Livros que Recomendo – Os Sotãos Furados

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Hoje venho aqui recomendar um livro que me acompanhou na fase final da minha infância e me fez sonhar. Durante algum tempo tive este livro lá perdido em casa, mas por algum motivo não me puxou a lê-lo. A capa não me dizia nada, e o título também não. Mas um dia lá se devem ter esgotado as novidades e resolvi dar-lhe uma oportunidade, e foi como se um mundo de fantasia se abrisse.

A história é muito simples, mas para a mente duma criança cheia de transgressão e aventura. Centra-se em duas crianças (não me lembro se eram irmãos) que brincam no sótão da sua casa quando um dia são surpreendidos por um barulho nas paredes, e entra-lhes pelo sotão dentro um menino do sotão da casa vizinha.

E isso dá inicio ao abrir dos sótãos, sempre na expectativa de não se saber o que se vai encontrar do outro lado, se mais meninos para brincar, se adultos para terminar a brincadeira, até unirem todos os sotãos da rua inteira e forjarem uma sociedade dominada pelas crianças com regras e reuniões onde o único adulto que entra era o proprietário do sótão cheio de aves.

O objectivo final seria unir toda a cidade através das crianças, e fazer tudo às escondidas dos pais, e lembro-me que sempre que lia esse livro ficava desapontada por não haver sótãos na minha rua.

Infelizmente creio que o livro já não está em circulação, fazia parte duma antiga colecção infanto-juvenil da Verbo, e mesmo em alfarrabista será difícil encontrar. Tenho esperança que o meu exemplar ainda esteja perdido em casa dos meus pais e que o possa passar a uma criança sonhadora que goste de ler. Darei notícia se assim for.

Mas recomendo muito, se conseguirem deitar as mãos a algum exemplar, porque é um pedacinho de sonho em forma de livro.

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Retrato de Poeta Desconhecida (I)

 

manuel-de-freitas

Abordou-me em frente à
Brasileira, na fria tarde
de Janeiro. Hesitante,
segurava uma mochila preta.
Pensei que ia pedir uns trocos,
cigarros, respostas inúteis
a um inquérito de passagem.

Enganei-me. Afinal, estamos
todos demasiado habituados
a dizer que não. Queria apenas
saber se eu gostava de prosa
– ou de poesia. Se gostasse,
tinha um livro para me mostrar, dela,
que vendia com dedicatória e tudo.

Embaraçado, não quis ver
– e caiu-me redondo o sorriso,
ao perceber-lhe no rosto o desânimo.
A culpa, essa, chegou pouco depois.

Nunca saberei se falava
com a melhor ou a pior
poeta da minha geração.
Mesmo em frente à Brasileira,
sob o frio irrespirável de Janeiro.

Manuel de Freitas

Livros que Recomendo – Histórias Naturais

Clara Pinto Correia

Hoje, num dia que muita gente está a aproveitar para descansar ou ultimar compras natalícias, eu, que estou alegremente a trabalhar, aproveito para vir mais uma vez recomendar um livro que li há muito tempo e me acompanha o pensamento desde então.

Este livro é um caso um pouco diferente dos anteriores, porque na realidade não morro de amores por esta autora. Já tentei ler outros textos dela mas não me convenceram. No entanto acho este livro uma pequena pérola do bom humor científico.

Tal como o nome indica, o livro agrega uma série de pequenas histórias de todo o “mundo natural”, contadas dum modo muito simples mas muito cativante, recheadas de bom humor, que ao mesmo tempo entretém e ensinam. O objectivo do livro não é tanto dar uma aula de ciências da natureza, mas mais despertar o nosso interesse por pequenas curiosidades do mundo que nos rodeia, para nos podermos aperceber que é mais complexo e interessante do que aquilo que à primeira vista poderíamos pensar.

É claro que o facto de ser bióloga pode ter ajudado para achar este livro engraçado, mas creio que agradará a todo o tipo de pessoas. Apesar de o ter lido há imensos anos, ainda hoje olho para os jacarandás em Lisboa dum modo diferente por saber de onde vieram e que entram em floração todos ao mesmo tempo. Há pequenos contos dentro deste livro que ficaram sempre na minha memória e que ainda hoje partilho em conversas.

Depois, tentei ler romances da mesma autora e já não consegui sentir a mesma empatia, e mesmo O Ovário de Eva achei uma chatice. Este livro foi um grande amor, mas um amor único. Mesmo assim recomendo muito a quem goste de histórias bem contadas sobre o mundo que nos rodeia, com muito bom humor.

Todas as Cartas de Amor São Ridículas

Fernando-Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, in “Poemas”

A Ciência do Amor

jose-tolentino-mendonca

O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

José Tolentino De Mendonça

O Álvaro

cesariny

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengão
Em não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço de heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela ao lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era quando o Aleyster Crowley aparecia.
«Iô Pan! Iô Pã!», dizia,
E era felatio para todos
e pão de ló molhado em malvasia.

Mário Cesariny in O Virgem Negra

A Metáfora

peixoto

No ano passado
escrevi um poema
que começava assim:
“sinto a lâmina do teu ciúme no meu peito”
– era uma metáfora, claro.
E não suspeitei.

Agora,
que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas,
único desfecho lógico para o nosso amor;
agora, que sinto a lâmina
e o sangue morno a alastrar-me na camisa,
sei, finalmente e tarde demais,
a fraca expressividade das metáforas.

Por isso,
se ainda gostares um bocado de mim,
pede para, na segunda edição,
alterarem o verso para:
“sinto o teu ciúme como uma lâmina no meu peito”.

José Luis Peixoto

Livros que Recomendo – A Voz dos Deuses

Voz dos Deuses

João Aguiar, na minha modesta opinião, é um escritor português que não tem o destaque que merece. Autor da série infanto-juvenil “O Bando dos Quatro“, que já foi adaptada à televisão pela TVI, este autor foi-me apresentado há muitos anos por uma amiga através do livro “O Homem sem Nome“, que teve um profundo impacto em mim, e que está na lista dos que procuro em alfarrabista para um dia reler.

Mas é outro livro que recomendo hoje, e que acho um dos melhores romances históricos que já li até hoje. A Voz dos Deuses começa por ser um livro passado numa época pouco retratada, quer na literatura, quer mesmo nos currículos escolares e esse é o período pré-romano e da colonização romana. Claro que é difícil falar da história pré-cristã da península ibérica já que se trata duma época largamente não documentada pela escrita, mas não deixa de ser, para mim, das épocas mais fascinantes da nossa história.

E foi essencialmente a este período que João Aguiar se dedicou, começando neste livro que relata a vida de Tongio e através dele podemos seguir Viriato e toda a rebelião das hostes bárbaras contra o invasor romano. Sofremos com eles, torcemos por eles, mesmo sabendo de antemão qual o desfecho, que é bem conhecido de qualquer português. Um livro bastante apaixonante, e com uma escrita muito envolvente, que não me canso de recomendar a quem me queira ouvir. João Aguiar, apesar de escrever ficção, preocupa-se com o rigor histórico e deixa-nos no fim explicações e enquadramentos geográficos para melhor percebermos o livro. Uma verdadeira pérola que significou para mim a entrada no reino deste autor, do qual ainda hoje continuo a comprar livros sempre que os encontro em alfarrabistas.

Recomendo largamente a todos os que gostem de ficção histórica, história de Portugal, ou simplesmente uma história bem contada com bons personagens.

Tyler Ranch

Colorado
Na minha imaginação é assim o rancho onde se passa a acção. 

Uma antiga colega de trabalho que se mudou para outros vôos resolveu juntar a todas as mudanças o seu gosto pela escrita e pegar a sério na coisa. E desde que nos deixou já escreveu um livro, When Life Gets in The Way, que tem tido críticas muito positivas mas que eu ainda não tive oportunidade de ler, e lançou agora um conto mais pequeno, Tyler Ranch, para ser incluido na colectânea natalicia 25 Days of Christmas. Esta novela, mais apimentada, pareceu mais ao meu gosto e cá me chegou às mãos.

O mais engraçado quando se lê um livro escrito por alguém que se conhece é que todas as personagens parecem falar com a mesma voz. E neste caso, a voz da Inês, e isso é uma coisa boa. A Inês é uma pessoa muito positiva e divertida, e isso transparece em todos os diálogos e pensamentos de cada personagem. Eu dei comigo a rir com gosto das parvoíces que o par romântico em questão pensava acerca quer de si próprio, quer um do outro.

A linguagem é fluida, solta, e a leitura faz-se num fôlego. Como é uma novela curtinha a história desenvolve talvez demasiado rápido, mas deixa vontade de ficarmos a conhecer mais das aventuras destes dois, e sobretudo da voz da Inês em novos livros.

Recomendo a quem gostar de romances com uma pontinha de pimenta.

Goodreads Review

Poema dum Funcionário Cansado

antonio_ramos_rosa
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

 

António Ramos Rosa