Viajar

alves redol

Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto…
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares…
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.

Alves Redol

Acabei de Ler – O Pintor Debaixo do Lava-Loiças

afonso cruz

Recomendaram-me este livro de Afonso Cruz, e como já há algum tempo que tinha curiosidade em ler este autor resolvi aproveitar. Também gosto de intercalar as minhas leituras normais com autores portugueses e por isso resolvi aproveitar.

Não comecei a ler com expectativa nenhuma, tirando o facto de saber que ele é um autor que tem sido muito falado e apreciado nos últimos tempos. E no decorrer do livro lembrei-me dum presente que ofereci ao meu marido no tempo em que éramos apenas bons amigos e que era O Pequeno Livro dos Aforismos, recheado de pequenas frases feitas. Foi essa a sensação que tive com este livro, que era uma sucessão de frases pensadas para serem bonitas e replicadas nas redes sociais ou sites de citações.

No entanto, e ultrapassada a aversão que essa sensação me deu, resolvi persistir na leitura do livro. Por trás das muitas frases complexas há uma belíssima história a querer espreitar. Poderia a história ter funcionado com outro tipo de linguagem? Sinceramente não sei, e acredito que é problema meu esta aversão a este tipo de escrita.

Este pintor é Josef Sors, um pintor que almejava ter uma vida vertical, sempre a crescer na mesma direcção e sem nada que o desviasse do seu objectivo. Não era um personagem muito simpático e as suas acções eram muitas vezes questionáveis, mas o evoluir da sua história foi muito interessante, e as tangentes que fez com a nossa história nacional, e a história pessoal do autor foi mesmo muito bonita.

Resumindo, recomendo a todos os que gostem de histórias interessantes, mas que tenham paciência para uma literatura de frases muito rebuscadas e floreadas. Lá no meio há uma história com pés e cabeça.

Boas Leituras!

Goodreads Review

A paixão é o sentimento que contém tudo, por isso, quando um homem se apaixona, dentro dele está tudo. desde a coisa mais pequena à coisa maior, que muitas vezes são a mesma coisa.

Original É o Poeta

ary dos santos

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

Livros Que Recomendo – O Pequeno Livro dos Medos

sergio godinho

Mesmo sem a perspectiva de algum dia vir a ser mãe, desde sempre fui muito fã de livros infanto-juvenis, e continuei a lê-los muito depois de já ser adulta. Acho que se encontram verdadeiras pérolas de beleza neste mundo de livros, e é uma dessas pérolas que venho hoje recomendar.

Sérgio Godinho é não só um belíssimo escritor de canções, mas também se aventurou no mundo da literatura infantil. Este Pequeno Livros do Medos é a sua segunda incursão neste campo e data de 1991. É um livro pequeno, de 55 páginas, e que leva os seus leitores a reflectir no que é o medo, a racionalizar sobre ele com exemplos da vida do narrador, e no final a conseguir superá-los.

Muito bonito e bem escrito, sobre um tema que é tranversal a miúdos e graúdos e que nos ajuda a reflectir sobre as coisas que nos impedem de olhar em frente.

Recomendo a todos os que têm filhos e querem partilhar histórias com eles, ou todos aqueles que são sempre jovens no coração e apreciam boa escrita.

Boas Leituras!

Sábado

tiago araujo

a manhã ainda pode ser salva se o tempo

mudar ou o café forte quebrar o vidro entre o som

e o sentido destas frases que recito em jejum

de um jornal atrasado. dormi mais do que o habitual,

entre papéis e o som distante do telefone,

um despertador absorvido pelo sonho. ao acordar não

consegui ler nas folhas do chá de ontem, despejado frio

pela banca da cozinha, o que farei com os restos de liberdade

que me sobraram do dia anterior.

na infância ensinaram-me como é perigoso

acordar um sonâmbulo, lição que tenho

aplicado de forma exemplar em relação a mim próprio.

o equilíbrio entre os dias e as noites foi-se alterando

de modo progressivo. ouço ao longe,

pela janela aberta, os sons do

carnaval de notting hill, um sinal de que o

verão terminou. queimo os cravos da mão esquerda, a mão

cega que não tem recebido todo o prazer ou o

reconhecimento que merece. chove.

e é tudo, descrição sem análise, na luz filtrada

de um dia em que se morre mais lentamente que nos anteriores.

daqui a pouco sairemos para as ruas de comércio, cais

onde se vão saudar paquetes

que já partiram, nas tardes de sábado, para nos perdermos

entre o ruído e o excesso de informação que

caracterizam o século vinte e um, sem

que ninguém repare que saí à rua sem o desejo vestido.

a cidade deixou de ser um mapa e, passado um ano, leio o nome das ruas

como quem incendeia os barcos à chegada a terra

para não ter forma de regressar a casa.

Tiago Araújo

É Tempo de Natal

couto

É tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com lâmpadas de cor, sobre o balcão.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algodão.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manhãs,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das lãs.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O chão, mais húmido, incomoda.
E há apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em mãos de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) tão cara, tão pesada!
E dão-se as boas-festas sem se sentir que o são.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que não luz, o pastor que não passa,
O anjo que não vem anunciar a hora?

António Manuel Couto Viana, in ‘Café de Subúrbio’

Livros que Recomendo – O Cozinheiro Prático

cozinheiro pratico

Já que estamos a chegar ao Natal, nada como recomendar um dos livros mais emblemáticos da nossa tradição culinária. Eu tive conhecimento dele porque sempre existiu em casa da minha mãe e ela consultava imensas vezes, nomeadamente para fazer os seus maravilhosos bolinhos de areia. Assim, quando eu me mudei para a minha própria casa e o encontrei à venda numa Feira do Livro, achei que não podia deixar escapar.

No entanto, caras dona(o)s de casa do século XXI, desenganem-se se pensam que vão encontrar aqui um precioso auxiliar de cozinha. Na realidade este é um livro com imensas receitas que serão seguramente úteis a quem já se saiba orientar com os tachos, já que as instruções dadas para além das quantidades são surpreendentemente vagas e pouco precisas. Fiquei um bocadinho desiludida e ainda não consegui fazer receita nenhuma por lá. Tenho confiado mais nas inúmeras páginas de receitas que abundam na internet, mas se fosse hoje voltaria a comprá-lo porque é como ter uma memória visual da minha mãe permanentemente na estante. E cada vez que o folheio lembro-me dos bolinhos de areia e como os meus nunca conseguiram ficar iguais.

Escrito por Mariazinha (!) em 1952 este livro foi um grande sucesso durante décadas, e está dividido em capítulos de acordo com o tipo de pratos, começando nas sopas e terminando nas sobremesas. No final ainda tem dois capítulos muito interessantes, sobre como servir vinhos e um regime de 18 dias para emagrecer. Vale a pena consultar este livro e descobrir as pérolas que encerra.

Boas Leituras!

Bolos de Areia: Misturam-se 100g de açúcar com 200g de manteiga e depois de bem ligado amassa-se à mão com 500g de farinha. Depois de tudo misturado faça pequenos bolos que vão ao forno em tabuleiro não untado.

Quimera

rosa lobato faria

Eu quis um violino no telhado

e uma arara exótica no banho.

Eu quis uma toalha de brocado

e um pavão real do meu tamanho.

Eu quis todos os cheiros do pecado

e toda a santidade que não tenho.

Eu quis uma pintura aos pés da cama

infinita de azul e perspectiva.

Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana

na hora da orgia prometida.

Eu quis uma opulência de sultana

e a miséria amarga da mendiga.

Eu quis um vinho feito de medronho

de veneno, de beijos, de suspiros.

Eu quis a morte de viver dum sonho

eu quis a sorte de morrer dum tiro.

Eu quis chorar por ti durante o sono

eu quis ao acordar fugir contigo.

Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.

Por isso fiquei só, com o meu corpo.

Rosa Lobato de Faria