Não Posso Adiar o Amor

antonio_ramos_rosa

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in “Viagem Através de uma Nebulosa”

 

Pequeno Poema

sebastiao-da-gama

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

Sebastião da Gama, in ‘Antologia Poética’

Compras Inesperadas

joao aguiar

Ao preparar um dos últimos posts do Peixinho estive a pesquisar novamente sobre João Aguiar, um escritor que eu aprecio muito. E ao dar voltas e mais voltas à internet, acabei por ir parar a um anúncio da OLX duma rapariga que estava a vender 6 livros do escritor por tuta e meia.

Ora, o Peixinho adora uma boa pechincha e acredita em dar vida nova aos livros, por isso a questão não foi se comprar, mas sim quantos comprar. Depois de muita deliberação resolvi contentar-me com 3 dos que estavam disponíveis, que a minha casa não estica. Assim tenho os livros da foto acima prontinhos para serem lidos.

O que deve significar que tenho que arranjar 3 livros dos meus para serem despachados cá de casa. Em breve…

Boas Leituras!

Livros Que Recomendo – O Homem Sem Nome

o homem sem nome

O Homem Sem Nome é o livro que me fez entrar na obra de João Aguiar, um dos meus escritores portugueses favoritos, apesar de eu estar sempre a dizer que não tenho escritores favoritos. Mas tenho, e este é certamente um deles.

Os livros posteriores que li eram mais dedicados à ficção histórica, em épocas bem remotas e das quais sabemos pouco, e este é radicalmente diferente. Neste temos a história dum trovador, poeta, homem que se recusa a ter um nome, e que viaja por várias terras para chegar do Grande Deserto à Terra dos Nómadas.  Dele sabemos muito pouco, mas ele tem uma profunda influência em todos os sitios onde passa e nas pessoas com quem contacta.

Neste mundo de fantasia, que pode ser passado, presente ou futuro, vemos espelhados muitos dos problemas da sociedade, do convívio humano, e podemos reflectir sobre eles.

É uma história que nos envolve e seduz, uma alegoria muito bonita, e um livro que nos passa rapidamente pelas mãos deixando um travo a pouco quando acaba.

Infelizmente li uma cópia emprestada, por isso não posso reler como tanto me apetecia, mas ando em busca dele em segunda mão.

Recomendo a todos os que gostam de histórias ricas, bem escritas e que nos fazem pensar.

Boas Leituras!

À Luz da Lua

antonio-nobre-1

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D’uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

António Nobre, in Só

Os Amigos

jose tolentino mendonça

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

Prelúdio

patricia Baltazar

Espero vir a conhecer o circuito das nuvens para calçar os passos da chuva e tocar as casas, os Homens. As árvores.

Sempre tive pressa de amar em tudo. De amar tudo. Tratar as feridas, lembrar-me de cicatrizes. Não olhar para trás quando o deserto está na frente. Amá-lo também.

Hei-de estar numa nave altíssima a ver tudo. Espero.

Espero também conhecer o Sol de perto para aquecer o sangue dos que estão tristes.

Hei-de soprar as folhas dos Plátanos, ternamente, muito devagar, para que as crianças lhes peguem e sejam felizes nesse instante. E sempre. Enviar boas sinas para as mãos delas.

Ver a vida da galáxia imensa que existe depois. Chamar a paz.

Espero. Espero a luz chegar.
E espero não voltar.

Patricia Baltazar in A rh — (sanguis languens), 2016

Livraria Às Cegas

as_cegas

Falei aqui há uns dias da nova iniciativa das pequenas livrarias independentes que se juntaram numa plataforma online de nome RELI, na tentativa de chegar às pessoas e mitigar o impacto económico da Covid-19. Uma das iniciativas presentes era esta Livraria às Cegas, em que definimos uma quantia acima de 15€ e combinamos com a livraria aderente. Eles depois escolherão e enviarão um livro.

Sendo um blogue que fala sobre livros senti que tinha como missão contribuir para esta causa, e nada melhor que aproveitar para ter mais um livro de poesia. Assim, contactei a Livraria Poesia Incompleta, e pedi que me mandassem um livro.

O processo foi facílimo, não podiam ter sido mais simpáticos, e em poucos dias tinha cá em casa 2 belos livros de poesia para saborear nesta quarentena. Se ainda não experimentaram, aconselho muito esta iniciativa, têm imensas livrarias por onde escolher.

Deixo-vos uma foto dos livros que recebi, e Boas Leituras!

Livraria as cegas