A Maldição de Hill House

hauting of hill house

Depois de ter lido We Have Always Lived in the Castle desta autora fiquei com o bichinho de ler mais livros. O escolhido para ser o seguinte era o também muito aclamado The Lottery, mas entretanto li um artigo onde escritores que eu prezo (Neil Gaiman e Dan Simmons) diziam que esta Maldição de Hill House era dos livros mais assustadores que já tinham lido, e como o tinha no meu kindle decidi imediatamente que seria a minha leitura seguinte.

Eu tenho particular aversão a filmes de terror, na realidade nem sequer consigo ver nenhum, mas com livros isso não acontece, leio qualquer género, e o pior que pode acontecer é incorporar a história do livro nos meus sonhos, mas isso sinceramente acontece com qualquer livro (passei noites sem fim a bordo dum navio quando li O Terror). Foi por isso que abracei corajosamente a leitura desta mansão assombrada sem olhar para trás.

O começo é bastante interessante, logo a frase de abertura determina qual vai ser o rumo da história. A personagem que nos acompanha, Eleanor Vance, é deliciosa e remete-nos imediatamente para Merricat Blackwood, a personagem principal de “Sempre Vivemos no Castelo”, e de algum modo estranho eu relacionei-me bastante com ela e com os seus modos bizarros. Acho que é este modo peculiar de ter uma vida paralela a decorrer dentro da cabeça para onde nos retiramos quando o que se passa cá fora nos agride ou simplesmente nos aborrece. No entanto, descansem os amigos (e marido) que lêem este blog, estou a anos luz de qualquer uma das duas personagens (acho eu…)

Mas esta “casa dos espíritos” é na realidade um livro bastante interessante porque nada nos é dito, nada nos é mostrado, tudo é insinuado e a linha que separa a ficção da realidade é bastante ténue. De tudo o que está a acontecer, o que é que está realmente a acontecer, e o que é que pertence apenas ao domínio da imaginação de uma ou de todas as personagens?

Shirley jackson é exímia a descrever pessoas perturbadas, complicadas, mas cheias de doçura e com as quais criamos imensa empatia. Qualquer um dos habitantes iniciais da casa são nossos amigos e nós preocupamo-nos genuinamente com o destino deles.

Eleanor Vance é das personagens mais deliciosas com que me cruzei este ano, e eu aconselho este livro a todos os que não se impressionam facilmente e gostam de ler histórias que os deixam a questionar o que se passa. Se lerem a edição da Penguin, como eu, aconselho a lerem a introdução no fim, sob pena de ficarem a conhecer toda a história, incluindo o final, antes de entrarem no próprio livro. Nunca vi tamanho spoiler ser chamado de introdução, e felizmente parei a tempo.

O livro teve também duas adaptações para filme, uma logo em 1963, e outra em 1999. A primeira não vi mas é considerado por muitos um filme de culto e um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. A segunda é ela própria uma sessão de terror pelo modo infantil como assassinou a história original. Vejam por vossa conta e risco.

Goodreads Review

Boas leituras!

No live organism can continue for long to exist sanely under conditions of absolute reality; even larks and katydids are supposed, by some, to dream.

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Orçamento Participativo 2018 – eLivro

orcamento

 

Este ano no orçamento participativo há uma proposta que pode agradar a todos aqueles que gostam de ler e que querem ver a literatura mais acessível a todos. Tomámos conhecimento dela através dum post do blog do Projecto Adamastor, aqui, que já prima ele próprio por tornar acessíveis títulos portugueses que estão em domínio público, no formato digital. Eu própria já li alguns livros de lá, e continuo com alguns no Kindle em lista de espera.

Mas este projecto do orçamento participativo vai mais além e prevê que as bibliotecas possam disponilibilizar gratuitamente para empréstimo eBooks, tendo mesmo ereaders e tablets para empréstimo a quem os solicitar.

Nos Estados Unidos, por exemplo, onde há uma cultura de utilização de bibliotecas públicas muito superior à nossa e é mesmo o recurso mais utilizado pelos leitores, isto é já prática comum, e há apps especializadas, como Overdrive e Libby, que nos mandam o livro que requisitámos para o Kindle (ou qualquer ereader, tablet ou app no telemóvel) assim que fica disponível, e o “devolve” à biblioteca quando expiram os 15 dias regulamentares.

Acho que ainda estaremos a anos luz duma realidade tão simples como esta (eu ainda não consigo comprar livros portugueses facilmente para o meu kindle, de tal maneira vêm protegidos com protecções bacocas), mas fico esperançosa que este seja um primeiro passo para tornar os livros mais acessiveis a todos, principalmente aqueles que não vivem nas grandes cidades.

Se quiserem votar, podem fazê-lo aqui. Eu já votei.

 

O Terror de Dan Simmons

the terror

Durante várias semanas um colega de trabalho quase diariamente tentava convencer-me a ver esta série que passa correntemente no AMC e eu lá lhe explicava que não sou muito de séries. Entretanto nas férias estava eu à procura de coisas novas para ler e fui ver os títulos do meu novo autor fetiche, Dan Simmons, o mesmo que escreveu Hiperyon e Endimyon, quando encontrei um livro dele chamado, precisamente, The Terror. Mau, estaríamos a falar da mesma coisa?

Ignorei e comecei a ler um Poirot, porque ainda estava a digerir o livro anterior. À noite estava a ver os blogues que sigo quando me deparei com este post no blogue do Nuno onde ele fala exactamente da série e confirma que é baseada no livro do Dan Simmons do mesmo nome. Fiquei rendida, deixei o Poirot de lado, e ataquei o terror.

Se ignorarmos o sobrenatural, este livro, que é uma ficção sobre a expedição de Franklin ao Ártico que se perdeu para sempre, é uma elegia à Lei de Murphy. Tudo o que pode correr mal, vai correr mal. Mas como em muita coisa na vida, o que conta é a jornada até lá chegarmos, e Dan Simmons dá-nos uma jornada e pêras. Ainda não sei como será a série, mas digo-vos que o livro é passado com o coração nas mãos, e as mãos à vez na boca ou no estômago, ora vociferando ora pensando porque raio serão necessários tantos detalhes. Se, como eu, tiverem uma mente muito visual, dificilmente a série terá mais impacto do que a vossa própria imaginação. Mas este autor fez aqui o mesmo que em Hyperion, mantém-nos agarrados às mais de 700 páginas, a ler avidamente, sempre à espera do que vem a seguir, mesmo sabendo em traços largos o que vai acontecer.

Temos também a beleza do elemento das lendas Inuit que são o pano de fundo para muito do fantástico que se passa no livro, e o enchem com uma roupagem mais densa e mais bela do que uma simples história de terror. E por fim, depois do que muito reclamei quando finalizei a saga de Hyperion e Endymion, é bom ver finalmente um livro do Dan Simmons traduzido para português e pode ser que isto crie o interesse necessário para se abrir a porta a mais títulos.

Recomendo a todos os valentes que andam por aí e que gostam de bons livros, que não se deixam impressionar facilmente com descrições muito realistas, e que não sonham de noite com o que leram durante o dia (a mim acontece-me, mas não é necessariamente mau). A todos os que gostam de histórias fortes e fora do comum, e a todos os que gostaram da série.

Boas Leituras!

Goodreads Review

The sixam ieua knew through their forward-thoughts that when the Tuunbaq’s domain was finally invaded by the pale people — the kabloona — it would be the beginning of the End of Times. Poisoned by the kabloonas’ pale souls, the Tuunbaq would sicken and die. The Real People would forget their ways and their language. Their homes would be filled with drunkenness and despair. Men would forget their kindness and beat their wives. The inua of the children would become confused, and the Real People would lose their good dreams. When the Tuunbaq dies because of the kabloona sickness, the spirit-governors-of-the-sky knew, its cold, white domain will begin to heat and melt and thaw. The white bears will have no ice for a home, so their cubs will die. The whales and walruses will have nowhere to feed. The birds will wheel in circles and cry to the Raven for help, their breeding grounds gone. This is the future they saw. The sixam ieua knew that as terrible as the Tuunbaq was, this future without it — and without their cold world — would be worse.

Os Ingleses

l'anglaise

Keep scrolling if you prefer to read in English

Depois de Underwater Breathing, o Netgalley voltou a presentear-me com uma história bonita, difícil, sobre relações complicadas entre pessoas que foram profundamente marcadas por pais com doenças mentais. Novamente uma autora inglesa, desta vez o segundo livro de Helen E. Mundler, autora que eu também não conhecia.

Neste livro seguimos Ella, uma inglesa que vive em Estrasburgo e aí trabalha no meio académico literário. No entanto, como não casou nem tem filhos, nada do que faça poderá satisfazer as ambições da sua mãe para a sua vida. Margaret, a mãe, não teve propriamente um casamento feliz, e ambos os pais de Ella nunca foram muito presentes na sua vida.

Após a morte do pai ela conhece Max, mas terá de resolver muitos dos seus diálogos internos até estar preparada para uma relação.

Esta é a premissa deste livro, que está bem escrito e nos faz pensar mais uma vez no impacto que os pais têm na vida dos seus filhos, mesmo sem querer, mas que nos mostra também o sentimento de abandono que se sente quando se muda de país e já não se pertence bem nem cá nem lá.

Comparando com Underwater Breathing, a sua escrita é um pouco mais confusa e senti que por vezes algumas ideias ficavam a meio. Mas partilhou com este personagens muito bem construídas e das quais tive pena de me separar no final, e obriga os seus leitores a pensar mais, a escavar nas palavras para perceber os significados que estão escondidos por baixo e não nos são dados como papa para bebés, e isso também é muito gratificante.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem contada, forte, e que nutrem como eu um certo carinho por França.

Goodreads Review

In English:

After Underwater Breathing I was again presented with a beautiful yet difficult  story from Netgalley, about complicated relationships between people that were deeply scarred by parents that struggled with mental health issues. Again a British author, another one that I was unfamiliar with.

In this book we follow Ella’s story, an English woman living in Strasbourg where she works in the academic literary world. Unmarried and childless, nothing that she has accomplished will be enough to satisfy her mother’s ambitions for her life. Margaret, her mother, has struggled through an unhappy marriage, and both her and her husband Hugo were in different ways absent from Ella’s upbringing and uninvolved in her life.

When her father passes away she meets Max, however she will have to deal with a lot of her own internal issues before she is ready to commit to a relationship.

This is basically the background story of this very well written book, that makes us think about the impact that the parents have in their children’s lives, even when they don’t mean to, but it also shows us the feeling of not belonging that we have when we move countries, and we are neither here nor there there anymore.

If compared with Underwater Breathing, the writing was a bit more confused and I sometimes felt some ideas were unclear, nonetheless it shared with it some very well constructed characters that I was really sad to part ways in the end and it also forced the readers to think more, and dig deeper in the words to find the hidden meanings that are not just given to us like baby food, and that was very gratifying.

I recommend it to everyone who likes a good story, strong and well told and all those, like me, who cherish France.

 

Nevoeiros Nocturnos

night fogs

Num futuro próximo, pós-Brexit, o Reino Unido desmembrou-se e tanto a Escócia como o País de Gales são nações independentes. Gales é uma nação jovem, a ajustar-se à nova soberania conquistada e tem de lidar com um fenómeno climatérico anormal, uns nevoeiros nocturnos que aparecem todas as noites e afectam mentalmente a população, especialmente as pessoas mais vulneráveis. Uma força de intervenção especial constituída por psiquiatras, psicólogos e neurologistas está todas as noites de prevenção para ajudar com os casos mais difíceis e impedir o caos. Mas qual será a verdadeira origem destes nevoeiros?

Esta é a premissa deste livro de Frances Hay, autora virtualmente desconhecida e sobre a qual não consegui encontrar nada a não ser a entrevista que deu ao Algonkian, mas do qual gostei bastante. Nem o livro tinha sido criado ainda no Goodreads, tive de ser eu a fazê-lo, o que classifica este livro como o mais obscuro que tenho lido nos últimos tempos.

Uma mistura entre ficção cientifica e fantasia, com um cenário bastante credível e que foi bastante agradável de ler, um bom esforço considerando que é o livro de estreia da autora. Juntamos a toda a história um americano que é acometido por visões do seu alter ego celta do tempo do Rei Artur, bem como das poucas vezes em que vi a profissão de psiquiatra retratada duma maneira tão dinâmica e digna dum filme de acção e temos a receita para umas horas bem passadas a ler esta história. Mais um título que me chegou à mãos através do Netgalley e mais um duma série de boas apostas que não têm desiludido.

Recomendo a todos os fãs do género.

Goodreads Review

Underwater Breathing

Underwater Breathing

Underwater Breathing foi o mais recente livro do Netgalley que eu terminei de ler e foi impressionante. É por este tipo de oportunidades que gosto tanto de pertencer a esta comunidade e ter acesso a livros que de outro modo nem teria conhecimento.

Neste livro de Cassandra Parkin, uma autora inglesa que já não é nova nestas andanças,  conhecemos Jason, Ella e Mrs. Armitage que vivem numa cidade de Yorkshire perto do mar, mesmo perto da falésia que está lentamente a ser erodida pela força do Mar do Norte, que ameaça levar as suas casas. Também conhecemos outros personagens, com mais ou menos relevância na história, mas estes são os três amigos que fazemos, os três actores principais se quisermos. A história em si não é tremendamente original, apesar de ser forte, mas o modo como o livro está tecido, em duas linhas temporais diferentes, onde tudo nos é desvendado aos poucos e sem concessões, faz com que a história brilhe. O principal aqui são as relações entre as personagens, as suas imperfeições, as suas debilidades face à adversidade, e isso torna o livro mais humano, bonito e credível.

Como pano de fundo temos a doença mental, o alcoolismo e as suas repercussões em toda uma família. Um livro difícil mas bonito que mais uma vez nos faz reflectir na nossa vida e nas nossas escolhas.

Vou ficar com saudades destes três personagens, e desejo-lhes uma vida feliz.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história sobre um tema difícil e muitas vezes tabu.

Goodreads Review

Boas Leituras!

 

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

A Verdade Sobre os Animais

truth about animals

Ou pelo menos alguns.

Em 1822 o Conde Christian Ludwig von Bothmer estava a caçar no seu castelo em Klutz, na Alemanha, quando abateu uma cegonha que trazia consigo algo estranho. O seu longo pescoço trazia atravessado uma longa lança de madeira, cheia de pinturas e gravações que cedo se descobriu serem de origem africana. E só aí se descobriu um enigma milenar. O que acontece às cegonhas que desaparecem todos os Invernos? Até então pensava-se que se transmutavam noutros animais (inclusive humanos), que hibernavam, ou até mesmo que ficavam dormentes no fundo de lagos.

São este tipo de curiosidades que enchem este livro, sobre bichos fofinhos como a cegonha, mas essencialmente sobre os mal amados como os morcegos, os abutres e os sapos. O livro está muito bem escrito, cheio de sentido de humor e se as minhas aulas de História do Pensamento Biológico tivessem tido metade da piada deste livro, eu teria faltado muito menos vezes.

Livros como este, escritos por cientistas (a autora é uma zoóloga da National Geographic com um largo currículo no estudo de preguiças, fundadora da Sociedade para Apreciação das Preguiças), mas bem escritos, com bom humor e recheados de factos que os tornam ao mesmo tempo informativos e interessantes, fazem mais pelo interesse pela ciência do que muitas aulas a que somos obrigados a assistir.

Neste livro vamos encontrar, como já disse, muitas curiosidades sobre pandas e hienas, perceber que as preguiças são afinal um prodígio de adaptação ao meio em que vivem, mas temos também uma lição de História Natural, e como os métodos de investigação evoluíram (e ainda bem) ao longo dos tempos. Devemos muito aos primeiros naturalistas que, aventureiramente, se lançaram em busca de explicações para o mundo que nos rodeia, mas os métodos que eles usavam fazem-nos hoje tremer por dentro. O ilustre cientista Lazzaro Spallanzani, responsável por desmistificar a Teoria de Geração Espontânea e primeiro a estudar a ecolocalização dos morcegos, recorreu a métodos de investigação que tinham tanto de sistemáticos como de assustadores, e muitos morcegos sofreram nas suas mãos. No entanto, o modo como tudo está descrito não pode deixar de nos pôr pelo menos um sorriso nos lábios.

Mas não pensemos que hoje é tudo um mar de rosas, pois se lermos o capítulo sobre os fofíssimos pandas, e o modo como eles estão a ser reproduzidos em cativeiro, em tudo semelhantes às puppy farms que tanto queremos extinguir, em nome de serem usados como moeda de troca em negócios diplomáticos, se calhar vamos pensar duas vezes da próxima vez que quisermos partilhar um vídeo viral daqueles bebés de cativeiro.

Aconselho a todos os que são fãs de National Geographic, natureza, conhecimento, história e sobretudo livros bem escritos que nos façam pensar.

Goodreads Review

Boas Leituras!

There is nothing terminally wrong with these animals that we need to fix; the only thing we need to fix is to give them their home back.” Sarah Bexell agreed. “I really worry that it is wildlife conservation’s way of saying, ‘see, guys, we can do this, we are scientists and we’re fixing this huge biodiversity crisis problem and we can right the wrongs of our entire species by doing these little projects.’ it’s a feelgood story. The public feels good and sits back and eats their potato chips in their la-Z-boys and drives their SUVs, has a five-bedroom house and three kids, and says, ‘Great, those scientists are out there fixing this problem for me,’” she said. “but science is not going to save biodiversity; a shift in human behavior is the only thing that is going to save it. I think there needs to be more effort, first and foremost, in getting the human population under control globally, and for people to start contemplating not being such mass consumers.”

 

Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

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Rise of Endymion – O Final do Ciclo

Rise of Endymion

Agora que finalmente terminei os quatro livros que constituem o Hyperion Cantos, fiquei com mais questões do que propriamente coisas resolvidas. E as minhas questões são muito simples. Não tenho dúvidas nenhumas que esta foi a melhor série de ficção científica que eu já li, não só pela sua complexidade temática, que abrange desde biologia a filosofia, religião, política, etc, etc, mas também pela mestria com que foi escrita, já que é uma história alucinante. Apesar de se desenrolar ao longo de quatro grandes livros, raras foram as vezes em que achei que o autor estava a ser repetitivo, ou que o que estava a ser relatado era redundante ou supérfluo.

No entanto isso leva-me a duas questões que para mim são relevantes. Porque é que, sendo estes livros tão bons (e não é apenas a minha opinião, o rating no Goodreads é altíssimo para qualquer dos 4 volumes, e todas as pessoas a quem recomendei tiveram a mesma opinião) nunca foram adaptados para série, filme ou qualquer coisa do género. E, questão 2, como é que não há uma tradução para português, nem sequer português do Brasil. Vi nalguns blogs que do outro lado do Atlântico, já em desespero de causa, alguns amantes de sci-fi se juntaram para fazer uma espécie de tradução caseira e tornar o livro mais acessível a quem não domina inglês.

Porque falando dum modo realista, ler sci-fi em inglês é um acto de amor. Por vezes é difícil perceber se estamos perante uma palavra que simplesmente não conhecemos ou se foi inventada pelo autor (e este inventou imensas palavras e conceitos). Felizmente o Kindle, com o seu dicionário incluído ajuda nessa tarefa, mas os primeiros capítulos são sempre tarefa árdua.

Eu tenho uma opinião em relação a isso, claro. Na minha visão, este autor fala de temas muito desconfortáveis, nomeadamente religião, política, e o modo como determinadas instituições são retratadas (e mesmo a espécie humana) não é propriamente numa luz favorável, o que não agrada numa perspectiva hollywoodesca.

Quanto à tradução para português, o problema é sempre o mesmo. Mercado pequeno, inundado de lugares comuns, em que pouco mais se tem para além de best-sellers garantidos, e ficção científica deve vir no fundo da lista de prioridades. No entanto, sei que mesmo assim há mercado, e há lançamentos a acontecer, por isso fica lançado o desafio. Agora, o que eu achei desta conclusão da história?

Para já foi interessante estar a acabar de ler este livro na Semana Santa, sendo que parte do culminar da acção acontece exactamente durante a Semana Santa. Certo que numa versão futurista e distorcida da igreja, mas interessante mesmo assim. Depois foi bom finalmente perceber ligações que demoraram 4 livros a entender (mas o que raio é o Shrike, sendo a principal delas), e saber o final de histórias paralelas sobre as quais apenas tínhamos tidos vislumbres e suposições. Mas o mais impactante é a mensagem que este livro transmite, que é não só ecológica, já que como sempre o Homem tem como instinto dominar toda a Natureza em que toca em vez de trabalhar colaborativamente com ela, mas também a mensagem mais filosófica.

No fundo neste livro fala-se de escolhas. A mensagem transportada por “Aquela que Ensina“, figura central da história, nova salvadora da humanidade, é incrivelmente simples. Escolhe novamente. Apenas isso. Em cada dia, quando recomeçares a viver, escolhe tudo novamente. Se estás feliz com as tuas escolhas (as tuas crenças o teu emprego, o teu companheiro), valida-as novamente e segue sendo feliz. Se alguma dessas coisas não te preenche, não faz sentido, não se enquadra no teu código de valores, escolhe uma coisa que se coadune melhor contigo. Parece simples, não? Juntamos a isso uma empatia universal por todos os seres vivos, e temos uma receita para o sucesso da nossa espécie.

Se fosse assim tão simples… Aconselho a todos os que gostam de ficção cientifica, e livros que façam pensar enquanto nos contam uma boa história.

Goodreads Review