Pastelaria

cesariny

Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício

e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mario Cesariny

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Livros que Recomendo – A Lua de Joana

Lua de Joana

Este é um daqueles livros que li bem no final da adolescência, e ficou para sempre comigo. Perdi a conta à quantidade de vezes que o reli e ficava sempre emocionada. A autora deste livro, Maria Teresa Maia Gonzalez, foi professora de Português e Inglês e escreveu inúmeros títulos infanto-juvenis, incluindo vários volumes do Clube das Chaves, outra das minhas séries de eleição.

Neste “A Lua de Joana” falam-se de temas importantes na adolescência, como a perda dum amigo, pais que são ausentes, a sensação de que ninguém nos compreende nem vê o mundo como nós.

Joana era uma miúda certinha, que tinha um baloiço em forma de lua no quarto onde se sentava a pensar, ou a afastar a tristeza. A sua melhor amiga, Marta, morreu de overdose e ela tem alguma dificuldade em lidar com isso. Vai então escrever uma série de cartas para a amiga que partiu onde descreve o seu dia-a-dia e os seus sentimentos. Joana vai iniciar o seu próprio caminho de descida e descoberta, e perceber as razões da amiga.

É um livro muito forte, mas bem escrito e, na minha opinião, indicadíssimo para se ler no início da adolescência. Aliás, poucas foram as pessoas que o leram e não ficaram marcadas por ele. Sei que há alguns (muitos) anos atrás ele fazia parte do programa escolar, mas não sei se ainda é assim. Também não sei se isso é bom ou mau, na realidade. Para certo tipo de miúdos, ler por imposição ainda os afasta mais da palavra escrita.

Recomendo a todos os que ainda não leram, que não devem ser muitos, aos que querem ver o mundo com outros olhos e não têm medo de recordar a adolescência.

Boas Leituras!

Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça

antónio_amaral_tavares

Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de Agosto de 2011
não dá para o tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

quero dizer-lhe que há pessoas muito pobres que querem
o meu rim esquerdo doutor o mundo não é perfeito
e não me diga para lhe contar tudo como a um padre

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.

António Amaral Tavares

Se Existe Uma Chave

Vasco Gato

 

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.

Vasco Gato

Rêve Oublié

Antonio Maria Lisboa

 

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.

António Maria Lisboa, in “Ossóptico e Outros Poemas”

Passarinhos

Poemas à Segunda

Subo às tuas cavalitas

como quando tinha cinco anos

e a vida era simples.

Dos teus ombros vejo o mundo

até perder de vista.

Vejo uma linha reta

até um dia em que já não estás

para me dares a mão

e irmos aos passarinhos,

mesmo que eu ache que isso não se faz.

O mundo ficou mais vazio,

mesmo que tenha mais passarinhos.

Peixinho de Prata, 2018

Curiosidades Estéticas

antonio botto

 

O mais
importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto