Deus

nuno judice

À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
– e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.

Nuno Júdice, in “Meditação sobre Ruínas”

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Travesti

Paulo Costa Domingos

Tivemos um quarto belo como nas casas de passe
Comigo a mirar-te nua no espelho do guarda-vestidos
À socapa
Tivemos um recinto belo como o pavilhão dos furiosos
de uma clínica psiquiátrica
Os teus olhos encovados dialogavam com a morte
24 sobre 24 horas
& afinal os teus cabelos oxigenados iam deixando ver
agora a cor real
& a tua bolsa estava vazia e eu tive de voltar a pé para
casa
Mas nunca deixaste de me sorrir, mesmo do lado de lá
Dos barbitúricos

Paulo da Costa Domingos in Travesti & etc, 1979

Revista Nervo

Nervo

Eis que chegou às mãos do Peixinho mais uma revista de Poesia. Felizmente nos últimos tempos parece que finalmente a Poesia deixou de ser um género obscuro e destinado apenas a algumas elites para, graças ao esforço de muitas pessoas que se dedicam a procurar e editar poetas, estar mais acessível ao comum dos mortais.

Já aqui vos tinha falado da Eufeme, a primeira revista que adquiri para o estaminé, que lançou recentemente o seu sétimo número, e acima temos a Nervo, que já vai no seu segundo número, com autores nacionais e estrangeiros.

É uma revista lindíssima, com imenso cuidado visual, que dá gosto folhear e recheada de belos poemas. Recomendo a todos os amantes de poesia e boa literatura em geral. Vão espreitar a página deles aqui.

Boas Leituras!

Nos Teus Olhos Alguém Anda no Mar

Manuel-Alegre

Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.

Manuel Alegre, in SETE SONETOS E UM QUARTO

Livros que Recomendo – Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

Era-Bom-que-Trocaemos-umas-Ideias-Sobre-o-Aunto

Este deve provavelmente ser o título mais longo que eu alguma vez pus num post, mas efectivamente é assim que se chama este livro do Mário de Carvalho, escritor português que me foi dado a conhecer pela mesma amiga que me falou do João Sem Medo e do José Rodrigues Migueis.

Mário de Carvalho tem uma escrita ilusoriamente simples, em que a narrativa é fluida e eficaz, mas que por trás disso esconde-se um grande domínio da língua e do vocabulário. Por várias vezes tive de recorrer ao dicionário para perceber exactamente o que a palavra ali significava, e até então isso só me tinha acontecido com Aquilino Ribeiro (sendo que nesses casos raras vezes o dicionário é alguma ajuda).

Mas este livro é uma leitura muito interessante, duma Lisboa que cresce e está recheada de clichés que nós tão bem conhecemos. Acho que é impossível ler este livro sem nos revermos nele, e o entendermos como uma espécie de espelho onde vemos reflectida a nossa urbanidade muito própria. Desde os pseudo-intelectuais, à jornalista que não percebe nada do que faz, ao pai que tem o filho preso mas vai dizendo aos amigos que ele está a estudar na Suíça, ou no Canadá, tudo nos parece estranhamente familiar, próximo, mas sobretudo extremamente cómico.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura portuguesa, uma boa história que nos faça rir e pensar ao mesmo tempo.

 

ADVERTÊNCIA V.V.
Este livro contém particularidades irritantes para
os mais acostumados. Ainda mais para os menos.
Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns
anacolutos.

Posteridade

rui knopfli

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

Luíz Pacheco Essencial

Luiz Pacheco.jpg

Aproveitei os dias de descanso em Aljezur para pôr alguns livros em dia, nomeadamente este que foi presente de aniversário.

Foi um livro que li num dia, talvez porque, para além do muito tempo livre, o tema era muito interessante. Luiz Pacheco foi um personagem sui generis, entre o genial e o louco, mas sem dúvida fracturante, e saber mais sobre a sua vida ajuda a perceber a sua obra que era tão biográfica.

Ler este livro ajudou-me a apreciar ainda mais o conto que li no início deste ano, Comunidade, já que o contextualizou, e fiquei a perceber exactamente quem eram os membros desta tribo.

No entanto o estilo demasiado coloquial desta biografia às vezes pareceu-me desnecessário, e faltou um certo distanciamento em relação ao objecto da biografia. Claramente o autor é grande admirador de Luiz Pacheco e com isso tudo se torna normal ou desculpável. Por exemplo, não deve ter sido nada fácil ser filho do escritor, viver sempre na incerteza do amanhã, mas o autor escreve levemente que Paulo Pacheco amadureceu cedo, para poder cuidar do pai.

Eu não sou apologista de julgamentos em praça pública, ou de falsos moralismos, mas um certo reconhecimento que estas escolhas de viver em profunda liberdade têm efeitos nos que nos rodeiam não seria descabido.

Mas é uma boa biografia, fluida, aconselho a quem queira saber mais sobre este autor maldito mas que teve um papel importante no surrealismo português.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya

jorge_sena

 

Poema dito por Mário Viegas AQUI!

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena