Hoje É Dia de Coisas Simples

al-berto

 

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na aldeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia… jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje

Al Berto

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Planisfério Pessoal de Gonçalo Cadilhe

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Comprei este livro em 2017, na Festa do Livro de Belém e comecei logo a lê-lo. No entanto não passei dos primeiros capítulos e apesar de ter gostado muito, não andava com cabeça para viagens.

Este ano, num dia em que me refugiei numa fresca praia do Oeste para fugir à onda de calor resolvi levá-lo comigo e li-o quase todo duma vez.

Planisfério Pessoal é a compilação de crónicas que Gonçalo Cadilhe escreveu para o Expresso em 2002/4 durante a sua volta ao mundo por terra e por mar. A premissa era dar uma volta ao globo sem utilizar avião, ou utilizá-lo apenas quando esgotadas todas as outras possibilidades.

Este não é um livro de dicas de viagem, nem de melhores lugares para se visitar em cada país, ou melhores transportes para apanhar. Se o fosse, 15 anos depois estaria bastante desactualizado. Neste livro seguimos a jornada pessoal do autor, as partes boas e as partes más. As emoções vibrantes, os encontros felizes e as muitas horas de solidão e aborrecimento. Vemos que estas coisas às vezes são mais giras no papel, outras vezes são perigosas, outras vezes são deliciosas.

Pelo facto de já terem algum tempo podemos também ver como muita coisa mudou no nosso mundo. Sítios que o Gonçalo visitou sozinho em relativa tranquilidade, são hoje um amontoado de turistas. Países como a Colômbia são hoje muito mais seguros e visitáveis, outros como a Venezuela regrediram no tempo. Este livro é também um testemunho de mudança e daquilo que já não volta.

Gosto da maneira como o Gonçalo escreve. Os ingleses diriam que ele não põe sugar coat nas coisas, diz como elas são, para o bem e para o mal, sempre com uma boa dose de humor. Semelhante ao Bill Bryson, mas sem o seu excesso de sarcasmo que muitas vezes percorre a linha ténue da troça. Gonçalo Cadilhe nunca faz pouco dos seus interlocutores, mesmo quando nos mostra situações risiveis, e eu agradeço-lhe por isso. Talvez nisso transpareça a sua Portugalidade, afinal somos melhores a fazer pouco de nós que dos outros.

É um livro duma jornada feita por um ser humano, que também é jornalista e por isso muitas vezes se questiona sobre o que vê e faz opções de acordo com a sua consciência social e ambiental. Aconselho a todos os que gostam de saber mais sobre o mundo em que vivemos, e a sua evolução.

Goodreads Review

Boas leituras!

Sem Título

pedro tamen

o que me sobra: febra
ardendo em febre sobre a brasa,
estorricada sola que se quebra
se dente, qual um pé, nela se casa;

febra na brasa, sim, em fim de festa,
quando o lume se apaga, tosse e esfria,
em fim tão fim que não se leva desta
mais que fumo e odor ao que soía

ser do que eu fora uma solar comida,
e não febra da porca desta vida.

Pedro Tamen em Memória Indescritível, 2000

O Elixir da Eterna Juventude

SG 02

Imaginem que aquelas músicas que vocês passaram a vida a cantarolar desde miúdos e que viram dezenas de vezes em concertos são agora transformadas num livro de banda desenhada. Foi o que aconteceu com este “Elixir da Eterna Juventude” de Fernando Dordio, que resolveu pegar no universo de Sérgio Godinho e transformá-lo numa aventura alucinada por páginas bem ilustradas.

É quase impossível não gostar dum livro que está tão imerso no nosso imaginário colectivo, a menos que sejam uma daquelas 15 pessoas em Portugal que não gostam do Sérgio. Mas se esse for o caso, aviso já que o Zeca faz uma aparição especial.

E, melhor que tudo, ainda temos direito à árvore dos patafúrdios, esse clássico de qualquer infância de todos os portugueses com mais de 30 anos. Um bocadinho mais, vá…

No entanto, nem tudo é perfeito neste livro, e para quem já leu as BD’s de Filipe Melo, por exemplo, vê que a cadência e coerência desta história ficam um bocadinho aquém. No entanto eu continuo a achar que vale a pena ler e tentar descobrir todas as referências musicais contidas nas suas páginas. Tenho de agradecer ao programa do Raminhos, Missão 100% Português, por me ter dado a conhecer este livro.

Recomendo a todos os amantes de BD e de boa música portuguesa!

Goodreads Review

Boas Leituras!

SG 01

Ágata

ines dias

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado da maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

Inês Dias em Em Caso de Tempestade este Jardim Será Encerrado, 2011

Urbanização

Fiama Hasse Pais Brandao

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se
com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.

Fiama Hasse Pais Brandão

Provisional Figures

provisional figures

Este fim de semana literalmente tropeçamos no novo trabalho do Marco Martins, Provisional Figures, que estava em cena no Maria Matos e achámos que não podíamos perder. Primeiro porque ele encenou a peça Actores, de que eu falei aqui, e que gostei tanto.
Depois porque vinha num ciclo de reflexão sobre as migrações e a sinopse parecia muito interessante.
E por fim porque é a despedida do Maria Matos enquanto teatro municipal, por isso dificilmente se verão coisas de cariz tão experimental e alternativo naquele espaço novamente. Costuma dizer-se que temos aquilo que merecemos (votamos, etc). O Peixinho não se mete em politiquices, mas mais uma vez acho triste que andemos demasiado ocupados com outros escândalos no bairro de Alvalade, que não dignificam ninguém, e isso retire todo e qualquer tempo de antena a notícias mais relevantes e que essas sim têm influência verdadeira na vida das pessoas. Nomeadamente, que um espaço que se dedicava a um género de teatro mais experimental e que era de todos, vá deixar de ser municipal, para passar a ser mais um sítio de teatro comercial, mais fácil de digerir, com menos que pensar. Mas, suponho que seja isso que vende, e que dá bilheteira, e dando continuidade ao que disse acima, também temos o teatro que merecemos, ou fazemos por merecer. Podem ler aqui o manifesto.

Mas, voltando à vaca fria, ou neste caso ao magnífico espectáculo do Marco Martins, não viemos de lá desiludidos. Uma reflexão sobre as migrações, assunto mais que actual, mas sem cair nos clichés que se esperaria, esta performance é algo intermédio entre uma peça de teatro, um documentário e um espectaculo de dança, tudo feito com pessoas reais, a contar as suas histórias de vida. Não são actores, são ingleses que vivem na vila britânica de Great Yarmouth, ou portugueses que imigraram para trabalhar nas fábricas das redondezas e viver nos grandes hotéis agora decadentes pela falta de turistas, e um esloveno também imigrante. São pessoas como nós a contar a sua história, o impacto da crise económica nas suas vidas, os dois lados da moeda.

Se quiserem ler mais sobre o processo criativo, podem ler uma entrevista com o encenador aqui.

Tudo isto com uma belíssima banda sonora, um palco muito especial, e uma envolvência do público como nunca tinha sentido. Adorei cada uma daquelas personagens, senti as suas histórias, foram minhas durante aquelas duas horas, fiz parte do espectáculo com elas.

Teatro com T grande, uma despedida fenomenal para o Maria Matos. Terminou dia 4, mas se aparecer novamente por aí, não deixem escapar. Vale muito, muito a pena. E ainda podem sair de lá com uma receita fenomenal de peru, como eu, embora duvido que fiquem com vontade de voltar a comer perú nos tempos mais próximos.