Fim de Semana

18 Praia Inhame

 

Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.

Alexandre O’Neill

Relações Inacabadas

Quando era miúda lia vorazmente tudo aquilo a que deitava a mão. Quando ia um mês de férias para a terra, metade da bagagem eram livros que esgotava na primeira quinzena, e depois ficava reduzida a reler Selecções do Readers Digest dos anos 70 (que o meu pai assinava), livros do Harlequim da minha tia-avó (Bianca, Sabrina, que é feito de vocês?), ou a TV Guia que chegava às quintas feiras. Tempos duros.

Nesse tempo todos os livros eram para ser lidos até ao fim, e os melhores relidos incessantemente, até se decorar as partes favoritas. Na nossa visão de crianças somos imortais, com todo o tempo do mundo pela frente para ler todos os livros que existem.

Conforme fui crescendo e apareceu a faculdade, não só o horizonte de livros para ler aumentou exponencialmente com a exposição a pessoas novas de contextos diferentes, como o tempo diminuiu, porque pela primeira vez na vida tive que começar a estudar. Isso obrigou-me a fazer escolhas, decidir estilos que me agradavam mais, autores que se tornavam favoritos. Mas ainda assim não se deixa nunca um livro a meio, é quase um tabu que raramente é quebrado (excepção para o Memorial do Convento, que até hoje não consegui acabar).

Com o Kindle, nos dias de hoje em que já estou nos quarenta (inhos, mas mesmo assim) já percebi que há mais livros interessantes do que terei anos de vida para os ler, e todos os anos novos livros bons saem no mercado. A paciência também já não é a mesma e já não faço fretes. E sinceramente, se não me está a prender o interesse, se  recorrentemente quando tenho um momento livre prefiro ir ver o Facebook do que ir ler aquele livro, se calhar está na altura de seguir para o próximo, sem ressentimentos, amigos como dantes.

Por isso, meu caro Mário de Carvalho, és um dos meus autores portugueses favoritos,  adorei o Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto (ainda hoje um dos meus livros portugueses favoritos), mas a minha relação com O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana ao fim de 45 páginas vai ter de ficar por aqui.

Mario de Carvalho

A Amante Holandesa

A Amante Holandesa

Acabei de ler A Amante Holandesa do Rentes de Carvalho e ainda tenho um sabor amargo na boca. Este é um autor transmontano, relativamente desconhecido em Portugal, em parte porque abandonou cedo o nosso país, desencantado, em busca da liberdade que não encontrava cá. Acabou por se fixar na Holanda, tem desenvolvido a sua carreira literária a partir de lá, e não tem penetrado muito o nosso minúsculo mercado, saturado que está dos suspeitos do costume. No entanto, tem uma escrita forte, honesta, e ao mesmo tempo quase poética.

Chegou cá a casa pelo livro “O Meças” que ganhamos num passatempo da Time Out e ficamos apaixonados. De tal maneira que o Peixinho Vermelho não perdeu a oportunidade de comprar este.

Tal como O Meças, também este se passa na zona de Bragança, no interior profundo, e o autor não nos trata com paninhos quentes, não romantiza o que é viver num meio rural isolado, pobre e atrasado. Para mim, que estou profundamente cansada da cidade e sonho um dia estabelecer-me no campo, penso os seus livros como um alerta para uma possível realidade.

Tendo passado grandes temporadas numa aldeia minúscula desde miúda sei em primeira mão o poder do mexerico, da pressão social, das verdades instituídas. Mas este livro vai muito mais além e a aldeia é apenas o pano de fundo para a busca que um homem faz sobre o sentido da sua vida. O desespero de quem sente que viveu para as aparências, para as convenções sociais, nunca teve ambição porque nem teve espaço para isso. E chegando à meia idade sente também que chegou a um beco sem saída, preso numa vida sem sentido, onde as fantasias são o seu único escape, e as teias em que se vê enredado formam já um labirinto donde é difícil escapar.

Este livro questiona também quem somos na realidade, e se o modo como vivemos a nossa vida é honesto, ou se pudéssemos viver escondidos de todos seríamos mais fieis a nós próprios e aos nossos instintos. Na realidade, apesar de ter uma escrita muito poética como já disse acima, Rentes de Carvalho consegue ser por vezes brutal, e fez-me voltar atrás muitas vezes para reler várias passagens e ver se estava a entender todos os significados escondidos.

Eu costumo dizer de alguns livros que não são para todos (not for the faint of heart, como dizem os ingleses), mas a crueza serrana deste autor não será certamente do agrado de todos os públicos. Depois de ler o livro fica um sabor amargo, mas fica também um sentimento de reconhecimento, como se aquele narrador pudéssemos ser nós, as suas questões existenciais fossem semelhantes às nossas, os pensamentos em loop que só abrandam quando ele afadiga o corpo em longos passeios na serra não difere assim tanto de algumas pessoas que vemos no ginásio.

Os temas, como disse, não são para todos, mas as angústias são universais. Da minha parte, depois de digerir este, estarei já a pensar onde estará o próximo.

A Amante Holandesa_quote

Goodreads Review

Páscoa Feliz

Pascoa Feliz

Nada mais apropriado a este tempo de Quaresma que um livro com este título. No entanto devo começar por dizer que a felicidade estava mesmo só no título já que todo o desenrolar desta história é difícil e pesado. Mas vamos por partes e comecemos do inicio.

Este era um dos livros que estava na calha, e foi um presente de aniversário duma amiga, a mesma que me apresentou a vários poetas e ao João Sem Medo, portanto as expectativas eram altas. E posso dizer que não ficaram defraudadas.

O livro está muito bem escrito e esta edição (d’A Bela e o Monstro Edições Lda) é deliciosa. Desde a fonte até à grafia, tudo emula a primeira edição de 1932 e sentimo-nos a viajar no tempo. Por outro lado este é outro daqueles autores que, não sendo hermético e quase místico na sua escrita, tem sido bastante esquecido pelos nossos fazedores de listas de melhores livros, que tendem a premiar escritores mais complexos e no geral mais difíceis de ler.

No entanto, através da simplicidade se consegue transmitir muita beleza, e este livro foi uma vertiginosa viagem dentro da mente dum homem condenado que nos vai contar a sua história. Acho sempre impressionante como um autor consegue transmitir no papel o que é viver dentro duma realidade de loucura duma maneira que pareça verossímil, e já o tinha sentido quando li “A Loucura” de Mário de Sá Carneiro algures em 2015. Este livro pareceu-me mais consistente, e fiquei muitas vezes agarrada à história na antecipação do seu desfecho, que nos é entregue de modo velado e temos nós o ónus de o desvendar de modo satisfatório.

Gostei muito, fiquei com vontade de ler mais coisas deste autor, de o investigar (como faço sempre para ter algum contexto sobre as coisas que leio, nesse aspecto a internet veio enriquecer bastante a experiência de leitura), e tenho pena que seja um semi desconhecido no nosso panteão.

Recomendo a todos os que queiram ler mais autores portugueses.

Goodreads Review

Eu já sofri. Já fui um revoltado, um criminoso, se quiserem. Hoje, vivo serenamente. A serenidade é a maior virtude da inteligência.

Mas porque penso eu no mundo? É um hábito que fica. Detesto a vida activa. Os gestos que faço, os passos que dou, perturbam-me a vida interior, que é o meu prazer. Esquecimento, quietação! Doutor, não me pregunte mais nada!… Tenho amor a esta casa onde adquiri a certeza de que existo, porque penso.

Na Calha

Para Ler

A minha pilha de livros para ler deu mais um salto esta semana. Para começar há sempre quem goste de me presentear com livros no meu aniversário, e que bom que assim é. Depois tive umas mini férias onde aproveitei para rever velhas amizades, bibliófilas como eu, e com quem troquei ideias e nomes de livros. Por fim, o Peixinho Vermelho teve um ataque de consumismo e resolveu comprar um livro também. Quatro livros novos, três são portugueses, parece-me muito bem! Mas vamos por partes, e ver o que está na calha.

José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz: Não conheço este escritor, mas a amiga que me ofereceu este livro é a mesma responsável pelo João Sem Medo e Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, por isso a expectativa é alta. Gosto de literatura assim, cheia de portugalidade mas não daquele lirismo bacoco do antigamente. Com o nosso ADN, as nossas idiossincrasias, a nossa identidade. Depois falarei dele aqui.

Mário de Carvalho, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana: Um escritor que gostei muito quando li o livro que falei acima, Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto. Escrita aparentemente simples, mas um vocabulário muito rico. Precisei mais vezes dum dicionário do que quando leio livros em inglês. Uma história irónica e fluida, um retrato social de costumes que gostei muito. Entusiasmada por começar a ler este.

José Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa: Li nas férias passadas, cortesia dum passatempo da TimeOut o último livro deste obscuro autor radicado há anos na Holanda. Gostei bastante, tal como o Peixinho Vermelho, que resolveu que estava na altura de comprar mais um para juntar à nossa biblioteca. Já vem a caminho.

Shirley Jackson, We Have Always Lived in the Castle: Por último, uma amiga que me aconselhou muitas das coisas boas que já li na vida, e com tenho gostos muito parecidos, incluindo Margaret Atwood, aconselhou-me este livro. Pela sinopse parece-me que sai um bocadinho da minha zona de conforto, o que é só mais uma razão para o ler. Estou ansiosa, e depois direi aqui de minha justiça… suspense gótico… se conseguir dizer alguma coisa.

E pronto, por hoje é tudo que ainda tenho 25% do Fall of Hyperion para acabar de ler, o livro que não sei se quero que acabe ou se não me quero separar daquelas personagens nunca.

Não é tarde

jose-miguel-silva

 

O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.

Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.

Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida

não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.

José Miguel Silva in Ulisses Já Não Mora Aqui

Em Dia de São Valentim, Poesia!

Eufeme

eufeme-2

Ora o que mais podemos pedir depois dum dia absolutamente para esquecer, que chegar a casa e encontrar a revista de poesia que encomendámos há apenas 3 dias?

A revista Eufeme é um projecto do poeta Sérgio Ninguém e pretende promover a leitura de poesia em português. A poesia pode vir até nós em vários formatos. Como a revista acima, impressa num formato artístico, onde temos acesso em primeira mão a mais conteúdo. No entanto posteriormente todas as revistas são disponibilizadas em formato digital gratuitamente.

Este é já o terceiro volume e o primeiro que eu adquiri em formato impresso, os outros dois acompanham-me no Kindle.

Já tenho programa para este serão, mais tarde partilharei as minhas impressões aqui.

Sem Título

golgona

Abro a porta.
Tenho cuidado com os vidros partidos.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.

Golgona Anghel in Vim Porque Me Pagavam

Os Vampiros de Filipe Melo

vampiros

Depois de ter lido toda a série do Dog Mendonça e Pizza Boy estava ansiosa por ler o novo e radicalmente diferente livro da dupla Filipe Melo/Juan Cavia. O Peixinho Vermelho ofereceu-mo como prenda de Natal e leu-o vorazmente nessa mesma noite, mas eu tinha estado a guardá-lo para um dia em que estivesse mesmo com disposição para uma boa novela gráfica.

O livro impressiona. Desde a qualidade do papel, às cores, à qualidade do desenho, passando pelo argumento, que rivaliza com qualquer BD internacional, mas é cravado na nossa história não tão distante e tantas vezes escondida debaixo do tapete.

Diz a sinopse que a trama se passa na Guiné em 1972, onde seguimos um grupo de soldados portugueses destacados para uma missão no Senegal. À medida que se vão embrenhando na selva estes homens terão de lidar com sucessivos demónios – os da guerra e os que trouxeram consigo.

As cores imprimem o quente da Guiné, o sufoco da guerra colonial e o ritmo do argumento é o exacto para nos embrenhar na história e ficarmos ansiosos e expectantes com cada frame. O final, quanto a mim, é um pouquinho mal resolvido, mas não deixa de ser forte mesmo assim.

Gostei muito do livro e do tema que explora, já que, ao contrário dos americanos por exemplo, nós parecemos muito pouco em paz com os tempos da guerra colonial e temos muita dificuldade em falar sobre esse assunto enquanto nação.

Por outro lado, li este livro enquanto faço uma pausa no Miss Burma, uma visão da independência da Birmânia pelos olhos duma das suas minorias étnicas, e o que é incrível é perceber que na realidade a guerra é semelhante em todo o lado, afecta homens e mulheres sempre do mesmo modo e desumaniza-nos sempre da mesma maneira independentemente da nacionalidade ou da parte do mundo em que vivemos.

A capacidade humana para causar sofrimento nunca deixa de me impressionar, a guerra é apenas a sua face mais visível. Na realidade em qualquer caixa de comentários duma rede social temos um pequeno vislumbre destes ímpetos.

Recomendo a todos os amantes de BD, da nossa história e de uma história bem contada.

Goodreads Review

Sem Título

maria-sousa
O processo de contar histórias é sempre lento
começa-se pelo início
e há quem diga que chegar ao fim é simples
uma frase é a melhor medida
para juntar os fragmentos
e se a noite a subir pela voz
é um método de fazer silêncios
e o coração é um órgão que
espreita pelos buracos da gramática
no fundo é porque têm um corpo como fronteira
Maria Sousa in  Exercícios para endurecimento de lágrimas
Blog da autora com poesia variada aqui