Notas de Romantismo – Márcio Vieira

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O Peixinho adora poesia, como já todos sabem. Acredito que boa poesia tem um impacto na vida das pessoas, que seja abrindo horizontes, fazendo pensar, sendo manifesto político, ou como neste caso, espelhando emoções.

Mas neste caso, este livro de poesia tem um impacto real e directo na vida do seu escritor. O Márcio ficou tetraplégico há alguns anos devido a um acidente, e usa a pouca mobilidade que tem na sua mão direita para escrever poesia romântica, a sua favorita.

Agora editou finalmente um livro, cujas receitas reverterão a favor da compra duma viatura adaptada para lhe permitir sair de casa, quiçá em busca de mais inspiração.

Não li o livro (ainda), mas vem com certeza para a biblioteca cá de casa.

Podem ler mais sobre isto aqui, e comprar o livro aqui.

Boas Leituras!

Queixas de Um Utente

jose-miguel-silva

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

José Miguel Silva in Ulisses Já Não Mora Aqui

Livros que Recomendo – Underground

underground

Não sou muito fã de Haruki Murakami. Na realidade, não sou nada fã, apesar de já ter lido 3 livros dele. Aceito que grande parte disso se deva ao meu mau feitio de não me interessar muito por coisas que geram consensos e aclamações generalizadas, e preferir coisas mais fora do mainstream, mas a escrita de Murakami sempre me pareceu um pouco cheia de clichés.

Mesmo assim, apesar de ter começado a minha recomendação desta maneira, não posso deixar de vir aqui recomendar um livro dele. Já se devem ter apercebido que também sou grande fã de bons livros de não ficção. Daqueles que nos mostram aspectos da realidade que não veríamos por nós mesmos, viagens inesquecíveis, culturas diferentes, eventos que todos conhecemos mostrados noutro ângulo.

É mesmo nesta ultima categoria que se encaixa este Underground de Murakami. O título completo é Underground: The Tokyo Gas Attack and the Japanese Psyche, e só aqui já encontramos um bom resumo do livro. Aqueles de nós que cá estão há mais anos, podem lembrar-se de, em 1995, o metro de Tokyo ter sofrido um ataque com gás sarin, feito por um culto apocalíptico, Aum Shinrikyo. Deste ataque resultaram 12 mortos, 50 feridos graves e muitos problemas neurológicos noutras vítimas. Sendo do outro lado do mundo, lembramo-nos vagamente do acontecimento e da cara do líder do culto, e pouco mais (pelo menos eu).

Mas aqui Murakami vai fazer um verdadeiro trabalho jornalístico de investigação, e vai-nos relatando como o ataque foi desenhado ao mesmo tempo que no mostra várias entrevistas que teve com sobreviventes. Como não seria isento se não mostrasse os dois lados, entrevista também alguns membros do culto. Isso permite-nos não só ter um relato do ataque, mas também perceber a reacção das pessoas a ele. Aprendemos muita coisa com este livro. Primeiro que somos todos muito parecidos, e a maneira como encaramos uma tragédia tem muitas semelhanças.

Mas ao mesmo tempo a cultura japonesa é muito diferente da nossa, talvez das mais diferentes que eu conheço. A calma, a serenidade mesmo enfrentando adversidades é impressionante. Ao mesmo tempo um sentido de colectivo que por vezes chega a prejudicar estas vítimas. Lembro-me de ler sobre uma delas que acabou por ser despedida porque ficou com sequelas neurológicas que a impediam de fazer as funções normais no emprego, e sentia-se culpada por ter sido vítima do atentado. Aliás, esse sentimento de culpa era comum a muitos dos sobreviventes, como se não tivesse sido por mero acaso que estavam no sitio errado à hora errada.

Mais que um relato duma tragédia, este livro é uma espreitadela à mentalidade dum povo, à sua maneira de ser e reagir. Em 2018, após muitos anos de batalhas legais, as 7 pessoas consideradas autoras do atentado foram executadas.

Aconselho a todos os fãs de livros de não-ficção, a todos os que gostam de ler sobre outras culturas, história contemporânea, e a todos os fãs de Murakami.

 

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – A Metamorfose

kafka

Kafka é um daqueles autores que toda a gente conhece nem que seja de nome. Já todos ouviram falar deste escritor checo (austro-hungaro por altura do seu nascimento) e kafkiano é um adjectivo que entrou no léxico comum para descrever situações complexas do quotidiano em que o homem luta sozinho e isolado contra situações absurdas.

Hoje, o livro que venho recomendar aqui é a sua obra mais conhecida, A Metamorfose. Não é bem um romance, já que é uma história mais curta, mas é extremamente impactante e cheia de significados ocultos. A Metamorfose fala-nos de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que vive com os pais e irmãos, sendo o único gerador de rendimento na família. Um dia acorda transformado num insecto gigante, incapaz de sair da cama.

É na reacção da família e pessoas à sua volta que encontramos um retrato das relações sociais, do comportamento humano, que passam da repugnância, à aceitação, ao ódio. Quando o outro se torna um estranho torna-se dificil de aceitar, de processar essa informação. E mesmo as pessoas com mais compaixão (personificadas pela irmã de Gregor Samsa) acabem por sucumbir a outras emoções. A própria transformação de Gregor nos diz muito. Ele odiava o seu trabalho, o seu patrão abusava dele porque sabia que toda a familia dependia desse dinheiro, e ao sofrer esta metamorfose Gregor ficou impedido, mesmo que involuntariamente, de voltar a um trabalho que não o satisfazia. Ele acaba por aceitar a sua mudança e sua nova vida como barata, o que também é um ensinamento para todos, como eu, que são resistentes à mudança.

Podemos encontrar na net muitas (e boas) reflexões sobre este livro. Não me vou alongar aqui nessa análise, mas aconselho muito a leitura deste livro. Deixemo-nos abraçar por este conto fantástico, apreciemos a escrita, e pensemos no modo como reagimos às “baratas” que nos rodeiam.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Ardalén

Ardalén

Quem anda pelo Peixinho já sabe que eu gosto muito de BD, e dentro dela tenho algumas preferências. Já falei de Miguelanxo Prado, um autor galego, aqui e aqui. Acho que posso mesmo dizer que é dos meus autores favoritos, com uma estética inconfundível. As suas histórias vão também do humor, à sensualidade, ao fantástico inspirado pela sua Galiza.

Este livro foi-me oferecido no Natal de 2016, no seu galego original e eu andei a guardá-lo como um tesouro, com pena de o ler a acabar a magia. Mas finalmente arranjei tempo de qualidade, com a dedicação que este livro merece, e, obviamente, terminei-o num dia.

Ardalén, que é o nome que se dá a um vento que vem do Atlântico, do imenso mar, e que carrega consigo a nostalgia e a história do povo galego, permeia toda esta história, que é relativamente simples. Sabela, uma mulher de 40 anos que se divorcia e está desempregada, quer saber quem é buscando as duas raízes. Sabe que teve um avô que andou embarcado e que acabou por morrer no estrangeiro, mas não sabe mais nada dele. A não ser a aldeia de onde é originário, e é aí que vai começar a sua busca por mais informações, na esperança de ganhar também um  sentido para a sua vida.

É aí que Sabela conhece o velho Fidel, que está fechado na sua casa rodeado das suas recordações do tempo que passou no mar, e que se senta regularmente à beira da floresta quando sopra o Ardalén, para ver as baleias que vivem no meio dos eucaliptos e retornam ao mar. Entre os dois gera-se cumplicidade e amizade, e as coisas tomam rumos que nós não esperávamos. Como sempre, Miguelanxo tem um olhar acutilante e muito certeiro sobre a vida e a maledicência nas aldeias, e não perde a sua oportunidade de nos mostrar essa dinâmica.

Como sempre com ilustrações belíssimas, de tirar o fôlego e de nos fazer entrar dentro da história. Recomendo a todos os amantes de BD, mas também àqueles que gostam de sonhar com histórias belas e diferentes.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Esta Gente/Essa Gente

ana-hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

Livros que Recomendo – Os Caçadores da Lua Vermelha

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Já aqui falei de Marion Zimmer Bradley quando recomendei As Brumas de Avalon, a série que me iniciou na leitura de livros de fantasia. Mas esta autora teve o mérito de me iniciar também no prazer de ler bons livros de ficção científica.

Há muitos anos atrás, depois de ter esgotado todos os livros da mesma temática das Brumas desta autora, estava eu a fazer o passeio anual pela Feira do Livro quando encontrei no caixote das pechinchas da Caminho este livro. Até então nunca tinha comprado nenhum título desta série de livrinhos azuis, porque tinha uma ideia que a ficção cientifica era para nerds, demasiado complexa e cheia de teorias absurdas. Mas, sendo Marion Zimmer Bradley, tive que comprar.

E a minha surpresa foi imensa quando me deparei com uma boa história, bem escrita, impossível de largar antes de chegar ao fim. Aqui seguimos Dane Marsh, que é raptado enquanto estava no seu barco no Pacífico. Quem o rapta são extraterrestres e, de repente, Dane vê-se a bordo duma enorme nave interestelar, cheia de seres de outros planetas que foram raptados como ele. O propósito é levá-los até à Lua Vermelha, onde farão parte dum jogo onde o prémio final é a sobrevivência. Não me surpreenderia se a escritora dos Hunger Games tivesse vindo beber inspiração aqui.

Não esperem literatura profunda, citações para partilharmos no Instagram e afins. Mas esperem uma história empolgante e bem escrita, recheada de acção e que nos agarra do princípio ao fim. A interacção de Dane com os outros extraterrestres é muito interessante, há personagens muito bem conseguidas, e temos também de nos lembrar que este pequeno livro foi escrito em 1973, por isso os valores eram um bocadinho diferentes (mais liberdade sexual, por exemplo).

Recomendo a todos os amantes de ficção científica, mas sobretudo os que gostam de histórias com muita acção e que não nos deixam pousar o livro até o acabarmos.

Boas Leituras!

A Verdade no Teatro Aberto

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Mais uma vez o Peixinho não deixou escapar uma peça em cena no Teatro Aberto. Na realidade desta vez tivemos que escolher se queríamos saber a Verdade ou a Mentira, já que são dois os espectáculos em cena, com os mesmos actores/personagens, mas histórias sensivelmente diferentes que nos confrontam com o peso de dizer ou esconder verdades e mentiras. Acabámos por escolher a Verdade, quer por questões de calendário, quer por questões de argumento. É possível ver as duas, claro, mas ficámos por aqui.

O espectáculo é uma comédia, para variar um bocadinho dos últimos que temos visto, mas apesar disso consegue, duma maneira leve, falar das dificuldades dos relacionamentos, das escolhas diárias que fazemos naquilo que revelamos ou não aos outros, e das teias relacionais em que muitas vezes estamos enredados. Foi uma boa experiência, como sempre com aquele toque de Teatro Aberto, onde os figurinos e os cenários são muito bem pensados e caem que nem luvas na história.

Aconselho muito a todos os que gostam de teatro, ou os que gostam dumas horas bem passadas em boa companhia. tudo é bom para nos libertar da ditadura do pequeno ecrã.

Boas Leituras, e Bons Espectáculos!