5 Desvantagens do Kindle

Compras Feira 2017

Ora falei-vos no último post sobre as vantagens mais importantes de ler num e-reader, mas é claro que não são tudo rosas e também há desvantagens. Vou falar-vos das principais já a seguir.

1. Livros em Português: Tirando o Projecto Gutenberg e Adamastor, é muito díficil arranjar livros em português para o Kindle. E como estes trabalham apenas com livros que já estão em domínio público, isso significa que autores recentes é dificílimo arranjar. As editoras vendem formatos digitais, mas altamente protegidos, e nunca consegui fazer com que nenhum funcionasse no meu kindle, apenas no computador. Ora convenhamos que ler no computador não é a mesmo coisa. E no mercado português o preço dos livros digitais é ridiculamente próximo dos físicos, considerando que não há gastos de produção nem distribuição. Não compensa. Para livros em português, recorro ao alfarrabista ou, em último caso, ao OLX.

2. Não se consegue emprestar: Um dos maiores prazeres que tiro dum livro que gosto muito é a seguir emprestá-lo àquela amiga/o que eu sei que vai gostar muito. Ora, com o formato digital esse prazer é amputado. Eu sei que a Amazon tentou colmatar isso e criar a figura do empréstimo digital, mas tem prazo para a outra pessoa ler e todos nós sabemos que o risco de nunca mais nos devolverem um livro que gostamos muito faz parte da emoção de emprestar. Ainda agora li um livro maravilhoso que me chegou precisamente pelas mãos duma amiga, e que me vai obrigar a marcar um cafezinho para devolver. Os livros ao serviço da socialização.

3. Não serve para BD: Eu adoro BD, e o kindle tem um ecrã pequeno e a preto e branco. A Amazon bem tentou colmatar isso com o Kindle Fire, mas isso já é mais um tablet, e ficou uma coisa que não é carne nem peixe, por isso resignemo-nos. Para ler boa BD, de bom tamanho e com boa qualidade, o bom e veljho papel ainda é a melhor opção. E aí sim, a textura do papel conta muito para mim, parece que os desenhos saltam cá para fora.

4. É um gadget: e como tal, é frágil. Ou seja, tem de ser protegido. No meu caso, eu nun ca o levo para a praia porque as nossas são ventosas e se entra areia na reentrância de carregar, lá se vai o e-reader. Por outro lado já tem uns risquitos no ecrã, coisa normal ao fim de 5 anos, mas mesmo assim estou a limpá-lo e ao fim de um bocado percebo que por mais que limpe é um risco, não vai sair, e sim vai estar sempre por cima das letras.

5. Toda a gente consegue publicar: Aquilo que é uma grande vantagem, também é uma desvantagem. Se toda a gente consegue publicar livros sem passar pelo crivo de uma editora, isso quer dizer que há muita gente por aí sem nada de interessante para dizer que nos bombardeia com as suas criações. No meu Goodreads há uma quantidade infinda de coisas com uma estrela que o provam. No entanto, continuo a preferir ler umas desilusões de vez em quando, das quais posso desistir a meio se me apetecer, e mesmo assim ter o mercado aberto a mais gente. Haverá espaço para todos.

E pronto, os bons e velhos livros nunca nos irão deixar, e isso é uma coisa boa, no entanto é sempre bom haver opções para cada ocasião.

Boas Leituras!

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As 5 Vantagens de ter um Kindle

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Resolvi vir aqui falar das vantagens de ter um e-reader (não necessita ser um Kindle, temos cá em casa um Kobo e as vantagens são exactamente as mesmas), porque é uma temática com que me deparo imensas vezes no meu dia a dia. Muita gente com quem me cruzo, que são leitores tão ávidos como eu, têm muita relutância em experimentar ler digitalmente, e sentem uma profunda antipatia pelo gadget, muitas vezes sem sequer terem dado uma hipótese.

Ora, eu não sou de todo uma fundamentalista, e leio em qualquer formato, mas tenho de convir que pelos motivos descritos abaixo, o Kindle mudou a minha abordagem à leitura. Ora vejam.

1. Portabilidade: Sem dúvida, para mim, a sua maior vantagem. Como já disse inúmeras vezes, leio essencialmente nos transportes públicos, e carregar volumes como a Guerra dos Tronos na mala, ou mesmo conseguir ler em pé enquanto não chega a nossa paragem é virtualmente impossível. Por outro lado, tenho sempre o kindle carregado, por isso é-me possível acabar o volume 1 à ida para o trabalho e começar imediatamente o volume 2 à vinda para casa (ou à hora de almoço, se for impossível esperar). Já para não falar que nunca mais tive de me preocupar com quantos livros vou levar para férias. Um Kindle e está o problema resolvido.

2. Espaço: Se forem como eu, o espaço em casa não aumenta e chega um ponto em que ou nos vemos livres de roupa e tachos, ou temos de por um travão na compra de mais livros. Eu atingi esse ponto do não retorno, sendo que ainda tenho bastantes livros em casa dos meus pais, que tenho de ir lá buscar (sooner rather than later). Ora, neste momento, tenho mais livros dentro do Kindle do que em minha casa, e na minha biblioteca digital tenho certamente mais títulos do que terei anos de vida para os ler. Sem gasto de espaço. Nenhum.

3. Ecologia: Pois, menos livros físicos, menos papel gasto, menos árvores abatidas, menos eucaliptos que foram necessários. Só vantagens. E como eu sou uma moça pouco estragadinha, o meu e-reader já fez 5 anos,o que quer dizer que em termos de durabilidade também não está mau, e quando eventualmente se estragar (batam na madeira) irá certamente para a reciclagem também.

4. Acesso a livros: Com plataformas como o Netgalley, o Edelweiss ou o Kindle Unlimited da Amazon, é muito fácil termos acesso a uma grande variedade de livros, quer gratuitamente, quer a preços muito simpáticos. Mais por cá podemos aceder ao Projecto Gutenberg ou o Adamastor para procurar autores portugueses. Nada mau, já nos dá pano para mangas, e se pesquisarmos com cuidado a panóplia de coisas que temos acesso não se fica por aqui.

5. Toda a gente consegue publicar: Hoje em dia, com o advento do formato digital, toda a gente que tenha acesso a um computador e que tenha algo a dizer pode, em teoria, editar o seu livro. Os recursos são facilmente acessiveis, e através da Amazon pode pôr-se o livro em formato digital ao alcance de toda a gente que o queira ler. Isso veio dar oportunidade a imensa gente que tinha portas fechadas antigamente, especialmente em mercados tão pequenos como o nosso, completamente dominados por grandes grupos editoriais que apenas publicam uma meia dúzia de nomes de sucesso garantido. Os gastos com distribuição são nulos, e com a ajuda das redes sociais consegue, mais uma vez em teoria, fazer-se chegar o nosso livro até uma maior audiência, assim haja trabalho, esforço e passa a palavra.

Eu desde que comecei fiquei fã incondicional. Não leio e-reader em exclusividade, porque há imensa coisa que continuo a ler em papel, mas mais por casa, ou na praia, para onde não levo o kindle (areia não combina com electrónica). Há com certeza mais vantagens, mas estas são as que me falam mais ao coração.

Boas leituras.

De volta ao Sandman Slim

Sandman Slim_Kill Society

Pois que às vezes o difícil é começar. Como tinha dito há uns dias atrás, descobri por acaso que o Richard Kadrey tinha editado mais dois volumes da história do Sandman Slim, aka James Stark, e devorei-os num sopro.

O último volume que li tinha acabado duma maneira muito abrupta e deixou-nos literalmente pendurados num precipício vertiginoso, por isso ainda bem que tinha mesmo à mão o volume seguinte para poder prosseguir a história. E felizmente o autor não desilude e pega mesmo onde nos deixou, resolvendo a trama muito habilidosamente. Mas ao mesmo tempo dá uma volta de 180º à história, e põe-nos numa cruzada ao melhor estilo Mad Max, com um comboio de veículos a percorrer Tenebrae, o mundo de trevas às portas do Inferno.

Aqui vamos encontrar velhos amigos de James Stark, a guerra entre diferentes facções angélicas continua a pontuar a trama, os diálogos continuam a ser violentamente cómicos e a acção é rápida e intensa. James não desilude, continua a destruir roupa a cada 10 páginas, e Samael/Lucifer continua a ser o anjo mais interessante da criação. O livro devora-se numa vertigem até culminar num final que nos vai deixar novamente de queixo caído, mas desta vez ainda não há volume seguinte à vista.

Resta a consolação que não estamos a lidar com George R.R. Martin e sabemos que com certeza teremos continuação da história para breve. Como sempre, recomendo a quem gosta de livros de fantasia de inspiração motard.

Goodreads Review

7 dicas para navegar no Netgalley

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Como percebem pelas reviews que faço aqui no Peixinho, muitos dos livros que leio vêm do Netgalley. Como vos disse nesse artigo, o site tem imenso potencial para nos fornecer livros interessantes de autores que gostamos, novos autores de géneros que nos interessam e entretenimento em geral.

No entanto, para quem está a começar pode ser muita informação, e receber muitas respostas negativas dos editores pode desmoralizar até os mais persistentes. Eu bem sei que houve alturas em que me apeteceu mandar emails de volta com algumas respostas menos simpáticas (Bill Bryson e Neil Gaiman ainda me doem no coração). Mas há pequenas coisas que podemos fazer para melhorar as nossas possibilidades de nos aprovarem para os livros que queremos mesmo. Este artigo recente da Curly fez-me compilar aqui um pequeno guia de dicas para navegar no Netgalley:

1.  Investir na Bio. Tal como um CV , os editores vão olhar para a informação que está na nossa Bio para saber se vale a pena dar-nos a ler o seu livro ou não. A minha primeira versão era muito simplista e pouco mais elaborada do que “eu gosto muito de ler”, por isso as rejeições eram frequentes. Especialmente porque eu ainda não tinha nenhum historial no site. Neste momento tenho um texto simples e resumido com 130 palavras, mas que diz claramente onde publico as minhas criticas (com links) e quais os meus interesses em geral, e os efeitos nas aprovações foram muito positivos.

2. Ter uma boa percentagem de feedback (review de livro pedido). O site aconselha 80%, eu neste momento tenho 87%. Quando comecei todos os livros me pareciam interessantes e oportunidades a não perder, por isso acabei por pedir imensos sem terminar nenhum. Isso fez com que a minha percentagem de feedback fosse zero por muito tempo, e todos os livros que pedia eram-me recusados. Tive de ler e fazer criticas sem intervalos durante mais de 2 meses até um livro me ser novamente aprovado. Neste momento sou mais racional e tento não pedir livros às editoras se ainda não revi os que me foram atribuídos o mês passado.

3. Não é preciso ter um blog para ter acesso ao Netgalley. Podemos apenas ser os chamados Consumer Reviewer (I review on sites like Goodreads and Amazon) e tendo em conta que o meu blog é em português eu ainda hoje me mantenho nessa categoria.

4. Não se prendam muito com erros gramaticais e de formatação do livro. São ARC’s (advanced reading copy) o que significa que esses pormenores ainda não foram finalizados para publicação. Foquem-se essencialmente no conteúdo. Se bem que sinceramente apenas apanhei 2 ou 3 exemplos em cada livro, nada de chocante.

5. Ser honestos no feedback. Eu nunca digo que gostei dum livro se não gostei. No entanto esforço-me por ser cortês e delicada, mesmo quando estou a dar apenas 1 ou duas estrelas. Por vezes é o próprio autor que fornece as cópias, e estão com certeza muitas horas de trabalho e dedicação investidas por trás daquele livro, convêm levar isso em conta. Da mesma forma é de bom tom colocar na review que o livro foi fornecido gratuitamente pela Netgalley (nalguns países é mesmo um requisito legal).

6. Fazer o download do livro para o kindle assim que o pedido for aprovado. Os livros têm uma archiving date e depois dessa data já não podem ser descarregados, no entanto ainda se podem ler se já estiverem no dispositivo e pode à mesma fazer-se a critica para o editor.

7. Por último aproveitem ao máximo as potencialidades e as leituras que o site vos pode proporcionar. E tenham algum cuidado em ler a descrição do livro antes. Eu tenho tido excelentes surpresas e coisas boas, é só saber evitar o que pressentimos que não nos vai agradar. Mas confesso que tenho uns quatro livros que nunca me consegui obrigar a ler porque eram demasiado chatos. E sinceramente, a vida é demasiado curta para fazermos fretes em coisas que não são obrigações, por isso passei aos seguintes.

Boas leituras!

De volta à Leitura – Sandman Slim

Sandman Slim_Perdition Score

Às vezes quando estamos com bloqueio de leitor durante muito tempo, o mais seguro é regressar a um velho conhecido, daqueles que entretêm e não desiludem. Fui em busca de velhos amigos, e quase sem querer percebi que o Richard Kadrey já tinha aumentado a sua saga do Sandman Slim em mais dois títulos desde a última vez que eu tinha investigado. Mesmo o que eu estava a precisar, um anti-herói improvável que resolve tudo na base da violência e que tem aventuras tão loucas e desvairadas que as páginas parecem voar.

Assim peguei no Perdition Score, o oitavo volume das histórias de James Stark, um homem que esteve durante 11 anos no Inferno, vivo, a lutar nas arenas ao serviço de um demónio, mandado para lá por um dos seus associados terrenos que o traiu. Sobreviveu porque é uma abominação, meio homem meio anjo, o que lhe confere poderes extraordinários e um mau feitio igualmente lendário.

As histórias são simples mas convincentes, tanto quanto fantasia urbana o pode ser, com criaturas nossas conhecidas e outras inventadas pelo autor, com muito humor à mistura, e sempre com um ritmo frenético. Apesar de já ser o oitavo volume, o autor tem sabido evoluir a personagem de modo a nunca se tornar aborrecido, nem perder aquele toque que o torna único. A acção passa-se maioritariamente em LA, e por vezes para quem não conhece a cidade torna-se dificil visualizar determinados cenários, mas as descrições são suficientemente interessantes para manter os livros apelativos.

No entanto, mesmo apesar de oito títulos, Richard Kadrey consegue, ao mesmo tempo que nos dá velhos personagens favoritos como Mustang Sally, inovar sempre, e colocar um twist final que me fez ir a correr para o volume seguinte.

Aconselhado a todos os que gostam de fantasia urbana, livros tão rápidos como os seus carros e motas, e muitas referências de sub-cultura pop.

Goodreads Review

So, this is how regular people live. They get paid to do a job, then have to spend the money on clothes they don’t want to wear somewhere they don’t like, then spend even more money commuting. And that doesn’t count the years of their lives spent going from home to a desk and back again. Fuck that. At least in the arena in Hell they didn’t charge us for our weapons. And we got to steal better ones from who or whatever we killed that day. Sure, we didn’t have 401(k)s, but if there was a boss who wouldn’t get off your back, we didn’t have to go to HR about it. We just cut the fucker’s throat. That’s job satisfaction.

 

 

No autocarro

Leio Por Aqui_Autocarro

O autocarro circula devagar por causa do trânsito e eu pergunto-me se se passa algo de errado com ele. Do lado de fora as pessoas olham com cara de espanto para o flanco que está virado para a estrada e eu fico preocupada se haverá alguma avaria, mas na realidade deve ser apenas algum anúncio mais ousado na lateral.

Na minha mão acompanha-me o Kindle aberto numa página indefinida dum livro que até agora falhou em captar-me a atenção. Às vezes a vida que corre lá fora supera a que se passa aqui dentro, mas olhar para pessoas na rua e imaginar as vidas que possam ter é um grande cliché que já toda a gente usou.

As conversas que me acompanham no autocarro teimam em invadir-me o cérebro e ocupar todo o espaço que devia estar a ser preenchido pelas frases que estão à minha frente. É uma cacofonia de realidades que não me interessam, mas que teimam em entrar-me à força pelos ouvidos, e eu resolvo proteger-me com a música que carrego sempre no meu MP3.

Mas a minha cabeça hoje está cheia de histórias, palavras, cores, danças, histórias minhas que querem ter uma vida e sair cá para fora, e a música apenas as faz voar, dançar, colidir umas com as outras e gerar novas criações num loop constante e vertiginoso.

São 8h da manhã, uma rua tornou-se outra, um largo passou a avenida, semáforos abriram e fecharam e eu cheguei ao meu destino, na mesma página em que comecei a jornada. Estou novamente com bloqueio de leitor.

O Rock dos Invisíveis

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Mais uma vez o Netgalley proporcionou-me uma leitura fora do comum, um livro brutal em todas as acepções da palavra, neste que foi o meu primeiro contacto com a autora, a francesa Virginie Despentes.

Vernon Subutex é um livro profundamente francês nas suas referências, europeu, contemporâneo, mas ao mesmo tempo duma imensa universalidade. Vernon é um homem de meia idade que foi proprietário duma loja de discos em vinil, essa coisa obsoleta engolida pela tecnologia. Perdeu a loja, e os amigos que costumavam por lá parar, desde ex membros de bandas que nunca foram hits, a fãs obcecados, pessoas que vivem nas franjas, todos vivem centrados nas suas próprias espirais enquanto Vernon vai lentamente descendo a sua.

A única pessoa que o mantém à tona é também o único que teve algum sucesso, Alex Bleach, a derradeira estrela do rock, odiado por todos porque teve sucesso onde os outros falharam. Mas quando até ele é levado por uma morte prematura, Vernon vai percorrendo todos os amigos que ainda lhe restam até chegar às ruas de Paris.

A escrita de Virginie é absolutamente vertiginosa, como a vida, e mantêm-nos sempre em sentido para acompanhar as mudanças bruscas de tempos e de personagem. Cada pessoa nova que é introduzida é mais um pedaço de nós que é exposto, das nossas cidades, da nossa rua, da vida de todos os dias. E pouco a pouco, quanto mais caminha para a indigência, mais Vernon se vai tornando invisível para todos aqueles que o rodeiam. É duma clareza brutal a maneira como a autora nos mostra a facilidade como hoje estamos aqui, com casa, trabalho, vida corriqueira, e basta um deslize, uma desatenção, um deixar andar na tristeza, para a corrida voraz e impiedosa dos dias nos devorar completamente e passarmos a ser completamente invisíveis àqueles que nos rodeiam, que ficam também reduzidos ao mais básico, uma mão que pode trazer umas moedas ou uma ameaça.

Sinceramente este livro fez-me reflectir muito na minha postura na sociedade actual. Os estereótipos estavam todos muito bem conseguidos. O livro começa com uma descrição absolutamente maravilhosa da cena musical, de todas as referências que me dizem alguma coisa, do mundo que eu própria gravitei nos meus 20 anos, para fazer lentamente a transição para a obsessão que temos hoje em dia com as redes sociais, os jogos de telemóvel, sem esquecer as drogas, a moda, as tendências. Por tudo isso Vernon passa sempre com o seu ar calmo e impassível de quem não quer incomodar.

Na cena mais impressionante, uma das mulheres que lhe está a dar guarida num dos dias, sem saber da situação precária em que ele se encontra, mostra-lhe a foto dum sem abrigo com o seu cão, no Facebook. Está preocupadissíma porque o cão tem de ser submetido ao abuso de dormir ao frio, e alguém devia fazer alguma coisa em relação a isso. E Vernon percebe que está na hora de mais uma vez procurar outro sítio onde ficar.

Entretanto, no meio de tudo isto, ele é possuidor de umas gravações inéditas de Alex Bleach, e na realidade toda a gente o procura porque elas são valiosas. Ironia.

Recomendo a quem se quiser questionar, quem gostar de desafios, quem gostar de livros intensos, actuais e diferentes. Eu fico à espera que traduzam as partes 2 e 3 do francês para saber o que se passa a seguir.

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A História de Raif Efendi

Madonna in a fur coat

Mais uma vez o Netgalley deu-me a oportunidade de ler um livro que de outra maneira não teria tido acesso. Madonna in a Fur Coat foi publicado em 1943 na Turquia e tem sido um grande sucesso desde então, mas só agora foi traduzido para inglês. Confesso que a razão que me levou a escolhê-lo foi simplesmente o título, que me pareceu tão próximo doutro título da literatura clássica que também envolve furs que eu simplesmente não podia deixar de o ler. E se bem que a temática não seja de todo a mesma, lá bem no fundo não deixa de ter algumas semelhanças, quanto mais não seja pela profunda impressão que uma mulher de temperamento forte consegue produzir num homem que não sabe muito bem que rumo dar à sua vida.

Quando começamos a nossa história, seguimos um jovem que arranja emprego numa firma onde trabalha como tradutor de alemão Raif Efendi. E todo o resto do livro vai seguir a história de vida desta misteriosa e incompreensível personagem, começando pelo seu final, e levando-nos depois pelas páginas do seu caderno preto até aos tempos do pós grande guerra, onde Raif conheceu aquela que viria a ser o seu grande amor, e que, para além de o fazer desabrochar, mudaria radicalmente o curso da sua vida e personalidade.

Este livro está profundamente marcado pela época em que foi escrito (1941), e a época em que se desenrola, os anos 20. Anos em que havia esperança pelo fim da Grande Guerra, mas em que se caminhava a passos decididos para um novo conflito. Todo o livro está marcado pelos chamados “what if’s?”, como teria sido a minha vida se em vez de um zig tivesse dado um zag, mas tendo a certeza da inevitabilidade do caminho que se percorreu. Respiram-se e vivem-se as oportunidades perdidas.

É um livro belíssimo, um história dum amor intenso e profundo, mas ao mesmo tempo triste e carregado dum fado quase português. Raif Efendi é um personagem com o qual me identifiquei imenso, ao mesmo tempo que só me apetecia abaná-lo para o obrigar a sair do estupor em que se tinha deixado mergulhar, tão próximo e reconhecível. Por outro lado, a universalidade deste texto é imensa. Foi escrito na Turquia em 1941, como poderia ter sido escrito em Portugal em 2017, de tal maneira é próximo à condição humana.

Não faço ideia se está, ou alguma vez será, traduzido em português. Mas duvido, como tantas outras pérolas obscuras que passam ao lado do nosso pequenino e míope mercado editorial, mas se forem proficientes a ler em inglês, não deixem escapar esta oportunidade.

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He was, in the end, the sort of man who causes us to ask ourselves: ‘What do they live for? What do they find in life? What logic compels them to keep breathing? What philosophy drives them, as they wander the earth?’ But we ask in vain, if we fail to look beyond the surface – if we forget that beneath each surface lurks another realm, in which a caged mind whirls alone.

She searched my face. ‘You are alone in Berlin, right?’ ‘What do you mean?’ ‘I mean . . . alone . . . with no one else . . . spiritually alone . . . How can I put it . . . you have such an air about you that . . .’ ‘I understand . . . I am completely alone . . . But not just in Berlin . . . alone in all of the world . . . since I was a child . . .’ ‘Me too,’ she said.

 

O Primeiro Maigret

Pietr the Latvian

Aqui há bem pouco tempo o Netgalley deu-me a oportunidade de conhecer o Inspetor Maigret e o seu autor, Georges Simenon. Como gostei tanto, aproveitei as férias para ler aquela que foi a sua primeira história, porque nada como começar pelo início para perceber bem a evolução duma personagem.

Maigret é radicalmente diferente do meu outro inspetor de estimação, o Poirot. Para começar, interessa-se muito mais pelo método científico, as provas, é um homem de acção, de fazer, mais do que ficar parado a pensar. No entanto, tal como o nosso amigo belga, é um profundo conhecedor da natureza humana e do que motiva as pessoas.

O facto de toda a acção se passar em Paris torna o livro muito refrescante, pois é uma quebra com a realidade anglo-saxonica que nos é constantemente apresentada.

O facto de ter sido escrito em 1929 torna este livro muito livre, sem a ditadura do politicamente correto que nos escraviza hoje em dia, por isso podemos encontrar coisas escritas que seriam impensáveis nos dias de hoje.

Aconselho a todos os amantes de policiais, e boas histórias, bem escritas.

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Para Isabel

Isabel

Acabei há pouco tempo de ler o livro de António Tabucchi, For Isabel, a mandala. Apesar de ser um autor bastante conhecido em Portugal, principalmente por causa de Afirma, Pereira, eu nunca tinha lido nada dele e não sabia o que esperar, para além dum livro dum autor estrangeiro passado no nosso país, que foi publicado após a sua morte.

Nesse sentido não sei sequer se o título que o Netgalley me proporcionou (mais uma vez esta fonte na origem de tantas alegrias) é ou não um típico livro deste autor, mas isso apenas me deixa com o”problema” acrescido de ter de ler outras obras para criar uma base comparativa. Parece-me um bom problema para se ter.

Este livro é tal e qual o que o nome indica, uma mandala. Isabel é uma mulher misteriosa que desapareceu antes do 25 de Abril e que o narrador procura incessantemente em círculos concêntricos, dentro e fora do seu pensamento. Não sabemos bem quem é Isabel, muito menos quem a procura, mas de algum modo isso não é relevante para a história, tanto quanto os círculos que vão sendo feitos na descoberta e que vão revelando um pouco dum país poético à beira da revolução, e a busca de alguém que perdemos e que está escondido no seu nada, que um dia se cruzará com o nosso.

Para quem for fã de histórias lineares em que tudo faça extremo sentido, este não é o livro certo. Mas para quem goste de ser conduzido por um certo realismo místico, lírico, esta pequena obra será uma companhia deliciosa.

Para mim, o único ponto fraco foi a sua tradução para inglês. Se encontrasse versão em português, leria de novo, porque é dos raros casos em que acho que a tradução era tosca. E nem me refiro ao triste bacallá, que demorei uns minutos a perceber que era o nosso fiel amigo.

Goodreads Review