A Verdade Sobre os Animais

truth about animals

Ou pelo menos alguns.

Em 1822 o Conde Christian Ludwig von Bothmer estava a caçar no seu castelo em Klutz, na Alemanha, quando abateu uma cegonha que trazia consigo algo estranho. O seu longo pescoço trazia atravessado uma longa lança de madeira, cheia de pinturas e gravações que cedo se descobriu serem de origem africana. E só aí se descobriu um enigma milenar. O que acontece às cegonhas que desaparecem todos os Invernos? Até então pensava-se que se transmutavam noutros animais (inclusive humanos), que hibernavam, ou até mesmo que ficavam dormentes no fundo de lagos.

São este tipo de curiosidades que enchem este livro, sobre bichos fofinhos como a cegonha, mas essencialmente sobre os mal amados como os morcegos, os abutres e os sapos. O livro está muito bem escrito, cheio de sentido de humor e se as minhas aulas de História do Pensamento Biológico tivessem tido metade da piada deste livro, eu teria faltado muito menos vezes.

Livros como este, escritos por cientistas (a autora é uma zoóloga da National Geographic com um largo currículo no estudo de preguiças, fundadora da Sociedade para Apreciação das Preguiças), mas bem escritos, com bom humor e recheados de factos que os tornam ao mesmo tempo informativos e interessantes, fazem mais pelo interesse pela ciência do que muitas aulas a que somos obrigados a assistir.

Neste livro vamos encontrar, como já disse, muitas curiosidades sobre pandas e hienas, perceber que as preguiças são afinal um prodígio de adaptação ao meio em que vivem, mas temos também uma lição de História Natural, e como os métodos de investigação evoluíram (e ainda bem) ao longo dos tempos. Devemos muito aos primeiros naturalistas que, aventureiramente, se lançaram em busca de explicações para o mundo que nos rodeia, mas os métodos que eles usavam fazem-nos hoje tremer por dentro. O ilustre cientista Lazzaro Spallanzani, responsável por desmistificar a Teoria de Geração Espontânea e primeiro a estudar a ecolocalização dos morcegos, recorreu a métodos de investigação que tinham tanto de sistemáticos como de assustadores, e muitos morcegos sofreram nas suas mãos. No entanto, o modo como tudo está descrito não pode deixar de nos pôr pelo menos um sorriso nos lábios.

Mas não pensemos que hoje é tudo um mar de rosas, pois se lermos o capítulo sobre os fofíssimos pandas, e o modo como eles estão a ser reproduzidos em cativeiro, em tudo semelhantes às puppy farms que tanto queremos extinguir, em nome de serem usados como moeda de troca em negócios diplomáticos, se calhar vamos pensar duas vezes da próxima vez que quisermos partilhar um vídeo viral daqueles bebés de cativeiro.

Aconselho a todos os que são fãs de National Geographic, natureza, conhecimento, história e sobretudo livros bem escritos que nos façam pensar.

Goodreads Review

Boas Leituras!

There is nothing terminally wrong with these animals that we need to fix; the only thing we need to fix is to give them their home back.” Sarah Bexell agreed. “I really worry that it is wildlife conservation’s way of saying, ‘see, guys, we can do this, we are scientists and we’re fixing this huge biodiversity crisis problem and we can right the wrongs of our entire species by doing these little projects.’ it’s a feelgood story. The public feels good and sits back and eats their potato chips in their la-Z-boys and drives their SUVs, has a five-bedroom house and three kids, and says, ‘Great, those scientists are out there fixing this problem for me,’” she said. “but science is not going to save biodiversity; a shift in human behavior is the only thing that is going to save it. I think there needs to be more effort, first and foremost, in getting the human population under control globally, and for people to start contemplating not being such mass consumers.”

 

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Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Rise of Endymion – O Final do Ciclo

Rise of Endymion

Agora que finalmente terminei os quatro livros que constituem o Hyperion Cantos, fiquei com mais questões do que propriamente coisas resolvidas. E as minhas questões são muito simples. Não tenho dúvidas nenhumas que esta foi a melhor série de ficção científica que eu já li, não só pela sua complexidade temática, que abrange desde biologia a filosofia, religião, política, etc, etc, mas também pela mestria com que foi escrita, já que é uma história alucinante. Apesar de se desenrolar ao longo de quatro grandes livros, raras foram as vezes em que achei que o autor estava a ser repetitivo, ou que o que estava a ser relatado era redundante ou supérfluo.

No entanto isso leva-me a duas questões que para mim são relevantes. Porque é que, sendo estes livros tão bons (e não é apenas a minha opinião, o rating no Goodreads é altíssimo para qualquer dos 4 volumes, e todas as pessoas a quem recomendei tiveram a mesma opinião) nunca foram adaptados para série, filme ou qualquer coisa do género. E, questão 2, como é que não há uma tradução para português, nem sequer português do Brasil. Vi nalguns blogs que do outro lado do Atlântico, já em desespero de causa, alguns amantes de sci-fi se juntaram para fazer uma espécie de tradução caseira e tornar o livro mais acessível a quem não domina inglês.

Porque falando dum modo realista, ler sci-fi em inglês é um acto de amor. Por vezes é difícil perceber se estamos perante uma palavra que simplesmente não conhecemos ou se foi inventada pelo autor (e este inventou imensas palavras e conceitos). Felizmente o Kindle, com o seu dicionário incluído ajuda nessa tarefa, mas os primeiros capítulos são sempre tarefa árdua.

Eu tenho uma opinião em relação a isso, claro. Na minha visão, este autor fala de temas muito desconfortáveis, nomeadamente religião, política, e o modo como determinadas instituições são retratadas (e mesmo a espécie humana) não é propriamente numa luz favorável, o que não agrada numa perspectiva hollywoodesca.

Quanto à tradução para português, o problema é sempre o mesmo. Mercado pequeno, inundado de lugares comuns, em que pouco mais se tem para além de best-sellers garantidos, e ficção científica deve vir no fundo da lista de prioridades. No entanto, sei que mesmo assim há mercado, e há lançamentos a acontecer, por isso fica lançado o desafio. Agora, o que eu achei desta conclusão da história?

Para já foi interessante estar a acabar de ler este livro na Semana Santa, sendo que parte do culminar da acção acontece exactamente durante a Semana Santa. Certo que numa versão futurista e distorcida da igreja, mas interessante mesmo assim. Depois foi bom finalmente perceber ligações que demoraram 4 livros a entender (mas o que raio é o Shrike, sendo a principal delas), e saber o final de histórias paralelas sobre as quais apenas tínhamos tidos vislumbres e suposições. Mas o mais impactante é a mensagem que este livro transmite, que é não só ecológica, já que como sempre o Homem tem como instinto dominar toda a Natureza em que toca em vez de trabalhar colaborativamente com ela, mas também a mensagem mais filosófica.

No fundo neste livro fala-se de escolhas. A mensagem transportada por “Aquela que Ensina“, figura central da história, nova salvadora da humanidade, é incrivelmente simples. Escolhe novamente. Apenas isso. Em cada dia, quando recomeçares a viver, escolhe tudo novamente. Se estás feliz com as tuas escolhas (as tuas crenças o teu emprego, o teu companheiro), valida-as novamente e segue sendo feliz. Se alguma dessas coisas não te preenche, não faz sentido, não se enquadra no teu código de valores, escolhe uma coisa que se coadune melhor contigo. Parece simples, não? Juntamos a isso uma empatia universal por todos os seres vivos, e temos uma receita para o sucesso da nossa espécie.

Se fosse assim tão simples… Aconselho a todos os que gostam de ficção cientifica, e livros que façam pensar enquanto nos contam uma boa história.

Goodreads Review

 

Poirot – O Mistério do Comboio Azul

Poirot

O Peixinho que é só ligeiramente obsessivo compulsivo, começou há algum tempo a ler/reler os livros do Poirot por ordem de publicação. Li bastantes na minha adolescência, da colecção dos Livros do Brasil, mas agora estou a fazê-lo por ordem e na língua original.

No entanto o quinto volume foi tão fraquinho que me levou a fazer uma pausa de quase um ano até ter coragem de retomar. Mas ainda bem que o fiz porque este The Mistery of The Blue Train foi uma revelação.

Tal como o anterior foi escrito num estilo diferente ao que estamos habituados, dá a sensação que a autora andava em fase de experimentação, mas aqui resultou bastante bem. Temos uma longa descrição de vários personagens, cenários e situações e já o livro vai bem adiantado quando Poirot aparece pela primeira vez. Na realidade ele parece um personagem secundário, pouco importante na história, apenas bem visível para nós que o conhecemos tão bem, e isso empresta mais colorido à narrativa.

Seguimos as personagens e as suas motivações em primeira mão, ao invés de acompanharmos a investigação pelos olhos do detective e isso torna mais difícil fazer o que eu sempre faço que é mandar palpites sobre quem é o assassino. Na realidade mandei na mesma, porque isso faz parte do prazer de ler estes livros, mas desta vez estava sempre a mudar de ideias e foi mais difícil prever o raciocínio da Agatha Christie, que ao fim de alguns livros percebe-se que segue sempre mais ou menos o mesmo arco.

No entanto neste caso fomos sempre sendo surpreendidos e quase mesmo até ao final eu ainda não fazia ideia de quem era o assassino ou de como a história iria encontrar o seu desfecho.

Recomendo para fãs do género e pessoas que gostem duma história bem contada. E agora rumo ao próximo volume.

Goodreads Review

Boas leituras!

Trains are relentless things, aren’t they, Monsieur Poirot? People are murdered and die, but they go on just the same. I am talking nonsense, but you know what I mean.”
“Yes, yes, I know. Life is like a train, Mademoiselle. It goes on. And it is a good thing that that is so.”
“Why?”
“Because the train gets to its journey’s end at last, and there is a proverb about that in your language, Mademoiselle.”
“‘Journey’s end in lovers meeting.'” Lenox laughed. “That is not going to be true for me.”
“Yes–yes, it is true. You are young, younger than you yourself know. Trust the train, Mademoiselle, for it is le bon Dieu who drives it.”
The whistle of the engine came again.
“Trust the train, Mademoiselle,” murmured Poirot again. “And trust Hercule Poirot. He knows.

The Golden House – Salman Rushdie

golden house

O terceiro livro do ano foi um que estava ainda no Kindle velho e que tinha que fazer a crítica para o Netgalley. Além disso, apesar de só ter lido um livro dele, Salman Rushdie é um excelente escritor, daqueles que pegam numa história aparentemente normal e a revestem de camada após camada de transcendência, contemporaneidade, urbanidade. É um habitante do tempo presente, com as suas nuances sociopolíticas, e isso permeia a sua escrita.

Este livro é mais um reflexo disso mesmo. Passado em Nova Iorque, na América de Obama, conta-nos a história de um pai e os seus 3 filhos que se vieram refugiar dum passado misterioso na sua Índia natal. A história é contada por um narrador que era um jovem vizinho estudante de cinema, e que vai usar os acontecimentos conturbados deste exílio num guião dum filme.

E assim desde o início sabemos que a história vai correr mal, mas não como nem com quem. E também nem sempre é linear a distinção entre a “realidade” dos nossos personagens e a ficção criada pelo narrador e isso mantém-nos sempre alerta e em tensão.

Tudo isto envolvido numa escrita belíssima, às vezes quase poética. O livro vai todo ele num crescendo que acompanha também a evolução da história recente americana. O final do mandato de Obama, a campanha eleitoral surreal que culmina com a eleição de Trump (aqui brilhantemente equiparado ao Joker), fazendo de Nova Iorque à vez uma Gotham City ou uma Metropolis. O livro está ricamente recheado de referências literárias e cinematográficas, que muitas vezes senti que a minha mente era demasiado pequena para abarcar, mas estava maravilhosamente escrito, envolvente, e eu recomendo seriamente a todos aqueles que, como eu, gostem de usar livros de ficção como veículos para pensar sobre a nossa realidade e actualidade. Deixo-vos com alguns extractos para terem um vislumbre daquilo que lá podem encontrar.

Goodreads Review

Boas leituras!

 

“When I’m done with a book,” she said, “it is also done with me and
moves on. I leave it on a bench in Columbus Park. Maybe the Chinese
people playing cards or Go won’t want my book, the nostalgic
Chinese bowing mournfully at the statue of Sun Yat-sen, but there
are the couples coming out of City Hall with their wedding licenses
and stars in their eyes, wandering for a minute among the cyclists
and the kids, smiling with the knowledge of their newly licensed
love, and I imagine they might like to discover the book, as a gift
from the city to mark their special day, or the book may like to
discover them. In the beginning I was just giving books away. I got
a new book, I gave away an old one. I always keep just seven. But
then I began to find that others were leaving books where I had
left mine and I thought, these are for me. So now I replenish my
library with the random gifts of unknown strangers and I never know
what I will read next, I wait for the homeless books to call out:
you, reader, you are for me. I do not choose what I read anymore. I
am wandering through the discarded stories of the city.”

 

It was a year of two bubbles. In one of those bubbles, the Joker
shrieked and the laugh-track crowds laughed right on cue. In that
bubble the climate was not changing and the end of the Arctic
icecap was just a new real estate opportunity. In that bubble, gun
murderers were exercising their constitutional rights but the
parents of murdered children were un-American. In that bubble, if
its inhabitants were victorious, the president of the neighboring
country to the south which was sending rapists and killers to
America would be forced to pay for a wall dividing the two nations
to keep the killers and rapists south of the border where they
belonged; and crime would end; and the country’s enemies would be
defeated instantly and overwhelmingly; and mass deportations would
be a good thing; and women reporters would be seen to be unreliable
because they had blood coming out of their whatevers; and the
parents of dead war heroes would be revealed to be working for
radical Islam; and international treaties would not have to be
honored; and Russia would be a friend and that would have nothing
whatsoever to do with the Russian oligarchs propping up the Joker’s
shady enterprises; and the meanings of things would change;
multiple bankruptcies would be understood to prove great business
expertise; and three and a half thousand lawsuits against you would
be understood to prove business acumen; and stiffing your
contractors would prove your tough-guy business attitude; and a
crooked university would prove your commitment to education; and
while the Second Amendment would be sacred the First would not be;
so those who criticized the leader would suffer consequences; and
African Americans would go along with it all because what the hell
did they have to lose. In that bubble knowledge was ignorance, up
was down, and the right person to hold the nuclear codes in his
hand was the green-haired white-skinned red-slash-mouthed giggler
who asked a military briefing team four times why using nuclear
weapons was so bad. In that bubble, razor-tipped playing cards were
funny, and lapel flowers that sprayed acid into people’s faces were
funny, and wishing you could have sex with your daughter was funny,
and sarcasm was funny even when what was called sarcasm was not
sarcastic, and lying was funny, and hatred was funny, and bigotry
was funny, and bullying was funny, and the date was, or almost was,
or might soon be, if the jokes worked out as they should, nineteen
eighty-four.

 

Livros que Recomendo – Diário da Bicicleta

Diario da Bicicleta

Logo no início de ter Kindle tive acesso a imensos livros de viagens, ou sobre pessoas que faziam das viagens o seu modo de vida. Como viajar é um dos meus maiores prazeres, a seguir a ler obviamente, eu li avidamente variadíssimos desses livros, enquanto que outros foram ficando por lá esquecidos na pasta do computador (onde muitos permanecem até hoje).

Mas eventualmente num dia algures em 2014 resolvi finalmente pegar neste livro e ver o que o senhor David Byrne tinha para nos dizer sobre a arte de andar de bicicleta, ele que eu só conhecia das canções, como vocalista dos Talking Heads.

E devo dizer que fiquei fascinada. David Byrne vive em Nova Iorque, que deve ser uma das cidades do mundo menos amigas dos ciclistas, e mesmo assim ele dedicou-se desde os anos 90 a pegar na sua bicicleta e pedalar para todo o lado. Não só isso, ele viaja quase sempre com uma bicicleta desdobrável na mala de porão para poder conhecer as cidades para onde vai dum modo mais intimo e profundo.

E este livro é o resultado de todas as reflexões que ele faz depois das suas deambulações por aqui e ali. Mas não se limita a ficar por um tema só, e isso é só o pretexto para nos falar de coisas tão profundas como planeamento urbano, descaracterização das grandes cidades, desertificação dos centros em nome de interesses económicos, tornando-os inseguros e desabitados, até chegarmos a conceitos tão díspares como a arte e o que nos aproxima e afasta em todos os cantos do mundo, da Europa, a África à America.

Foi neste livro que vi pela primeira vez a palavra gentrificação, longe de imaginar que ela estava a chegar à minha cidade, e quando agora vejo as lojas centenárias da Baixa desaparecer para dar lugar a mais um hostel ou mais um café uniformizado enquanto nós moradores somos empurrados cada vez mais para a periferia, até fico com os cabelos em pé.

Aconselho vivamente este livro não só a fãs de Talking Heads, nem a ciclistas temerários (eu não pego numa bicicleta há anos, com grande pena e saudade), mas a todos os que gostam de pontos de vista diferentes, interessados e informados, e que gostam de pensar sobre a nossa sociedade, o rumo que tomamos e o que podemos fazer para evitar o que não gostamos.

Boas Leituras!

Prendas Natalícias

Kindle Paperwhite

Anteriormente alonguei-me bastante sobre as vantagens e desvantagens de ter um Kindle (ou outro e-reader qualquer), mas a realidade é que nesta altura já me seria muito difícil não ter um. A quantidade de portas que me abre (como o Netgalley ou Edelweiss), e a variedade de títulos que disponibiliza, principalmente a alguém que, como eu, lê principalmente em inglês tornam este pequenote numa ferramenta essencial.

Tendo em conta a provecta idade do meu Kindle anterior e o facto de que a bateria já estava a dar sinais de querer descanso, o senhor Peixinho Vermelho resolveu obsequiar-me com um novíssimo Kindle Paperwhite este Natal (e aniversário, e se calhar por vários anos).

Claro que como bom Peixinho estou aqui cheia de pena do velhinho que me foi tão fiel durante estes quase 6 anos, ao mesmo tempo que estou cheia de excitação para experimentar o brinquedo novo e explorar todas as suas potencialidades. Uma das maravilhas que este tem é que já traz uma luz incorporada, por isso acabaram-se as noites a ler com uma lanterna de mola agarrada ao Kindle, ou (pior ainda), com a lanterna do telemóvel apontada ao ecrã. Sim, é verdade, isso aconteceu algumas vezes, e durante mais horas do que vou admitir aqui.

Como a capa protectora que encomendei demorou a chegar (e autocarros da Carris são ambientes hostis a tecnologia desprotegida) a rodagem está a ser feita pelo próprio obsequiador do presente, que estas coisas têm que ter um test drive como deve ser. Mas em breve darei notícias do comportamento do bicho novo.

Boas Leituras!

A Beleza de Chekhov

Chekhov

Desta vez o Netgalley proporcionou-me uma incursão à Rússia do final do século XIX pelas mãos de Anton Chekhov, conhecido dramaturgo mas também um belíssimo autor de contos (aclamado por alguns como o mestre da escrita deste género). E é exactamente isso que este “The Beauties” é, um livro cheio de pequenas pérolas que nos enchem de espanto e reflexão.

Estes 13 contos pretendem ser mais do que pequenas histórias, e na realidade são um retrato duma pequena porção da vida das pessoas que os habitam, que não são assim tão importantes enquanto personagens, mas que são fundamentais enquanto documento da mentalidade e sociedade dum país. Neste caso, o interior da Rússia rural do final do século XIX. Eu costumo sublinhar passagens que acho interessantes ou marcantes, e nalguns contos apetecia-me sublinhar quase tudo.

Como sempre percebemos que estamos a ler contos sobre o interior russo mas poderiam bem ser passados em Trás os Montes, ou na América do Sul, porque na realidade a natureza humana é igual em todo o lado, para o melhor e para o pior. Mas é sempre a caricatura do pior que nos faz sorrir.

Dois destes contos marcaram-me especialmente, por razões diferentes. O segundo (The Man in a Box), descreve a figura dum homem que vivia absolutamente espartilhado nos seus pensamentos do que é certo e com isso influencia toda a aldeia onde vive mesmo após a sua morte é absolutamente delicioso e tem paralelismos incriveis com os nossos tempos de viver sob uma ditadura. Um dos seus lemas de vida era: Se não há uma lei a permiti-lo é porque não se pode fazer, que é uma completa subversão da realidade mas que com isso conseguiu subjugar todos os seus pares.

Noutro conto chamado A Blunder, temos um casal escondido atrás da porta a escutar a conversa da filha com um pretendente, e a planear aparecerem com o icone ortodoxo na mão depois do rapaz professar o seu amor, para, segundo a tradição ele ser obrigado a casar. Os pais estavam claramente desesperados para casar a sua filha, não nos é dito porquê, mas quando conseguimos “ouvir” a conversa entre os namorados percebemos que na realidade o rapaz não está assim tão apaixonado e a filha está aborrecida que ele não corresponda às suas expecativas de amor romântico. Quando finalmente os pais saem de icone em punho, triunfantes, e o rapaz se sente encurralado, dá-se o mais divertido twist que dá o nome ao conto, já que em vez do icone, simbolo da tradição e compromisso, trazem o retrato dum artista para grande alivio do “noivo”.

Aconselho muito, principalmente a quem, como eu, não está familiarizado com literatura russa, já que este é com certeza um excelente ponto de entrada. Deixo uma última nota para o tradutor desta versão, Nicolas Pasternak Slater, neto doutro autor russo, Boris Pasternak, que soube manter a autenticidade do discurso.

Goodreads Review

 

Reality upset him, frightened him, kept him in a constant state of alarm; and perhaps it was to justify this timidity on his part, his aversion towards the present time, that he always praised the past, and things which had never been. The ancient languages he taught served essentially the same purpose as his galoshes and umbrella – he used them to hide away from real life. “‘Oh, how resonant, how splendid is the Greek language!’ he used to say with a sweet smile. And as if to demonstrate the truth of his words, he would screw up his eyes, point a finger in the air, and pronounce ‘Anthropos!’ “And Belikov tried to hide his thoughts in a case, too. Nothing seemed clear to him except circulars and newspaper articles prohibiting something. If there was a circular forbidding pupils to go out into the streets after nine at night, or if some article proscribed carnal love, that made sense to him. Those things were forbidden, and that was that. Authorizations and permissions, however, always seemed to him to conceal an element of doubt, something vague and not fully expressed. When there were discussions in town about setting up a drama group, or a reading room, or a tearoom, he would shake his head and quietly say: “‘Well, that’s all well and good, of course, but it might lead to something…’

 

But aren’t we ourselves, living in stuffy towns, in cramped conditions, writing pointless papers, playing at vint – aren’t we living in boxes too? And the way we spend our whole lives surrounded by idle, petty men and vain, stupid women, talking and listening to all sorts of rubbish – isn’t that living in a box?

O Segundo Diário de Michael Palin

Michael Palin Diaries 2

Depois de acabar de ler o primeiro diário do Michael Palin, inexplicavelmente, fiquei com o bichinho tive de passar imediatamente para o segundo. Ajudou o facto de ter descoberto que já o tinha no Kindle. Sim, o meu Kindle é como uma biblioteca gigante duma acumuladora desordenada. Vou pondo para lá os livros que acho que me apetece ler, categorizados em pastas temáticas, e muitas vezes esqueço-me alegremente deles. O que me faz ter surpresas agradáveis muitos meses (ou anos) depois, como foi agora o caso.

Apesar de ter um ritmo menos frenético que o anterior, mais uma vez o senhor Palin é uma fonte de conhecimento interessante, porque através dele vamos observando o desenrolar dos anos 80 em Inglaterra. Ele dá-nos relatos primeiro sobre a guerra das Falklands, e como isso ajudou a consolidar a posição de Margaret Tatcher no poder, depois as greves dos mineiros que vieram abalar toda a nação, mas também vemos pelos seus olhos o inicio do hooliganismo no futebol inglês (quando começa a ser cada vez mais inseguro ir aos jogos do Sheffield Wednesday com os seus dois filhos pré-adolescentes até à tragédia de Heisel Park em 85).

Por outro lado, os seus filhos estão a tornar-se adolescentes, que bebem e fumam e levam amigos para casa que o vão espreitar na cozinha, e vemos como a sua vida familiar seria na realidade tão parecida com a nossa. Apesar de ganhar confortavelmente com os filmes que vai fazendo, continua a conduzir pacatamente o mesmo Mini da década anterior até pelo menos meio da década de oitenta, e quando o troca é sempre por utilitários, longe da ostentação dos Bentleys de John Cleese. Ao mesmo tempo, perto do final dos 80’s, a tragédia abate-se sobre a sua família e a sua reacção é duma certa compostura britânica, tão diferente do nosso sangue latino.

Mas o que eu acho mais interessante é que ele fez muitos filmes e programas televisivos que foram bastante aclamados na altura, alguns ganharam mesmo prémios, e que hoje em dia eu nunca ouvi falar. Eu pensava que para além dos Monty Python, Um Peixe Chamado Vanda e depois os seus livros e programas de viagem ele não tinha feito mais nada de relevo, e isso não é nada assim. Das duas uma, ou eu sou muito desatenta (na realidade era uma criança nesta altura, mas o certo é que Monty Python é anterior e conheço lindamente), ou os projectos que ele protagonizou/escreveu, não aguentaram o teste do tempo.

Entretanto já colmatei algumas dessas falhas e vi alguns episódios de Ripping Yarns no Youtube, incluindo um do qual ele se orgulha particularmente, Roger of the Raj. Gostei, tem um toque de humor inglês bastante refinado, mas falta alguma da loucura Pythoniana.

Mais uma vez recomendo o livro a fãs de biografias e dos Monty Python.

Goodreads Review.

Tyler Ranch

Colorado
Na minha imaginação é assim o rancho onde se passa a acção. 

Uma antiga colega de trabalho que se mudou para outros vôos resolveu juntar a todas as mudanças o seu gosto pela escrita e pegar a sério na coisa. E desde que nos deixou já escreveu um livro, When Life Gets in The Way, que tem tido críticas muito positivas mas que eu ainda não tive oportunidade de ler, e lançou agora um conto mais pequeno, Tyler Ranch, para ser incluido na colectânea natalicia 25 Days of Christmas. Esta novela, mais apimentada, pareceu mais ao meu gosto e cá me chegou às mãos.

O mais engraçado quando se lê um livro escrito por alguém que se conhece é que todas as personagens parecem falar com a mesma voz. E neste caso, a voz da Inês, e isso é uma coisa boa. A Inês é uma pessoa muito positiva e divertida, e isso transparece em todos os diálogos e pensamentos de cada personagem. Eu dei comigo a rir com gosto das parvoíces que o par romântico em questão pensava acerca quer de si próprio, quer um do outro.

A linguagem é fluida, solta, e a leitura faz-se num fôlego. Como é uma novela curtinha a história desenvolve talvez demasiado rápido, mas deixa vontade de ficarmos a conhecer mais das aventuras destes dois, e sobretudo da voz da Inês em novos livros.

Recomendo a quem gostar de romances com uma pontinha de pimenta.

Goodreads Review