Livros que Recomendo – Segredos de Lisboa

segredos de lisboa

Hoje venho recomendar um livro muito diferente de todos os outros que já recomendei. Um livro de não-ficção, em parte, mas essencialmente utilitário e que nos dá a conhecer coisas novas.

Sempre vivi em Lisboa e sempre gostei de fazer de turista na minha própria cidade, muito antes disso se ter tornado a moda que é hoje. Lembro-me de fazer grandes passeios pela Baixa, Castelo, Alfama, de máquina fotográfica em punho para registar pequenos recantos, e deleitar-me com o facto de andar quase sozinha por aquelas ruas. Hoje em dia isso seria impossível, e cada vez que vou à Baixa fico deprimida, não pelo excesso de pessoas, mas sim pela perda de carácter único, pela massificação, pelas lojas históricas que se perderam, restando quase exclusivamente as cadeias que encontramos em qualquer parte do mundo e restaurantes de paella em pleno Rossio.

Mas este sentimento de desencanto não significa que a nossa cidade tenha deixado de ter recantos para descobrir. Apenas necessitamos de procurar mais e às vezes ter ajuda. Foi por isso que recorremos algumas vezes aos passeios históricos da Time Travellers, duas historiadoras que se dedicam a fazer passeios temáticos em Lisboa, mostrando-nos o passado através do que ainda existe no presente.

Há uns anos elas escreveram um livro, um misto de história e ficção, onde nos mostram algumas pérolas que podemos visitar em Lisboa, sozinhos ou em família. É muito fácil de ler, e cada monumento é precedido por uma pequena ficção história para nos dar um enquadramento e ao mesmo tempo tornar real cada um daqueles locais.

Recomendo a todos os amantes de leitura, de Lisboa, de história e de passeios em geral.

Boas Leituras!

Anúncios

Regras Para Evitar Qualquer Crise de Nervos

ricardo-marques

É preciso lutar contra a folha de cálculo que elimina, que despede
é preciso trabalhar contra aquilo que nos põe sem trabalho
é preciso saudar a poesia, tirá-la da torre e cantá-la
é preciso abandonar o que nos aprisiona futilmente
é preciso montar a tenda sobre as possibilidades
é preciso libertar a liberdade com que se nasceu
é preciso lutar contra o medo, com ou sem ele
é preciso vigiar de perto o que se conquista
é preciso conquistar o lugar que nos cabe
é preciso rejeitar frases postas na boca
é preciso deixar de ser um número
é preciso fugir de rajada à rajada
é preciso mentir só à mentira

é preciso questionar
é preciso dizer não
é preciso duvidar

e amar – verdadeiramente.

Ricardo Marques in Didascálias

Sem Título

patricia Baltazar

04:04 a.m.

Não vai doer. É bater de frente com a morte. Olhar a silhueta das asas de um anjo.

Ácido na língua. Mãos apertadas nos joelhos à espera da solução para os vícios.

Não dói nada. Sou uma fada de botas da tropa.

É o meu delírio sempre a horas certas dentro de um aquário híbrido. Estranhar ser pessoa. Estranhar ter crescido. Ter de ser crescida. Sem pele. Coleccionadora de vestidos que não posso vestir.

É incrível como a torre pode cair.

Devia, antes de saber se caio, demolir um assunto grande. Só para assistir à cadência. Como com as estrelas, mas sem desejar.

Não vai doer. É só uma luz muito aguda.

Patricia Baltazar in Catapulta, 2014

A Espantosa Realidade das Cousas

fernando-pessoa

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”

O Bazar

couto

Mergulho-me na vida, na voz deste bazar,
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.

Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.

Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.

De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.

(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)

Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.

Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.

Entro no Loc-Koc, “casa de tomar chá”.
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.

Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.

E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!

António Manuel Couto Viana

La Colomba Ferita

ines dias

A António Barahona

Quando me cansar de voar ou
a ferida estiver finalmente visível,
promete-me que a faca
será afiada e silenciosa.
Que eu não a veja chegar,
como se não tivesse passado
uma vida a pressenti-la nas dobras
do lençol, mortalha de tantas noites.
E antes, dá-me de beber
entre as mãos, conta-me
de céus azuis, sem garras
e sem abismos. Espera que
o meu coração de novo pequenino
se aninhe no calor das tuas veias
e se torne apenas a memória de
um sobressalto contra a tua pele.
Por este livro, por este poema, regresso a Campolide.

Inês Dias

Bar dos 4 Gémeos

rui caeiro

Para o Manuel de Freitas

E se por acaso quiseres beber, tens
não direi toda a terra pois tudo
aquilo que nela há é escasso
mas uma estreita faixa em forma
de rectângulo ou em forma de país
e lá dentro à beira mar uma cidade
grande bonita e feia que é até
a capital e lá um largo – Praça do Rossio,
assim chamada – e lá um bar
(ah, finalmente) mas um bar
a céu aberto, sem balcão de zinco
e sem barman, sem tamboretes
nem cadeiras e também sem copos
nem garrafas, mas bar à mesma
– dos 4 gémeos, assim chamado –
situado cerca do meio da praça
e se por acaso tiveres mesmo sede
abeira-te deles (isto é, dos 4 gémeos
em bronze), põe a cabeça a jeito
aproxima a boca e bebe, consoante
a sede que for a tua, e bebe – água,
que é o que há lá para se beber.

Rui Caeiro in Revista Criatura 5