Deus é a Nossa Mulher a Dias

adilia_lopes

 

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, in ‘Florbela Espanca Espanca’

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Esta Gente/Essa Gente

ana-hatherly

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”

Livros que Recomendo – Lunário

lunario

Hoje venho recomendar um livro de um poeta, mas que não é um poema. Será talvez prosa poética, e a sua temática está também imbuída dum certo ennui comum a alguma poesia. Tudo boas razões para recomendar este livro de Al Berto. Editado pela Contexto em 1988, reflecte profundamente sentimentos da noite lisboeta dessa década.

Em Lunário seguimos a vida de Beno, um homem solitário mas rodeado de pessoas que povoam os seus dias e que vão todas, aos poucos, vetando-o ao abandono. Beno lida com os seus fantasmas pessoais através das pessoas que se cruzam na sua vida, um grupo desconexo de pessoas que vão andando pela noite (e pela vida) à deriva, sem um propósito, sem outra ambição que não fosse viver depressa e intensamente, e morrer de preferência ainda jovem.

Recheado de passagens muito belas, este é um livro forte e intenso, e que não nos deixa indiferentes. Eu própria já o li mais que uma vez, e de vez em quando volto lá. É pequeno, mas recheado de emoções intensas.

Recomendo a todos os amantes de poesia, de prosa diferente, de histórias que andam ao sabor do vento e da noite.

Boas Leituras!

De imobilidade em imobilidade a vida avançou, avançou
por ininteligíveis iluminações. Hoje, neste fim de século,
desloco-me sem saber como dentro das fotografias que revestem as paredes
deste quarto. E é-me indiferente estar aqui. Sempre que posso fujo,
fujo no olhar que cegou o meu. Porque eu fujo e vou com tudo
aquilo que me chama e toca. Vou com o azul dos olhos do
marçano ali da esquina, vou com as folhas das árvores no outono da
minha rua, vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. Vou
pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono
esbranquiçado dos mortos. Vou com o teu corpo que me desgasta a
memória doutros corpos e me transforma em esquecimento… vou,
vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca.

Abro depois as mãos, e não há mar nas suas linhas, nem
barcos que venham descansar na ponta dos dedos, e a linha do
coração – repara – é uma calosidade. E por uma noite da
imensa cegueira, quando já morar definitivamente em ti,
abandonar-te-ei… à hora dos répteis recolherem o calor nas fissuras do
tempo.

Intacto, irei à procura do merecido repouso.

Sai de Casa

Manuel Resende

Rasga este poema depois de o leres.

E depois espalha os bocados

Pelo vasto mundo

Ou então na tua rua, vai à aldeia, à praia,

Atira-o ao mar, deita-o ao lixo,

Para que venha o vento, o sol, a chuva, os homens do lixo,

Acabar com ele de vez.

Passado um dia,

Sai de casa e procura

Encontrá-lo de novo.

Manuel Resende in “O Mundo Clamoroso, Ainda”

Homens Que São Como Lugares Mal Situados

Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar

Daniel Faria in poesia quasi

Livros que Recomendo – Esteiros

esteiros

Já estava na altura de voltar a recomendar um livro de um autor português e desta vez uma obra do neo-realismo dos anos 40. Segundo alguns, das primeiras obras dessa corrente literária em Portugal.

Nos Esteiros seguimos a história de algumas crianças da zona de Alhandra durante um ano inteiro, acompanhando as quatro estações. Estas são crianças de famílias muito pobres, que não vão à escola, e que dependem da irregularidade do trabalho sazonal da zona. São crianças que passam fome, que por vezes têm de ser criativas para encontrar comida, mas às quais não faltam sonhos e desejo de liberdade. O suceder das estações mimetiza a regularidade das mudanças no modo de vida destas crianças, como um ciclo que se perpetua mas do qual não podemos fugir.

Cheio de desesperança, este livro impressionou-me, tal como o Meu Pé de Laranja Lima, pela realidade de infância que retratava, tão diferente da minha, tão longe de tudo aquilo que eu via à minha volta. Livros como este abrem-nos os olhos para determinado tipo de realidades, que aconteceram no Portugal de 1940, como acontecem ainda um pouco por todo o mundo, de modo mais ou menos escondido.

É um livro fácil de ler, cheio de acção e diálogos simples, como seria a própria vida destas crianças. Lê-se num sopro e ficamos mais ricos por isso.

Recomendo a todos os que gostam de autores portugueses, de ler sobre a nossa realidade, de histórias fortes bem contadas.

Boas Leituras!

Naturalidade

rui knopfli

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável… Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

Rui Knopfli, O país dos outros, 1959

Viver Sempre Também Cansa

jose-gomes-ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Niguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecanico e exacto

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses
Morre em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

José Gomes Ferreira

Chove. É Dia de Natal.

Almada Negreiros - Portrait of Fernando Pessoa, 1954

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, in ‘Cancioneiro’