Livros que Recomendo – Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

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Este deve provavelmente ser o título mais longo que eu alguma vez pus num post, mas efectivamente é assim que se chama este livro do Mário de Carvalho, escritor português que me foi dado a conhecer pela mesma amiga que me falou do João Sem Medo e do José Rodrigues Migueis.

Mário de Carvalho tem uma escrita ilusoriamente simples, em que a narrativa é fluida e eficaz, mas que por trás disso esconde-se um grande domínio da língua e do vocabulário. Por várias vezes tive de recorrer ao dicionário para perceber exactamente o que a palavra ali significava, e até então isso só me tinha acontecido com Aquilino Ribeiro (sendo que nesses casos raras vezes o dicionário é alguma ajuda).

Mas este livro é uma leitura muito interessante, duma Lisboa que cresce e está recheada de clichés que nós tão bem conhecemos. Acho que é impossível ler este livro sem nos revermos nele, e o entendermos como uma espécie de espelho onde vemos reflectida a nossa urbanidade muito própria. Desde os pseudo-intelectuais, à jornalista que não percebe nada do que faz, ao pai que tem o filho preso mas vai dizendo aos amigos que ele está a estudar na Suíça, ou no Canadá, tudo nos parece estranhamente familiar, próximo, mas sobretudo extremamente cómico.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura portuguesa, uma boa história que nos faça rir e pensar ao mesmo tempo.

 

ADVERTÊNCIA V.V.
Este livro contém particularidades irritantes para
os mais acostumados. Ainda mais para os menos.
Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns
anacolutos.

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Bookshout

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Quem segue este espaço já percebeu que eu ando sempre à procura de maneiras de ter acesso a livros de modo barato (ou mesmo de borla), e sem que para isso tenha de sacrificar em qualidade dos títulos.

Quando procuro livros físicos já compro essencialmente em alfarrabistas ou lojas de segunda mão, que mato dois coelhos duma cajadada. É mais barato ao mesmo tempo que é mais ecológico. Para livros digitais já aqui falei do Projecto Adamastor, Project Gutenberg, Netgalley, Edelweiss, tudo plataformas onde podemos obter livros de forma gratuita e legal.

Agora descobri mais um, o Bookshout,  (na realidade quem descobriu foi a cara-metade), que é uma multi-plataforma onde se pode comprar livros digitais, lê-los online, mas que ao mesmo tempo disponibiliza muitos títulos gratuitamente para lermos. Para mim, a grande desvantagem é que temos de ler na plataforma, ou seja no computador ou na app deles, o que é bem menos confortável que no Kindle, mas por outro lado temos acesso a alguns títulos interessantes.

Para aqueles mais competitivos, a aplicação também permite manter um registo das horas que lemos, do número de páginas que lemos por dia, palavras por minuto, uma panóplia de estatísticas para nos manter felizes ou paranóicos.

Eu ainda estou a experimentar e comecei com O Estranho Caso de Benjamim Button, de F. Scott Fitzerald, mas como sou pessoa que não consegue ler muitos livros ao mesmo tempo ainda não fiz grandes progressos. De qualquer modo fica a recomendação, experimentem e digam se gostaram.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Pequeno-Almoço de Campeões

breakfast of champions

Eu não tenho livros favoritos, nem aquele autor que amo mais que tudo, mas tenho um pequeno conjunto de escritores, nacionais e estrangeiros, cujos livros raramente me desiludem. Kurt Vonnegut é um deles, acho que ainda não houve um livro dele que eu não tivesse gostado, e na maioria dos casos fiquei literalmente de queixo caído a desejar pudesse ter sido eu a pensar em semelhante golpe de génio.

De todos os livros que li até agora, e que ainda não foram muitos, o meu favorito é sem dúvida este Breakfast of Champions. Começa logo pelo título ser um trocadilho que não faz sentido nenhum para nós portugueses. É não só o slogan duma conhecida marca de cereais americanos, como também o nome que sarcasticamente se dá a um pequeno-almoço que consiste essencialmente de álcool e tabaco. E isto sei porque fui investigar, coisa que faço muitas vezes quando estou a ler livros que me entusiasmam.

Kurt Vonnegut escreve uma mistura de ficção cientifica com surrealismo, mas isso é apenas o meio que ele usa para se debruçar sobre temas mais importantes e interessantes, como o livre arbítrio, a diferença de classes e de raça nos Estados Unidos, a destruição do ambiente, temas que são recorrentes em todos os seus livros. Também recorrente nos seus livros é a personagem de Kilgore Trout, um escritor de ficção cientifica, que é um dos personagens principais neste livro, e que nos vai ajudar a pensar em todos estes temas, nomeadamente no livre arbítrio que todos temos, ou não.

É um livro que roça a genialidade, muito bem escrito, e que não me canso de aconselhar a toda a gente. Kurt Vonnegut não será dos autores mais fáceis, mas a recompensa mental que se tem ao ler um livro destes compensa claramente. Foi daqueles escritores que, quando finalmente o descobri, fiquei a pensar onde esteve escondido toda a minha vida. Considerando que o livro foi escrito em 1973, ainda antes de eu ter nascido, mantém-se surpreendentemente actual, o que diz muito acerca da nossa sociedade e a sua (não) evolução.

Recomendo a todos os amantes de bons livros, de histórias que façam pensar, mas de humor delirante.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Kilgore Trout once wrote a story called “This Means You”.” It was set in the Hawaiian Islands, the place where the lucky winners of Dwayne Hoover’s contest in Midland City were supposed to go. Every bit of land on the islands was owned by only about forty people, and, in the story, Trout had those people decide to exercise their property rights to the full. They put up no trespassing signs on everything. This created terrible problems for the million other people on the islands. The law of gravity required that they stick somewhere on the surface. Either that, or they could go out into the water and bob offshore. But then the Federal Government came through with an emergency program. It gave a big balloon full of helium to every man, woman and child who didn’t own property.

 

Livros que Recomendo – Quotidiano Delirante

Quotidiano Delirante

Nos meus 20 e poucos eu era muito fã de Moonspell, ao ponto de ter assistido a todos os concertos que deram em Lisboa e arredores durante anos. Ainda gosto bastante, mas já não os sigo para todo o lado, não compro todos os cd’s, nem vou a todas as sessões de autógrafos. Vou apenas a alguns concertos que me parecem interessantes e ouço de vez em quando, o novo e o antigo.

Mas que têm os Moonspell a ver com o galego criador de BD absolutamente delicada e delirante, Miguelanxo Prado? Porque foi através de um espectáculo na Brandoa a partir de textos dele, algures na década de 90, encenado pelo Fernando Ribeiro, onde eu fiquei rendida à mestria deste senhor. Obviamente só fui ver a peça de teatro porque tinha o cunho do vocalista de Moonspell, e na altura eu era uma incondicional. Mas os textos, retirados de um dos tomos de Quotidiano Delirante (há três) eram deliciosos, e fiquei imediatamente cheia de curiosidade de ir investigar quem era aquele autor.

E foi assim que cheguei até estes livros que vos apresento hoje. Comecei por ler os seus livros cómicos, em que lança um olhar sarcástico sobre a vida (Quotidiano Delirante, Crónicas Incongruentes). O facto de ser tão geograficamente próximo de nós também dá um carácter de frescura a esta leitura. No meu início de idade adulta foi com estes livros que eu comecei a gostar de BD mais elaborada, mais longe dos Tio Patinhas da minha infância, e a perceber que há mensagem em todas as formas de escrita.

Tal como eu, este autor também cresceu e evoluiu e os seus livros mais recentes afastaram-se deste olhar divertido, crítico e mordaz e entraram numa linguagem mais poética e mágica, belíssima. Os seus desenhos são duma beleza extraordinária e acho mesmo que este é o meu autor favorito de momento. Tenho em casa o Ardalén para ler em Galego, mas ando a guardar como quem não quer comer o ultimo quadradrinho de chocolate.

Aconselho este livro a todos os amantes de banda desenhada, de histórias divertidas e bem contadas e leitores em geral.

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Casa dos Budas Ditosos

A casa dos budas ditosos

Já começava a faltar por aqui a recomendação dum bom livro erótico. Então e porque razão, de tantos que já li, começar exactamente por este? Bom, primeiro porque tinha de começar por algum lado, depois porque nada melhor do que começar por um livro escrito na nossa língua e que é para além de literatura erótica, também muito descontraído, descomprometido, e sem leituras moralistas associadas. Os meus favoritos, portanto.

Já antes tinha falado brevemente nele aqui no blog, naquele que deve ser o meu artigo mais lido de sempre, já que pelo menos uma vez por dia alguém vem cá parar vindo dum motor de busca qualquer. O poder dum bom título, creio eu! Mas resolvi finalmente vir recomendá-lo como bom livro que é. Mas de que trata realmente, e quem são estes budas ditosos?

Escrito para fazer parte da colecção Plenos Pecados como representante da luxúria, este livro parte da premissa que o autor recebeu umas cassetes entregues no seu prédio onde uma senhora de 68 anos conta a sua vida desregrada e todas as suas experiências sexuais que foram vastas e experimentalistas. Este é um livro que tem dividido opiniões e que quando foi editado no Brasil chegou mesmo a ser proibida a sua venda em supermercados dado ao conteúdo explicito. No entanto hoje em dia (50 Shades depois, diria eu) já é vendido livremente apesar de continuar polémico.

Se nos limitarmos a olhar para o superficial, vemos apenas um desfilar de descrições de actos sexuais, contadas com muito bom humor e descontracção, mas nada mais que isso. No entanto, por trás das aparências e olhando ao contexto histórico brasileiro, podemos encontrar um subtexto de critica social e politica muito subtil, que desafia as convenções e os moralismos instituídos, bem como as nossas ideias pré concebidas sobre a sexualidade.

Está longe de ser um livro consensual. Se derem uma olhada aos comentários no Goodreads vêem que as avaliações são 5 ou 1 e os comentários fazem jus a esse facto. É um livro que se ama ou odeia. Eu gostei muito e recomendo, mas vão avisados, é preciso estômago e mente (muito) aberta. Leiam por vossa conta e risco.

Boas Leituras!

 

Livros que Recomendo – American Gods

american gods

Depois de quase dois anos a ler/reler as aventuras do Sandman, nada como vir aqui recomendar um dos meus livros favoritos deste autor. Imaginem toda a imagética delicada e refinada do senhor dos sonhos, mas traduzida para um livro de ficção. O resultado é uma história envolvente, cativante, e que nos deixa a pensar em todas as possibilidades que o nosso mundo ainda pode ter encerradas por trás das aparências.

Em American Gods, Neil Gaiman conta-nos a história de Shadow, um homem que acabou de sair da prisão em circunstâncias não muito felizes, e que vai arranjar um emprego como ajudante dum homem misterioso chamado Mr. Wednesday. Com ele vai viajar um pouco por toda a América contactando estranhas personagens e vivendo aventuras no mínimo duvidosas, que vão não só pôr em perigo a sua integridade física, como levá-lo a fazer descobertas interessantes sobre a sua própria identidade.

Mas esta é apenas a camada superficial da história que está depois envolta em inúmeras sub-histórias que são tão ou mais interessantes que a principal e que nos dão a conhecer deuses mitológicos do folclore mundial, mas também deuses recém-criados pelas nossas obsessões modernas. É mesmo a luta entre estas duas identidades que em última análise vai selar o destino do nosso personagem e que é uma analogia à nossa própria luta interior entre submetermo-nos a tradições ou abraçar o futuro sem reservas.

No final de tudo, e não surpreendentemente, o livre arbítrio sai vencedor, mas não sem antes nos levar numa jornada alucinante por batalhas épicas e viagens intensas cheias de personagens fascinantes. O meu favorito, Mr. Nancy, deu origem mais tarde a um livro em nome próprio, Anansy Boys, que também gostei muito, mas que falarei mais tarde.

Entretanto o livro foi adaptado para uma série televisiva que estreou em 2017 algures num canal americano, mas que eu não tive oportunidade de ver, e acerca da qual estou apenas medianamente curiosa, porque não sou grande fã de séries. Tendem a prolongar-se até ao infinito e a perder um pouco da magia da palavra escrita. No entanto, acho que me cruzarei com esta um dia.

Até lá recomendo este livro a todos os fãs de fantasia, de histórias bem contadas com um travo a antiguidade, mitologia, e sabedoria ancestral. Neil Gaiman é não só um excelente contador de histórias como é dotado dum profundo conhecimento de mitologia e história de arte, o que enriquece imensamente a sua prosa. Aconselho vivamente.

Boas leituras!

Livros Que Recomendo – Cloud Atlas

cloud atlas

Este deve ser um dos raros casos em que ver o filme me puxou a ler o livro. A ser honesta, o grande impulsionador das duas coisas até foi o outro peixe cá de casa, mas eu fiquei igualmente rendida.

Comecemos pelo início. Fomos ver o filme no velho e já desaparecido cinema do Fonte Nova, e quando as três horas chegaram ao fim nós nem queríamos acreditar. Parecia que o tempo não tinha passado, tal era o ritmo vertiginoso do filme. Não foi consensual na altura, houve muita gente que não gostou, mas nós ficámos apaixonados, dissecamos o argumento e acabámos por ficar com curiosidade em ler o livro.

Cloud Atlas conta-nos seis histórias que na realidade são só uma. A evolução de uma personagem com uma marca de nascença específica ao longo de várias vidas, simplisticamente falando. Mostra-nos como estamos todos ligados através do tempo e como todas as nossas acções têm consequências. No limite, mostra-nos que o modo como a posteridade nos recorda pode ser bastante diferente daquilo que fomos.

A estrutura do livro e do filme são radicalmente diferentes. Enquanto o filme é caos e ritmo, o livro está construído como um espelho. Temos metade de cada história por ordem cronológica, até à sexta história, e depois vemos as conclusões por ordem inversa. Como se tivessem fotocopiado o livro e fechado a meio. Assim: historia 1, 2, 3, 4, 5, 6, 5, 4, 3, 2, 1. Confuso? Nada mesmo quando se lê.

Cada secção é escrita num estilo diferente e está interligada aos personagens da secção anterior de algum modo, tornando este livro num exercício de escrita notável. Tal como o filme, o livro também não é consensual, e há muito quem não tenha gostado ou não tenha mesmo conseguido conseguir ler.

Este livro chegou aos finalista para o prémio Man Booker de 2004 e fez-me ficar fã do autor, de quem tenho vindo lentamente a ler toda a obra, que está também toda interligada com personagens que se repetem e que dão um sentido de unidade, como se David Mitchell estivesse não a escrever livros individuais mas uma grande história completa em capítulos. Aqui podem encontrar um guia para não se perderem em todas as ligações feitas pelo autor ao longo dos livros.

De qualquer modo é um livro que aconselho, de mente aberta e vontade de ser desafiados.

Boas Leituras!

Souls cross ages like clouds cross skies, an’ tho’ a cloud’s shape nor hue nor size don’t stay the same, it’s still a cloud an’ so is a soul. Who can say where the cloud’s blowed from or who the soul’ll be ‘morrow? Only Sonmi the east an’ the west an’ the compass an’ the atlas, yay, only the atlas o’ clouds.

Livros que Recomendo – As Brumas de Avalon

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Começo por dizer que recomendo este livro (ou melhor dizendo, este conjunto de quatro livros na sua versão portuguesa) mas na realidade passaram-se muitos anos desde que os li. Talvez 20, talvez um pouco mais.

De qualquer modo, naquele final de adolescência foram livros importantes na minha formação pessoal, apesar da minha visão de hoje poder ser diferente se eu os relesse. As Brumas de Avalon contam uma história muito conhecida, até mesmo exaustivamente retratada em tantas outras obras, que é a lenda do Rei Artur e a busca do Santo Graal. No entanto, a grande diferença nesta visão de Marion Zimmer Bradley foi o ponto de vista que ela decidiu mostrar. A história é toda narrada dum ponto de vista feminino, mas também como uma batalha de culturas. As tradições antigas, celtas ou ainda mais remotas, a tentarem desesperadamente resistir à aniquilação do invasor romano, com o seu Deus único, centrado no homem e no pai, por oposição à deusa mãe mais tolerante e libertadora. Morgaine aqui não é a bruxa má e assustadora das outras histórias, mas apenas uma mulher a fazer o melhor que sabe para tentar sobreviver num mundo em declínio, com muitos erros à mistura.

Foram livros importantes para mim porque me mostraram como as coisas podem ter pesos e significados diferentes consoante o ponto de vista em que nos encontramos, e ainda hoje me esforço sempre por tentar entender reacções e culturas à luz do seu enquadramento histórico, geográfico, temporal.

Por outro lado esta foi a minha porta de entrada nos livros de fantasia, que até então não me tinham seduzido grandemente. Depois destes, segui lendo mais livros da autora, se bem que os outros eram todos mais fraquinhos e repetitivos. Mas a partir daí não mais parei de ler livros deste género, com um imenso prazer.

Anos mais tarde ainda apanhei numa feira do livro duas pechinchas da altura em que Zimmer Bradley escrevia ainda ficção científica, e achei-os ainda mais bem conseguidos. Mais uma vez foi a minha estreia nesse género, e nunca mais parei. Mas desses falarei noutra altura.

Recomendo a todos os que gostam de fantasia, magia, histórias bem contadas e querem ver a lenda do Rei Artur doutro ângulo.

Livros que Recomendo – Uma Conspiração de Estúpidos

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Ou no seu título original, a Confederacy of Dunces, título que se inspirou numa frase escrita por Jonathan Swift (o das viagens do Gulliver, sim senhor) que diz “When a true genius appears in the world, you may know him by this sign, that the dunces are all in confederacy against him.”

Li este livro há alguns anos, sugerido por uma amiga e ex-colega de trabalho que já me tem sugerido imensa coisa boa para ler e tem enriquecido imensamente o meu conhecimento literário (Margaret Atwood também foi sugerido por ela). Mas esta sátira é deliciosa, e tem um gostinho muito especial. Foi apenas o segundo livro que o John Kennedy Toole escreveu, e não viria a escrever mais nenhum uma vez que se suicidou a 26 de Março de 1969 em resultado duma depressão parcialmente provocadas pela recusa das editoras em publicar o seu trabalho. Aliás este livro só viria a ser publicado muito mais tarde, em 1980, graças aos esforços da sua mãe que insistiu em mostrar o manuscrito, bem como ao seu amigo o escritor Walker Percy.

A Conspiração de Estúpidos fala-nos de Ignatius J. Reilly, um personagem muito sui generis e contra corrente. No inicio dos anos 60, quando toda a juventude rumava na direcção da libertação sexual, dum código de valores menos rigido e mais libertador, quando todo o mundo vibrava em busca dum novo ideal, o jovem Ignatius regia-se por principios e códigos de conduta medievais, resistia violentamente a qualquer mudança, e viajar era a sua pequena definição de inferno. Aos 30 anos vivia ainda com a sua mãe, na sua cidade natal de New Orleans e esforçava-se ao máximo por retardar o mais possível o entrar na vida adulta e consequentes responsabilidades que daí advinham.

Todo o livro vai ser uma sucessão de hilariantes peripécias em que Ignatius tem de lidar com a mãe, sucessivos empregos, o novo namorado da mãe e a sua melhor amiga, tudo tendo como pano de fundo a cidade de Nova Orleães que é quase um personagem em nome próprio. Um livro que tem tanto de cómico como de trágico, mas que nos prende do inicio ao fim duma maneira deliciosa. Se virmos para lá da comédia, podemos ver que há um pouco de nós em cada um dos personagens e que por vezes a vida do Ignatius se assemelha assustadoramente com a nossa vida real.

Como já disse, foi editado postumamente e valeu ao seu autor um prémio Pulitzer, e é hoje uma obra de referência da lingua inglesa. Recomendo grandemente, é um livro que nos faz pensar e rir ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

“I suspect that beneath your offensively and vulgarly effeminate façade there may be a soul of sorts. Have you read widely in Boethius?”
“Who? Oh, heavens no. I never even read newspapers.”
“Then you must begin a reading program immediately so that you may understand the crises of our age,” Ignatius said solemnly. “Begin with the late Romans, including Boethius, of course. Then you should dip rather extensively into early Medieval. You may skip the Renaissance and the Enlightenment. That is mostly dangerous propaganda. Now that I think of it, you had better skip the Romantics and the Victorians, too. For the contemporary period, you should study some selected comic books.”
“You’re fantastic.”
“I recommend Batman especially, for he tends to transcend the abysmal society in which he’s found himself. His morality is rather rigid, also. I rather respect Batman.”

Novas oportunidades

Ainda agora fiz um post em que falava das novas aquisições que fiz, mas toda a acção tem uma reacção, e tenho igualmente que arranjar algum espacinho em casa, que como sabem começa a parecer um casulo.

Por isso espreitem novamente ali no canto direito os livros à procura de casa e vejam se algum vos interessa. Alguns falei aqui no Peixinho (Os Jardins da Luz, Os Anjos Não Comem Chocolate) e estão prontos a encontrar quem também os aprecie.

Boas Leituras!