Livros que Recomendo – Histórias Naturais

Clara Pinto Correia

Hoje, num dia que muita gente está a aproveitar para descansar ou ultimar compras natalícias, eu, que estou alegremente a trabalhar, aproveito para vir mais uma vez recomendar um livro que li há muito tempo e me acompanha o pensamento desde então.

Este livro é um caso um pouco diferente dos anteriores, porque na realidade não morro de amores por esta autora. Já tentei ler outros textos dela mas não me convenceram. No entanto acho este livro uma pequena pérola do bom humor científico.

Tal como o nome indica, o livro agrega uma série de pequenas histórias de todo o “mundo natural”, contadas dum modo muito simples mas muito cativante, recheadas de bom humor, que ao mesmo tempo entretém e ensinam. O objectivo do livro não é tanto dar uma aula de ciências da natureza, mas mais despertar o nosso interesse por pequenas curiosidades do mundo que nos rodeia, para nos podermos aperceber que é mais complexo e interessante do que aquilo que à primeira vista poderíamos pensar.

É claro que o facto de ser bióloga pode ter ajudado para achar este livro engraçado, mas creio que agradará a todo o tipo de pessoas. Apesar de o ter lido há imensos anos, ainda hoje olho para os jacarandás em Lisboa dum modo diferente por saber de onde vieram e que entram em floração todos ao mesmo tempo. Há pequenos contos dentro deste livro que ficaram sempre na minha memória e que ainda hoje partilho em conversas.

Depois, tentei ler romances da mesma autora e já não consegui sentir a mesma empatia, e mesmo O Ovário de Eva achei uma chatice. Este livro foi um grande amor, mas um amor único. Mesmo assim recomendo muito a quem goste de histórias bem contadas sobre o mundo que nos rodeia, com muito bom humor.

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A Gata

Colette

Por razões familiares tenho andado muito pelo Hospital de Santa Maria. Quase todos os dias, ao vir embora, passo pelo Estádio Universitário onde está uma daquelas “Feiras do Livro” que mais não são que uma tenda que alberga uns fundos de catálogo de gosto duvidoso, essencialmente sobre jardinagem e dicas alimentares que estariam em voga nos anos 80.

Mas de tanto lá passar acabei por sucumbir à tentação e ir espreitar. Era mais ou menos o que eu já esperava, uns livros manhosos de auto-ajuda a tentar ajudar a carteira do autor e a falhar redondamente, Feng-Shui e Yoga desactualizado e outras pérolas semelhantes.

Mas, muito bem escondidos lá no meio, pude encontrar verdadeiros tesouros. Por um lado bastantes edições da mesma editora do livro Páscoa Feliz de José Rodrigues Migueis, que faz edições facsimiladas e eu li algures no inicio deste ano. E se são atentos, sabem do fascínio que o Peixinho tem por clássicos da literatura erótica. Pois eis que mesmo à minha frente estava o livro que vêem acima, A Gata, de Colette, uma escritora francesa do início do século XX e que eu já andava de olho há bastante tempo. Com um preço muito simpático, era o último exemplar disponível.

Pronto, não fui capaz de resistir e lá veio comigo para casa. Felizmente na prateleira da poesia não houve nada que me conquistasse o coração, apesar de ter vacilado bastantes vezes.

Só prova que em qualquer lado com livros há a possibilidade de se encontrar bons tesouros. Está na lista de livros a ler em 2018.

Boas leituras.

Livros que Recomendo – Meu Pé de Laranja Lima

Laranja Lima

Este era um dos muitos livros que estava em casa dos meus padrinhos e que durante a minha infância eu lia uma vez por ano. O meu grau de compreensão da história ia mudando com o meu grau de maturidade, mas uma coisa se mantinha constante, chorava sempre horrores com o final.

O livro conta-nos a história do Zezé, um miúdo pobre levado da breca, que passa a vida a fazer disparates, e que apanha proporcionalmente. O seu melhor amigo é um pé de laranja lima que está no quintal, o Minguinho, com quem ele desabafa e partilha aventuras. De certo modo crescem juntos, sozinhos no meio daquela família numerosa.

Aos meus olhos de criança era difícil não ficar irritada pelas vezes que o Zezé apanhava injustamente, ou era maltratado pela família. Com o meu próprio crescimento, as diferentes camadas da história foram-se revelando aos poucos, e dá para perceber que esta é uma obra muito rica e extremamente bela, que nos fala do poder da amizade e como ela pode atravessar barreiras sociais e culturais.

Olhando para a página do Goodreads hoje, vemos que é uma obra absolutamente transversal, com críticas em diversas línguas de pessoas das mais diversas nacionalidades, e isso faz-nos perceber que a história é simples mas apela a todas as sensibilidades.

Aconselho a corações de todas as idades.

Festival Tinto no Branco

Michael Palin

Nem de propósito, agora que acabei de ler os primeiros dois diários de Michael Palin, e eis que o senhor vem a Portugal para a tertúlia que vai inaugurar o festival literário Tinto no Branco, que junta dois prazeres, o da leitura com o do belo vinho do Dão. Infelizmente (para mim, numa perspectiva muito egoísta), a reunião de MP frente a frente com Ricardo Araújo Pereira vai dar-se em Viseu, no Solar do Vinho do Dão, no dia 1 de Dezembro às 18 horas e tem entrada gratuita sujeita apenas à lotação da sala.

Amigos de Viseu, peço-vos o favor de esgotarem a sala, que benesses destas não se dão todos os dias, e por favor partilhem comigo o que lá se passar. Eu nesse dia estarei alegremente a trabalhar, e mesmo que não estivesse duvido que conseguisse convencer a minha espinha metade a deslocar-se até Viseu para uma conversa literária, mas sonhar é fácil.

Por isso, se puderem não percam, que a conversa entre estes dois senhores tem potencial para ser muito interessante, bem como o resto do evento.

Livros que Recomendo – As Cinzas de Angela

Angelas Ashes

Este foi mais um daqueles casos dum excelente livro que me veio parar às mãos por empréstimo duma amiga. E como acredito firmemente no princípio de paying it forward, tenho de o recomendar sempre que possível.

Uma das lacunas no meu percurso estudantil é história contemporânea, e a melhor maneira hoje em dia de preencher essa falha é aprender com os livros que leio. Este livro é um retrato autobiográfico duma época muito complicada da história da Irlanda, a altura da Grande Depressão. Frank McCourt era criança nessa altura, filho de pais católicos e pobres, com um pai alcoólico. Tinha nascido na América, mas voltado cedo para os suburbios de Limerick, onde o pai passava mais tempo desempregado e a beber, do que a ajudar a família. Apesar de ser uma vida complicada e cheia de dificuldades, passamos mais tempo com um sorriso nos lábios do que com lágrimas nos olhos, de tal forma é a escrita deste autor.

Este volume concentra-se essencialmente na infância do autor, a sua relação com a família, a escola, as duras dificuldades com a luta diária contra a fome, e o modo como teve de crescer rapidamente para ajudar a sua família a sobreviver. É um retrato duro e muitas vezes difícil de gerir, mas um livro que vale a pena.

Já foi feita uma versão em filme, que ainda não vi, e o autor ainda escreveu mais 2 livros que relatam a sua chegada à América, e a sua carreira como professor, que são também interessantes, mas que lhes falta um pouco da genialidade deste.

Pelo menos mais um dos seus irmãos também seguiu a carreira literária, e ambos lutaram com o alcoolismo durante a sua vida.

Aconselho como testemunho de vida e relato duma época, não tão distante assim.

Em Ponto Morto

Livros

Ora já vai sendo uma constante por estes lados falar de bloqueio de leitor e afins. No entanto desta vez não foi bem isso que se passou, já que não andei com falta de vontade de ler, mas os dois últimos livros que li (Os Diários do Michael Palin I e II) ocuparam-me um mês inteiro. E isso para quem tem de manter um blog actualizado com aquilo que vai lendo, não me faz parecer muito produtiva.

Mas, na realidade, não me importo muito com essas coisas como devem imaginar, porque na realidade ler tem de ser um prazer porque para trabalho já tenho um das 9h às 5h, e ler serve para descomprimir desse.

Por isso os diários foram excelente companhia no tempo que me levaram a ler, e ainda deu para fazer umas pequenas incursões nalguns contos entretanto.

Mas hoje quando fui olhar para a lista de livros do Netgalley que tenho para ler e dar feedback é que me apercebi da dimensão do estrago. Sim, porque continuei alegremente a visitar o Netgalley e a requisitar os livros que me pareceram interessantes (quem consegue resistir a Salman Rushdie e Jeffrey Eugenides?), mas isso fez com que já tenha 9 livros na minha prateleira à espera de alguma atenção.

Mas como sou uma pessoa que literariamente só faz o que lhe apetece, ainda me questionei seriamente sobre que livro me apetecia ler esta manhã. E se tudo correr bem, descobrirão em breve quando eu vier aqui falar sobre ele, mas aviso já que não foi nem o Salman nem o Jeffrey.

Livros que Recomendo – A Voz dos Deuses

Voz dos Deuses

João Aguiar, na minha modesta opinião, é um escritor português que não tem o destaque que merece. Autor da série infanto-juvenil “O Bando dos Quatro“, que já foi adaptada à televisão pela TVI, este autor foi-me apresentado há muitos anos por uma amiga através do livro “O Homem sem Nome“, que teve um profundo impacto em mim, e que está na lista dos que procuro em alfarrabista para um dia reler.

Mas é outro livro que recomendo hoje, e que acho um dos melhores romances históricos que já li até hoje. A Voz dos Deuses começa por ser um livro passado numa época pouco retratada, quer na literatura, quer mesmo nos currículos escolares e esse é o período pré-romano e da colonização romana. Claro que é difícil falar da história pré-cristã da península ibérica já que se trata duma época largamente não documentada pela escrita, mas não deixa de ser, para mim, das épocas mais fascinantes da nossa história.

E foi essencialmente a este período que João Aguiar se dedicou, começando neste livro que relata a vida de Tongio e através dele podemos seguir Viriato e toda a rebelião das hostes bárbaras contra o invasor romano. Sofremos com eles, torcemos por eles, mesmo sabendo de antemão qual o desfecho, que é bem conhecido de qualquer português. Um livro bastante apaixonante, e com uma escrita muito envolvente, que não me canso de recomendar a quem me queira ouvir. João Aguiar, apesar de escrever ficção, preocupa-se com o rigor histórico e deixa-nos no fim explicações e enquadramentos geográficos para melhor percebermos o livro. Uma verdadeira pérola que significou para mim a entrada no reino deste autor, do qual ainda hoje continuo a comprar livros sempre que os encontro em alfarrabistas.

Recomendo largamente a todos os que gostem de ficção histórica, história de Portugal, ou simplesmente uma história bem contada com bons personagens.

Ler em todo o lado

Lareira

Agora que está a começar o tempo mais frio já convida a ficar em casa agasalhado no quentinho a ler. O maior problema é a mão que fica fora das mantas a segurar o livro/kindle que gela um bocadinho, e temos sempre de a estar sempre a trocar.

Mas também gosto muito de estar nos belos dias de calor sentada numa esplanada a apanhar sol enquanto vou desfiando os olhos por um livro, de preferência num sitio rodeada de natureza.

Se conseguirmos juntar as duas coisas, um belo dia de sol em pleno Inverno então estamos muito perto da perfeição. Na realidade todas as alturas são boas para se ler um bom livro, quer seja ao ar livre quer seja no nosso aconchego.

Neste momento continuo alegremente a ler onde calha o segundo diário do Michael Palin, e as suas 600 páginas que me estão a dar água pela barba, mas muitos momentos de diversão.

Esplanada

Sabemos que um livro é bom quando

Reading

O começo já por si é prometedor e o tema é interessante. As personagens estão bem desenvolvidas e as descrições não são chatas. A história é bastante boa e mantém-nos agarrados como se as páginas tivessem cola.

A custo lá paramos o suficiente para ver se entrámos no autocarro certo. Finalmente chega a nossa paragem e nem queremos acreditar que temos de interromper a trama por 8h seguidas para ir trabalhar. Será demasiado tarde para pôr um dia de férias?

À hora de almoço saímos cinco minutos mais cedo para evitar todos os colegas e vamos esconder-nos no café a que ninguém vai para não sermos interrompidos. Quem disse que 1h de almoço chegava claramente não sabia o que dizia.

À tarde deixamos passar a nossa paragem e temos de andar mais até casa. Compensamos o tempo perdido jantando pão com manteiga porque não podemos perder muito tempo.

Vamos para a cama com a firme promessa de ler só até ao final do capítulo, e acordamos com o despertador, enrolados no livro que acabámos algures quando já se ouviam pássaros lá fora e o nosso coração estava triste pela perda daquelas vidas que partilhámos por 24h.

Eu, Peixinho, me confesso

eu_sara_me_confesso

Gostava muito de dizer que só leio livros de alta literatura, complexos e intrincados e que sempre foi assim, mas esse não é o caso. Na realidade leio o que me apetece na altura, e se já não houver nada mais de interessante, leio o que estiver à mão. Foi assim que quando era adolescente e passava meses inteiros de férias na terra da minha avó eu lia Selecções do Readers Digest dos anos 70 que ainda andavam por lá perdidas, BD’s do Vilhena e livros sem fim da colecção Harlequin.

E foi assim também que neste meu último retiro alentejano eu dei por mim com o livro da Sara Norte nas mãos e a despachá-lo numa tarde à beira de água. E foi um bocadinho como os livros da Bianca, lê-se num sopro, mas no final não nos fica assim nada de importante na cabeça.

Está longe de ser o pior livro que li este ano (esses não aparecem aqui, nem no Goodreads, e acreditem que já li muitos livros muito maus este ano. Só em livros maus já daria para ultrapassar o objectivo de 50 livros que me propus no inicio do ano), na realidade foi como ler uma reportagem gigante da Sábado ou do Correio da Manhã. Ficamos a saber a história da vida dela, como foi parar a uma prisão espanhola numa idade muito jovem, tudo contado sem grandes rodeios nem branqueamentos.

E pronto, não aconselho, mas podia ser pior.

Boas leituras!