Livros que Recomendo – Os Sotãos Furados

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Hoje venho aqui recomendar um livro que me acompanhou na fase final da minha infância e me fez sonhar. Durante algum tempo tive este livro lá perdido em casa, mas por algum motivo não me puxou a lê-lo. A capa não me dizia nada, e o título também não. Mas um dia lá se devem ter esgotado as novidades e resolvi dar-lhe uma oportunidade, e foi como se um mundo de fantasia se abrisse.

A história é muito simples, mas para a mente duma criança cheia de transgressão e aventura. Centra-se em duas crianças (não me lembro se eram irmãos) que brincam no sótão da sua casa quando um dia são surpreendidos por um barulho nas paredes, e entra-lhes pelo sotão dentro um menino do sotão da casa vizinha.

E isso dá inicio ao abrir dos sótãos, sempre na expectativa de não se saber o que se vai encontrar do outro lado, se mais meninos para brincar, se adultos para terminar a brincadeira, até unirem todos os sotãos da rua inteira e forjarem uma sociedade dominada pelas crianças com regras e reuniões onde o único adulto que entra era o proprietário do sótão cheio de aves.

O objectivo final seria unir toda a cidade através das crianças, e fazer tudo às escondidas dos pais, e lembro-me que sempre que lia esse livro ficava desapontada por não haver sótãos na minha rua.

Infelizmente creio que o livro já não está em circulação, fazia parte duma antiga colecção infanto-juvenil da Verbo, e mesmo em alfarrabista será difícil encontrar. Tenho esperança que o meu exemplar ainda esteja perdido em casa dos meus pais e que o possa passar a uma criança sonhadora que goste de ler. Darei notícia se assim for.

Mas recomendo muito, se conseguirem deitar as mãos a algum exemplar, porque é um pedacinho de sonho em forma de livro.

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Fresh Complaint

Fresh Complaint

Estava com algum receio de ler um livro de contos logo a seguir à mestria de Chekhov, mas na realidade este foi mais um presente do Netgalley e já sou fã deste autor há muitos anos, desde que li o genial Middlesex. Em Midlesex o autor falava-nos de temas tão díspares como a emigração, a revolução sexual, Detroit na era da Proibição, tudo através da saga duma familía de origem grega que culmina em Caliope, um hermafrodita que mais tarde escolhe tornar-se Cal. É uma obra duma grande envergadura, quer em páginas, quer em história, e tenho a certeza que voltarei a ela mais tarde.

Jeffrey Eugenides foi também o autor de Virgens Suicidas, que mais tarde se transformou num também belissimo filme de Sofia Coppola, e um terceiro livro que ainda não tive oportunidade de ler. Tudo isto serviu para que me lançasse de cabeça à oportunidade que o Netgalley estava a oferecer de ler este livro de contos, e que desse pulos de contente quando finalmente me disseram que tinha sido aprovada.

E não fiquei mesmo nada desiludida. Tal como Chekhov, mas num estilo diferente, Eugenides é um mestre a descrever a condição humana, as idiossincrasias dos nossos tempos, a dificuldade de viver nos tempos modernos.

Creio que os meus favoritos foram logo os primeiros contos, e alguns deixaram-me com lágrimas nos olhos. Talvez porque ressoaram com algo cá dentro que está muito próximo da minha realidade, e não consegui ter distanciamento, mas também isso é a marca duma boa prosa. O primeiro, The Complainers, fala de duas amigas que já passaram a flor da idade. Na realidade, estão já bem avançadas naquilo que se convencionou chamar a terceira idade, e a mais velha encontra-se à beira da demência a viver numa residência adaptada à espera do apagão final. Mas o que as une é um livro com a história de duas idosas índias que foram abandonadas pela sua tribo num Inverno particularmente rigoroso e de extrema fome, numa tentativa de poupar recursos. E foram abandonadas não por acaso, mas porque eram as que mais reclamavam do grupo todo. No final são capazes de regressar aos ensinamentos de juventude e sobreviver à fome. Esse livro existe na realidade, e foi escrito por uma nativa americana que nasceu e cresceu no Alasca, e é baseado numa das lendas da sua tribo. O modo como Eugenides o tece na sua história está bastante emocionante, e deu-me vontade de adicionar este livro à minha lista de futuras leituras.

Outro que me emocionou foi The Baster, o terceiro conto, que nos fala duma mulher que chega aos 40 solteira e sem filhos e desesperada por assim ser. Resolve então dar uma festa onde vai escolher um dador para ter um filho por inseminação artificial. Todo o conto se desenvolve à volta das oportunidades perdidas na vida, nos desencontros, em casos mal resolvidos, e a cena em que ela olha os autocarros escolares e vê as crianças que poderiam ter sido suas a acenar-lhe lá de dentro, como se fossem fantasmas, está bastante forte.

No seu todo está um livro bastante conseguido, e apesar das histórias terem sido escritas ao longo de várias décadas, sente-se alguma coesão nos temas. Aconselho a fãs do autor e pessoas que gostam de boas histórias, pouco convencionais.

E com este, já só me faltam 3 livros para o meu objectivo anual do Goodreads. Mais um esforço.

Goodreads Review

 

Livros que Recomendo – Histórias Naturais

Clara Pinto Correia

Hoje, num dia que muita gente está a aproveitar para descansar ou ultimar compras natalícias, eu, que estou alegremente a trabalhar, aproveito para vir mais uma vez recomendar um livro que li há muito tempo e me acompanha o pensamento desde então.

Este livro é um caso um pouco diferente dos anteriores, porque na realidade não morro de amores por esta autora. Já tentei ler outros textos dela mas não me convenceram. No entanto acho este livro uma pequena pérola do bom humor científico.

Tal como o nome indica, o livro agrega uma série de pequenas histórias de todo o “mundo natural”, contadas dum modo muito simples mas muito cativante, recheadas de bom humor, que ao mesmo tempo entretém e ensinam. O objectivo do livro não é tanto dar uma aula de ciências da natureza, mas mais despertar o nosso interesse por pequenas curiosidades do mundo que nos rodeia, para nos podermos aperceber que é mais complexo e interessante do que aquilo que à primeira vista poderíamos pensar.

É claro que o facto de ser bióloga pode ter ajudado para achar este livro engraçado, mas creio que agradará a todo o tipo de pessoas. Apesar de o ter lido há imensos anos, ainda hoje olho para os jacarandás em Lisboa dum modo diferente por saber de onde vieram e que entram em floração todos ao mesmo tempo. Há pequenos contos dentro deste livro que ficaram sempre na minha memória e que ainda hoje partilho em conversas.

Depois, tentei ler romances da mesma autora e já não consegui sentir a mesma empatia, e mesmo O Ovário de Eva achei uma chatice. Este livro foi um grande amor, mas um amor único. Mesmo assim recomendo muito a quem goste de histórias bem contadas sobre o mundo que nos rodeia, com muito bom humor.

O Penúltimo Sandman

Sandman 9

Estamos quase no fim do ano, e eu que pensava que teria despachado todo o Sandman em 2017 vejo essa profecia a não se concretizar. E uma das razões para isso não acontecer, é que depois de ter lido o volume anterior, fabuloso, de ter visto o cortejo fúnebre final, e sabendo que o próximo volume se chama “The Wake“, já não seria surpresa o que iria ocorrer neste livro. E Neil Gaiman sabe disso, e trata-o com a mestria de excelente contador de histórias que é, levando-nos pela mão num crescendo de ansiedade, semelhante ao que eu senti quando li “Crónica de Uma Morte Anunciada” de Gabriel García Márquez. E por isso eu li devagar. Muito devagar, prolongando o mais que podia a vida do senhor dos Sonhos, como se disso dependesse a minha própria vida nocturna.

Todo o tom ominoso do livro está muito bem conseguido, e o ar arrogante com que o Senhor dos Sonhos vai sucessivamente ignorando todos os avisos com que se cruza tornam-no exasperante. Mas na realidade, como sempre, há mais coisas a ocorrer do que aquelas que nos são mostradas na superfície, e o desespero gótico com que Morpheus encara a vida tem um papel tão importante na trama como os acontecimentos que se desenrolam.

É, como sempre, um excelente livro, se bem que por vezes sinto que se tivesse um conhecimento mais profundo de mitologia (grega, nórdica, etc), conseguiria desfrutar melhor das referências que vão sendo apresentadas ao longo da história. A minha fraca memória também não ajuda porque muitas vezes já não sabia exactamente em que contexto tinham aparecido aqueles personagens nos volumes anteriores, mas mesmo assim estive envolvida do principio ao fim.

Aconselho a todos os fãs de Neil Gaiman, de banda desenhada, bonitas histórias e todos aqueles que não têm medo de sonhar.

E com este livro, estou mais perto do objectivo no Goodreads.

Goodreads Review

The Kindly Ones
Daqui

A Beleza de Chekhov

Chekhov

Desta vez o Netgalley proporcionou-me uma incursão à Rússia do final do século XIX pelas mãos de Anton Chekhov, conhecido dramaturgo mas também um belíssimo autor de contos (aclamado por alguns como o mestre da escrita deste género). E é exactamente isso que este “The Beauties” é, um livro cheio de pequenas pérolas que nos enchem de espanto e reflexão.

Estes 13 contos pretendem ser mais do que pequenas histórias, e na realidade são um retrato duma pequena porção da vida das pessoas que os habitam, que não são assim tão importantes enquanto personagens, mas que são fundamentais enquanto documento da mentalidade e sociedade dum país. Neste caso, o interior da Rússia rural do final do século XIX. Eu costumo sublinhar passagens que acho interessantes ou marcantes, e nalguns contos apetecia-me sublinhar quase tudo.

Como sempre percebemos que estamos a ler contos sobre o interior russo mas poderiam bem ser passados em Trás os Montes, ou na América do Sul, porque na realidade a natureza humana é igual em todo o lado, para o melhor e para o pior. Mas é sempre a caricatura do pior que nos faz sorrir.

Dois destes contos marcaram-me especialmente, por razões diferentes. O segundo (The Man in a Box), descreve a figura dum homem que vivia absolutamente espartilhado nos seus pensamentos do que é certo e com isso influencia toda a aldeia onde vive mesmo após a sua morte é absolutamente delicioso e tem paralelismos incriveis com os nossos tempos de viver sob uma ditadura. Um dos seus lemas de vida era: Se não há uma lei a permiti-lo é porque não se pode fazer, que é uma completa subversão da realidade mas que com isso conseguiu subjugar todos os seus pares.

Noutro conto chamado A Blunder, temos um casal escondido atrás da porta a escutar a conversa da filha com um pretendente, e a planear aparecerem com o icone ortodoxo na mão depois do rapaz professar o seu amor, para, segundo a tradição ele ser obrigado a casar. Os pais estavam claramente desesperados para casar a sua filha, não nos é dito porquê, mas quando conseguimos “ouvir” a conversa entre os namorados percebemos que na realidade o rapaz não está assim tão apaixonado e a filha está aborrecida que ele não corresponda às suas expecativas de amor romântico. Quando finalmente os pais saem de icone em punho, triunfantes, e o rapaz se sente encurralado, dá-se o mais divertido twist que dá o nome ao conto, já que em vez do icone, simbolo da tradição e compromisso, trazem o retrato dum artista para grande alivio do “noivo”.

Aconselho muito, principalmente a quem, como eu, não está familiarizado com literatura russa, já que este é com certeza um excelente ponto de entrada. Deixo uma última nota para o tradutor desta versão, Nicolas Pasternak Slater, neto doutro autor russo, Boris Pasternak, que soube manter a autenticidade do discurso.

Goodreads Review

 

Reality upset him, frightened him, kept him in a constant state of alarm; and perhaps it was to justify this timidity on his part, his aversion towards the present time, that he always praised the past, and things which had never been. The ancient languages he taught served essentially the same purpose as his galoshes and umbrella – he used them to hide away from real life. “‘Oh, how resonant, how splendid is the Greek language!’ he used to say with a sweet smile. And as if to demonstrate the truth of his words, he would screw up his eyes, point a finger in the air, and pronounce ‘Anthropos!’ “And Belikov tried to hide his thoughts in a case, too. Nothing seemed clear to him except circulars and newspaper articles prohibiting something. If there was a circular forbidding pupils to go out into the streets after nine at night, or if some article proscribed carnal love, that made sense to him. Those things were forbidden, and that was that. Authorizations and permissions, however, always seemed to him to conceal an element of doubt, something vague and not fully expressed. When there were discussions in town about setting up a drama group, or a reading room, or a tearoom, he would shake his head and quietly say: “‘Well, that’s all well and good, of course, but it might lead to something…’

 

But aren’t we ourselves, living in stuffy towns, in cramped conditions, writing pointless papers, playing at vint – aren’t we living in boxes too? And the way we spend our whole lives surrounded by idle, petty men and vain, stupid women, talking and listening to all sorts of rubbish – isn’t that living in a box?

Livros que Recomendo – As Cinzas de Angela

Angelas Ashes

Este foi mais um daqueles casos dum excelente livro que me veio parar às mãos por empréstimo duma amiga. E como acredito firmemente no princípio de paying it forward, tenho de o recomendar sempre que possível.

Uma das lacunas no meu percurso estudantil é história contemporânea, e a melhor maneira hoje em dia de preencher essa falha é aprender com os livros que leio. Este livro é um retrato autobiográfico duma época muito complicada da história da Irlanda, a altura da Grande Depressão. Frank McCourt era criança nessa altura, filho de pais católicos e pobres, com um pai alcoólico. Tinha nascido na América, mas voltado cedo para os suburbios de Limerick, onde o pai passava mais tempo desempregado e a beber, do que a ajudar a família. Apesar de ser uma vida complicada e cheia de dificuldades, passamos mais tempo com um sorriso nos lábios do que com lágrimas nos olhos, de tal forma é a escrita deste autor.

Este volume concentra-se essencialmente na infância do autor, a sua relação com a família, a escola, as duras dificuldades com a luta diária contra a fome, e o modo como teve de crescer rapidamente para ajudar a sua família a sobreviver. É um retrato duro e muitas vezes difícil de gerir, mas um livro que vale a pena.

Já foi feita uma versão em filme, que ainda não vi, e o autor ainda escreveu mais 2 livros que relatam a sua chegada à América, e a sua carreira como professor, que são também interessantes, mas que lhes falta um pouco da genialidade deste.

Pelo menos mais um dos seus irmãos também seguiu a carreira literária, e ambos lutaram com o alcoolismo durante a sua vida.

Aconselho como testemunho de vida e relato duma época, não tão distante assim.

O Segundo Diário de Michael Palin

Michael Palin Diaries 2

Depois de acabar de ler o primeiro diário do Michael Palin, inexplicavelmente, fiquei com o bichinho tive de passar imediatamente para o segundo. Ajudou o facto de ter descoberto que já o tinha no Kindle. Sim, o meu Kindle é como uma biblioteca gigante duma acumuladora desordenada. Vou pondo para lá os livros que acho que me apetece ler, categorizados em pastas temáticas, e muitas vezes esqueço-me alegremente deles. O que me faz ter surpresas agradáveis muitos meses (ou anos) depois, como foi agora o caso.

Apesar de ter um ritmo menos frenético que o anterior, mais uma vez o senhor Palin é uma fonte de conhecimento interessante, porque através dele vamos observando o desenrolar dos anos 80 em Inglaterra. Ele dá-nos relatos primeiro sobre a guerra das Falklands, e como isso ajudou a consolidar a posição de Margaret Tatcher no poder, depois as greves dos mineiros que vieram abalar toda a nação, mas também vemos pelos seus olhos o inicio do hooliganismo no futebol inglês (quando começa a ser cada vez mais inseguro ir aos jogos do Sheffield Wednesday com os seus dois filhos pré-adolescentes até à tragédia de Heisel Park em 85).

Por outro lado, os seus filhos estão a tornar-se adolescentes, que bebem e fumam e levam amigos para casa que o vão espreitar na cozinha, e vemos como a sua vida familiar seria na realidade tão parecida com a nossa. Apesar de ganhar confortavelmente com os filmes que vai fazendo, continua a conduzir pacatamente o mesmo Mini da década anterior até pelo menos meio da década de oitenta, e quando o troca é sempre por utilitários, longe da ostentação dos Bentleys de John Cleese. Ao mesmo tempo, perto do final dos 80’s, a tragédia abate-se sobre a sua família e a sua reacção é duma certa compostura britânica, tão diferente do nosso sangue latino.

Mas o que eu acho mais interessante é que ele fez muitos filmes e programas televisivos que foram bastante aclamados na altura, alguns ganharam mesmo prémios, e que hoje em dia eu nunca ouvi falar. Eu pensava que para além dos Monty Python, Um Peixe Chamado Vanda e depois os seus livros e programas de viagem ele não tinha feito mais nada de relevo, e isso não é nada assim. Das duas uma, ou eu sou muito desatenta (na realidade era uma criança nesta altura, mas o certo é que Monty Python é anterior e conheço lindamente), ou os projectos que ele protagonizou/escreveu, não aguentaram o teste do tempo.

Entretanto já colmatei algumas dessas falhas e vi alguns episódios de Ripping Yarns no Youtube, incluindo um do qual ele se orgulha particularmente, Roger of the Raj. Gostei, tem um toque de humor inglês bastante refinado, mas falta alguma da loucura Pythoniana.

Mais uma vez recomendo o livro a fãs de biografias e dos Monty Python.

Goodreads Review.

Livros que Recomendo – A Voz dos Deuses

Voz dos Deuses

João Aguiar, na minha modesta opinião, é um escritor português que não tem o destaque que merece. Autor da série infanto-juvenil “O Bando dos Quatro“, que já foi adaptada à televisão pela TVI, este autor foi-me apresentado há muitos anos por uma amiga através do livro “O Homem sem Nome“, que teve um profundo impacto em mim, e que está na lista dos que procuro em alfarrabista para um dia reler.

Mas é outro livro que recomendo hoje, e que acho um dos melhores romances históricos que já li até hoje. A Voz dos Deuses começa por ser um livro passado numa época pouco retratada, quer na literatura, quer mesmo nos currículos escolares e esse é o período pré-romano e da colonização romana. Claro que é difícil falar da história pré-cristã da península ibérica já que se trata duma época largamente não documentada pela escrita, mas não deixa de ser, para mim, das épocas mais fascinantes da nossa história.

E foi essencialmente a este período que João Aguiar se dedicou, começando neste livro que relata a vida de Tongio e através dele podemos seguir Viriato e toda a rebelião das hostes bárbaras contra o invasor romano. Sofremos com eles, torcemos por eles, mesmo sabendo de antemão qual o desfecho, que é bem conhecido de qualquer português. Um livro bastante apaixonante, e com uma escrita muito envolvente, que não me canso de recomendar a quem me queira ouvir. João Aguiar, apesar de escrever ficção, preocupa-se com o rigor histórico e deixa-nos no fim explicações e enquadramentos geográficos para melhor percebermos o livro. Uma verdadeira pérola que significou para mim a entrada no reino deste autor, do qual ainda hoje continuo a comprar livros sempre que os encontro em alfarrabistas.

Recomendo largamente a todos os que gostem de ficção histórica, história de Portugal, ou simplesmente uma história bem contada com bons personagens.

Tyler Ranch

Colorado
Na minha imaginação é assim o rancho onde se passa a acção. 

Uma antiga colega de trabalho que se mudou para outros vôos resolveu juntar a todas as mudanças o seu gosto pela escrita e pegar a sério na coisa. E desde que nos deixou já escreveu um livro, When Life Gets in The Way, que tem tido críticas muito positivas mas que eu ainda não tive oportunidade de ler, e lançou agora um conto mais pequeno, Tyler Ranch, para ser incluido na colectânea natalicia 25 Days of Christmas. Esta novela, mais apimentada, pareceu mais ao meu gosto e cá me chegou às mãos.

O mais engraçado quando se lê um livro escrito por alguém que se conhece é que todas as personagens parecem falar com a mesma voz. E neste caso, a voz da Inês, e isso é uma coisa boa. A Inês é uma pessoa muito positiva e divertida, e isso transparece em todos os diálogos e pensamentos de cada personagem. Eu dei comigo a rir com gosto das parvoíces que o par romântico em questão pensava acerca quer de si próprio, quer um do outro.

A linguagem é fluida, solta, e a leitura faz-se num fôlego. Como é uma novela curtinha a história desenvolve talvez demasiado rápido, mas deixa vontade de ficarmos a conhecer mais das aventuras destes dois, e sobretudo da voz da Inês em novos livros.

Recomendo a quem gostar de romances com uma pontinha de pimenta.

Goodreads Review

O Diário de Michael Palin

Michael Palin

À partida podia parecer que ler um diário pessoal que dura mais de 600 páginas e cobre uma década (de 1969 a 1979) seria tarefa monótona e titânica. Mas quando essa pessoa é o Michael Palin, responsável por alguma da melhor comédia do século XX, na realidade tornou-se um genuíno prazer.

Michael Palin começou a escrever um diário em 1969 como forma de documentar o que se passava na sua vida e de certa forma praticar os seus dotes de escrita, e não parou até hoje. Agora, em vez de escrever uma biografia, editou os seus diários (tem centenas de cadernos escritos à mão) em três volumes, que vão desde 1969 até 1998. Este volume fala da primeira década. Palin é um homem simples, que está nesta altura a tentar construir uma carreira a fazer aquilo que mais gosta, parvoíces, ao mesmo tempo que constrói um casamento, uma família com 3 filhos pequenos, e assiste ao progressivo degradar do seu pai, vítima de Parkinson.

A isto tudo junta-se a ascensão meteórica do fenómeno Python, com a respectiva luta de egos, o posterior desmembramento, o tentar começar uma carreira a solo, e todo o enquadramento sócio-cultural dos anos 70. No fundo, um documento histórico por quem viveu esses anos por dentro, e bastante bem escrito. Michael é não só um comediante, mas também uma pessoa bastante atenta ao que o rodeia, interessado em história e politica, por isso vai também deixando notas no seu diário sobre o que está a acontecer no mundo, em Inglaterra, bem como sobre os livros que está a ler. É desta maneira que podemos acompanhar o caso Watergate, um dos primeiros referendos sobre a permanência do UK na União Europeia, e as sucessivas greves que assolaram a Inglaterra nos anos 70. Na realidade, lemos pérolas como o facto de em 1969 ele estar preocupado que o novo governo venha restaurar a pena de morte no UK, que apenas recentemente tinha sido abolida (1965). Parece incrível que tenha sido abolida apenas 10 anos antes de eu própria ter nascido, mas o mundo é bem menos civilizado do que aquilo que gostamos de acreditar.

Por outro lado podemos também assistir em primeira mão à nem sempre fácil relação de trabalho entre todos os Python, para a qual terão contribuído as diferentes personalidades e modos de lidar com a fama, mas também o problema de alcoolismo de Graham Chapman. No entanto, Palin é sempre um verdadeiro cavalheiro inglês e a maioria das situações podemos apenas inferir já que ele jamais é descortês a referir-se aos seus colegas. Percebemos no entanto a grande amizade que o une a Terry Jones, Terry Gilliam, e mesmo com John Cleese consegue comunicar cordial e  frequentemente, fazendo muitas vezes o papel de mediador entre todos.

Foi também muito interessante poder ler a descrição das filmagens de mitos como o Holy Grail e o Life of Brian, e mesmo o processo criativo que levou até á sua existência. Ficamos com  a sensação que apesar de algumas dificuldades pessoais, como a morte do pai, foram bons tempos, de descoberta do seu lugar no mundo, formação de amizades que ficaram para a vida com nomes que reconhecemos hoje instantaneamente como sendo nomes grandes do entretenimento.

Fiquei com imensa vontade de ler os restantes diários  e rever tudo o que tenho cá em casa dos Monty Python. Entretanto já tenho visto alguns sketches no youtube para matar saudades, deixo-vos aqui um clássico, que é também dos meus favoritos.

Silly Olympics

Boas Leituras!

Goodreads Review