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claudia r sampaio

sempre fui miúda de sonhos descabidos
miúda grotescamente poética,
chata de coisas que chateiam
de pernas fininhas que depois engrossaram

as miúdas poéticas são bobinas de filmes, riscadas
são gaitas desafinadas
onde muitos passaram os lábios
mas não ficaram
as miúdas poéticas contemplam o suicídio
mesmo depois de uma taça de Corn Flakes
olham os telhados laranja de Lisboa
e pensam noutro sítio qualquer
semeiam flores para terem perfumes
matam-nos, por amá-las de mais

as miúdas poéticas têm cabelos desmoronados
de beatas e perguntas
têm a roupa de detergente barato
e as unhas roídas à la carte
tossem devagarinho com medo de
agredir alguém
têm pose de girafa mas não chegam às árvores

Cláudia R. Sampaio in A primeira urina da manhã

Livros que Recomendo – Anjos e Demónios

anjos e demonios

Começo por dizer que este não é, de todo, o livro mais maravilhoso jamais escrito, e está certamente muito longe disso. No entanto, nos tempos que correm, por vezes queremos apenas um livro simples e descomplicado que esteja suficientemente bem escrito para nos prender a atenção e que nos faça distrair de tanta comoção e Anjos e Demónios faz isso na perfeição.

Dan Brown escreve cada livro como se fosse um filme, conseguimos perceber que era essa a sua intenção desde início. Isso resulta numa coisa demasiado espectacular por vezes, mas ao mesmo tempo é uma escrita escorreita e bem conseguida com um mistério interessante para desvendar e muito visual. Apesar de O Código da Vinci ser o primeiro filme, em termos literários é o segundo da série que tem como protagonista Robert Langdon, um simbologista de renome internacional, especialista em história e arte, e que é chamado para ajudar a descodificar símbolos que aparecem associados a estranhas mortes. Vamos ser levados numa viagem vertiginosa através da Europa, desde a Suiça ao Vaticano, em busca duma antiga irmandade secreta que está na base de tudo o que está a acontecer. A acompanhar Langdon temos Vittoria Vetra, uma misteriosa cientista que está aqui no papel de atriz secundária.

Se conseguirem por a racionalidade um pouco de lado, têm aqui um belo livro que se lê rapidamente e que proporciona algumas horas de bom entretenimento e que é quase como ver um filme. Despretensioso e interessante, perfeito para esta altura.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – Um Estranho Numa Terra Estranha

estranho numa terra estranha

Um Estranho Numa Terra Estranha é um livro fundamental para qualquer amante de ficção científica, e no qual muitos autores do género foram beber inspiração. Foi escrito em 1961 e por isso tem ao mesmo tempo uma vibe muito típica da época, misturada com alguma mentalidade do pós-guerra. Mas é um livro que quebra barreiras e nos faz pensar, como qualquer bom livro deste tipo.

Valentine Michael Smith foi criado em Marte por marcianos e regressa à Terra onde se sente um estranho a necessitar de aclimatação. Quando lhe custa entender a filosofia e religião dos habitantes terrenos, decide partilhar com eles as ideias que aprendeu em Marte, passando a ter bastantes seguidores.

Este não é um livro consensual e muitas vezes foi acusado de ter uma visão demasiado limitada da sexualidade, nomeadamente a feminina. Mas não ser consensual é mais um dos motivos que me levam a querer lê-lo, pois esse tipo de livros que ou se ama ou se odeia costumam ser cheios de surpresas.

Está na minha lista de livros para ler, avançarei um dia.

Até lá, Boas Leituras!

Vencedor do Booker Prize 2020

Booker Prize 2020

No passado dia 19 foi anunciado o vencedor do prémio Booker 2020. O evento este ano foi totalmente feito à distância, por video conferência e transmitido pela BBC 4 Radio, tudo efeitos da pandemia. 

O vencedor foi o livro de estreia de Douglas Stuart, baseado na sua infância passada em Glasgow nos anos 80, com uma mãe alcoolica e um Reino Unido mergulhado em pobreza e agitação. Parece-me um livro bastante interessante, talvez um bocadinho mais pesado do que o meu cérebro consegue acompanhar agora, mas definitivamente para manter na interminável lista de livros a ler. 

Boas Leituras!

Precisão

clarice_lispector

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

Clarice Lispector

Acabei de Ler – Soldier Boy

soldier boy

Keep scrolling if you prefer to read in English

Começo por dizer que finalmente quebrei o meu jejum literário que já durava desde Setembro. Teve que ser o livro certo a puxar por mim.

Cassandra Parkin é uma daquelas autoras que eu não conheceria se não tivesse aderido ao Netgalley porque provavelmente os livros dela não me chamariam a atenção. No entanto gostei da sinopse de um anterior a este e a partir daí fiquei fã da autora.

Soldier Boy tem como temática comum a doença mental, que já tinha sido abordada em livros anteriores. Mais uma vez a escrita é sensível e delicada, mas ao mesmo tempo muito poderosa. Liam é um soldado inglês que foi dispensado do serviço por motivos de saúde, nomeadamente stress pós-traumático. Durante todo o livro isso é apenas o que sabemos, e a história não se concentra no seu tempo de serviço mas sim no tempo actual, em que a sua esposa o deixa subitamente e ele se vê a braços com a filha do casal. Após isso ele embarca numa jornada em que tenta resolver a sua vida, e onde tem de enfrentar também as escolhas difíceis da filha.

Tudo na história é surpreendente, envolvente e o livro está muito bem escrito. A última palavra de cada capítulo é a primeira do seguinte, e em cada um estamos com um personagem diferente da história, seguindo o seu ponto de vista e o seu percurso.

Por vezes difícil de ler porque mexe com as emoções, mas muito interessante e bem escrito. Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, bem desenhada e coerente.

Boas Leituras!

Goodreads Review

If it wasn’t for Netgalley I would never have known Cassandra Parkin’s books, as they would probably not catch my attention. Despite that I enjoyed the preview of Underwater Breathing and requested it, and became a fan ever since.

Soldier Boy discusses mental illness, a common theme on Cassadra’s books. Her writing is delicate and sensitive and yet powerful. Liam is a british soldier that has been discharged as he suffers from PTSD and that is as much information as we get throughout the book regarding his time in the military. The story focus more on the present time, where Liam’s wife Emma has left him and their daughter and he needs to make a plan of action to keep his daughter.

The whole story is surprising, full of surprising events and twists. The end word of each chapter is also the beginning of the next, showing us that all is connected and entwined. In each chapter we follow a different character’s perspective and sometimes a different timeline as well.

It is difficult to read sometimes, because it deals with sensitive issues, but it is very interesting and well written. I recommend to everyone that enjoys a good story, well crafted and cohesive.

Happy Reading!

Novas Compras

Livros Cotovia

Eu sei que comprar livros não é prioridade, e que tenho mais livros do que espaço para os arrumar ou anos de vida para os ler, no entanto depois de saber que a Cotovia ia fechar e estaria a vender os últimos livros até ao final de Novembro não consegui resistir e dar o meu último contributo.

Aproveitei para comprar um livro que emprestei a alguém que nunca devolveu para o repor na minha biblioteca e um novo de poesia, claro. Estiveram a fazer uma pequena quarentena para eliminação de covidices e agora estão finalmente prontos a ser (re)lidos.

Boas Leituras e se puderem não deixem de espreitar o catálogo da Cotovia.

Sabão Offenbach

andreia-faria

Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia

Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade

Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável

e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus

Andreia C. Faria in Flúor

Livros que Recomendo – Sem Destino

fatelessness

A Segunda Guerra Mundial e em particular o Holocausto têm sido terreno fértil ao longo de décadas para livros. Todos nós já lemos pelo menos um livro sobre o assunto, ou no mínimo conhecemos bem de nome algum dos mais conhecidos. No entanto, como em tudo, uns são melhores que outros.

Imre Kertész é húngaro e foi enviado para campos de concentração nazi quando era um jovem adolescente, nomeadamente Auschwitz e Bunchenwald, tal como o protagonista desta história. Apesar de ser ficção, muitas das histórias aqui relatadas fizeram parte da realidade que o autor viveu, o que torna este livro ainda mais impressionante.

Mas desenganem-se se forem à procura de emoções ao desbarato, frases a puxar a lagriminha ou um revolver na miséria humana. O ponto de vista neste livro é bastante racional, quase desapaixonado. No fundo é bastante parecido com aquilo que alguém que precise de sobreviver a um horror tem de fazer, que é deixar as emoções de lado e concentrar-se nos pequenos passos diários que são necessários a manter-se vivo e de alguma maneira intocado por todos os horrores que o rodeiam.

Um livro forte, com uma história que convém sempre lembrar, principalmente porque alguém que experienciou em primeira mão. Imre Kertész ganhou um prémio Nobel e neste livro percebe-se bem porquê.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – Leite Derramado

leite derramado

Todos conhecemos Chico Buarque das belíssimas canções que ele faz (uma que me acompanhou na infância foi esta), no entanto ele também é um escritor de mão cheia. Isso já se adivinhava pela qualidade das suas letras, no entanto um livro inteiro é sempre uma experiência diferente.

Budapeste foi uma experiência de leitura muito boa, que me deixou a desejar mais. Por algum motivo cruzei-me com este livro recentemente, que acabou por me vir parar às mãos e juntar-se à minha sempre crescente lista de livros a ler.

Em Leite Derramado encontramos um velho às portas da morte num hospital, que se entretém a contar a história da sua família através dos séculos a quem a quiser ouvir, desde os antepassados portugueses até à geração mais recente, habitantes do Rio de Janeiro.

Construído dum modo original, é um livro que nos vai fazer olhar para a sociedade brasileira, bem como para o que significa envelhecer. Está no meu kindle à espera.

Até lá, Boas Leituras!