Desafio do Goodreads Terminado

2020 reading challenge

Este ano comecei por estabelecer um objectivo no Goodreads de 30 livros, antecipando um ano agitado e com pouco tempo para leituras. Entretanto os livros que tenho lido não têm sido calhamaços de 1000 páginas como nos anos anteriores, e rapidamente me aproximei do objectivo. 

Ajustei para 45 que me pareceu um valor realista. Com férias grandemente passadas em casa e com algumas insónias, acabei por atingir este objectivo já. 

Incluidos nesta lista temos 11 Poirots, mas também muitas pérolas como os livros da Ursula K. Le Guin, Quarto de Despejo, Educated, e muitos outros. Neste momento estou em fase de pousio, sem grande vontade de ler. Às vezes são necessárias pausas. Vamos ver quantos leio até ao final do ano. 

Boas Leituras!

Pequenas Palavras

rosa lobato faria

De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.

Rosa Lobato de Faria

Livros que Recomendo – O Hóspede de Job

o hospede de job

Não se estão familiarizados com a história de Job. Job é um personagem bíblico, muito amado por Deus, que possui familia, riquezas e muitas coisas boas. O demónio acha que ele amaldiçoará Deus se lhe tocarem no que é mais querido. Para isso retira-lhe as riquezas, depois a familia e por fim a saúde, e sempre Job bendiz a Deus nunca se revoltando.

Neste livro de José Cardoso Pires, o único do autor que li até agora, a aldeia alentejana do Cercal Novo é a personificação de Job. Uma vila cheia de gente muito pobre, sem riquezas, muitos que perdem a família de diversos modos, e muitos que lutam diariamente com a falta de saúde. Nesta aldeia existe um quartel, polo dinamizador e aglutinador, e neste quartel o hóspede, que é um americano especialista em guerra e armamento, que vem coordenar uns exercicios militares, completamente descabidos num país em guerra.

Primeiro romance do escritor, e escrito nos anos 50 em memória do irmão que morreu num acidente de viação a cumprir o serviço militar, este livro está ainda influenciado pelo neo-realismo da época, mas ao mesmo tempo afasta-se e revela outro tipo de escrita, quase uma fábula.

Ao ler, quase conseguimos sentir o calor abrasador da planície alentejana, sofrer com aquela massa de trabalhadores das searas, pessoas que passam fome e sede num país onde a liberdade é muito pouca.

Um livro excelente, que nos dá um vislumbre duma realidade crua e difícil, uma história que são várias histórias ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Circe

Circe

Li recentemente O Canto de Aquiles desta mesma autora, que gostei bastante, e fiquei com este debaixo de olho. Falei com uma amiga que tinha lido e gostado e isso foi o empurrão necessário para pegar no livro.

Madeline Miller é primeiramente uma estudiosa dos clássicos e da mitologia grega. Isso já garante um pano de fundo rico e historicamente correcto. Mas o que ela faz melhor é dar uma vida humana aos personagens que estamos habituados a ver como mitológicos. Fez isso com o heroi Aquiles, e voltou a consegui-lo com a feiticeira Circe, filha do Sol.

Circe era filha de Helios, o deus sol, e duma ninfa Perseis. Teve mais 3 irmãos e todos possuiam o dom da feitiçaria. Circe, que eu imaginava como velha e feia, já que a conhecia duma BD em que era interpretada pela Maga Patalógica, era na realidade uma sedutora, que atraía homens e os transformava em animais. Viveu com Ulisses, após a guerra de Troia, e tiveram filhos (um no livro de Madeline Miller, 3 nas histórias mais conhecidas).

Mais uma vez esta autora dá-nos um livro muito bem escrito, com personagens credíveis, com motivações plausiveis, e que nos faz olhá-las como qualquer outra personagem humana. No final, acabamos a torcer pela suposta feiticeira maléfica, como se fosse uma nossa amiga com qualidades e defeitos tão humanos e universais.

Recomendo a todos os que gostam duma boa história, de mulheres poderosas que tomam a sua vida nas mãos, e especialmente a fãs de mitologia.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – A Morte de M. Gallet, Maigret #3

Maigret 3

Como não bastava andar a ler os Poirots por ordem, resolvi acrescentar também os livros do Inspector Maigret, que segundo o Goodreads são só 75. Isto sou eu a investir em ter muitos livros para ler quando for para um lar daqui a alguns anos.

Simenon nunca nos desilude e este é mais um belíssimo livro. O inspector Maigret tem que investigar a morte dum caixeiro viajante num pequeno hotel numa zona de férias de verão, e tudo é mais complicado do que à primeira vista podia parecer. A família do morto é muito estranha, cheia de mistérios e segredos, e a própria vítima está envolta numa teia de histórias fantásticas.

Mais do que o mistério policial, que era interessante, mas talvez demasiado rebuscado, as descrições de Maigret e os seus estados de espírito, o seu profundo conhecimento da natureza humana e a desilusão que ele tem com a vida e as pessoas são o ponto forte deste livro. Simenon tem um modo fabuloso de descrever pessoas e situações, que nos faz sentir como se estivéssemos lá e compreender as motivações de cada personagem.

Um excelente livro de mistério, passado nos anos 30 do século passado, numa vida que era mais lenta e mais complexa. Recomendo a todos os amantes do género, mas também a todos os que retiram prazer de ler uma história bem escrita.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Livros que Recomendo – O Velho Que Lia Romances de Amor

luis sepulveda

Ainda há pouco tempo recomendei um livro de Luis Sepúlveda, e já aqui estou a recomendar outro. Mas O Velho Que Lia Romances de Amor é muito bonito e adequado aos tempos em que vivemos.

António Proaño é um velho que vive numa remota e isolada aldeia da Amazónia e que vive através dos romances de amor que lê. Os livros são trazidos pelo dentista que visita a aldeia duas vezes por ano, e são lentamente lidos por António, que saboreia cada palavra.

António é um homem em profunda comunhão com a natureza, fruto da sua vivência com índios, mas que vê o seu mundo abalado quando chegam os colonos, com olho no ouro, nas madeiras e nas riquezas da Amazónia, juntamente com o seu descaso da natureza e dos indígenas que a habitam e respeitam. Depois um homem morre vítima de um jaguar, e António vê-se envolvido na caça ao animal.

Um livro muito bem escrito, e que infelizmente é bastante actual, numa altura em que Bolsonaro levantou muitas das restrições que existiam para proteger a Amazónia que se vê novamente devassada por prospectores de madeira, criadores de gado, e demais espécimes que pretendem dela retirar o lucro do curto prazo, pondo-nos a todos em (ainda mais) risco no curto prazo.

Recomendo a todos os que gostam de uma boa história, forte, onde se falam de temas importantes de maneira delicada.

Boas Leituras!

Finalistas do Booker Prize 2020

booker 2020

Já sairam os finalistas para o prémio Booker deste ano, mais tarde que nos anos anteriores devido ao Covid-19 e o impacto que teve no mundo editorial. Já aqui tinha falado deles quando apresentei todos os nomeados, e a selecção parece-me equilibrada. Deixa de fora Hilary Mantel, escritora já consagrada, e alguns outros que me pareciam interessantes. Ainda não li nenhum desta lista, mas terei que corrigir isso. 

Deixo aqui os resumos que fiz no post com todos os nomeados. 

Boas Leituras!

  • The New Wilderness de Diane Cook – Este é o segundo livro desta jovem autora, e tal como o primeiro foca-se nos problemas ambientais e alterações climáticas. Bea tem uma filha de 5 anos, Agnes, que está a morrer com doenças provocadas pela poluição. Para a sua sobrevivência têm que ir para uma zona remota e intocada, para permitir a Agnes recuperar. Parece-me uma premissa extremamente interessante, mas um livro demasiado negro para o meu estado de espírito presente.
  • This Mournable Body de Tsitsi Dangarembga – Este é o terceiro livro desta jovem escritora do Zimbabwe, que escreve sobre a luta duma mulher para encontrar o seu lugar num mundo em permanente mudança, e a sua relação com o país e o seu passado. Os seus dois livros anteriores foram sobre a mesma personagem, por isso para mim eu teria que começar pelo primeiro antes de chegar aqui, por uma questão de contexto.
  • Burnt Sugar de Avni Doshi – Mais uma história escrita por uma jovem autora, e mais uma história sobre a relação entre mãe e filha, neste caso quando a mãe começa a ter dificuldades de memória e precisa que tomem conta dela. Mais uma vez me parece um pouco negro para a minha disposição actual.
  • The Shadow King de Maaza Mengiste – Retiro o que disse anteriormente, a propósito do livro da Hilary Mantel, porque afinal há ficção histórica que me interessa. Este livro conta a história dum conflito pouco falado aquando da Segunda Guerra Mundial, que é a invasão italiana da Etiópia. Contado na perspectiva duma orfã que é empregada dum oficial do exército etíope e que se torna uma lutadora contra os italianos. Fiquei bastante interessada.
  • Shuggie Bain de Douglas Stuart – outra sólida aposta, o primeiro livro deste autor escocês sobre as dificuldades vividas na Escócia em plena era Thatcher, onde se lutava com o desemprego, a dependência de drogas e alcóol, onde ter uma vida melhor parecia um sonho distante. A história de 3 filhos duma mãe alcoólica e um pai ausente, e o que é preciso fazer para sobreviver.
  • Real Life de Brandon Taylor – Um jovem autor afro-americano conta-nos a história dum jovem cientista gay, oriundo duma pequena cidade americana, que tenta fugir ao seu passado ao mesmo tempo que mantém a distância dos seus amigos do presente para preservar a sua intimidade. Mas os acontecimentos obrigá-lo a lidar com a sua realidade.

Acabei de Ler – A Praia Mais Longínqua

the farthest shore

Às vezes é bom seguir as minhas próprias recomendações, e por isso resolvi pegar no último volume da trilogia de Terramar, de Ursula K. Le Guin, e descobrir o final da história do Arquimago Sparrowhawk, o feiticeiro mais poderoso daquele mundo. Tal como no volume anterior, Sparrowhawk não está sozinho e a personagem que o acompanha é tão importante e rica como ele.

Em Terramar a magia está a perder-se, as pessoas andam deprimidas, esqueceram a língua antiga e como fazer as tarefas mais básicas. É como se o mundo tivesse perdido brilho e nitidez. Um grande mal aflige este mundo, e apenas Sparrowhawk e Arren, o príncipe de Eldar, o podem travar.

O cerne desta história resume-se a um jovem e um ancião a percorrerem todo o mundo num barco à vela. Pouco mais se passa em termos de acção, e no entanto, todo um mundo acontece. Durante o desenrolar desta demanda vamos poder reflectir no significado de estar vivo, na possibilidade de viver eternamente, e se na realidade não é a proximidade da morte que dá cor e brilho à nossa vida. Mais uma vez aqui o mal não é retratado como monstros assustadores, orcs e dragões, mas como um mau estar interno, uma depressão e desespero que nos fazem perder a vontade de viver.

Muito interessante, faz-nos pensar e é definitivamente um livro que recomendo para umas horas bem passadas.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Queixa e Imprecações Dum Condenado À Morte

ary dos santos

Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

José Carlos Ary dos Santos