Blade Runner 2049

Jared Leto

Hoje foi dia de ir ao cinema ver o Blade Runner 2049. Curiosamente só em Janeiro deste ano tinha colmatado a minha falha cultural e tinha visto o Blade Runner original graças ao Cinepop, mas fiquei rendida, mesmo sendo um filme de 1982 e sem a espectacularidade dos efeitos especiais de hoje em dia. Ou se calhar, por isso mesmo.

Quem segue o Peixinho sabe que tenho gostos muito ecléticos, mas ficção cientifica está no topo das minhas preferências. Da boa, daquela que nos faz pensar na posição do ser humano no mundo, no universo se quiserem, na nossa postura, na maneira como interagimos uns com os outros, com o espaço que nos rodeia, com as instituições politicas e religiosas. Quem acha que ficção cientifica são apenas naves aos tiros é porque está confinado à visão que Hollywood nos quis dar, porque também é essa que vende.

Mas felizmente há muito mais para além disso, e boa ficção cientifica em todas as suas vertentes, é um dos ramos da literatura que se aproxima da filosofia. E o primeiro Blade Runner certamente é um exemplo disso. Baseado no livro de Philip K. Dick “Do Androids Dream of Electric Sheep” que já está alegremente no meu Kindle à espera de vez para ser lido. Se tiverem paciência para ler uma boa opinião sobre este fenómeno podem ler esta crónica do Observador, cujo autor conseguiu ser bem mais eloquente do que eu.

Mas de volta ao Blade Runner 2049, em que substituimos um muito convincente Rutger Hauer por uns valores seguros de Hollywood, o Ryan Gosling e o Jared Leto. E confesso que isso já me fazia ir com a pulga atrás da orelha. E na realidade encontrei exactamente aquilo que estava à espera. O filme é bom, visualmente continua a ser uma beleza, a música (já não de Vangelis, mas de Hans Zimmer) é espectacular e super adequada, e não se pode dizer que esteja sobrecarregado de efeitos especiais ou lutas infinitas, como os normais blockbusters do género (no entanto não vale a pena ser visto em 3D na minha humilde opinião).

Mas onde o primeiro era subtileza e suavidade, onde eramos conduzidos subtilmente a tirar as nossas próprias conclusões (ficou sempre no ar a pergunta se Deckard é ou não um replicant), neste somos levados pela mão quase como crianças e tudo nos é mostrado e explicado, nada nos é deixado à imaginação. Se calhar deve-se ao facto de eu já ter visto o director’s cut, sem a narração em off que tinha esse mesmo propósito, de explicar ao pobre público aquilo que estavam a ver.

E o monólogo final do Rutger Hauer “Tears in the Rain imprime um toque final de humanidade ao filme, que não esteve presente nesta sequela. Portanto, gostei mas não achei que tivesse o toque de genialidade da versão de 1982. Ainda assim, bastante melhor do que qualquer dos filmes que nos mostraram nas apresentações.

 

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Eu e os Clubes de Leitura

Garfield

No que toca a livros que vou ler a seguir eu sou o que se pode chamar um espírito livre. Tenho uma lista de livros que gostaria de ler, uma série de livros em espera, mas na realidade tudo vai depender do que me apetece (ou não) em determinado momento. O meu lema hoje em dia é que a vida é demasiado curta para se fazer fretes numa actividade de lazer.

Por isso também não me apela juntar-me a nenhum Book Club. Já tentei no passado, mas a obrigatoriedade de ter o livro X lido até determinada data para depois o discutir com outras pessoas, simplesmente não é para mim.

É claro que estou potencialmente a perder sugestões de livros bons, e sobretudo discussões interessantes, pontos de vista diferentes, e olhares sobre os livros que iriam revelar coisas que eu não consegui ver, mas encontrarei isso noutras fontes.

Como por exemplo os blogs que vou seguindo por aqui. São sempre uma fonte de inspiração.

Boas Leituras.

5 Desvantagens do Kindle

Compras Feira 2017

Ora falei-vos no último post sobre as vantagens mais importantes de ler num e-reader, mas é claro que não são tudo rosas e também há desvantagens. Vou falar-vos das principais já a seguir.

1. Livros em Português: Tirando o Projecto Gutenberg e Adamastor, é muito díficil arranjar livros em português para o Kindle. E como estes trabalham apenas com livros que já estão em domínio público, isso significa que autores recentes é dificílimo arranjar. As editoras vendem formatos digitais, mas altamente protegidos, e nunca consegui fazer com que nenhum funcionasse no meu kindle, apenas no computador. Ora convenhamos que ler no computador não é a mesmo coisa. E no mercado português o preço dos livros digitais é ridiculamente próximo dos físicos, considerando que não há gastos de produção nem distribuição. Não compensa. Para livros em português, recorro ao alfarrabista ou, em último caso, ao OLX.

2. Não se consegue emprestar: Um dos maiores prazeres que tiro dum livro que gosto muito é a seguir emprestá-lo àquela amiga/o que eu sei que vai gostar muito. Ora, com o formato digital esse prazer é amputado. Eu sei que a Amazon tentou colmatar isso e criar a figura do empréstimo digital, mas tem prazo para a outra pessoa ler e todos nós sabemos que o risco de nunca mais nos devolverem um livro que gostamos muito faz parte da emoção de emprestar. Ainda agora li um livro maravilhoso que me chegou precisamente pelas mãos duma amiga, e que me vai obrigar a marcar um cafezinho para devolver. Os livros ao serviço da socialização.

3. Não serve para BD: Eu adoro BD, e o kindle tem um ecrã pequeno e a preto e branco. A Amazon bem tentou colmatar isso com o Kindle Fire, mas isso já é mais um tablet, e ficou uma coisa que não é carne nem peixe, por isso resignemo-nos. Para ler boa BD, de bom tamanho e com boa qualidade, o bom e veljho papel ainda é a melhor opção. E aí sim, a textura do papel conta muito para mim, parece que os desenhos saltam cá para fora.

4. É um gadget: e como tal, é frágil. Ou seja, tem de ser protegido. No meu caso, eu nun ca o levo para a praia porque as nossas são ventosas e se entra areia na reentrância de carregar, lá se vai o e-reader. Por outro lado já tem uns risquitos no ecrã, coisa normal ao fim de 5 anos, mas mesmo assim estou a limpá-lo e ao fim de um bocado percebo que por mais que limpe é um risco, não vai sair, e sim vai estar sempre por cima das letras.

5. Toda a gente consegue publicar: Aquilo que é uma grande vantagem, também é uma desvantagem. Se toda a gente consegue publicar livros sem passar pelo crivo de uma editora, isso quer dizer que há muita gente por aí sem nada de interessante para dizer que nos bombardeia com as suas criações. No meu Goodreads há uma quantidade infinda de coisas com uma estrela que o provam. No entanto, continuo a preferir ler umas desilusões de vez em quando, das quais posso desistir a meio se me apetecer, e mesmo assim ter o mercado aberto a mais gente. Haverá espaço para todos.

E pronto, os bons e velhos livros nunca nos irão deixar, e isso é uma coisa boa, no entanto é sempre bom haver opções para cada ocasião.

Boas Leituras!

As 5 Vantagens de ter um Kindle

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Resolvi vir aqui falar das vantagens de ter um e-reader (não necessita ser um Kindle, temos cá em casa um Kobo e as vantagens são exactamente as mesmas), porque é uma temática com que me deparo imensas vezes no meu dia a dia. Muita gente com quem me cruzo, que são leitores tão ávidos como eu, têm muita relutância em experimentar ler digitalmente, e sentem uma profunda antipatia pelo gadget, muitas vezes sem sequer terem dado uma hipótese.

Ora, eu não sou de todo uma fundamentalista, e leio em qualquer formato, mas tenho de convir que pelos motivos descritos abaixo, o Kindle mudou a minha abordagem à leitura. Ora vejam.

1. Portabilidade: Sem dúvida, para mim, a sua maior vantagem. Como já disse inúmeras vezes, leio essencialmente nos transportes públicos, e carregar volumes como a Guerra dos Tronos na mala, ou mesmo conseguir ler em pé enquanto não chega a nossa paragem é virtualmente impossível. Por outro lado, tenho sempre o kindle carregado, por isso é-me possível acabar o volume 1 à ida para o trabalho e começar imediatamente o volume 2 à vinda para casa (ou à hora de almoço, se for impossível esperar). Já para não falar que nunca mais tive de me preocupar com quantos livros vou levar para férias. Um Kindle e está o problema resolvido.

2. Espaço: Se forem como eu, o espaço em casa não aumenta e chega um ponto em que ou nos vemos livres de roupa e tachos, ou temos de por um travão na compra de mais livros. Eu atingi esse ponto do não retorno, sendo que ainda tenho bastantes livros em casa dos meus pais, que tenho de ir lá buscar (sooner rather than later). Ora, neste momento, tenho mais livros dentro do Kindle do que em minha casa, e na minha biblioteca digital tenho certamente mais títulos do que terei anos de vida para os ler. Sem gasto de espaço. Nenhum.

3. Ecologia: Pois, menos livros físicos, menos papel gasto, menos árvores abatidas, menos eucaliptos que foram necessários. Só vantagens. E como eu sou uma moça pouco estragadinha, o meu e-reader já fez 5 anos,o que quer dizer que em termos de durabilidade também não está mau, e quando eventualmente se estragar (batam na madeira) irá certamente para a reciclagem também.

4. Acesso a livros: Com plataformas como o Netgalley, o Edelweiss ou o Kindle Unlimited da Amazon, é muito fácil termos acesso a uma grande variedade de livros, quer gratuitamente, quer a preços muito simpáticos. Mais por cá podemos aceder ao Projecto Gutenberg ou o Adamastor para procurar autores portugueses. Nada mau, já nos dá pano para mangas, e se pesquisarmos com cuidado a panóplia de coisas que temos acesso não se fica por aqui.

5. Toda a gente consegue publicar: Hoje em dia, com o advento do formato digital, toda a gente que tenha acesso a um computador e que tenha algo a dizer pode, em teoria, editar o seu livro. Os recursos são facilmente acessiveis, e através da Amazon pode pôr-se o livro em formato digital ao alcance de toda a gente que o queira ler. Isso veio dar oportunidade a imensa gente que tinha portas fechadas antigamente, especialmente em mercados tão pequenos como o nosso, completamente dominados por grandes grupos editoriais que apenas publicam uma meia dúzia de nomes de sucesso garantido. Os gastos com distribuição são nulos, e com a ajuda das redes sociais consegue, mais uma vez em teoria, fazer-se chegar o nosso livro até uma maior audiência, assim haja trabalho, esforço e passa a palavra.

Eu desde que comecei fiquei fã incondicional. Não leio e-reader em exclusividade, porque há imensa coisa que continuo a ler em papel, mas mais por casa, ou na praia, para onde não levo o kindle (areia não combina com electrónica). Há com certeza mais vantagens, mas estas são as que me falam mais ao coração.

Boas leituras.

Mértola é já ali em baixo

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Uma das primeiras vistas com que o Guadiana nos brindou

No sexto dia voltámos ao passeio. Tínhamos visto na previsão do tempo que seria o dia menos quente, ideal para as subidas e descidas de Mértola. Sim, que isto de ter começado o Outono não se aplica ao país todo, e o interior alentejano ainda não tinha baixado dos 30.

Mas rumo a Mértola cedinho, que havia muito para ver. Mal entramos na parte velha de Mértola somos brindados com magníficas vistas sobre o Guadiana. A vila é deslumbrante, e as vistas bonitas não nos largam, quer seja sobre o rio, quer seja sobre o Alentejo a perder de vista. É um sítio encantador e muito fotogénico. Dentro das muralhas, começamos por visitar a igreja matriz, que já foi uma mesquita e isso está bem patente na sua arquitectura. Desde os motivos que adornam a porta, à sua forma quadrangular, tudo espelha o seu passado. Seguimos para a alcáçova, mesmo nas traseiras da igreja, por indicação da simpática funcionária da igreja. Tudo estava bem explicado e o caminho a seguir bem traçado para desfrutarmos e aprendermos o mais possível. Calçado confortável recomenda-se, muita água e um chapéu na cabeça que o sol, mesmo de fim de Setembro, não perdoa.

Depois, rumo ao castelo. Hajam pernas para o sobe e desce, mas somos recompensados com uma vista ainda melhor sobre o Guadiana. O castelo em si não é grande, mas está bem conservado, e tem um museu dentro da torre de menagem. Por 2€ pode subir-se e ver-se o museu. Afiança o Peixinho Vermelho que vale a pena, eu alturas dispenso e fiquei a descansar à sombra, juntamente com uma excursão de brasileiros que estavam deslumbrados com os bolinhos de bacalhau e não conseguiam falar de outra coisa.

Depois do Castelo, foi caminhar sem destino pelas ruas estreitas da zona muralhada enquanto o calor deixou. Fomos ter à Câmara Municipal que alberga dentro dela uma casa romana que se pode visitar gratuitamente. À semelhança do que podemos encontrar no núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros em Lisboa, onde escavações para ampliação do edifício do Millenium BCP deixaram à vista belíssimos vestígios romanos que hoje podemos visitar de borla, sucedeu exactamente o mesmo com as obras na câmara de Mértola e por isso tivemos acesso a mais este pedaço de história. Eu gostei particularmente dos unguentários de vidro, muito delicados. No site da Camara Municipal podemos encontrar mais informação sobre os vários núcleos expositivos.

Estava na hora de almoçar e tínhamos escolhido um restaurante de inspiração mediterrânica com vista para o Guadiana, chamado Terra Utópica. Dificilmente poderia ser melhor. À entrada somos recebidos pela música de Lhasa, sem dúvida das minhas cantoras favoritas. Depois toda a casa estava lindamente recuperada e decorada com antiguidades como se fosse um museu dentro da vila museu. Primeiro que conseguíssemos decidir qual a sala mais bonita onde almoçar, e finalmente parar de fotografar demorou. O que vale é que a moça era paciente. A comida era bonita e interessante. Recomendo vivamente.

Mas o dia estava longe de ter acabado. Mesmo à saída de Mértola temos as Azenhas do Guadiana, que não é bem praia fluvial porque dizem que as correntes são perigosas e o leito escorregadio, mas que se tivéssemos levado fato-de-banho acho que não íamos resistir. A paisagem é deslumbrante, um antigo açude com umas velhas construções que serviam para moer cereais, e hoje em dia são habitação duma panóplia de aves, insectos e peixes de meter inveja ao Nelson Évora. Foram momentos muito bem passados e voltaremos mais bem equipados uma próxima vez.

Assim sendo o banho teve de ficar na nossa praia já conhecida, onde acabámos o dia a refrescar e a ver o por do sol. A aventura estava a chegar ao fim, mas este foi sem dúvida um dos meus dias favoritos.

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A Igreja Matriz
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O interior da Igreja Matriz
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A alcáçova, núcleo islâmico por trás da Igreja Matriz
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O Castelo de Mértola
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O Guadiana sempre a nosso lado. 
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O terraço do restaurante, ideal para fins de tarde. 
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Pormenor da decoração do Terra Utópica
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O nosso almoço
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As Azenhas do Guadiana
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Ainda as Azenhas
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Nunca andar sem fato de banho… 

Ler à Sombra das Palhinhas

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Outra vista da tapada que vimos numa das caminhadas

Os dois dias seguintes foram de descanso apenas. Manhã de caminhada pela aldeia a tentar conhecer o mais possível, ou ver pássaros típicos do interior alentejano, e depois na sesta praia fluvial.

A calma retornou ao local e conseguimos desfrutar de tranquilidade e despachar alguns livros à beira de água. Na realidade nestas férias vimos imensas aves diferentes e bonitas, como gaios, poupas e até umas abetardas passaram à frente do nosso carro, mas todas se esconderam diligentemente de cada vez que saí de casa de câmera em punho. Terão de acreditar na minha palavra.

O dia seguinte seria novamente de passeio, que ainda havia muitos tesouros escondidos por descobrir, venham até cá para saber tudo.

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Há vestígios de estruturas da mina escondidos por toda a parte
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Apesar do calor, as cores do Outono já se insinuavam.
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O sol a pôr-se nas traseiras da aldeia.

Finalmente, a Mina

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As Oficinas, mesmo à entrada das ruínas da Mina.

E ao terceiro dia seria tempo de descansar? Ainda não.

Ora um dos motivos de interesse de estarmos na Mina de São Domingos é exactamente o que lhe deu o nome. Por isso toca a levantar cedo (mais coisa menos coisa) e ir conhecer as ruínas da Mina, que além de tudo são um local interessantíssimo para fotografar. A mina esteve em laboração muito tempo, mas as edificações que se podem ver pertencem ao período em que foi explorada pela empresa inglesa Mason & Barry, de 1858 a 1966. É também um bom local para observação de aves, principalmente a zona da Achada do Gamo (ficará para outras núpcias)

Se pensarem visitar a mina aconselho alguma investigação prévia. Por exemplo aqui encontram um mapa do local e aqui encontram mais informação. Isso evita que andem como nós, baratas tontas debaixo dum sol escaldante, já que a informação no local é escassa, está dispersa e por vezes em locais pouco intuitivos. Regressámos sem nunca ter visitado a parte que está na Achada do Gamo, mas isso é apenas mais uma razão para voltarmos. Aconselho também calçado confortável. Eu tinha umas sandálias de caminhada e chegou, mas se tivesse ido de havaianas não me tinha dado bem, que o terreno é acidentado e cheio de coisas perigosas. E como sempre, muita água, que o sol alentejano, mesmo em meados de Setembro, não é para brincadeiras.

De resto têm diversos percursos que podem seguir, imensas ruínas interessantes. Fico sempre fascinada a pensar como seria tudo aquilo quando a mina estava em plena laboração e havia um caminho de ferro, uma indústria, importavam-se trabalhadores. Aconselho vivamente uma visita.

À tarde fomos finalmente espreitar a praia fluvial e a aposta foi ganha. Passada a euforia do fim de semana associado a fim de quinzena, ao que se juntou o fim da época balnear, o Peixinho estava no seu elemento, um sítio calmo e com pouca gente. A praia é muito arranjadinha, com chapéus de palha gratuitos à disposição, a água muito limpa e a envolvente bonita. Pessoalmente tinha dispensado a RFM toda a tarde aos berros na esplanada, mas nos dias seguintes fui para uma palhinha mais longe e isso deixou de ser problema. A Tapada Grande, nome dado à albufeira, foi também legado deixado pela empresa mineira, que precisava de muita água para o seu processo de extração de minério.

Mas assim ficámos o resto da tarde pacatamente a retemperar forças. Os próximos dias não iriam ser muito diferentes disto, passadas debaixo das palhinhas a ler preguiçosamente os livros que trouxemos na mala. Venham até cá que conto-vos tudo.

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Um pormenor da zona das oficinas
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A corta, zona que era explorada a céu aberto em diversos patamares e que está hoje cheia de águas ácidas e contaminadas
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Um pormenor da água que enche a corta
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O malacate, engenho hidráulico que servia para retirar água da zona de corte.
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Malacate
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As oficinas
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O cais da mina
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A central eléctrica
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Fim de tarde, recuperar forças na praia fluvial.

Serpa é já ali em cima

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A típica paisagem alentejana que nos acompanhou em todos os passeios.

Como disse no dia anterior, mais uma vez comecei as férias doente. Desta vez, num almoço fora ainda no trabalho apanhei uma virose qualquer que me fez ficar com um piquinho de febre e uma relação muito próxima com todas as casas de banho dos sítios onde íamos parando na viagem. Neste segundo dia acordei mais arrebitada, já sem febre, e pronta a ir rumo a Serpa, para juntar um dia de passeio com as necessárias compras. Mas primeiro faríamos um desvio até ao Pulo do Lobo.

Desde os tempos de faculdade que tinha curiosidade em conhecer este acidente geológico, onde o poderoso Guadiana é estrangulado numa cascata de pouco mais de um metro de largura, tão estreita que um lobo poderia atravessar de um salto, e daí o seu nome. Indo pelo lado de Serpa, como nós fomos, encontramos uma paisagem imponente, mas para chegar à cascata propriamente dita ainda é uma caminhada íngreme por mau caminho. Noutras circunstâncias teríamos ido lá abaixo, mas estava muito calor, estávamos sem água, e ficámos a meio caminho. Mas dava para ver que indo por Mértola se fica mais perto de água. Fica para a próxima. No entanto, valeu muito a pena pelo cenário que encontrámos, dramático, e como estávamos do lado “errado”, tivemos a vantagem de estarmos praticamente sozinhos a desfrutar daquele pedaço de paraíso. Um luxo nos dias que correm.

Paragem seguinte, Serpa. Já era perto da hora de almoço e eu já estava furiosamente a pesquisar restaurantes, acabámos por ir parar ao Alentejano, depois de termos sido rejeitados sem cerimónia pelo Molhó bico, e de eu ter andado a fazer um circuito de WC de cafés pelo centro da vila (todos limpinhos, fiquei impressionada). O Alentejano foi uma categoria, com umas belas bochechas de porco estufadas, que obviamente não devia ter comido, mas fui incapaz de resistir. Ao menos caíram bem. O pão de rala da sobremesa não impressionou, mas se calhar foi pelo meu sentimento de culpa a comê-lo.

Depois foi passear pelo centro de Serpa, o seu Castelo, o aqueduto, caminhar nas muralhas. Vale muito a pena, é muito bonito. O museu no castelo está muito bem conseguido, com um filme explicativo de muita qualidade e que vale a pena perder 5 minutos a ver. É incrível como cada vez mais por este Portugal interior se encontram equipamentos muito bem conseguidos (obrigada fundos comunitários bem aplicados por gente com vontade) que nos ajudam a perceber a nossa história, geologia, biologia. Pena não haver mais gente a desfrutar deles, que na maioria das vezes são gratuitos ou a preços irrisórios.

Depois duma tarde a desmoer bochechas e pão de rala debaixo do sol inclemente do Alentejo, hora de voltar para o ponto de partida. Deixo aqui nota alta para a qualidade das casas de banho, nas quais fui parando frequentemente. Dia seguinte, mais passeata.

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O Pulo do Lobo, aquela garganta estreita ali ao fundo
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As bochechas, deliciosas.
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Hilarião, hilariante. Cada terra com seu santo.
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E com o seu motivo de orgulho.
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Estive tão tentada a usar o elevador. Mas acabei por ter vergonha.
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Uma vista dos telhados circundantes, uns mais criativos que outros.
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Alentejo até perder de vista.
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O interior do Castelo, depois de termos passeado pelas muralhas.
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Cá fora, rodeando Serpa, o Aqueduto. Impressionante.
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Ainda o Aqueduto.

Rumo a Sul

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A igreja da aldeia

Depois de ter começado a ilustrar estas férias exactamente pelo fim, está na altura de voltar ao principio, e esse foi há já algum tempo, mais concretamente um sábado a meio de Setembro.

Finalmente era tempo da última prestação das férias deste ano, e mais uma vez íamos para fora cá dentro. Este ano tínhamos pensado em conhecer zonas novas, e Mértola já há muito que andava na nossa mira. Acabámos por nos decidir por Mina de São Domingos por causa da praia fluvial, já que peixinho que se preze tem de estar ao pé de água.

Como sempre, investigamos a zona previamente, porque faz parte do prazer da viagem, e tracei um plano para as férias, completamente flexível e adaptável ao que fôssemos encontrar e ao que nos apetecesse fazer na altura. Sábado saímos directamente do tai chi para 3 horas de viagem para o remoto interior do baixo Alentejo. A viagem foi muito agradável, o calor de Setembro é mais reconfortante que abrasador e tudo decorreu com tranquilidade, apesar das cegonhas já terem partido.

Mas quando chegámos ao destino esperava-nos uma surpresa. O sitio que antecipavamos que fosse calma e pacatez, estava cheio que nem um ovo. Imaginem conduzir 3h por estradas semi desertas e no fim chegarem à Fonte da Telha num domingo de Agosto. Foi o que nós sentimos. Ainda fomos à esplanada da praia fluvial beber uma água, mas não havia 1 cm de areia disponível, nem vontade de entrar na confusão. A própria água tinha mais pranchas de padel e gaivotas que pessoas.

Teríamos de mudar os planos. O domingo não ia ser passado tranquilamente na praia, até porque supermercado só a 40 km, por isso o dia seguinte seria de passeata.

Por agora, foi voltar para o que seria a nossa casa nos próximos dias e recuperar a forma, até porque pela milionésima vez este ano, estava a começar as férias doente.

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A vista da nossa casa.

Miró e os Livros

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Pormenor duma tela, ou como o Miró afinal conhecia o Peixinho. 

Resolvi começar a contar as minhas aventuras destas férias exactamente pelo fim, que foi o dia de hoje. Depois de uma semana no Alentejo com alguns contratempos pelo meio, esta manhã decidimos ter um tempo cultural. Já que tinha perdido a exposição do Miró em Serralves, desta vez não quis deixar escapar a oportunidade de a ver na Ajuda, por isso foi por lá que começámos o dia.

A exposição não é grande, apesar de ter 85 obras, mas creio que é bastante representativa de vários momentos da evolução deste pintor. O enquadramento dado pelo Palácio da Ajuda é também uma mais valia, uma espécie de casamento entre o antigo e a modernidade. Eu gostei muito, mas também seria difícil não gostar já que sou uma grande fã de Miró desde que via reproduções de quadros dele nas paredes da casa dos meus padrinhos. Por isso, para mim, está sempre associado a boas recordações. Achei também que era adequado no meio de tantas convulsões independentistas catalãs ver um pintor que era conhecido pelo seu orgulho catalão.

Depois da exposição vista, aproveitámos estar na zona para irmos até à Festa do Livro em Belém, mais para aproveitar e conhecer os jardins do Palácio de Belém, onde nunca tínhamos ido, do que propriamente comprar livros. Pelo menos, esse era o propósito inicial, juro que tinha a firme ideia de não comprar nada, mas foi claramente prova não superada. Eu e as pechinchas, ainda para mais quando aliam livros e viagens. Não resisti. Mas gostei muito da iniciativa, os jardins são lindíssimos, o facto de só estarem à venda autores portugueses foi um apontamento muito curioso e pertinente, o ambiente esta óptimo, ainda para mais com o Grupo Dixie da Banda da Armada que nos acompanhou durante todo o tempo que lá estivemos foi um bocado muito bem passado. Se forem ao Instagram do Peixinho vêm um bocadinho da atuação.

Cereja no topo do bolo foi que pudemos sair pelo Jardim Botânico e Tropical e ainda dar um pequenino passeio por lá, desfrutando das sombras e dos recantos escondidos.

A Festa do Livro está só até hoje, mas o Palácio de Belém e o Jardim são visitáveis noutras alturas e eu aconselho vivamente.

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A Festa do Livro, com a banda lá ao fundo.
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Depois vos digo se valeu a pena 😉