A Beleza de Chekhov

Chekhov

Desta vez o Netgalley proporcionou-me uma incursão à Rússia do final do século XIX pelas mãos de Anton Chekhov, conhecido dramaturgo mas também um belíssimo autor de contos (aclamado por alguns como o mestre da escrita deste género). E é exactamente isso que este “The Beauties” é, um livro cheio de pequenas pérolas que nos enchem de espanto e reflexão.

Estes 13 contos pretendem ser mais do que pequenas histórias, e na realidade são um retrato duma pequena porção da vida das pessoas que os habitam, que não são assim tão importantes enquanto personagens, mas que são fundamentais enquanto documento da mentalidade e sociedade dum país. Neste caso, o interior da Rússia rural do final do século XIX. Eu costumo sublinhar passagens que acho interessantes ou marcantes, e nalguns contos apetecia-me sublinhar quase tudo.

Como sempre percebemos que estamos a ler contos sobre o interior russo mas poderiam bem ser passados em Trás os Montes, ou na América do Sul, porque na realidade a natureza humana é igual em todo o lado, para o melhor e para o pior. Mas é sempre a caricatura do pior que nos faz sorrir.

Dois destes contos marcaram-me especialmente, por razões diferentes. O segundo (The Man in a Box), descreve a figura dum homem que vivia absolutamente espartilhado nos seus pensamentos do que é certo e com isso influencia toda a aldeia onde vive mesmo após a sua morte é absolutamente delicioso e tem paralelismos incriveis com os nossos tempos de viver sob uma ditadura. Um dos seus lemas de vida era: Se não há uma lei a permiti-lo é porque não se pode fazer, que é uma completa subversão da realidade mas que com isso conseguiu subjugar todos os seus pares.

Noutro conto chamado A Blunder, temos um casal escondido atrás da porta a escutar a conversa da filha com um pretendente, e a planear aparecerem com o icone ortodoxo na mão depois do rapaz professar o seu amor, para, segundo a tradição ele ser obrigado a casar. Os pais estavam claramente desesperados para casar a sua filha, não nos é dito porquê, mas quando conseguimos “ouvir” a conversa entre os namorados percebemos que na realidade o rapaz não está assim tão apaixonado e a filha está aborrecida que ele não corresponda às suas expecativas de amor romântico. Quando finalmente os pais saem de icone em punho, triunfantes, e o rapaz se sente encurralado, dá-se o mais divertido twist que dá o nome ao conto, já que em vez do icone, simbolo da tradição e compromisso, trazem o retrato dum artista para grande alivio do “noivo”.

Aconselho muito, principalmente a quem, como eu, não está familiarizado com literatura russa, já que este é com certeza um excelente ponto de entrada. Deixo uma última nota para o tradutor desta versão, Nicolas Pasternak Slater, neto doutro autor russo, Boris Pasternak, que soube manter a autenticidade do discurso.

Goodreads Review

 

Reality upset him, frightened him, kept him in a constant state of alarm; and perhaps it was to justify this timidity on his part, his aversion towards the present time, that he always praised the past, and things which had never been. The ancient languages he taught served essentially the same purpose as his galoshes and umbrella – he used them to hide away from real life. “‘Oh, how resonant, how splendid is the Greek language!’ he used to say with a sweet smile. And as if to demonstrate the truth of his words, he would screw up his eyes, point a finger in the air, and pronounce ‘Anthropos!’ “And Belikov tried to hide his thoughts in a case, too. Nothing seemed clear to him except circulars and newspaper articles prohibiting something. If there was a circular forbidding pupils to go out into the streets after nine at night, or if some article proscribed carnal love, that made sense to him. Those things were forbidden, and that was that. Authorizations and permissions, however, always seemed to him to conceal an element of doubt, something vague and not fully expressed. When there were discussions in town about setting up a drama group, or a reading room, or a tearoom, he would shake his head and quietly say: “‘Well, that’s all well and good, of course, but it might lead to something…’

 

But aren’t we ourselves, living in stuffy towns, in cramped conditions, writing pointless papers, playing at vint – aren’t we living in boxes too? And the way we spend our whole lives surrounded by idle, petty men and vain, stupid women, talking and listening to all sorts of rubbish – isn’t that living in a box?

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O Segundo Diário de Michael Palin

Michael Palin Diaries 2

Depois de acabar de ler o primeiro diário do Michael Palin, inexplicavelmente, fiquei com o bichinho tive de passar imediatamente para o segundo. Ajudou o facto de ter descoberto que já o tinha no Kindle. Sim, o meu Kindle é como uma biblioteca gigante duma acumuladora desordenada. Vou pondo para lá os livros que acho que me apetece ler, categorizados em pastas temáticas, e muitas vezes esqueço-me alegremente deles. O que me faz ter surpresas agradáveis muitos meses (ou anos) depois, como foi agora o caso.

Apesar de ter um ritmo menos frenético que o anterior, mais uma vez o senhor Palin é uma fonte de conhecimento interessante, porque através dele vamos observando o desenrolar dos anos 80 em Inglaterra. Ele dá-nos relatos primeiro sobre a guerra das Falklands, e como isso ajudou a consolidar a posição de Margaret Tatcher no poder, depois as greves dos mineiros que vieram abalar toda a nação, mas também vemos pelos seus olhos o inicio do hooliganismo no futebol inglês (quando começa a ser cada vez mais inseguro ir aos jogos do Sheffield Wednesday com os seus dois filhos pré-adolescentes até à tragédia de Heisel Park em 85).

Por outro lado, os seus filhos estão a tornar-se adolescentes, que bebem e fumam e levam amigos para casa que o vão espreitar na cozinha, e vemos como a sua vida familiar seria na realidade tão parecida com a nossa. Apesar de ganhar confortavelmente com os filmes que vai fazendo, continua a conduzir pacatamente o mesmo Mini da década anterior até pelo menos meio da década de oitenta, e quando o troca é sempre por utilitários, longe da ostentação dos Bentleys de John Cleese. Ao mesmo tempo, perto do final dos 80’s, a tragédia abate-se sobre a sua família e a sua reacção é duma certa compostura britânica, tão diferente do nosso sangue latino.

Mas o que eu acho mais interessante é que ele fez muitos filmes e programas televisivos que foram bastante aclamados na altura, alguns ganharam mesmo prémios, e que hoje em dia eu nunca ouvi falar. Eu pensava que para além dos Monty Python, Um Peixe Chamado Vanda e depois os seus livros e programas de viagem ele não tinha feito mais nada de relevo, e isso não é nada assim. Das duas uma, ou eu sou muito desatenta (na realidade era uma criança nesta altura, mas o certo é que Monty Python é anterior e conheço lindamente), ou os projectos que ele protagonizou/escreveu, não aguentaram o teste do tempo.

Entretanto já colmatei algumas dessas falhas e vi alguns episódios de Ripping Yarns no Youtube, incluindo um do qual ele se orgulha particularmente, Roger of the Raj. Gostei, tem um toque de humor inglês bastante refinado, mas falta alguma da loucura Pythoniana.

Mais uma vez recomendo o livro a fãs de biografias e dos Monty Python.

Goodreads Review.

Tyler Ranch

Colorado
Na minha imaginação é assim o rancho onde se passa a acção. 

Uma antiga colega de trabalho que se mudou para outros vôos resolveu juntar a todas as mudanças o seu gosto pela escrita e pegar a sério na coisa. E desde que nos deixou já escreveu um livro, When Life Gets in The Way, que tem tido críticas muito positivas mas que eu ainda não tive oportunidade de ler, e lançou agora um conto mais pequeno, Tyler Ranch, para ser incluido na colectânea natalicia 25 Days of Christmas. Esta novela, mais apimentada, pareceu mais ao meu gosto e cá me chegou às mãos.

O mais engraçado quando se lê um livro escrito por alguém que se conhece é que todas as personagens parecem falar com a mesma voz. E neste caso, a voz da Inês, e isso é uma coisa boa. A Inês é uma pessoa muito positiva e divertida, e isso transparece em todos os diálogos e pensamentos de cada personagem. Eu dei comigo a rir com gosto das parvoíces que o par romântico em questão pensava acerca quer de si próprio, quer um do outro.

A linguagem é fluida, solta, e a leitura faz-se num fôlego. Como é uma novela curtinha a história desenvolve talvez demasiado rápido, mas deixa vontade de ficarmos a conhecer mais das aventuras destes dois, e sobretudo da voz da Inês em novos livros.

Recomendo a quem gostar de romances com uma pontinha de pimenta.

Goodreads Review

O Diário de Michael Palin

Michael Palin

À partida podia parecer que ler um diário pessoal que dura mais de 600 páginas e cobre uma década (de 1969 a 1979) seria tarefa monótona e titânica. Mas quando essa pessoa é o Michael Palin, responsável por alguma da melhor comédia do século XX, na realidade tornou-se um genuíno prazer.

Michael Palin começou a escrever um diário em 1969 como forma de documentar o que se passava na sua vida e de certa forma praticar os seus dotes de escrita, e não parou até hoje. Agora, em vez de escrever uma biografia, editou os seus diários (tem centenas de cadernos escritos à mão) em três volumes, que vão desde 1969 até 1998. Este volume fala da primeira década. Palin é um homem simples, que está nesta altura a tentar construir uma carreira a fazer aquilo que mais gosta, parvoíces, ao mesmo tempo que constrói um casamento, uma família com 3 filhos pequenos, e assiste ao progressivo degradar do seu pai, vítima de Parkinson.

A isto tudo junta-se a ascensão meteórica do fenómeno Python, com a respectiva luta de egos, o posterior desmembramento, o tentar começar uma carreira a solo, e todo o enquadramento sócio-cultural dos anos 70. No fundo, um documento histórico por quem viveu esses anos por dentro, e bastante bem escrito. Michael é não só um comediante, mas também uma pessoa bastante atenta ao que o rodeia, interessado em história e politica, por isso vai também deixando notas no seu diário sobre o que está a acontecer no mundo, em Inglaterra, bem como sobre os livros que está a ler. É desta maneira que podemos acompanhar o caso Watergate, um dos primeiros referendos sobre a permanência do UK na União Europeia, e as sucessivas greves que assolaram a Inglaterra nos anos 70. Na realidade, lemos pérolas como o facto de em 1969 ele estar preocupado que o novo governo venha restaurar a pena de morte no UK, que apenas recentemente tinha sido abolida (1965). Parece incrível que tenha sido abolida apenas 10 anos antes de eu própria ter nascido, mas o mundo é bem menos civilizado do que aquilo que gostamos de acreditar.

Por outro lado podemos também assistir em primeira mão à nem sempre fácil relação de trabalho entre todos os Python, para a qual terão contribuído as diferentes personalidades e modos de lidar com a fama, mas também o problema de alcoolismo de Graham Chapman. No entanto, Palin é sempre um verdadeiro cavalheiro inglês e a maioria das situações podemos apenas inferir já que ele jamais é descortês a referir-se aos seus colegas. Percebemos no entanto a grande amizade que o une a Terry Jones, Terry Gilliam, e mesmo com John Cleese consegue comunicar cordial e  frequentemente, fazendo muitas vezes o papel de mediador entre todos.

Foi também muito interessante poder ler a descrição das filmagens de mitos como o Holy Grail e o Life of Brian, e mesmo o processo criativo que levou até á sua existência. Ficamos com  a sensação que apesar de algumas dificuldades pessoais, como a morte do pai, foram bons tempos, de descoberta do seu lugar no mundo, formação de amizades que ficaram para a vida com nomes que reconhecemos hoje instantaneamente como sendo nomes grandes do entretenimento.

Fiquei com imensa vontade de ler os restantes diários  e rever tudo o que tenho cá em casa dos Monty Python. Entretanto já tenho visto alguns sketches no youtube para matar saudades, deixo-vos aqui um clássico, que é também dos meus favoritos.

Silly Olympics

Boas Leituras!

Goodreads Review

5 Desvantagens do Kindle

Compras Feira 2017

Ora falei-vos no último post sobre as vantagens mais importantes de ler num e-reader, mas é claro que não são tudo rosas e também há desvantagens. Vou falar-vos das principais já a seguir.

1. Livros em Português: Tirando o Projecto Gutenberg e Adamastor, é muito díficil arranjar livros em português para o Kindle. E como estes trabalham apenas com livros que já estão em domínio público, isso significa que autores recentes é dificílimo arranjar. As editoras vendem formatos digitais, mas altamente protegidos, e nunca consegui fazer com que nenhum funcionasse no meu kindle, apenas no computador. Ora convenhamos que ler no computador não é a mesmo coisa. E no mercado português o preço dos livros digitais é ridiculamente próximo dos físicos, considerando que não há gastos de produção nem distribuição. Não compensa. Para livros em português, recorro ao alfarrabista ou, em último caso, ao OLX.

2. Não se consegue emprestar: Um dos maiores prazeres que tiro dum livro que gosto muito é a seguir emprestá-lo àquela amiga/o que eu sei que vai gostar muito. Ora, com o formato digital esse prazer é amputado. Eu sei que a Amazon tentou colmatar isso e criar a figura do empréstimo digital, mas tem prazo para a outra pessoa ler e todos nós sabemos que o risco de nunca mais nos devolverem um livro que gostamos muito faz parte da emoção de emprestar. Ainda agora li um livro maravilhoso que me chegou precisamente pelas mãos duma amiga, e que me vai obrigar a marcar um cafezinho para devolver. Os livros ao serviço da socialização.

3. Não serve para BD: Eu adoro BD, e o kindle tem um ecrã pequeno e a preto e branco. A Amazon bem tentou colmatar isso com o Kindle Fire, mas isso já é mais um tablet, e ficou uma coisa que não é carne nem peixe, por isso resignemo-nos. Para ler boa BD, de bom tamanho e com boa qualidade, o bom e veljho papel ainda é a melhor opção. E aí sim, a textura do papel conta muito para mim, parece que os desenhos saltam cá para fora.

4. É um gadget: e como tal, é frágil. Ou seja, tem de ser protegido. No meu caso, eu nun ca o levo para a praia porque as nossas são ventosas e se entra areia na reentrância de carregar, lá se vai o e-reader. Por outro lado já tem uns risquitos no ecrã, coisa normal ao fim de 5 anos, mas mesmo assim estou a limpá-lo e ao fim de um bocado percebo que por mais que limpe é um risco, não vai sair, e sim vai estar sempre por cima das letras.

5. Toda a gente consegue publicar: Aquilo que é uma grande vantagem, também é uma desvantagem. Se toda a gente consegue publicar livros sem passar pelo crivo de uma editora, isso quer dizer que há muita gente por aí sem nada de interessante para dizer que nos bombardeia com as suas criações. No meu Goodreads há uma quantidade infinda de coisas com uma estrela que o provam. No entanto, continuo a preferir ler umas desilusões de vez em quando, das quais posso desistir a meio se me apetecer, e mesmo assim ter o mercado aberto a mais gente. Haverá espaço para todos.

E pronto, os bons e velhos livros nunca nos irão deixar, e isso é uma coisa boa, no entanto é sempre bom haver opções para cada ocasião.

Boas Leituras!

As 5 Vantagens de ter um Kindle

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Resolvi vir aqui falar das vantagens de ter um e-reader (não necessita ser um Kindle, temos cá em casa um Kobo e as vantagens são exactamente as mesmas), porque é uma temática com que me deparo imensas vezes no meu dia a dia. Muita gente com quem me cruzo, que são leitores tão ávidos como eu, têm muita relutância em experimentar ler digitalmente, e sentem uma profunda antipatia pelo gadget, muitas vezes sem sequer terem dado uma hipótese.

Ora, eu não sou de todo uma fundamentalista, e leio em qualquer formato, mas tenho de convir que pelos motivos descritos abaixo, o Kindle mudou a minha abordagem à leitura. Ora vejam.

1. Portabilidade: Sem dúvida, para mim, a sua maior vantagem. Como já disse inúmeras vezes, leio essencialmente nos transportes públicos, e carregar volumes como a Guerra dos Tronos na mala, ou mesmo conseguir ler em pé enquanto não chega a nossa paragem é virtualmente impossível. Por outro lado, tenho sempre o kindle carregado, por isso é-me possível acabar o volume 1 à ida para o trabalho e começar imediatamente o volume 2 à vinda para casa (ou à hora de almoço, se for impossível esperar). Já para não falar que nunca mais tive de me preocupar com quantos livros vou levar para férias. Um Kindle e está o problema resolvido.

2. Espaço: Se forem como eu, o espaço em casa não aumenta e chega um ponto em que ou nos vemos livres de roupa e tachos, ou temos de por um travão na compra de mais livros. Eu atingi esse ponto do não retorno, sendo que ainda tenho bastantes livros em casa dos meus pais, que tenho de ir lá buscar (sooner rather than later). Ora, neste momento, tenho mais livros dentro do Kindle do que em minha casa, e na minha biblioteca digital tenho certamente mais títulos do que terei anos de vida para os ler. Sem gasto de espaço. Nenhum.

3. Ecologia: Pois, menos livros físicos, menos papel gasto, menos árvores abatidas, menos eucaliptos que foram necessários. Só vantagens. E como eu sou uma moça pouco estragadinha, o meu e-reader já fez 5 anos,o que quer dizer que em termos de durabilidade também não está mau, e quando eventualmente se estragar (batam na madeira) irá certamente para a reciclagem também.

4. Acesso a livros: Com plataformas como o Netgalley, o Edelweiss ou o Kindle Unlimited da Amazon, é muito fácil termos acesso a uma grande variedade de livros, quer gratuitamente, quer a preços muito simpáticos. Mais por cá podemos aceder ao Projecto Gutenberg ou o Adamastor para procurar autores portugueses. Nada mau, já nos dá pano para mangas, e se pesquisarmos com cuidado a panóplia de coisas que temos acesso não se fica por aqui.

5. Toda a gente consegue publicar: Hoje em dia, com o advento do formato digital, toda a gente que tenha acesso a um computador e que tenha algo a dizer pode, em teoria, editar o seu livro. Os recursos são facilmente acessiveis, e através da Amazon pode pôr-se o livro em formato digital ao alcance de toda a gente que o queira ler. Isso veio dar oportunidade a imensa gente que tinha portas fechadas antigamente, especialmente em mercados tão pequenos como o nosso, completamente dominados por grandes grupos editoriais que apenas publicam uma meia dúzia de nomes de sucesso garantido. Os gastos com distribuição são nulos, e com a ajuda das redes sociais consegue, mais uma vez em teoria, fazer-se chegar o nosso livro até uma maior audiência, assim haja trabalho, esforço e passa a palavra.

Eu desde que comecei fiquei fã incondicional. Não leio e-reader em exclusividade, porque há imensa coisa que continuo a ler em papel, mas mais por casa, ou na praia, para onde não levo o kindle (areia não combina com electrónica). Há com certeza mais vantagens, mas estas são as que me falam mais ao coração.

Boas leituras.

De volta ao Sandman Slim

Sandman Slim_Kill Society

Pois que às vezes o difícil é começar. Como tinha dito há uns dias atrás, descobri por acaso que o Richard Kadrey tinha editado mais dois volumes da história do Sandman Slim, aka James Stark, e devorei-os num sopro.

O último volume que li tinha acabado duma maneira muito abrupta e deixou-nos literalmente pendurados num precipício vertiginoso, por isso ainda bem que tinha mesmo à mão o volume seguinte para poder prosseguir a história. E felizmente o autor não desilude e pega mesmo onde nos deixou, resolvendo a trama muito habilidosamente. Mas ao mesmo tempo dá uma volta de 180º à história, e põe-nos numa cruzada ao melhor estilo Mad Max, com um comboio de veículos a percorrer Tenebrae, o mundo de trevas às portas do Inferno.

Aqui vamos encontrar velhos amigos de James Stark, a guerra entre diferentes facções angélicas continua a pontuar a trama, os diálogos continuam a ser violentamente cómicos e a acção é rápida e intensa. James não desilude, continua a destruir roupa a cada 10 páginas, e Samael/Lucifer continua a ser o anjo mais interessante da criação. O livro devora-se numa vertigem até culminar num final que nos vai deixar novamente de queixo caído, mas desta vez ainda não há volume seguinte à vista.

Resta a consolação que não estamos a lidar com George R.R. Martin e sabemos que com certeza teremos continuação da história para breve. Como sempre, recomendo a quem gosta de livros de fantasia de inspiração motard.

Goodreads Review

7 dicas para navegar no Netgalley

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Como percebem pelas reviews que faço aqui no Peixinho, muitos dos livros que leio vêm do Netgalley. Como vos disse nesse artigo, o site tem imenso potencial para nos fornecer livros interessantes de autores que gostamos, novos autores de géneros que nos interessam e entretenimento em geral.

No entanto, para quem está a começar pode ser muita informação, e receber muitas respostas negativas dos editores pode desmoralizar até os mais persistentes. Eu bem sei que houve alturas em que me apeteceu mandar emails de volta com algumas respostas menos simpáticas (Bill Bryson e Neil Gaiman ainda me doem no coração). Mas há pequenas coisas que podemos fazer para melhorar as nossas possibilidades de nos aprovarem para os livros que queremos mesmo. Este artigo recente da Curly fez-me compilar aqui um pequeno guia de dicas para navegar no Netgalley:

1.  Investir na Bio. Tal como um CV , os editores vão olhar para a informação que está na nossa Bio para saber se vale a pena dar-nos a ler o seu livro ou não. A minha primeira versão era muito simplista e pouco mais elaborada do que “eu gosto muito de ler”, por isso as rejeições eram frequentes. Especialmente porque eu ainda não tinha nenhum historial no site. Neste momento tenho um texto simples e resumido com 130 palavras, mas que diz claramente onde publico as minhas criticas (com links) e quais os meus interesses em geral, e os efeitos nas aprovações foram muito positivos.

2. Ter uma boa percentagem de feedback (review de livro pedido). O site aconselha 80%, eu neste momento tenho 87%. Quando comecei todos os livros me pareciam interessantes e oportunidades a não perder, por isso acabei por pedir imensos sem terminar nenhum. Isso fez com que a minha percentagem de feedback fosse zero por muito tempo, e todos os livros que pedia eram-me recusados. Tive de ler e fazer criticas sem intervalos durante mais de 2 meses até um livro me ser novamente aprovado. Neste momento sou mais racional e tento não pedir livros às editoras se ainda não revi os que me foram atribuídos o mês passado.

3. Não é preciso ter um blog para ter acesso ao Netgalley. Podemos apenas ser os chamados Consumer Reviewer (I review on sites like Goodreads and Amazon) e tendo em conta que o meu blog é em português eu ainda hoje me mantenho nessa categoria.

4. Não se prendam muito com erros gramaticais e de formatação do livro. São ARC’s (advanced reading copy) o que significa que esses pormenores ainda não foram finalizados para publicação. Foquem-se essencialmente no conteúdo. Se bem que sinceramente apenas apanhei 2 ou 3 exemplos em cada livro, nada de chocante.

5. Ser honestos no feedback. Eu nunca digo que gostei dum livro se não gostei. No entanto esforço-me por ser cortês e delicada, mesmo quando estou a dar apenas 1 ou duas estrelas. Por vezes é o próprio autor que fornece as cópias, e estão com certeza muitas horas de trabalho e dedicação investidas por trás daquele livro, convêm levar isso em conta. Da mesma forma é de bom tom colocar na review que o livro foi fornecido gratuitamente pela Netgalley (nalguns países é mesmo um requisito legal).

6. Fazer o download do livro para o kindle assim que o pedido for aprovado. Os livros têm uma archiving date e depois dessa data já não podem ser descarregados, no entanto ainda se podem ler se já estiverem no dispositivo e pode à mesma fazer-se a critica para o editor.

7. Por último aproveitem ao máximo as potencialidades e as leituras que o site vos pode proporcionar. E tenham algum cuidado em ler a descrição do livro antes. Eu tenho tido excelentes surpresas e coisas boas, é só saber evitar o que pressentimos que não nos vai agradar. Mas confesso que tenho uns quatro livros que nunca me consegui obrigar a ler porque eram demasiado chatos. E sinceramente, a vida é demasiado curta para fazermos fretes em coisas que não são obrigações, por isso passei aos seguintes.

Boas leituras!

De volta à Leitura – Sandman Slim

Sandman Slim_Perdition Score

Às vezes quando estamos com bloqueio de leitor durante muito tempo, o mais seguro é regressar a um velho conhecido, daqueles que entretêm e não desiludem. Fui em busca de velhos amigos, e quase sem querer percebi que o Richard Kadrey já tinha aumentado a sua saga do Sandman Slim em mais dois títulos desde a última vez que eu tinha investigado. Mesmo o que eu estava a precisar, um anti-herói improvável que resolve tudo na base da violência e que tem aventuras tão loucas e desvairadas que as páginas parecem voar.

Assim peguei no Perdition Score, o oitavo volume das histórias de James Stark, um homem que esteve durante 11 anos no Inferno, vivo, a lutar nas arenas ao serviço de um demónio, mandado para lá por um dos seus associados terrenos que o traiu. Sobreviveu porque é uma abominação, meio homem meio anjo, o que lhe confere poderes extraordinários e um mau feitio igualmente lendário.

As histórias são simples mas convincentes, tanto quanto fantasia urbana o pode ser, com criaturas nossas conhecidas e outras inventadas pelo autor, com muito humor à mistura, e sempre com um ritmo frenético. Apesar de já ser o oitavo volume, o autor tem sabido evoluir a personagem de modo a nunca se tornar aborrecido, nem perder aquele toque que o torna único. A acção passa-se maioritariamente em LA, e por vezes para quem não conhece a cidade torna-se dificil visualizar determinados cenários, mas as descrições são suficientemente interessantes para manter os livros apelativos.

No entanto, mesmo apesar de oito títulos, Richard Kadrey consegue, ao mesmo tempo que nos dá velhos personagens favoritos como Mustang Sally, inovar sempre, e colocar um twist final que me fez ir a correr para o volume seguinte.

Aconselhado a todos os que gostam de fantasia urbana, livros tão rápidos como os seus carros e motas, e muitas referências de sub-cultura pop.

Goodreads Review

So, this is how regular people live. They get paid to do a job, then have to spend the money on clothes they don’t want to wear somewhere they don’t like, then spend even more money commuting. And that doesn’t count the years of their lives spent going from home to a desk and back again. Fuck that. At least in the arena in Hell they didn’t charge us for our weapons. And we got to steal better ones from who or whatever we killed that day. Sure, we didn’t have 401(k)s, but if there was a boss who wouldn’t get off your back, we didn’t have to go to HR about it. We just cut the fucker’s throat. That’s job satisfaction.

 

 

No autocarro

Leio Por Aqui_Autocarro

O autocarro circula devagar por causa do trânsito e eu pergunto-me se se passa algo de errado com ele. Do lado de fora as pessoas olham com cara de espanto para o flanco que está virado para a estrada e eu fico preocupada se haverá alguma avaria, mas na realidade deve ser apenas algum anúncio mais ousado na lateral.

Na minha mão acompanha-me o Kindle aberto numa página indefinida dum livro que até agora falhou em captar-me a atenção. Às vezes a vida que corre lá fora supera a que se passa aqui dentro, mas olhar para pessoas na rua e imaginar as vidas que possam ter é um grande cliché que já toda a gente usou.

As conversas que me acompanham no autocarro teimam em invadir-me o cérebro e ocupar todo o espaço que devia estar a ser preenchido pelas frases que estão à minha frente. É uma cacofonia de realidades que não me interessam, mas que teimam em entrar-me à força pelos ouvidos, e eu resolvo proteger-me com a música que carrego sempre no meu MP3.

Mas a minha cabeça hoje está cheia de histórias, palavras, cores, danças, histórias minhas que querem ter uma vida e sair cá para fora, e a música apenas as faz voar, dançar, colidir umas com as outras e gerar novas criações num loop constante e vertiginoso.

São 8h da manhã, uma rua tornou-se outra, um largo passou a avenida, semáforos abriram e fecharam e eu cheguei ao meu destino, na mesma página em que comecei a jornada. Estou novamente com bloqueio de leitor.