O Terror de Dan Simmons

the terror

Durante várias semanas um colega de trabalho quase diariamente tentava convencer-me a ver esta série que passa correntemente no AMC e eu lá lhe explicava que não sou muito de séries. Entretanto nas férias estava eu à procura de coisas novas para ler e fui ver os títulos do meu novo autor fetiche, Dan Simmons, o mesmo que escreveu Hiperyon e Endimyon, quando encontrei um livro dele chamado, precisamente, The Terror. Mau, estaríamos a falar da mesma coisa?

Ignorei e comecei a ler um Poirot, porque ainda estava a digerir o livro anterior. À noite estava a ver os blogues que sigo quando me deparei com este post no blogue do Nuno onde ele fala exactamente da série e confirma que é baseada no livro do Dan Simmons do mesmo nome. Fiquei rendida, deixei o Poirot de lado, e ataquei o terror.

Se ignorarmos o sobrenatural, este livro, que é uma ficção sobre a expedição de Franklin ao Ártico que se perdeu para sempre, é uma elegia à Lei de Murphy. Tudo o que pode correr mal, vai correr mal. Mas como em muita coisa na vida, o que conta é a jornada até lá chegarmos, e Dan Simmons dá-nos uma jornada e pêras. Ainda não sei como será a série, mas digo-vos que o livro é passado com o coração nas mãos, e as mãos à vez na boca ou no estômago, ora vociferando ora pensando porque raio serão necessários tantos detalhes. Se, como eu, tiverem uma mente muito visual, dificilmente a série terá mais impacto do que a vossa própria imaginação. Mas este autor fez aqui o mesmo que em Hyperion, mantém-nos agarrados às mais de 700 páginas, a ler avidamente, sempre à espera do que vem a seguir, mesmo sabendo em traços largos o que vai acontecer.

Temos também a beleza do elemento das lendas Inuit que são o pano de fundo para muito do fantástico que se passa no livro, e o enchem com uma roupagem mais densa e mais bela do que uma simples história de terror. E por fim, depois do que muito reclamei quando finalizei a saga de Hyperion e Endymion, é bom ver finalmente um livro do Dan Simmons traduzido para português e pode ser que isto crie o interesse necessário para se abrir a porta a mais títulos.

Recomendo a todos os valentes que andam por aí e que gostam de bons livros, que não se deixam impressionar facilmente com descrições muito realistas, e que não sonham de noite com o que leram durante o dia (a mim acontece-me, mas não é necessariamente mau). A todos os que gostam de histórias fortes e fora do comum, e a todos os que gostaram da série.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The sixam ieua knew through their forward-thoughts that when the Tuunbaq’s domain was finally invaded by the pale people — the kabloona — it would be the beginning of the End of Times. Poisoned by the kabloonas’ pale souls, the Tuunbaq would sicken and die. The Real People would forget their ways and their language. Their homes would be filled with drunkenness and despair. Men would forget their kindness and beat their wives. The inua of the children would become confused, and the Real People would lose their good dreams. When the Tuunbaq dies because of the kabloona sickness, the spirit-governors-of-the-sky knew, its cold, white domain will begin to heat and melt and thaw. The white bears will have no ice for a home, so their cubs will die. The whales and walruses will have nowhere to feed. The birds will wheel in circles and cry to the Raven for help, their breeding grounds gone. This is the future they saw. The sixam ieua knew that as terrible as the Tuunbaq was, this future without it — and without their cold world — would be worse.

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Livros que Recomendo – Kitchen Confidential

Kitchen Confidential

Acho que os eventos recentes ditam que eu venha falar deste livro neste momento. Já o tinha posto na minha lista de livros a recomendar, mas um pouco mais lá para a frente, mas infelizmente repensei e vim falar dele agora. Kitchen Confidential, o livro que lançou a carreira de Anthony Bourdain, aquele que até então tinha sido um chef executivo dum restaurante de Manhatan, sem grande história, mas que decidiu, primeiro num artigo de jornal, depois nesta expansão para livro, contar tudo do que sabia das entranhas deste negócio da restauração, com uma clareza e sangue frio que me deixou deslumbrada.

Claro que a maioria das coisas que Anthony Bourdain desvenda neste livro nós intuitivamente sabíamos. Que se um restaurante está às moscas, o melhor é evitá-lo porque a probabilidade de nos servirem comida fresca é muito pequena. Que se a casa-de-banho, que é aquilo que os clientes vêem de certeza, está nojenta, qual a probabilidade de a cozinha, que nós nem vemos, estar limpa e imaculada? Mas mais que todos esses conselhos é o modo como são escritos, e o facto de terem como pano de fundo a sua biografia até então que nos fascina e cativa. O homem sabe escrever e descrever, como tão bem continuou a demonstrar ao longo das suas inúmeras séries televisivas.

É um livro que vale muito a pena, e se só o vão ler agora de certeza que o lerão com uma carga diferente. Quanto ao resto, já muito foi dito na comunicação social nestes últimos dias, e não vale a pena acrescentar muito mais. Na minha humilde opinião, que já tinha comentado cá por casa, ele era uma pessoa melancólica. Era isso que me cativava nele, eu sentia que partilhava com ele uma certa nostalgia por aquilo que já não existe, mesmo que nunca o tenhamos conhecido, o sentimento de perda dum mundo a mudar em muita coisa que não é para melhor. Muitos dos que admiram a sua postura rock n’roll são dos principais militantes da brigada do politicamente correcto que estamos inundados hoje, e nem sequer percebem a ironia. Mas sobretudo, a lição que espero que se tire disto tudo é que quem vê caras não vê corações, e uma vida que nós julgamos idílica (e julgar aqui em todo o sentido da palavra) pode esconder um inferno por trás.

“Conhecer” a figura pública é não conhecer nada, por vezes nem sabemos o que a pessoa ao nosso lado está a passar. Por isso, menos julgamentos e mais compreensão, a começar pelos que estão mesmo ao nosso lado, e a terminar nos que estão na ponta dos dedos do teclado é o que desejo a todos.

De resto, se nunca leram este livro, recomendo que não se arrependem certamente e aprenderão muito sobre restauração. Também aqui quem vê caras não vê corações.

Os Ingleses

l'anglaise

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois de Underwater Breathing, o Netgalley voltou a presentear-me com uma história bonita, difícil, sobre relações complicadas entre pessoas que foram profundamente marcadas por pais com doenças mentais. Novamente uma autora inglesa, desta vez o segundo livro de Helen E. Mundler, autora que eu também não conhecia.

Neste livro seguimos Ella, uma inglesa que vive em Estrasburgo e aí trabalha no meio académico literário. No entanto, como não casou nem tem filhos, nada do que faça poderá satisfazer as ambições da sua mãe para a sua vida. Margaret, a mãe, não teve propriamente um casamento feliz, e ambos os pais de Ella nunca foram muito presentes na sua vida.

Após a morte do pai ela conhece Max, mas terá de resolver muitos dos seus diálogos internos até estar preparada para uma relação.

Esta é a premissa deste livro, que está bem escrito e nos faz pensar mais uma vez no impacto que os pais têm na vida dos seus filhos, mesmo sem querer, mas que nos mostra também o sentimento de abandono que se sente quando se muda de país e já não se pertence bem nem cá nem lá.

Comparando com Underwater Breathing, a sua escrita é um pouco mais confusa e senti que por vezes algumas ideias ficavam a meio. Mas partilhou com este personagens muito bem construídas e das quais tive pena de me separar no final, e obriga os seus leitores a pensar mais, a escavar nas palavras para perceber os significados que estão escondidos por baixo e não nos são dados como papa para bebés, e isso também é muito gratificante.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem contada, forte, e que nutrem como eu um certo carinho por França.

Goodreads Review

In English:

After Underwater Breathing I was again presented with a beautiful yet difficult  story from Netgalley, about complicated relationships between people that were deeply scarred by parents that struggled with mental health issues. Again a British author, another one that I was unfamiliar with.

In this book we follow Ella’s story, an English woman living in Strasbourg where she works in the academic literary world. Unmarried and childless, nothing that she has accomplished will be enough to satisfy her mother’s ambitions for her life. Margaret, her mother, has struggled through an unhappy marriage, and both her and her husband Hugo were in different ways absent from Ella’s upbringing and uninvolved in her life.

When her father passes away she meets Max, however she will have to deal with a lot of her own internal issues before she is ready to commit to a relationship.

This is basically the background story of this very well written book, that makes us think about the impact that the parents have in their children’s lives, even when they don’t mean to, but it also shows us the feeling of not belonging that we have when we move countries, and we are neither here nor there there anymore.

If compared with Underwater Breathing, the writing was a bit more confused and I sometimes felt some ideas were unclear, nonetheless it shared with it some very well constructed characters that I was really sad to part ways in the end and it also forced the readers to think more, and dig deeper in the words to find the hidden meanings that are not just given to us like baby food, and that was very gratifying.

I recommend it to everyone who likes a good story, strong and well told and all those, like me, who cherish France.

 

O Som dum Caracol Selvagem a Comer

sound of a wild snal eating

Foi precisamente este título curioso (ou a sua versão inglesa, the sound of a wild snail eating) que me chamou a atenção quando estava a pesquisar na minha biblioteca de livros digitais e me levou a pegar neste livro. E fiquei alegremente surpreendida com a história que ele tinha para me contar.

Elisabeth Tova Bailey estava de férias na Suíça quando começou a sentir-se doente. Voltou a sua casa nos Estados Unidos e percebeu que tinha um vírus estranho, e esteve doente durante vários anos, passando longos períodos confinada à sua cama. Durante esse tempo o seu companheiro foi um caracol que uma amiga lhe trouxe dum passeio no bosque que rodeava a sua casa, e que começou por viver num vaso de violetas, mas para o qual construíram um terrário muito semelhante ao seu habitat natural.

Isso permitiu a Elisabeth observar o seu mais fiel companheiro quase 24 horas por dia, ajudando-a a passar o tempo que passava isolada ao mesmo tempo que desenvolvia um profundo apreço pelo animal e pela espécie, lendo tudo o que conseguia sobre gastrópodes.

Apesar de ser um livro sobre doença e uma pessoa que está a passar uma fase muito complicada, o tom é sempre muito divertido, esperançoso e informativo. Em altura nenhuma sentimos comiseração ou tristeza. A autora limita-se a contar as coisas como são, e dá-nos apenas os factos que são relevantes para fazer paralelismos entre si própria e o caracol, o seu imobilismo comparado com a capacidade que o animal tinha de percorrer todo o seu habitat, o tempo que não passa para ela excepto quando se perde a observar o seu companheiro de quarto.

Poderíamos à partida pensar que os caracóis não são animais assim tão interessantes, que certamente não dão matéria para encher um livro inteiro, mas este volume cheio de factos, pensamentos e delicadeza vem provar-nos exactamente o contrário. Mostra-nos duma maneira diferente como o homem é mais feliz se estiver de algum modo ligado à natureza, e como a recuperação dum doente é mais fácil se se associarem animais a esse processo. Há mesmo estudos a indicar os benefícios de terrários em pacientes que estão confinados a espaços fechados, restringidos nos movimentos, como modo de ajudar a passar o tempo.

Recomendo a todos os amantes da Natureza, todos os que gostam de livros diferentes, histórias de superação e livros diferentes no geral. Eu pessoalmente fiquei cheia de vontade de ter um caracol de estimação.

Boas Leituras!

Goodreads Review

INCHES FROM MY bed and from each other stood the terrarium and a clock. While life in the terrarium flourished, time ticked away its seconds. But the relationship between time and the snail confused me. The snail would make its way through the terrarium while the hands of the clock hardly moved—so I often thought the snail traveled faster than time. Then, absorbed in snail watching, I’d find that time had flown by, unnoticed. And what about the unfurling of a fern frond? Its pace was undetectable, yet day by day it, too, reached toward its goal.

 

Livros que Recomendo – Justine ou os Infortúnios da Virtude

justine

Quando falei do último livro do José Luís Peixoto, contei um episódio de há alguns anos onde levava este livro num saco quando lhe pedi um autógrafo num exemplar d’Uma Casa na Escuridão. Não me lembro exactamente qual dos dois li primeiro, mas sei que foram semanas de negrume, pois foram dois portentos do lado negro da natureza humana.

Justine é uma moça jovem (seguimos a sua vida dos 12 aos 26 anos), que se esforça muitíssimo para se manter no caminho do bem e da virtude, mas a quem todo a espécie de vilanias e impropérios acontecem. Quanto mais ela se esforça para se manter no bom caminho, mais as pessoas que a rodeiam a enganam, trapaceiam, e abusam da sua ingenuidade e boa vontade para a meter em situações cada vez mais complicadas até ela se ver presa e condenada à morte por um crime que não cometeu.

O Marquês de Sade escreveu este livro em duas semanas enquanto estava preso na Bastilha, num dos seus muitos períodos de encarceramento, e é uma das suas primeiras obras, talvez por isso mais suave que outras (por exemplo 120 Dias de Sodoma, que ainda não consegui ler, nem ver o filme do Pasolini até ao final, apesar das várias tentativas). Há muita obra escrita sobre o Marquês e as suas motivações, sobre se era um génio revolucionário ou um louco sádico (pun intended), mas esse não é o caminho que vou seguir aqui. É muito difícil viver de acordo com normas espartilhadas que não são as nossas, e aderir a princípios que não nos dizem nada. Este livro respira rebeldia e inconformismo e foram mais as partes em que eu estava com um sorriso pelo absurdo da situação do que as que me incomodaram. Mas claro, cada pessoa tem uma sensibilidade diferente e este livro não será certamente para todos.

Para mim foi uma caricatura a um determinado conjunto de valores, a uma hipocrisia instituida e nesse aspecto está muito bem conseguido. O modo como Justine se reencontra com a irmã que teve um percurso exactamente oposto ao seu é muito engraçado e é corolário do que eu disse acima, como se os bons fossem castigados e os maus recompensados neste mundo ao contrário de Sade. Há quem descreva isto como literatura erótica, mas sinceramente não fiquei com essa impressão. A literatura erótica é suposto deixar-nos mais bem dispostos, na minha humilde definição, ou ter um impacto diferente, e não se classifica de erótico apenas por poder ter descrições mais sexuais.

Recomendo a pessoas de mente aberta, sem medos nem preconceitos, nem que se choquem facilmente. Prossigam com cuidado.

Boas Leituras!

 

 

Nevoeiros Nocturnos

night fogs

Num futuro próximo, pós-Brexit, o Reino Unido desmembrou-se e tanto a Escócia como o País de Gales são nações independentes. Gales é uma nação jovem, a ajustar-se à nova soberania conquistada e tem de lidar com um fenómeno climatérico anormal, uns nevoeiros nocturnos que aparecem todas as noites e afectam mentalmente a população, especialmente as pessoas mais vulneráveis. Uma força de intervenção especial constituída por psiquiatras, psicólogos e neurologistas está todas as noites de prevenção para ajudar com os casos mais difíceis e impedir o caos. Mas qual será a verdadeira origem destes nevoeiros?

Esta é a premissa deste livro de Frances Hay, autora virtualmente desconhecida e sobre a qual não consegui encontrar nada a não ser a entrevista que deu ao Algonkian, mas do qual gostei bastante. Nem o livro tinha sido criado ainda no Goodreads, tive de ser eu a fazê-lo, o que classifica este livro como o mais obscuro que tenho lido nos últimos tempos.

Uma mistura entre ficção cientifica e fantasia, com um cenário bastante credível e que foi bastante agradável de ler, um bom esforço considerando que é o livro de estreia da autora. Juntamos a toda a história um americano que é acometido por visões do seu alter ego celta do tempo do Rei Artur, bem como das poucas vezes em que vi a profissão de psiquiatra retratada duma maneira tão dinâmica e digna dum filme de acção e temos a receita para umas horas bem passadas a ler esta história. Mais um título que me chegou à mãos através do Netgalley e mais um duma série de boas apostas que não têm desiludido.

Recomendo a todos os fãs do género.

Goodreads Review

Underwater Breathing

Underwater Breathing

Underwater Breathing foi o mais recente livro do Netgalley que eu terminei de ler e foi impressionante. É por este tipo de oportunidades que gosto tanto de pertencer a esta comunidade e ter acesso a livros que de outro modo nem teria conhecimento.

Neste livro de Cassandra Parkin, uma autora inglesa que já não é nova nestas andanças,  conhecemos Jason, Ella e Mrs. Armitage que vivem numa cidade de Yorkshire perto do mar, mesmo perto da falésia que está lentamente a ser erodida pela força do Mar do Norte, que ameaça levar as suas casas. Também conhecemos outros personagens, com mais ou menos relevância na história, mas estes são os três amigos que fazemos, os três actores principais se quisermos. A história em si não é tremendamente original, apesar de ser forte, mas o modo como o livro está tecido, em duas linhas temporais diferentes, onde tudo nos é desvendado aos poucos e sem concessões, faz com que a história brilhe. O principal aqui são as relações entre as personagens, as suas imperfeições, as suas debilidades face à adversidade, e isso torna o livro mais humano, bonito e credível.

Como pano de fundo temos a doença mental, o alcoolismo e as suas repercussões em toda uma família. Um livro difícil mas bonito que mais uma vez nos faz reflectir na nossa vida e nas nossas escolhas.

Vou ficar com saudades destes três personagens, e desejo-lhes uma vida feliz.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história sobre um tema difícil e muitas vezes tabu.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

Livros que Recomendo – O Mundo de Sofia

Sofia

Já que aflorei filosofia no livro que recomendei a semana passada, nada como abraçar o tema de braços abertos e recomendar este Mundo de Sofia. Sofia é uma adolescente que quando está perto de completar 15 anos começa a receber envelopes com mensagens estranhas (quem és tu, de onde vens, etc), escritos por um filósofo, Alberto, que toma a cargo a sua educação filosófica. Ao mesmo tempo começa a receber postais endereçados a uma rapariga, Hilde, escritos pelo seu pai, e isso vai desencadear uma investigação vertiginosa, já que cada postal leva a uma interrogação filosófica diferente e a um passo mais na história da Filosofia, desde os Pré-Socráticos até ao pós-modernismo.

 Eu, que como já disse aqui um punhado de vezes, venho de uma área de ciências (no secundário estive numa turma especial de Quimicotecnia), por vezes tenho algumas lacunas nestas áreas das humanidades que tento colmatar com os livros que leio. Filosofia é certamente uma dessas áreas, não por falta de esforço da louquinha da minha professora do secundário. Devia ser dificílimo tentar entusiasmar para o pensamento abstracto uma turma tão pseudo-científica como a nossa, em que as experiências e os números dominavam o nosso dia a dia, mas ela fez um esforço titânico, vejo eu agora a esta distância. Em vez de debitar matéria chata, dizia as maiores barbaridades (por exemplo, que tinha um carro místico, um dois cavalos que dava 200 km por hora nas descidas), tudo para solicitar uma resposta das nossas cabeças duras e encetar diálogos acesos nas aulas.

Claro que quando nós próprios temos 15 anos, não somos emocionalmente inteligentes como a Sofia do livro, não vamos com o nosso amigo Alberto em busca das respostas filosóficas para os enigmas da vida, ou os carros que atingem 200km por hora nas descidas, é mais fácil rotular a pessoa que está à nossa frente como louquinha, mas a esta distância o bichinho por gostar de pensar e questionar ficou lá e acompanha-me até hoje.

Este livro é uma pequena pérola, muitos alunos usam como auxiliar nas aulas de tal maneira as coisas aparecem de modo escorreito, simples de entender e , mais importante que tudo, interessante e envolvente. Os ingleses têm uma expressão que resume lindamente: este livro é um page turner.

Recomendo a todos os que gostam dum bom mistério, de filosofia, e de livros que só se conseguem pousar quando se chega ao fim.

Boas Leituras!

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

Livros que Recomendo – A Insustentável Leveza do Ser

Kundera

Já aqui falei levemente deste livro, quando sugeri os cinco melhores livros de amor. Este foi o primeiro que li de Milan Kundera, um autor que apreciei muito durante a minha década dos vintes, que me ajudou a entrar na idade adulta. Ao contrário de alguns que já falei aqui (as Brumas de Avalon, por exemplo) creio que este livro resiste ao passar do tempo e tenho mesmo vontade de o reler.

Por um lado o livro conta-nos a história de Tomas e Teresa, ele um médico, ela uma moça de província que coloca a sua vida e a sua felicidade nas mãos do companheiro. Mas Tomas é um homem livre, incapaz de se prender, e ao mesmo tempo de se libertar. Tem uma relação casual com Sabina, uma sua amiga de longa data, que é muito parecida com ele.

Ao mesmo tempo todo este triângulo amoroso desenrola-se na Checoslováquia no final dos anos 60, na altura da Primavera de Praga  e subsequente invasão russa e isso vem trazer alterações profundas a estas vidas e dinâmicas. Mais uma vez foi-me possível aprender algo da nossa história mundial enquanto lia um livro bem escrito. Está também recheado de filosofia e obriga-nos a reflectir sobre temáticas tão díspares como o peso e a leveza das nossas decisões, o que é que as torna mais difíceis ou mais certas, o impacto que as nossas escolhas têm nos outros, entre outros temas.

Um livro lindíssimo, com uma história de amor esculpida em história, filosofia e política, com pedaços de nós em cada personagem. Deu também origem a um filme delicado, com Juliete Binoche e Daniel Day-Lewis novos e poderosos, com cenas envolventes das quais me lembro até hoje. Enquanto pesquisava para escrever este artigo deparei-me com a versão áudio no Youtube, e eu, que nunca me entusiasmei muito com livros que não em papel/ecrã, fiquei rendida à narração deste senhor que me acompanhou por muitos dias. Definitivamente aconselho a todos os que forem fluentes em inglês, encontram-na aqui.

Recomendo a todos os que gostam de boas histórias, livros com várias camadas, aprender e ler ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

Anyone whose goal is something higher, must expect someday to suffer vertigo.