Férias no Sapal

Preparo este post nas notas do telemóvel à beira da piscina no meio do sapal de Castro Marim. Apesar de ter a aplicação do blog, ainda não me entendo a fazer os posts por lá, nem tive paciência para me dedicar a estudar como é que se faz.  Enquanto escrevo, temo pela saúde do telemóvel por causa de dois miúdos com verdadeiras metralhadoras de água que encetam uma guerra sem quartel à volta da piscina, com um intrincado conjunto de regras que faria inveja a um verdadeiro estratega militar. É refrescante ver miúdos que ainda sabem brincar sem ecrãs, mesmo enquanto eu temo pelo meu.

Vim passar uma semana a Castro Marim, no espírito vá para fora cá dentro que pauta este ano. Trouxe tudo o que preciso. Muitos livros novos no Kindle, dos quais vou ler apenas uma fração, revistas para a praia, que sou demasiado picuinhas para sujeitar o meu Kindle a tão altas temperaturas e perigo de roubos, muito protetor solar e, acima de tudo, muito stress acumulado para deixar na água do mar.

O sítio que descobrimos, o Sobral de Baixo, é uma quinta perdida no meio do sapal, com pequenos apartamentos acolhedores e uma piscina onde apetece estar. Está suficientemente isolado para só se ouvirem os passarinhos, mas perto para só demorarmos 5 minutoss para a praia ou restaurante mais próximos. Ideal para o tipo de férias que gostamos.

Os dias são passados entre caminhadas na praia, a tentar retomar alguma da forma física que o problema de costas me tem retirado. 7 a 8 kms por dia, devagarinho na areia rija. Depois muitos banhos de mar, que lavam a alma e levam consigo más energias e maus pensamentos. As tardes, como esta em que vos escrevo, à beira da piscina, a ver as andorinhas beber água e a ouvir pouco mais que os pássaros. Pelo meio tudo o que apeteça, entre gelados e peixe grelhado e muitos livros.

Quando finalmente puser este texto no blog, já estarei a trabalhar, e este vento que toca nas árvores não é mais que uma recordação, ou talvez nem isso, engolido pelo peso dos dias.

Mas enquanto isso não acontece, vou até ali dar umas braçadas, para aproveitar as tréguas na guerra sem quartel que se desenrola à minha volta.

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Caminhadas na praia
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Tardes de piscina
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Muita leitura
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Passeios no pomar, no meio do sapal
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Praia ao amanhecer
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Praia ao anoitecer
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Próxima paragem: Alentejo!

Compras na Feira

Compras Feira 2017

 

Já fez mais de uma semana que o Peixinho foi passear na Feira do Livro, mas já que ontem foi o seu último dia é finalmente tempo de fazer o balanço das compras. No final das contas consegui comprar apenas mais 4 livros.

Para além do livro de poesia que tinha falado no post anterior, e do qual já li um pedaço bastante saudável, não consegui também resistir ao humor do Vilhena, como já se tinha percebido. Esse ainda pertence à lista interminável dos livros para ler.

Os outros dois, pequeninos, vieram para enriquecer a minha colecção de eróticos, fazer companhia a outros títulos dos mesmos autores que já lá tenho. Não foram comigo para férias, porque são demasiado pequenos para justificar o esforço de os carregar. Falarei deles quando os ler, para já vão também engrossar a lista dos que estão na calha.

Férias passadas, de volta à escrita!

O Peixinho foi à Feira

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O Peixinho deu um salto à feira do livro depois do trabalho na ideia de dar uma volta descomprometida e tentar atingir a sua meta diária de 10 mil passos. O Peixinho é um incorrigível optimista, pois nenhuma destas coisas foi conseguida.

Esta é supostamente a maior feira de sempre, com inúmeros expositores e mais talhões que no passado. No entanto, os aglomerados editoriais da Porto Editora, Presença, Leya e 20/20 (quem são estes, estou desactualizada! Não encontrei lá nada digno de registo, diga-se), tornam difícil encontrar algo verdadeiramente diferente e original. No entanto deixo aqui a minha penitência pública, porque fui incapaz de resistir a Todas as Palavras de Manuel António de Pina, na Assírio e Alvim, agora detida pela Porto Editora. Estava uma pechincha, em livro do dia, a sorrir para mim e a implorar por um lar. Tive que o trazer.

Mas ainda há pérolas perdidas, na pessoa de pequenas editoras que recuperam autores mais pequenos da nossa história em edições fac-similadas e a preços muito convidativos. Este ano pude desfrutá-los com livros d‘A Bela e o Monstro, na banca da Editorial Planeta, ou na e-Primatur.

E depois, se há coisa que me desgraça é um funcionário simpático que gosta do seu trabalho. Na e-primatur estava calmamente a folhear os livros do Vilhena, pelos quais tenho algum carinho já que me lembram a minha infância. O único senhor da banca estava entretido com um dos seus autores que claramente tinha aparecido de surpresa para ver que destaque estavam a dar aos seus livros, e, muito subtilmente, queria a atenção que a sua posição merecia.

Por mim, óptimo, que eu já tinha esgotado o meu orçamento e não tencionava comprar mais nada. Estava simplesmente deliciada com a qualidade das edições. Assim que o autor deu espaço, o senhor da banca vem ter comigo e diz que não pôde deixar de reparar que eu tinha estado a ver os livros do Vilhena, e começou uma​conversa animada sobre o autor, o plano editorial que têm para as próximas obras, quando é que vão estar em livro do dia com o máximo de desconto. Já adivinharam, vim com o livro que estava em promoção, e ainda trouxe um saquinho com ofertas. Sou uma fácil.

De resto a feira está igual a si própria. Com mais roulottes de comida, mas que me pareceram bem enquadradas no espaço, com muita gente a passear, gente a levar os filhos a ter contato com os livros​, como os meus pais faziam comigo. E claro, passear na feira significa também encontrar amigos por acaso, comer um gelado enquanto nos arrependemos porque assim não podemos folhear os livros que queremos, e todos estes pequenos rituais tornam a experiência mais rica.

A frase do dia veio da boca duma turista brasileira, que gritou para uma amiga que ia mais à frente: “Oh Hilda, vamos embora que já vi que isto são só livros mesmo”!

E agora com licença, que tenho uns poemas para ir ler.

Um Ano de Paraíso

Mucumbli - Praia

Está a fazer um ano que viajámos para o que foi até agora a melhor viagem da minha vida, São Tomé. Todos os pormenores estão ainda muito marcados na minha memória, especialmente na afectiva.

Lembro-me de chegar e ser recebida por um cheiro quente, primeiro a alcatrão da pista de aterragem, depois a humidade, calor e mar. De ser já escuro e noite, apesar de ainda ser cedo e do motorista que nos esperava, o Sr. Agnaldo, ser extremamente simpático e explicar-nos tudo o que íamos vendo pelo caminho.

Das casas serem quase todas de madeira, sem janelas para afugentar o calor, e da quantidade imensa de pessoas que estavam na rua a celebrar a noite de sexta. O cheiro a mar que nos esperava no quarto, e um jantar delicioso, prenúncio da melhor comida do mundo que nos iria acompanhar em toda a viagem.

Comida maravilhosa, paisagens lindas, um mar que nos embala, e as pessoas de sorriso fácil e animais maravilhosos. E calor, calor por todo o lado, humidade que se agarra a nós e não nos deixa fazer tudo aquilo que queríamos.

Os sitios que escolhemos para ficar, o Mucumbli e a Sweet Guest House foram não só maravilhosos, como nos proporcionaram conhecer gente muito interessante que vai ficar no coração, e os passeios que fizemos foi só uma pequena amostra do que a ilha tem para oferecer (almoçar na Roça dos Angolares e o chocolate do Claudio Corallo foram experiências inesquecíveis).

Muito ficou por fazer, muitos planos para próximas viagens. São Tomé começa agora a estar na moda, o que pode ser uma boa notícia para as suas gentes, mas eu espero sinceramente que avancem na direcção certa, com respeito pela natureza única que têm, com turismo sustentável e com respeito pelas suas gentes.

Eu espero voltar, conhecer o Príncipe, dar a volta à ilha de barco, ver golfinhos, baleias e tartarugas, e levar a vida leve-leve.

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Barracuda

Mucumbli - Por do Sol

O Cacau

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Trump e o Acordo de Paris

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Como já devem ter percebido o Peixinho não é muito de debater política, pelo menos neste espaço. No entanto, se há tema que me deixa com os cabelos (guelras?) em pé é o ambiente, ou que dele fazemos. Por isso foi com profundo pesar que assisti há pouco na televisão ao discurso do senhor acima em que anunciava a sua saída do acordo de Paris.

Resumindo dum modo muito simplista o senhor diz que não quer saber do dito acordo porque isso vai influenciar negativamente os seus contribuintes, e os seus votantes, e fazer fechar fábricas, e nós temos é que tornar a América grandiosa outra vez.

É como se vivêssemos todos na mesma casa e o vizinho do lado insistisse em ouvir música aos berros às 5h da manhã porque só assim é que se conseguia concentrar, independentemente do que o resto do condomínio tivesse decidido. Ou aquele miúdo que acabava sempre a brincar sozinho porque insistia em mudar as regras dos jogos todos sempre que estava a perder pontos. Irritante, não é?

A minha pergunta (retórica, claro) é porque é que nós temos que aturar isto? Antigamente dizia-se que os malucos deviam deixar-se a falar sozinhos. Se o senhor diz que os carros alemães são muito maus, só por se venderem na América, se os mexicanos são muito maus, só por tentarem entrar na América, se basicamente tudo o que entra/se vende/se consome na América que não seja Americano é inerentemente mau, porque raio temos nós de consumir coisas americanas, a começar pelo tempo de antena incessante que ele tem na nossa comunicação social?

Se todos nós deixássemos de ver filmes, séries, ler livros, consumir produtos, ver as conferências de imprensa do senhor. Se não quiséssemos saber o que andam as Kardashians a fazer (eu já não quero, por isso perdia pouco nesse campo), quem perderia na realidade? Se boicotássemos tudo o que vem dos Estados Unidos?

É certo, que como viciados em Netflix, ao principio seria complicado e sofreriamos sintomas de abstinência. E obviamente que teríamos perdas dolorosas e significativas. Mas passado o choque inicial, descobriríamos que o resto do mundo não é o deserto que pensamos e tem, pasme-se, bom cinema, boa literatura, boa fast (e slow) food. E teríamos um resto de mandato Trumpiano muito mais descansado. E quando o senhor finalmente se fosse embora logo poderíamos retomar a normalidade com o que ainda restasse.

Eu estou a brincar, mas isto é sério. Enquanto andamos distraídos com frivolidades nas redes sociais diariamente, o nosso futuro (ou falta dele) desenha-se nestas decisões populistas que não vêm para além do imediato. Para reflectir.

Feira do Livro 2017

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Chegámos àquela altura do ano em que se celebra a grande festa dos livros. Começa já amanhã, dia 1 de Junho, que acumula com o Dia da Criança, desculpa boa para levar lá os petizes, e para todos aqueles que como eu não foram abençoados com essa graça fugirem de lá a sete pés e escolherem outro dia para ir.

Já aqui disse o ano passado que os grandes monopólios editoriais tiraram um bocadinho de glamour à feira. Já não conseguimos encontrar grandes pechinchas, nem fundos de catálogo, apenas os mesmos nomes batidos que encontramos nas livrarias ou nos supermercados, mas mesmo assim a Feira continua a ser uma grande festa e um encontro de gente unida pelo interesse pelos livros e nesse aspecto é uma celebração que se sente no ar.

Como trabalho lá perto gosto de sair dum dia de trabalho e passear por lá a descontrair antes de ir para casa, mesmo que volte de mãos a abanar, ou apenas com algum livro de poesia comprado num alfarrabista.

Este ano espera-se que seja a maior Feira de sempre, com um número record de pavilhões e de expositores. Para não nos perdermos há um mapa aqui, e para podermos escolher cuidadosamente em que dia(s) fazer a visita, podemos consultar o livro do dia aqui

Está quase a começar, e a do Porto virá mais lá para a frente, em Setembro. Não percam, está lá até dia 18.

Fátima e a festa do cinema

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Esta semana que passou viu passar mais uma Festa do Cinema, em que durante 3 dias e por apenas 2.5€ podemos ter acesso a qualquer filme que queiramos ver, apenas pagando mais as taxas de 3D ou VIP, se for aplicável. Nós aproveitámos o último dia, quarta-feira, para celebrar o cinema português e fomos ver o Fátima de João Canijo.

Não podia ser mais apropriado ao mês em que estamos, com as comemorações do centenário das aparições, já que o filme segue o percurso de 11 mulheres que durante 9 dias fazem o percurso mais longo de peregrinação no nosso país, desde Vinhais até Fátima.

No entanto, a religião aqui é um mero pano de fundo do filme, já que a verdadeira história se centra nas relações entre aquelas 11 mulheres numa situação limite, e nas dinâmicas entre elas.

Eu pessoalmente gostei bastante do filme. Houve pormenores bastante bem conseguidos, as actrizes eram genuinamente transmontanas, e os diálogos muito verossímeis. É fácil acreditar que na realidade não houvesse um guião estruturado, e simplesmente indicações e depois lhes dessem rédea livre para improvisar conversas, de tal modo tudo soa natural. E claro, a Rita Blanco é uma belíssima actriz, como já nos tem habituado, mas devo dizer que a achei muito bem acompanhada, e aquelas jovens  não lhe ficaram atrás.

Depois achei a fotografia bastante interessante. Conseguimos apreciar as mudanças geográficas à medida que vamos descendo o país, a paisagem deixa de ser tão bela e dramática, como era em Trás-os-Montes e passa a ser um aglomerado de pinheiro e eucalipto quando entramos nas Beiras, e mesmo pormenores como a quase ausência de trânsito para a opressão constante dos camiões quanto mais nos aproximamos de Fátima, também está muito bem conseguida.

Depois, tendo eu passado por vezes verões inteiros na aldeia da minha avó, consigo ver claramente aquelas interações entre aquelas mulheres como tão possíveis. Aquela intrusão na vida alheia, o “não tenho nada a ver com isso, tu é que sabes, mas se fosse eu” constante.

E mesmo a organizadora da peregrinação está muito bem conseguida. Num dos verões que passei na aldeia, a minha avó quis levar-me a Vigo numa excursão. E eu pensei que seria engraçado passar esse tempo com ela, gostava desses programas que fazíamos só as duas, acabávamos sempre a divertirmo-nos. Bom, a organização era indescritível. O autocarro teria os normais 55 lugares, por aí, e ainda antes do último sítio de recolha de passageiros já ia gente sentada nas escadas de entrada. As últimas pessoas já foram deixadas “em terra”. E depois foi sempre a piorar. Passámos a noite em Vigo, mas o único sítio para dormir era o autocarro, o tempo de visitar a cidade foi entre as 7:30 da manhã e as 8:00, e só havia um motorista que à volta para casa já vinha a dormir a fazer as curvas do Luso. Um pesadelo, mas que faz perceber que há muita verdade na D. Isaura do filme.

Tendo dito tudo isto, aconselho vivamente, mas também aviso que devem ir preparados para um filme que dura cerca de 2:30, porque uma peregrinação nunca é curta.

O Peixinho e a Imprensa Cor-de-Rosa

 

Eduardo Beaute
Foto tirada daqui

 

Quando eu tinha uns 11, 12 anos a minha mãe ou a minha madrinha, que eram as minhas personal stylists da altura, compraram-me uma saia de ganga. Era enorme, comprida, rodada, e eu estava muito orgulhosa, apesar de na realidade poder ser um bocadinho pindérica. Afinal estávamos nos anos 80.

Levei-a comigo quando fui passar férias à terra da minha avó, e andava sempre com ela para trás e para a frente. A nossa vizinha do lado uma tarde disse-me, no meio da rua que era onde se passava toda a vida da aldeia: “que saia horrível filha, eu não queria isso nem dado para andar ao mato”.

Ao que eu, um bocadinho magoada no meu amor-próprio, respondi: “não se preocupe Ti’Eugénia, que eu também não lha dou.”

E rimo-nos as duas, juntamente com a minha mãe e a minha avó que tinham assistido a esta altercação. Eu achei que a Tia Eugénia era uma velhota sem sentido estético, e ela deve ter achado que eu era uma miúda pespineta, mas isso não mudou em nada o carinho que sentíamos uma pela outra, ou sequer a vida daquela pequena comunidade.

O problema de hoje em dia é que toda a gente é uma Tia Eugénia, sem sentido de humor nenhum, e com a sua voz amplificada pelo anonimato dum Facebook.

E é só isto que tenho a dizer sobre estes não assuntos que circulam por aí.

Rumo ao Sul

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O Peixinho Vermelho fez anos no fim de semana passado e nós resolvemos tirar um dia para descansar e aproveitar uns raios de sol. São Pedro quase que nos estragava os planos, mas manteve-se firme até ao final, e foi simpático connosco.

Acabou por calhar tudo lindamente, porque morando em Benfica, previa-se um fim de semana um bocadinho mais agitado do que gostaríamos, mais a mais com Salvador e Fátima à mistura. E assim fomos rumo a terras de Aljezur. Mais concretamente um monte perdido perto do Rogil, terrinha que nunca tinha ouvido falar, mas que gostei muito de conhecer.

Andávamos há que tempos para ir para o “outro” Algarve, mas na realidade apenas um fim de semana sabe-nos a pouco, porque parecendo que não ainda são cerca de 3 horas de caminho, e uma viagem tão longa merece que lá estejamos mais tempo a desfrutar. Assim o aniversário do Peixinho Vermelho foi a desculpa perfeita.

Sábado fomos em passo de caracol por aí abaixo e fizemos a nossa primeira paragem num cantinho que gostamos muito, que é Porto Covo, para almoçar um belo peixe grelhado. Fomos ao Torreão, o peixe estava mesmo no ponto, bem grelhado e saboroso, os acompanhamentos é que podiam ser um bocadinho mais elaborados. Um naco gigante de couve cozida e espapaçada já não é coisa que se apresente nos dias de hoje, especialmente com tanto pesadelo na cozinha a passar na televisão. O pudim da sobremesa era delicioso.

Passeio pela vila para desmoer, sentadinhos à beira mar a ver as ondas bater na rocha, e lá nos pusemos a caminho que o Rogil ainda estava a mais de meio caminho. O nosso destino, o Monte da Xara, estava perdido no meio da Costa Vicentina, mesmo a seguir a uma terrinha chamada Azia. Valeu-nos o são GPS para lá chegar, mas valeu bem a pena.

O Monte da Xara é encantador, um oásis de calma e silêncio, uma casinha muito bem decorada, muito funcional, a 10 minutos de praias fantásticas e um pequeno-almoço digno de reis. E claro, a D. Isabel tem dois cães absolutamente maravilhosos, o Mar e a Nala, que sempre que lhes apetece nos vêm fazer uma visita, pedir festas e ver se temos petisquinho para lhes dar.

No dia em que chegámos já estava o dia no final e pouco mais fizemos que passear a pé pelas imediações e deitarmo-nos preguiçosamente no alpendre a apanhar sol e a fingir que líamos. Na realidade acho que passámos pelas brasas. Fomos cedo para dentro de casa, porque apesar de longe ainda havia quem quisesse ver o Benfica ser campeão, e temos de respeitar esses desejos. Essa foi a parte mais engraçada, ver pela televisão todo um  mundo de loucura pelas vitórias nessa noite, e nós virmos até ao alpendre escutar o barulho das rãs nos charcos, que era a única coisa que se conseguia ouvir na noite algarvia. O sossego é uma coisa maravilhosa.

O domingo e a segunda foram muito semelhantes. Fomos até à praia do Vale dos Homens, recomendada pela D. Isabel, a nossa anfitriã, que no auge de ocupação tinha umas 10 pessoas, e aproveitamos a maré baixa para ir até à praia deserta do lado e ficar por lá a torrar ao sol e a tomar banhos de mar numa piscina improvisada. Três dias de Costa Vicentina deram para recarregar baterias para mais umas semanas de trabalho intenso.

Pelo meio ainda conseguimos encaixar uma visita a Aljezur a à praia da Amoreira. Bonitos, mas estávamos mais virados a isolamento. Uma coisa que achei curiosa e me deixou com esperança na humanidade e na sua capacidade de fazer escolhas e encetar lutas, foi que um pouco por toda a parte, nas estradas, nas paredes das casas se podiam ver cruzes vermelhas a dizer não ao petróleo e gás natural no Algarve. E estando na beleza natural daquelas praias selvagens, que ainda esta semana a Conde Nast classificou como um dos melhores lugares do mundo para fazer caminhada em trilhos naturais, parece-me incrível que sequer se pense em trocar uma coisa absolutamente irrecuperável, que pode durar gerações, por um punhado de dólares que vai para o bolso dos mesmos do costume.

Como sempre, estamos distraídos com o nosso fado e futebol, e quem pode faz pela calada, e quando um dia realmente dermos por isso teremos este tesouro irremediavelmente destruído. O Vale do Tua já foi, quanto tempo restará à Costa Vicentina?

E assim deixo as fotos possíveis, mas que vos inspirem a ir até lá, ou pelo menos a estar atentos àquilo a que ninguém quer que estejamos atentos, as decisões que dizem respeito ao nosso futuro e que estão a ser tomadas nas nossas costas.

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O alpendre do Monte da Xara
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Deitados a ver o céu
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A praia de Vale dos Homens
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A vista cá de cima
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As poças de água e os seus tesouros

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O nosso spa
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A praia da Amoreira, mais perto de Aljezur, mais acessível e com apoio de praia. 
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Há que lutar!

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20 anos de Placebo

Placebo

 

A primeira vez que ouvi Placebo foi no festival Sudoeste em 2000 ainda eles eram suficientemente obscuros para tocarem no primeiro dia antes do sol se pôr, e eu não fazia ideia de quem eles eram.

A viagem até ao festival foi atribulada por vários motivos, incluiu vários kms finais a pé por teimosias várias, e eu cheguei ao recinto cansada e fula da vida. Assim que cheguei deitei-me no chão a pensar na vida e como me apanhava em situações daquelas, e comecei a achar que a banda que estava a tocar era bastante boa. E lembro-me de pensar que, se naquele estado de espírito eu conseguia perceber isso, eles deviam ser mesmo bons. O festival depois compôs-se, e acabei por me divertir muito, e com Placebo foi o início duma história de amor que durou os três primeiros álbuns e muitos outros concertos.

Esta terça feira eles voltaram ao Coliseu para festejar os 20 anos e eu não sabia bem o que esperar porque não conhecia os últimos álbuns e há muito não os via ao vivo. Mas no fundo isto era também uma celebração à minha juventude passada, por isso não quis deixar de participar, e há muitos meses atrás comprei os​ bilhetes. Claro que a juventude era mesmo passado, e neste momento estou com uma grande crise de coluna que ameaçava tornar a experiência num festival de dor e desconforto, e passei o fim de semana todo semi-arrependida.

Mas resolvi o assunto ficando sentada nas cadeirinhas e só me levantando nas músicas que valiam mesmo a pena. E esse foi o problema do concerto, mas vamos por partes.
Quando entrou a banda de apoio eu pensei que já era a sério, e depois percebi a confusão. O guitarrista, Stefan Osdal, faz parte, mas nem isso foi o suficiente para encantar. Uma mix de batida com instrumentos de cordas e vozes ocasionais que não convenceu, nem deu grande vontade de dançar. Passemos aos próximos.

Os próximos só demoraram o costume destas ocasiões, qual atraso institucional de noiva, e cedo encheram o palco para começar a festa de aniversário. Aparentemente haviam 3 ecrãs gigantes, mas do lugar dos doentes não consegui ver nenhum, a não ser no ecrã do telemóvel das dezenas de pessoas à minha volta a filmar/fotografar. Aliás, já ninguém simplesmente vê um concerto. Toda a gente tem de validar que lá esteve. Alguns, como eu, tiram meia dúzia de fotos/vídeos. Outros filmam quase tudo. Outros ainda vão documentando tudo nas redes sociais em tempo real. #vidamoderna

Mas a música propriamente dita só lá para meio do concerto é que me começou a animar, o primeiro set de canções pareceu-me muito chocho. Claro que o facto de estar em pior forma física e o Coliseu estar criminosamente quente (a sério, o incentivo à venda de cerveja não pode justificar tudo!) contribuíram, mas na realidade é como tentar reatar uma relação em que ambas as partes sabem que acabou. Foi bom enquanto durou, mas seguimos caminhos diferentes (e àquela temperatura o meu dificilmente voltará a passar pelo Coliseu).

A última parte foi mais arrebitada, com êxitos mais dançáveis, e deu para abanar o que a coluna deixou. No final saímos com um até sempre, pela colina acima, a caminho de novas sonoridades.

Para fotos como deve ser, da fotógrafa de sempre Rita Carmo, vejam a reportagem no Blitz aqui.