.

Mas o que eu achei e acho mais fascinante neste fenómeno é o que acho fascinante nas nossas redes sociais hoje em dia. Há verdadeiros linchamentos em praça pública. Os jogadores são apelidados de tudo, desde loucos a pessoas sem vida própria. Já li num comentário alguém referir-se ao jogo como “criminoso” sem nos elucidar de onde vinha esse conhecimento jurídico. Pessoas que se divertem a ver o “Love on Top”, seguem a Cristina Ferreira e publicam um vídeo fofo de gatinhos são as mesmas que a seguir trucidam as escolhas dos outros, quaisquer que elas sejam. Desta vez é pelo Pokemon Go, amanhã pode ser por outra coisa qualquer, há sempre um ódio novo na net.

Gostava de saber quando nos tornámos todos naqueles velhotes da aldeia do Astérix na Córsega.

velhotes

Livros com muita vida

alfarrabista

Já aqui falei várias vezes que a maioria dos livros que ainda compro é em alfarrabistas, mesmo quando o faço na Feira do Livro, e são várias as razões que me levam a fazer isto.

Primeiro porque acho que os livros em Portugal são muito caros, falta-nos a figura do paperback baratinho e acessível de transportar. É um dos defeitos de sermos um mercado ridiculamente pequeno, se não compensa investir em autores diferentes, muito menos em formatos diferentes para o mesmo autor.

Mas também por uma questão de reciclagem. Sou uma recicladora activa (e activista, sempre a arengar sobre o assunto), por isso também nas letras me parece relevante fazer o mesmo. Não me faz confusão nenhuma não ler um livro assim que sai (ok, não desde que me passou a febre do Harry Potter), e fico com uma certa satisfação interna ao pensar nas árvores que foram poupadas.

Foi pois com muita satisfação que esta semana li esta notícia que nos diz que o negócio de compra e venda de livros escolares em segunda mão tem crescido imenso nos últimos anos. E isto com vários desafios acrescidos como pedir aos petizes que deixem os livros em bom estado no fim do ano, esperar que as escolas e as editoras mais uma vez não troquem as voltas aos pais que tentam poupar algum (significativo) dinheiro no orçamento familiar. Este é sem dúvida um tema/debate que nos levava longe e que não se esgotaria nas linhas deste blog, mas fico contente por ver o esforço que as pessoas fazem em aproximar vontades quando necessário.

Os Anjos Que Morrem

The Angels Die

Foi só este ano que comecei a ler livros através do Netgalley mas devo dizer que já consegui verdadeiras pérolas. Deu-me principalmente acesso a livros exóticos, de outras partes do mundo, autores novos (para mim), mas também livros novos de autores que eu já gostava.

Desta vez levou-me até à Argélia dos anos 30. Yasmina Khadra, apesar do seu nome feminino, é na realidade um antigo militar argelino que para se proteger e fugir à censura escreveu os seus livros sempre em nome de mulher.

Este livro encontra-se traduzido em português, mas com um título que não me apelava muito (Os Anjos Morrem das Nossas Feridas). Talvez por isso só agora me deparei com ele, em parte devido ao poder de síntese anglo-saxónico que tornou o título mais chamativo (The Angels Die).

O livro conta-nos a história de Turambo e com ela a história dum momento num país. A sua realidade colonialista, de segregação racial, mas também a luta dum homem para se afirmar na sociedade, na vida e no amor quando as circunstâncias já lhe eram desfavoráveis à partida. Como a história argelina me era grandemente desconhecida, foi mais um incentivo para ir pesquisa e descobrir um país novo. Não é necessariamente um livro fácil, bonito, com romance de final feliz, mas isso só o torna mais semelhante à vida.

Gostei muito, fiquei com vontade de descobrir mais livros deste autor. Aconselho a todos os que se querem aventurar em leituras fora dos temas tradicionais, e fora do mundo anglo-saxónico a que estamos habituados.

Goodreads Review

If we look closely at our lives, we realise that we are not the heroes of our own stories. However much we feel sorry for ourselves or enjoy a fame based on fleeting talent, there will always be someone better or worse off than us. Oh, if only we could put everything into perspective – affectation, honour, sensitivity, faith and self-denial, falsehood as well as truth – we would doubtless find satisfaction even in frugality and realise very soon to what extent humility preserves us from insanity; there is no worse madness than thinking the world revolves around us.

20 anos de luta

Fight-Club-quotes-8y

Algures em Agosto faz 20 anos que  Chuck Palahniuk publicou o livro Fight Club que foi o seu primeiro livro a ver a luz do dia. Tal como o Trainspotting, o Fight Club foi um filme que me marcou imenso, e tal como este, ainda não li o livro. Desde que tenho o kindle que tenho este livro numa pasta, sossegadinho, à espera do momento certo.

Já li deste autor 4 livros e a infame história Guts que já levou 73 pessoas a desmaiar, mas por alguma razão ainda não li o mítico Fight Club. Na realidade quando li Snuff em 2012 fiquei surpreendida por ter demorado tantos anos a conhecer este escritor.

Vi o filme assim que estreou e fiquei fascinada. Obviamente já o revi várias vezes, e até arranjei a banda sonora para prolongar o prazer. Deve ser por isso que tenho andado a adiar o livro. Não quero correr o risco de ficar desiludida.

No entanto, creio que esta efeméride pode ser a desculpa que precisava para finalmente pegar no livro e lê-lo de vez.  Boa opção para leitura de verão, agora que as férias se aproximam.

Street_art_from_a_scene_in_the_film_Fight_Club

Animais de São Tomé

Faz hoje exactamente um mês que eu regressei de São Tomé e por isso achei que estava na altura de recordar uma vez mais esta viagem que me marcou tanto.

Como disse sempre  o melhor de São Tomé são as pessoas e as experiências que com elas passámos. Mas eu não seria uma verdadeira Bióloga de formação se não estivesse sempre atenta a todos os bichos que nos rodeavam.

Pessoalmente adoro todos, e só tenho pena de não ter visto mais (as baleias e as tartarugas terão de ficar para uma próxima, mas é sempre bom ter razões para voltar). Tenho também muita pena de não termos levado uma camera subaquática, mas quando voltarmos não repetiremos o mesmo erro. Há vida linda debaixo daquele mar.

Por isso, e para atenuar um bocadinho as saudades, deixo aqui alguns dos animais que trouxe comigo para casa. Mas só em imagem! A maior parte não tem identificação, por isso se alguém conseguir ajudar, melhor ainda. Quase todas as fotos foram tiradas no Mucumbli

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As garças estavam sempre ao pé da praia, tranquilamente à procura de peixe.
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Havia caranguejos de todas as cores, tamanhos e feitios
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Um destes era perito em esconder-se nos meus sapatos de ir ao banho. Passei a sacudi-los cuidadosamente todas as manhãs.
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Uma das muitas aves belissimas de São Tomé.
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Um dos danadinhos que nos acordava às 5h30 da manhã
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Alvíssaras a quem souber a espécie.
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a rola de São Tomé, espécie endémica.
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Um dos poucos búzios que vimos vivos. Na sua maioria vimos cascas vazias e “descascados” à venda no mercado.
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Um corvo-marinho em vôo.
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Um dos inúmeros lagartitos que faziam barulho durante o dia.
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E o caranguejo terrestre que enchia a noite de sons.
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O “falcão” a descansar.
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O “falcão” a voar mesmo em frente ao nosso bungalow…
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… e a dizer-nos até um dia.

 

 

Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Sophia

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminheiPor ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Livro Sexto’

OS 6 melhores livros eróticos de sempre

Livros Eroticos

Em posts anteriores já falei de “marotices” e nem sempre nos termos mais elogiosos. Mais concretamente, já desanquei as 50 Sombras de Grey. No entanto livros eróticos estão definitivamente na minha lista de preferências, principalmente quando bem escritos e proporcionam sempre bons momentos de leitura. É uma pena que o mercado tenha sido invadido por sucedaneos das 50 Sombras, como na minha infância un senhores em Sete-Rios vendiam sucedâneo de chocolate em embalagens amarelas, mas deixo-vos aqui uma pequena amostra do que de bom se pode encontrar neste tipo de literatura. Muito mais exemplos existirão, partilhem comigo os que gostarem mais.

Venus na India (1889) – Um dos primeiros livros eróticos que li, às escondidas, ainda antes de ter atingido a adolescência e perceber exactamente o que estava a ler. Digamos que a minha mãe nunca foi muito boa a arranjar esconderijos para livros, e li muita coisa que talvez não devesse antes de tempo. Mesmo assim continuo a achar que era um livro bem escrito, com uma visão interessante e onde aprendi muita coisa que não tive de perguntar aos amigos. Relata as aventuras dum Capitão inglês na exótica India da época vitoriana, e contrariamente ao esperado, as mulheres são retratadas com alguma experiência e liberdade sexual.

Opus Pistorum (1936)- Arranjei este livro de Henry Miller numa daquelas colecções do Publico ou similar, já há alguns anos. Li-o duma assentada, num misto de espanto, horror e deleite. É um livro muito bem escrito, talvez demasiado forte nalguns momentos. Apesar de ser ficção, nalgumas descrições não conseguimos deixar de ter a sensação que o autor terá mesmo passado por aquela situação, tal a familiaridade com que a descreve. É um livro muito interessante, aconselho muito a quem tenha estomago forte e coragem. O protagonista é o próprio escritor e o pano de fundo é a Paris boémia dos anos 30, com os seus excessos libidinosos.

Emanuelle (1959)- Este livro é um clássico, embora a maioria das pessoas se recorde melhor do filme. Inicialmente publicado clandestinamente em França, este livro relata o desabrochar sexual duma mulher quando se muda para a Tailândia com o seu marido diplomata, e está escrito dum modo profundamente feminino, o que contribui grandemente para o seu apelo. É um livro intemporal, mas muito do seu sucesso deve-se também à altura da sua publicação, uma vez que coincide com o começo da libertação sexual da geração de 60.

Delta de Vénus (1977) – Anais Nin é outra grande escritora de erotismo, com uma sensibilidade muito feminina. Foi contemporânea de Henry Miller, partilharam muitas aventuras, mas a voz que retratam nos livros é radicalmente diferente. Dois lados da mesma moeda? Este livro é uma colecção de contos eróticos, lindamente escritos.

História de O (1954) – Este livro de Pauline Réage está aqui como uma escolha provocadora e na realidade causa-me um misto de emoções. Enquanto num primeiro olhar possa parecer um elogio à objectificação da mulher, já que descreve o desejo da protagonista de ser tratado como escrava sexual do seu amante, é também um livro que foi escrito por uma mulher e que lutou muito à época para ser editado e distribuido devido ao seu conteúdo considerado obsceno.

A Casa dos Budas Ditosos (1999) – Esta lista não ficaria completa sem um título escrito em português, neste caso do outro lado do Atlântico. João Ubaldo Ribeiro escreveu sobre a luxúria para a colecção Plenos Pecados e alegadamente relata a vida duma quase septuagenária baseado nuns relatos pessoais que lhe chegaram às mãos. Se as histórias são verídicas ou não, pouco importa. Estão muito bem escritas, variam entre o sensual e o totalmente depravado, mas sempre com bom humor e um toque de tropicalidade apetecível. Recomendo muito.