Livros Que Recomendo – Turn Right at Machu Picchu

turn right at Machu Picchu

Agora que não sei quando voltarei a viajar, por mais razões que não só o Covid-19, sinto-me sempre com vontade de ler livros sobre viagens, ou recordo recorrentemente livros que li e que gostei. Foi exactamente o caso deste Turn Right at Machu Picchu, que tal como se pode prever pelo nome, é um livro sobre esta cidade perdida nas montanhas do Perú.

Mark Adams é um jornalista, mas não necessariamente um escritor de viagens. Esta foi a sua primeira incursão no género, e não se pode dizer que se tenha saido mal. Em 1911 Hiram Bingham III escalou os Andes e deparou-se com a cidade de Machu Picchu. Figura controversa, anteriormente aclamada como o descobridor da cidade perdida, mas que hoje se vê com outra luz, e do qual se diz que não só ficou com os louros da descoberta, como trouxe consigo imensos artefactos. Mas como todos deveríamos saber, isso era comum na altura, os americanos, ingleses e outros que tais rechearam os seus museus com artefactos que traziam das suas investigações arqueológicas. Não o torna correcto, mas na altura não era condenado, já que o zeitgeist do momento era bem diferente.

Mark Adams resolve refazer o percurso de Bingham pelo Perú até chegar a Machu Picchu e esta é a grande mais valia deste livro. Não tendo grande experiência de caminhada, principalmente em alta montanha, Mark Adams passa por alguns apuros e descreve-os com muito sentido de humor. Os seus encontros com uma cultura que lhe é totalmente desconhecida, causa também alguns momentos muito cómicos. Como li alguém a dizer numa review, se Mark Adams conseguiu fazer este trekking sem qualquer preparação e com um desconhecimento grande sobre a cultura local, então todos nós o conseguimos fazer. Claro que não é assim tão simples, caminhada em altitude não é para todos, e depende sempre das pessoas que partilham a experiência connosco.

No entanto vale muito a pena ler este livro e fazer um bocadinho do caminho Inca nem que seja em livros. Recomendo a todos os amantes de viagens, de conhecer novos locais e culturas, e de livros divertidos.

Até lá, boas leituras e boas viagens.

 

Livros Que Quero Ler – Ilium

Ilium

Há autores que têm um dom especial, e com os quais acabamos por ter uma relação mais próxima que outros, tendo vontade de ler tudo o que escreveram. Comigo esses casos de amor literário vão mudando ao longo do tempo. Se nos meus 20 anos eu lia tudo o que saía de David Lodge, hoje já me sinto mais afastada desse escritor, e novos se impuseram nos meus horizontes, como David Mitchell ou mais recentemente Dan Simmons, autor do fantástico Hyperion Cantos.

Basta olhar para a capa para perceber o toque de Dan Simmons. Tal como como em quase todos os livros da saga Hyperion, também aqui vemos uma criatura (um homem?) de costas com o olhar perdido numa imensa paisagem. Para mim só isso já me dá vontade de agarrar no livro e começar a ler. Depois é clássico Simmons. Passado em Marte, um planeta que foi “terraformado”, ou seja totalmente alterado para conter vida humana, e com ligações aos clássicos, neste caso a mitologia grega.

Apesar de parecer ficção científica pura, estará assim tão longe da realidade quando se estuda a possibilidade de alterar planetas para serem capazes de albergar vida humana? Como se não fosse suficiente termos estragado um, temos de ver se arranjamos mais uns quantos para destruir, ignorando completamente a integridade do que lá existe, seja vida ou não? Há sempre algo para pensar nos livros de ficção científica dignos desse nome, e essa é mais uma das razões que me fazem estar entusiasmada por ler este livro.

Até lá, Boas Leituras!

Acabei de Ler – Uma Educação

educated

Está a ser um ano recheado de livros de não-ficção. Dos 24 lidos até agora, 7 são memórias, livros de viagem e afins. E um dos que estou a ler intermitentemente é outro livro de viagens. Viver a vida por proxi, indicado para os tempos que experienciamos.

Este foi um livro muito difícil de ler, não literariamente falando, mas porque aborda questões complicadas dum modo muito directo e sem rodeios. Educated, em português Uma Educação, é exactamente sobre isso, a educação da protagonista, Tara Westover. Tara nasceu no Idaho, no seio duma familia mormone que acreditava que o fim dos tempos estava próximo e que tinham que se preparar para tal. O pai tinha uma profunda desconfiança do governo, por isso os filhos nunca foram à escola, e Tara só teve direito a uma certidão de nascimento aos 9 anos, e mesmo essa sem certeza da data.

É no meio do negócio de sucata do pai, e de ervanária da mãe que Tara cresce, ajudando um e outro, consciente do seu papel no mundo como mulher e como devota. Tudo isso começa lentamente a mudar quando Tara decide ir para a faculdade e estuda sozinha para o conseguir. Permeando tudo isto temos a doença mental do pai (nunca reconhecida pelo próprio e pelos mais próximos), o fanatismo religioso, e a relação abusiva dum irmão.

Tara é uma pessoa muito especial que habitou um mundo tão diferente do nosso que parece impossível que seja deste século. Mas é, num país ocidental, nos anos 90 e 2000 que se desenrola a acção deste livro. Com internet, telemóveis e todos os confortos modernos, ao lado duma mentalidade do século XIX. Foi um livro muito interessante, mostra muito o impacto que recebemos da nossa família e da nossa educação primordial, mas também o poder de abrir mentes que tem estudar e ler muito.

Recomendo a todos os que gostam de bons livros, com histórias cativantes e de superação, e que gostam de estar bem informados. Livros sobre o nosso poder interior de superação.

Goodreads Review

Boas Leituras!

o início

ondjaki

segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância perdido no tempo. escorreguei no tempo.

nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a aldeia de ynari];

adormeci na aldeia.

ouvi um barulho – era a lesma a sorrir.

o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele coleccionava no quarto ou no coração das mãos.

abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.

Ondjaki in materiais para confecção dum espanador de tristezas

Livros que Recomendo – Lituma nos Andes

llosa

Eu gosto muito de autores sul-americanos, e passei grande parte dos anos 90 a ler obras suas. Um dos meus favoritos é Mario Vargas Llosa, a quem entretanto foi atribuído um prémio Nobel. Llosa é autor duma vasta obra, passada quer no seu Perú Natal, quer na Europa, relatando a experiência de imigrantes latinos.

Este Lituma nos Andes é passado no Perú profundo, em meados dos anos 80 e traça-nos um retrato social a político daquele país, principalmente da violência a que as pequenas comunidades estavam sujeitas, quer pelo Sendero Luminoso, quer por forças governamentais. Uma história duma investigação policial (o desaparecimento de várias pessoas numa comunidade andina) vai-nos mostrar o dia a dia daquela população, as suas dificuldades e o que era viver no Perú dos anos 80. O cabo Lituma e o seu ajudante Tomás serão os responsaveis pela investigação, mas a sua história pessoal terá também um papel relevante na história.

Mario Vargas Llosa é um exímio contador de histórias, e este livro é quase impossível de pousar antes de chegar ao final. Na realidade, fiquei com saudades e com vontade de reler.

Recomendo a todos os que gostam duma boa história, impossível de pousar, de cenários sul-americanos, e de aprender enquanto lêm ficção.

Boas Leituras!

 

As Listas de Livros

livros

Há alturas em que estou em modo furioso de leitura e que a meio de um livro já sei qual vai ser o próximo, e quase que desejo acaba rapidamente um para passar ao outro. Assim se passam muitos meses do ano, numa sucessão vertiginosa de títulos, por vezes sem relação, mas muitas vezes como as cerejas, em que um puxa outro.

Depois há sempre uma altura em que me canso, em que os livros que tinha pensado ler afinal não parecem tão apelativos, em que me apetece uma mudança, ou simplesmente abrandar. Agora, por exemplo, tenho dois livros começados mas sem grande vontade de os continuar, não porque não estou a gostar, mas porque preciso de abrandar o ritmo.

É nestes “tempos mortos” que vou pesquisando aqui e ali novas coisas para ler. Leio outros blogues de livros, sigo editoras, mas uma das minhas grandes inspirações vem do Goodreads. Lá estão sempre livros a ser-me recomendados de acordo com o meu histórico de leitura, e com os livros nas minhas “prateleiras”. Mas quando queremos coisas diferentes, o Goodreads tem uma coisa chamada Listopia, que é basicamente uma lista de listas. Nelas temos imensa coisa, como os livros mais votados de 2020, os melhores livros em português, etc, etc.

As minhas favoritas são sem dúvida a lista dos livros de viagem e a dos livros de natureza. Obviamente que não estou interessada em ler todos os livros da lista, até porque são votados pelos utilizadores e nem sempre são muito científicos, por exemplo, mas encontro sempre ideias novas e coisas que tenho vontade de investigar. Vão até lá espreitar e inspirem-se.

Listopia

Favourite Travel Books

Best Nature Books

Boas Leituras!

Os Amigos

jose tolentino mendonça

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça in “A noite abre meus olhos – Poesia reunida”

Livros que Recomendo – Freakonomics

freakonomics

Tendo formação na área das ciências sempre olhei para a economia como aquela coisa um bocado estranha e aborrecida, própria para contabilistas e gente que vive fechada em escritórios a lidar com números. É claro que isto revela apenas puro desconhecimento sobre a área, e como eu gosto de saber um bocadinho sobre tudo dediquei-me a este Freakonomics, de Steven D. Levitt, que explora um lado diferente da Economia.

Basicamente o que é feito neste livro é aplicar análises estatísticas a conjuntos de números altamente improváveis, e ver o que conseguimos descobrir. Por isso se vêm estudos sobre tráfico de droga, prostituição, mas também educação parental, entre outras coisas relativamente estranhas. Basicamente para mostrar que podemos aplicar análises económicas a variadíssimos aspectos da sociedade, ou pelo menos análises estatísticas robustas.

Tudo isto escrito com muito humor e desenvoltura, para nos permitir entrar em cada assunto de forma eficaz. Não é um livro para ser olhado como um tratado sobre a ciência da economia, mas mais uma espécie de introdução a esse mundo, ou uma maneira de nos fazer pensar sobre diversos aspectos da sociedade e as várias relações de causalidade que podem ser estabelecidas.

Recomendo a todos os amantes de ciências, economia, e mais ainda aos leigos como eu que querem um olhar diferente sobre as coisas.

Até lá, Boas Leituras!

 

Livros que Quero Ler – Ballistic Kiss, Sandman Slim #11

sandman slim 11

Quem segue este estaminé sabe que eu gosto de livros de fantasia, e que fiquei rendida a este heroi de fantasia urbana, o Sandman Slim. Ele é basicamente um tipo porreiro a quem a vida pregou umas partidas. Um daqueles duros de coração mole, que não conseguem deixar de nos cativar. Tem muitos trunfos na manga, nomeadamente a capacidade de se deslocar rapidamente entre sitios distantes, e o ser parte homem parte anjo. Ah, e não esquecer que durante um tempo chegou a ser o “director” do Inferno.

É uma série despretensiosa, bem disposta e com muita, muita acção. Ideal para passar umas horas literalmente noutro mundo, ou numa Los Angeles alternativa. Sem ser uma obra prima literária, entretém e cumpre o seu propósito.

Em Agosto sai o 11º volume, e eu estarei na fila da frente para o ler. Até lá, Boas Leituras!

Prelúdio

patricia Baltazar

Espero vir a conhecer o circuito das nuvens para calçar os passos da chuva e tocar as casas, os Homens. As árvores.

Sempre tive pressa de amar em tudo. De amar tudo. Tratar as feridas, lembrar-me de cicatrizes. Não olhar para trás quando o deserto está na frente. Amá-lo também.

Hei-de estar numa nave altíssima a ver tudo. Espero.

Espero também conhecer o Sol de perto para aquecer o sangue dos que estão tristes.

Hei-de soprar as folhas dos Plátanos, ternamente, muito devagar, para que as crianças lhes peguem e sejam felizes nesse instante. E sempre. Enviar boas sinas para as mãos delas.

Ver a vida da galáxia imensa que existe depois. Chamar a paz.

Espero. Espero a luz chegar.
E espero não voltar.

Patricia Baltazar in A rh — (sanguis languens), 2016