Livros que Recomendo – O Amor nos Tempos de Cólera

amor nos tempos de colera

Mais um livro de Gabriel García Márquez que venho aqui recomendar, depois dos Cem Anos de Solidão, e da Crónica duma Morte Anunciada. Estes três títulos são, na minha opinião, os melhores de toda a sua bibliografia e uma lição na arte de bem escrever.

Amor nos Tempos de Cólera é uma história de amor. Um amor longo e recheado de dificuldades, como todos os grandes amores costumam ser na literatura. Estes amantes estão desencontrados durante grande parte da sua vida, e é já na velhice que finalmente se reencontram para dar continuação à sua história. É uma bonita história de amor, sem ser um romance lamechas.

O poder deste livro está na escrita poderosa de García Marquéz, no vislumbre que ele nos dá da sociedade colombiana através dos tempos, dos constrangimentos sociais que por vezes ditam as opções de cada um, e que têm efeito na sua vida toda. É um livro maravilhoso e intemporal, que aconselho a todos os amantes de boa literatura.

Boas Leituras!

5 Anos de Peixinho

Feeling Like Reading the Next Volume by Utagawa Kuniyoshi

Sinto que ainda ontem comecei nestas andanças e na realidade o Peixinho já fez 5 anos. Por aqui passaram muitos livros lidos e para ler, muita poesia e algumas viagens. Cada vez menos viagens por causa da pandemia e de um carapauzinho que nem dois anos tem, mas há sempre esperança de retomar em breve.

5 anos em que muitas vezes sinto que escrevo apenas para mim, mas suponho que esse seja o objectivo primeiro de qualquer blog, permitir-nos deitar cá para fora os nossos pensamentos.

Venham mais 5 recheados de livros, viagens e muita poesia!

Boas Leituras!

Acabei de Ler – O Caso do Funeral Fatal, Poirot #31

Poirot 31

Andei a adiar ler este livro porque vi o episódio da série com David Suchet há pouquíssimo tempo. Era com um Michael Fassbender muito novo e foi impossível resistir. Mas isso fez com que não tivesse pegado neste livro, porque a história estava muito fresca. Entretanto cheguei a mais uma daquelas alturas que me apetece ler tudo e não ler nada, e achei que estava na altura de me entreter com um Poirot.

O primeiro choque é que as personagens são ligeiramente diferentes no livro, e as suas relações familiares também, o que me deixou confusa ao início, a tentar seguir tudo direitinho. No entanto, depois de tudo se encaixar na minha cabeça até que fluiu bastante melhor que a versão cinematográfica. Desta vez já sabia sem dúvidas quem tinha cometido o crime, mas isso foi interessante para ir vendo como a Agatha Christie ia deixando pistas subtis, ou tentava desviar a nossa atenção noutra direcção. Muito bem feito.

A história é muito engraçada. A família junta-se toda no funeral do patriarca que estava doente há bastante tempo. A tia lunática, que ninguém vê há 20 anos mas que todos se lembram que tem o condão de dizer as verdades desconfortáveis, refere casualmente que ele foi assassinado. No dia seguinte, ela própria aparece morta na sua casa, num evento com bastante violência. O velho advogado e amigo da família resolve pedir ajuda ao seu amigo Poirot, sabendo que ele será discreto e não manchará o bom nome da família. Poirot é tão discreto na realidade, que mal aparece durante o livro. Este é mais um daqueles em que Christie o quer ver o menos possível, mas isso não diminuiu a coerência da história, que está muito bem construída.

Mais um bom livro da Agatha Christie, desta vez o trigésimo primeiro da saga Poirot. Cada vez mais perto do final, o quadragésimo segundo livro (com alguns de contos pelo meio, que já sei que mais vale passar à frente).

Boas Leituras!

Goodreads Review

5

alberto pimenta

vejo
a pequena suja
a brincar na rua
com os cagalhões dos cães

não digo que seja sublime mas
como tudo
não deixa de ser interessante

alguns
parecem as
galáxias
mais longínquas
ou os berços
de estrelas
Barnard 68
tudo claro
mérito dela
e das suas mãos

gostava também
de ir brincar com ela

mas
quem sou eu para isso
já nenhum poeta o faz
só uma ou outra das 4.370
inspecções-gerais da vida corrente

já nenhum poeta o faz
nem os maiores
nem os simplesmente grandes
e menos ainda os pequenos

já nenhum poeta o faz
Alberto Pimenta, “5.”, De nada

Livros que Quero Ler – O Símbolo Perdido

simbolo perdido

Depois de ter lido Piranesi não tenho andado com cabeça para coisas muito elaboradas. Por um lado, qualquer livro depois daquele vai ser pior por comparação. Por outro, estamos completamente imersos numa distopia na vida real, e estarmos sempre a ser bombardeados com notícias alarmistas não ajuda a ter o cérebro muito preparado para livros muito intrincados. Por tudo isto, ando em busca de livros leves e que se leiam bem. E thrillers são uma boa aposta.

Li o Anjos e Demónios e O Código Da Vinci e achei que eram livros que cumpriam bem o seu propósito, que é entreter. A história é fluida e bem construída, e os temas são interessantes. A escrita é talvez demasiado cinematográfica, percebe-se que a intenção do autor sempre foi ver a história transportada para o grande ecrã, mas não são livros mal escritos. E Robert Langdon é um herói interessante. Por tudo isto já tenho o livro seguinte no meu Kindle, à espera de terminar o livro que estou a ler neste momento (um Poirot, pois claro!), prontinho para me dar umas horas de diversão (571 páginas darão para vários dias, à velocidade que se lê aqui por casa ultimamente). O Símbolo Perdido é o terceiro volume em que Robert Langdon é o protagonista, e depois de Roma e Paris, leva-nos a descobrir os mistérios que se escondem em Washington e a Maçonaria. Vamos ver se entretém.

Até lá, Boas Leituras!

É Tarde

couto

Futuro, passei a idade
De passar a novo rumo:
Preso nesta sociedade
Me consumo.

Ainda me restam restos
De poesia e de coragem?
Não servem pra manifestos
Nem mensagens.

Irão na próxima leva,
Quando o pão for raro e ralo.
Depois, na fome da treva,
Tremo e calo.

Futuro, que queres de mim?
Fechei pra demolição
Escrevo fé, leio fim.
E tu não.

António Manuel Couto Viana in Pátria Exausta

 

Acabei de Ler – Piranesi

piranesi

Keep scrolling if you prefer to read in English

A minha segunda leitura do ano foi a melhor leitura que fiz nos últimos tempos. Acho que este livro vai ficar na minha mente por algum tempo. Descobri este livro porque estava incluído na categoria de Fantasia dos Goodreads Choice Awards, e como gostei imenso do livro anterior desta autora (Jonathan Strange & Mr. Norrel) resolvi arriscar. Como a premissa era um pouco estranha demorei até ter vontade de lhe pegar, mas valeu muito a pena.

Piranesi é um homem que vive numa casa. A casa é o seu mundo. Na realidade a casa é um mundo, com quartos, salas, corredores e átrios infinitos, que se estende até perder de vista. As paredes estão cobertas de estátuas de tamanhos variados, com infinitas representações diferentes, de pessoas, animais, cenas do quotidiano e criaturas míticas. Aprisionado nesta casa está um oceano, rios, pássaros que entram e saem. É importante tomar atenção aos ritmos da natureza, para encontrar comida e escapar às marés violentas que causam inundações. A casa é bondosa e providencia para o seu filho tudo o que ele necessita.

Este é o pano de fundo da história, que é maravilhosa e onde tudo é pensado ao pormenor. Piranesi, o nosso personagem, foi buscar o seu nome a um arquiteto do séc. XVIII que desenhava prisões imaginárias, labirintos incríveis. Mas quem é Piranesi, o que é esta casa, e exactamente quantas pessoas existem no mundo são as questões que vamos descobrir ao longo deste livro.

Uma espécie de fábula sobre o mundo moderno, sobre a relação entre ciência e religião, uma viagem a mundos interiores incríveis, acho que este livro me vai acompanhar muito tempo no meu inconsciente. A ler sentia por vezes uma angústia, aquele frio na barriga que se sente quando lemos um thriller muito bom, porque no fundo, bem no fundo, este até é um mistério policial.

Recomendo a todos os que desejam ler um bom livro em 2021 para focar a mente em realidades diferentes da que vivemos.

Boas Leituras!

Goodreads Review

My second book of 2021 was the best book I’ve read in quite a while. I believe this will stay with me for a long time. I found it as one of the contestants on Goodreads Choice Awards, under fantasy. As I really liked Susanna Clarke’s previous book (Jonathan Strange & Mr. Norrel), I’ve decided to give it a go. At first I thought it was very strange, so it took a while for me to gather the courage to start it, but I am so glad that I did. 

Piranesi is a man that lives in a house, and the house is his whole world. It is no ordinary house, it’s rooms are infinite, the halls endless and the corridors are long and never ending. The walls are covered in statues, big and small, depicting humans, animals and numerous mythical creatures. Trapped in this labyrinth is an ocena with its rivers, fish and birds. The house has infinite kindness and provides for her blessed child, Piranesi. He knows the flow of the tides by heart, and also the paths of the labyrinth. 

This is the background of this beautiful story, where everything was laid out with much detail. Even Piranesi’s name, taken from an eighteenth century architect that drew Imaginary Prisons. But who is Piranesi? How many people are there in the world? What is this house? These are some of the questions we might be able to reply in this book. 

A tale about the modern world, its ideas, the connection between religion and science, this book is also a journey into a beautiful new world. I believe it will stick with me for a long time. While reading I was at some points filled with dread, as if I was reading a thriller. But, all things considered, this might just be a crime novel. 

Recommend it to everyone that wants to read a good book this year. 

Happy Reading!

Poema da Auto-Estrada

antonio gedeao

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chegou aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão

Livros que Recomendo – Os Dragões do Eden

carl sagan

Começo por dizer que este é um livro de ciência de 1977, por isso é provavel que alguns conceitos não tenham envelhecido muito bem. No entanto lembro-me bem de estar sempre fascinada enquanto lia este livro, que me fez pensar a me lançou na leitura de livros de ciência.

Carl Sagan é um conhecido astrónomo que tentou tornar a ciência acessível aos comuns mortais com o seu livro e série Cosmos. No entanto, ainda antes disso tinha escrito este Dragões do Eden, que venceu o prémio Pulitzer em 1978, e onde fala da evolução da inteligência humana.

É a escrita de Carl Sagan que torna este livro tão interessante. O modo como interliga conceitos cientificos com mitos e histórias bem conhecidas da humanidade faz com que esta leitura seja informativa e um verdadeiro prazer. Mesmo que alguns conceitos estejam já desactualizados, dado que ele nos deu uma visão muito geral da evolução humana é provável que apenas falhem questões de pormenor.

Aconselho a todos os que gostam de aprender, pensar e reflectir sobre diferentes aspectos da humanidade.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Ballistic Kiss, Sandman Slim #11

balistic kiss

Keep scrolling if you prefer to read in English.

E foi assim, com um velho amigo, que comecei as leituras de 2021. Já aqui tinha dito, há muitos meses, que este era um dos livros que estava na minha lista. Sandman Slim é uma série de fantasia urbana, com as doses certas de humor e horror, que entretém e diverte. Não sendo uma leitura muito complexa, os personagens estão bem desenvolvidos e as histórias coerentes e bem pensadas. James Stark é o perfeito anti herói. Aos 19 anos é mandado para o Inferno, onde passa 11 anos a tentar sobreviver batalhando com demónios numa arena. Após esse tempo consegue voltar à Terra e a sua missão é vingar-se de quem o mandou para o Inferno. Esse é o ponto de partida para o nosso herói, assassino, nephilim, filho de mãe humana e pai anjo.

Este 11º volume trouxe um abrandamento à história. Após ter voltado de nova incursão no Inferno, James Stark não é bem a mesma pessoa. Torna-se depressivo, e analisa muito as suas acções. E, por isso mesmo, este é talvez dos livros mais fraquinhos da série. Sandman Slim é o monstro que mata monstros, faz primeiro e lida com as consequências depois. Não é personagem que fique valorizada com um monte de auto análise, ou com deambulações sociológicas. Para isso temos outro tipo de livro, mais sério.

Por isso, e apesar da história ter sido sólida e bem construída, foi também aborrecida, e pouco característica. Estará Richard Kadrey, o autor, a chegar ao fim da sua inspiração para a série? É possível. No entanto, apesar da história ficar resolvida, ficou também um teaser para o próximo livro que sairá algures em 2021, e obviamente que eu irei ler.

Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

It was with an old friend that I started my 2021 readings. I’ve previously wrote about this book here, when I told you that it was on my to-read list. Sandman Slim is an urban fantasy series, dark and gritty, with the right amount of humor and horror, fun and entertaining. It is not a difficult read, but the characters are well developed and the plots are cohesive and well thought. James Stark is the perfect anti hero. Age 19 he was sent to Hell by his “friends” and stayed there for 10 years, battling demons and creatures in an arena. He returns to work set on a vengeance and this is the starting point for the adventures of Sandman Slim, part human part angel, a nephilim and an abomination. 

In this book the story slowed down a little. Stark is suffering from PTSD caused by his latest incursion in Hell, is depressed and is always over thinking his actions. This makes this book one of the weakest in the series. We are used to see Sandman Slim as the beast that kills beats, an assassin that acts first and deals with the consequences afterwards, leaving havoc in his path, so this new side of him was not fun. 

Even tough this was a solid and well constructed plot, it was also a bit boring. Richard Kadrey might be loosing his inspiration for this series. Nonetheless, and even though all loose ends were tied, we were also left with a teaser for the upcoming book, that will be released in 2021, and that I will obviously read. 

Until then, Happy Readings!