Acabei de Ler – Acqua Tofana

acqua tofana

Interessante que eu nunca tenha ouvida falar de Acqua Toffana até agora, e este ano deparo-me logo com 3 eventos separados a falar-me disto. Começou por ser um vídeo do Youtube de que me falaram, depois um livro que li e que claramente é inspirado nesta história, e finalmente este livro de Patrícia Melo que peguei agora a meio duma das minhas fases de não saber o que ler a seguir.

Já tinha lido dois livros da autora, um muito bom e outro mais assim assim, Inferno e O Elogio da Mentira. Gosto bastante da sua escrita, escorreita e directa, cheia de imagens fortes. Patrícia Melo, pelo que li dela até agora, é fixada na morte. Ou em homicídios, mortes violentas, desejo de matar, desejo por quem mata. Isso por si só não me faz impressão nenhuma, desde que seja um livro bem construído e interessante, no entanto não foi o que achei deste.

Admito que o meu cérebro mal dormido possa não ter abrangido todos os significados que a autora quis dar às suas histórias, mas este tipo de escrita “Fluxo de Consciência” (Stream of Consciousness em inglês, não sei se a tradução será diferente), em que seguimos os pensamentos e emoções do narrador, mais que uma narrativa de factos e acções, nem sempre funciona para mim, pois é necessário uma atenção redobrada para discernir o que é realidade do que é apenas um produto da mente de quem conta a história. E aqui, provavelmente de propósito, a linha entre as duas é muito ténue.

Na primeira parte temos a história duma mulher que vive trancada em casa com medo de ser assassinada, e que desconfia que um assassino está muito próximo dela. Na segunda parte temos um pacato esposo e pai de família que fica obcecado com assassinar uma vizinha. Como pano de fundo temos um assassino em série, o estrangulador da Lapa, que esse sim vai alegremente fazendo mais  vitimas.

Como disse, não foi de todo dos meus livros favoritos da autora, mas não foi suficiente para perder a vontade de ler mais livros dela no futuro. Mas agora, rumo a qualquer coisa mais cativante.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – People We Meet on Vacation

people we meet on vacation

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Não consigo perceber porque raio é que este ano só leio romances uns atrás dos outros, quando até é um género que não me diz muito. Eu culpo, em doses iguais, o meu cérebro em decadência, e os Booktubes que tenho visto que só falam de romances. Uma das duas variáveis vai ter que mudar (ou não)!

Mas tendo recentemente lido Beach Read desta autora, e até gostado bastante, resolvi atirar-me também a este. Emily Henry escreve bem, faz histórias coesas e coerentes, coisa que nem sempre acontece neste género. As personagens são engraçadas e interessantes, e no final tudo faz sentido. Este livro foi exactamente assim, mas de algum modo não me suscitou tanto interesse como o anterior.

Poppy e Alex são os melhores amigos desde o primeiro ano de universidade e gostam de viajar juntos. Por algum motivo nunca avançaram com a sua relação noutra direcção, mas a razão para isso não é muito clara. Mas a sua amizade chegou a um beco sem saída e será difícil recuperá-la. Como já disse, tudo faz sentido na história, mas achei menos envolvente que o anterior.

Recomendo a todos os fãs da autora, ou de romances que começam como grandes amizades.

Boas Leituras!

Goodreads Review

I don’t quite know why I keep reading romance novels this year, considering they are very far from my favourite genre. I blame, in equal parts, my faulty brain and the Booktubes I’ve been watching that focus a lot on this kind of books. Something will have to change (or maybe not)!

I’ve recently read Beach Read from the same author, which I really enjoyed, so I decided to also read this one. Emily Henry is a nice writer, her stories are well crafted and coherent, which is not so common in romance novels. The characters are interesting and fun and it all wraps up well in the end. However, I did not enjoy it as much as the previous ones.  

Poppy and Alex are college best friends and they enjoy travelling together, which they do at least once per year. For some reason, their relationship has never moved forward from friendship, but tye don’t really know why. However, since their last trip 2 years before, they have reached a crossroads and their relationship is at risk. As I said, the story is well crafted, but I did not enjoy it as much as the previous one. 

Still, I recommend it to all fans of Emily Henry, or friend-to-lovers tropes. 

Happy Reading!

Eléctrico nº 18

rui manuel amaral

Tarde cinzenta de domingo. Chuva a bater nos vidros,

pouco trânsito desaparecendo nas ruas quase desertas do fim-de-semana.

Lembra-me as antigas tardes de Inverno

em que descíamos de eléctrico a avenida da Boavista

entre as pequenas histórias do dia e o vento frio

que crescia nas janelas.

Vagaroso como um caracol, o velho eléctrico seguia pela tarde,

por dentro da sua fina concha de sal.

Cinco mil metros de solidão até ao mar

e o meu amor a desaparecer sob uma nuvem de espuma.

Imenso o céu, intocado pelo brilhos das vastas ondas,

o mar tão branco enrolando nos cabelos,

a invadir os muros, a ecoar nas fachadas.

Homens e gaivotas remoinhando no vento,

os dedos claros como grãos de areia.

Por entre as árvores baixas da foz

o mar espalhava as suas sementes misteriosas.

Há muito que o eléctrico não desce a longa avenida.

Hoje lembrei-me de ti. A tarde caía para sempre

no coração sombrio deste longo Inverno.

Um resto de morte invadiu-me antes ainda de a noite nascer.

Rui Manuel Amaral

Acabei de Ler – Segredo Mortal

segredo mortal

Mais uma vez deu-me vontade de ler um autor português, desta vez o primeiro livro dum jovem autor que tem dado muito que falar no mundo dos livros. Segredo Mortal é um thriller/policial passado em Lisboa e arredores e com muita acção. Leonardo Rosa é um inspector da Judiciária e Marta Mateus é a sua colega. Juntos vão ter que descobrir um assassino eficaz, uma conspiração perigosa e se Carlos Caetano é inocente ou culpado daquilo que o acusam.

Gostei muito deste livro, a história era coerente, bem desenhada e sem pontas soltas. Nota-se que houve por trás muita investigação para tudo nos soar verosímil, e a proximidade das localizações tornam esta leitura muito confortável. Se já leram Dan Brown na sua vertente Código da Vinci, imaginem um investigador do mesmo género, com muito conhecimento e bom senso, com capacidade e gosto por descobrir enigmas. O livro tem também o mesmo tipo de ritmo, com acção a desenrolar-se em vários locais e com diferentes personagens. Não foi certamente um livro aborrecido.

O segredo propriamente dito era interessante, mas talvez demasiado explicado. Nalgumas partes eu li apenas na diagonal. Mas isso posso ser eu que sou impaciente.

Se gostam de thrillers e querem ler uma versão portuguesa, este livro é uma boa aposta.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Os Livros

manuel antonio de pina

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo “eu”entre nós e nós?

Manuel António de Pina

Faltam Duas Semanas

feira livro lisboa 2021

Tenho a certeza que todos os amantes de livros lisboetas estão bem cientes que a Feira do Livro vai iniciar-se exactamente daqui a duas semanas, mas nunca é demais relembrar. 

Este ano será diferente, com muita gente já vacinada, ou recuperada de Covid-19, a liberdade para visitar este espaço será maior. Eu sei que tenciono lá ir, mesmo sabendo que a minha crónica falta de espaço não me permite comprar mais livros. Mas vale a pena nem que seja para absorver o ambiente. 

E vocês, estão a pensar lá ir? Contem-me as vossas compras!

 

Acabei de Ler – A Suspeita, Poirot #38

Poirot 38

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Cheguei ao trigésimo oitavo título do Poirot, Third Girl em inglês, traduzido por A Suspeita. Na realidade aqui não haveria uma tradução airosa. A terceira rapariga do título refere-se a uma especificidade londrina dos anos 60, em que as raparigas começaram todas a trabalhar fora e saiam de casa dos pais para viverem sozinhas. Mas como o preço de arrendamento era muito elevado, uma rapariga arrendava uma casa, alugava um dos quartos a uma amiga e procuravam depois uma terceira rapariga, normalmente através de anuncio de jornal, para alugar o último quarto e assim ajudar nas despesas. Norma é uma terceira rapariga, dividindo um apartamento com mais duas, que conhece marginalmente. Vai ter com Poirot um dia para procurar ajuda, mas acha-o demasiado velho, coisa que fere o ego do nosso detective.

Este foi um livro muito agradável de ler. A história é interessante e bem desenhada, e temos novamente Ariadne Oliver, a escritora de mistérios que é uma pastiche da própria autora, e que é uma personagem muito divertida. Confesso que as dicas que foram sendo dadas não foram muito subtis, por isso lá para meio eu já sabia qual o desfecho do mistério, mas isso não diminuiu em nada o prazer de ler. Foi talvez um pouco estranho ver um Poirot passado nos anos 60, com rapazes de cabelo comprido e todos a tomar drogas livremente, está um pouco longe da realidade que nos habituámos a ter na série televisiva, mas foi uma abordagem interessante à passagem do tempo entre os primeiros e os últimos livros deste personagem.

Recomendo a todos os amantes de livros de mistério, de Agatha Christie em particular. 

Boas Leituras!

Goodreads Review

Here I am in the 38th book of the Poirot series, dangerously close to the end. The Third Girl from the english title refers to the very commom flatshare situation in London in the sixties, when girls were starting to work and live alone from a young age, and could not afford to rent a flat alone. Norma is a third girl, renting the same flat as 2 friends, and one day she goes to Poirot to ask for help, but finds him too old and flees. This sparkles his interest on the case, and he enlists the help from his friend, Ariadne Oliver. 

This was a very fun and easy book to read, and Ariadne is a great character, based on Agatha Christie herself. It was a good story, but the hints were not very subtle so I ended up guessing the end very early in the book. This has not diminished my pleasure in reading the book, though. It was a bit weird reading a Poirot that takes place in the 60’s, with guys with long hairs and everyone taking drugs freely, as it was very far from the imagery portrayed in the TV show, but it was interesting to see time flowing from the first books to the last ones. 

I recommend it to all mistery lovers, especially Poirot fans. 

Happy Reading!

 

Poema do Fecho Eclair

antonio gedeao

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de oiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho-éclair.

António Gedeão

Acabei de Ler – Collected Works de Scott McClanahan

collected works

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Estava eu a passear pelo meu Goodreads no outro dia, quando vejo uma das pessoas que sigo recomendar este livro a uma amiga. Com esta capa espectacular, eu tinha mesmo de investigar e fiquei imediatamente tentada a ler. As descrições referiam inúmeras vezes que ler Scott McClanahan era como levar um murro no estômago, e eu tomei isso como um desafio pessoal.

Na realidade, o Scott escreve como eu gostaria de escrever. Tudo é incrivelmente simples na sua escrita, não tem floreados bonitos, adjetivação bacoca, ou frases polidas para aparecerem em mil instagrams com um fundo às florzinhas. Tudo é simples e directo, mas ao mesmo tempo eficaz.

Scott McClanahan é do West Virginia, um pequeno estado americano rural e mineiro, e as suas histórias poderiam ser aquelas que ele conta aos amigos num bar, em frente a umas cervejas. E de certo modo sentimos mesmo que estamos a beber umas cervejas com ele, enquanto ele nos conta da vez que viu a rapariga mais bonita do Texas, ou quando trabalhou num call center, ou quando sabia que as pessoas iam ser atropeladas. Sentimo-nos parte de cada história, mesmo quando não fazemos ideia de como é o West Virginia.

Até agora, este é definitivamente o melhor livro que li este ano, e o ano já passou bem do meio. Não será um livro que agradará a toda a gente, mas eu recomendo-o muito.

Boas Leituras!

Goodreads Review

One of these days I was scrolling away on my Goodreads when I came across someone recommending this book to a friend. As the cover was really cool, I just had to check it out. Most of the reviews said that reading Scott McClanahan was like being punched in the stomach, and I felt this was a personal challenge and just had to go and read it. 

Actually Scott writes as I would love to write. It is all so deceptively simple, no flowery sentences, or excessive adjectives, or sentences intented to appear on Instagram with a lovely background. What you see is what you get, or maybe not. 

Scott is from West Virginia, a small american state with farms and coal mines, and we can picture him telling those stories to his friends, in a bar, in front of a beer. Or maybe they are about his friends, in a bar, having a beer. Or maybe we are the ones sitting with him on a bar, having a beer. Either way, he is telling them/us about this time he met the most beautiful girl in Texas, or stories from when he worked in a call center, or when he knew people were getting hit by cars. We feel part of each story, even if we never set foot on West Virginia. 

This is the best book I’ve read this year so far, and the year is not young anymore. It is not a crowd pleaser, but it is definitely a book worth reading. I recommend it to anyone who likes reading. 

Happy Reading!