Deixa-me Dar-te o Verão

jose tolentino mendonça

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras.

José Tolentino Mendonça in De Igual para Igual

É Por Ti Que Escrevo

antonio_ramos_rosa

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’

Acto de Contrição

joao luis barreto guimaraes

Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que os
devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como que um
indulto lento.

João Luís Barreto Guimarães, in ‘Luz Última’

Dreamlessly

bukowski

Imagem daqui

old grey-haired waitresses
in cafes at night
have given it up,
and as I walk down sidewalks of
light and look into windows
of nursing homes
I can see that it is no longer
with them.
I see people sitting on park benches
and I can see by the way they
sit and look
that it is gone.

I see people driving cars
and I see by the way
they drive their cars
that they neither love nor are
loved –
nor do they consider
sex. it is all forgotten
like an old movie.

I see people in department stores and
supermarkets
walking down aisles
buying things
and I can see by the way their clothing
fits them and by the way they walk
and by their faces and their eyes
that they care for nothing
and that nothing cares
for them.

I see a hundred people a day
who have given up
entirely.

if I go to the racetrack
or a sporting event
I can see thousands
that feel for nothing or
no one
and get no feeling
back.

everywhere I see those who
crave nothing but
food, shelter, and
clothing; they concentrate
on that,
dreamlessly

I do not understand why these people do not
vanish
I do not understand why these people do not
expire
why the clouds
do not murder them
or why the dogs
do not murder them
or why the flowers and the children
do not murder them,
I do not understand.

I suppose they are murdered
yet I can’t adjust to the
fact of them
because they are so many.

each day,
each night,
there are more of them
in the subways and
in the buildings and
in the parks

they feel no terror
at not loving
or at not
being loved

so many many many
of my fellow

creatures

Charles Bukowski in Burning in Water, Drowning in Flame

Acabei de Ler – K2, Life and Death on the World’s Most Dangerous Mountain

k2

Keep scrolling if you prefer to read in English.

Quem segue o Peixinho sabe que eu gosto de ler sobre montanhismo. Eu, que tenho vertigens se subir a um banco, gosto de ler as experiências de quem se aventura a escalar os picos mais altos do planeta. E não há altura melhor para o fazer que em plena vaga de calor. Talvez ler sobre temperaturas abaixo de zero ajude a suportar os quarenta que sentimos a meio de Julho.

K2 é a segunda montanha mais alta do mundo, e situa-se no Paquistão, na cordilheira do Karakoram. Não é tão popular como o Evereste, mas é bastante mais técnica e perigosa de subir. Ed Viesturs é um alpinista americano muito experiente, e foi o primeiro americano a subir todos os 14 picos com mais de 8000 metros de altura. Só há 4 alpinistas no mundo com maior número de subidas de alta montanha, a acreditar no que a Wikipedia nos diz.

Após a trágica época de 2008 no K2, em que morreram 11 alpinistas, e tendo tido uma experiência dramática quando fez a sua própria subida em 1992, Ed Viesturs decide investigar a história da montanha e mostrar-nos porque é tão perigosa, usando o relato de várias campanhas anteriores.

A premissa é boa, e Ed Viesturs é realmente uma autoridade na matéria, mas de algum modo este livro não foi brilhante. Acho que teria beneficiado de uma melhor edição. O autor fala-nos de várias expedições ao K2 desde 1902, os sucessos e os insucessos. Reconta novamente a sua própria experiência de 1992, com Scott Fisher que viria a falecer mais tarde no desastre de 1996 no Everest, mas por vezes os saltos entre experiências eram pouco claros, e confusos. Era necessário muita atenção para percebermos em que ano estávamos, e se já tínhamos ou não lido anteriormente sobre isso. Depois foram largos capítulos sobre a expedição de 1939 onde pela primeira vez morreram pessoas a escalar esta montanha, com uma análise detalhada sobre a atribuição de culpas, e confesso que essa parte não foi nada interessante e acabei por ler meio na diagonal. Devo dizer que me agradou bastante o destaque dado aos sherpas e paquistaneses que se distinguiram na montanha também, já que é tão raro vermos isso noutros livros.

No fundo, um livro que tinha imenso potencial mas que ficou um pouco aquém. Se gostarem de ler sobre montanhismo, há opções mais interessantes, nomeadamente Buried in the Sky, também sobre escalada no K2 mas com uma extensa história dos sherpas que acompanharam a expedição e que raramente recebem atenção mediática.

Rumo ao próximo. Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

If you follow this blog, you already know I like to read about mountain climbing, even though I have severe vertigo if I climb something as high as a park bench. Still, I love reading about the experiences of those who dare to climb the highest mountains on the planet. And I was reading this through a heat wave, reading about freezing temperatures actually helped to bear the heat.

K2 is the second highest mountain on Earth, and is in Pakistan, on the Karakoram mountain range. It is not as widely known to the general public as the Everest, but is much more difficult and technical, making it one of the most dangerous peaks. Ed Viesturs is a very accomplished American climber, the first (and only) one to reach all the 14 peaks that stand above 8000m. According to Wikipedia, there are only other 4 climbers with more high peaks climbs than him.

He wrote a previous book detailing his journey to the 14 peaks, but after the 2008 tragic K2 season, with a death toll of 11 climbers, and having had his own dangerous experience in this mountain in 1992, Ed Viesturs decided to investigate K2’s history and delved into past ascents to show us why K2 is considered such a dangerous mountain.

This promised to be an interesting book, and Ed knows what he is talking about, however the book fell a little short for me, and I believed it would have benefited from better editing. The author details several K2 expeditions, since the first one in 1902, including his own experience in 1992 with none other than Scott Fisher that became sadly famous with the 1996 Everest disaster, where he perished. However, the leaps between each expedition were sometimes confusing and a lot of brain power was needed to understand in which timeline we were at any given point. There were also several chapters dedicated to the 1939 ascent, the first time K2 claimed lives. There was a detailed analysis, trying to justify who was (or not) to blame, which was not interesting to me. But it got better after that, and it was very refreshing to see the Sherpas and the high-altitude guides being recognized for their efforts and their sacrifices, which, sadly, is not something common in these books.

This book had a lot of potential, but it fell a bit short. If this is a theme that interests you, there are more interesting options out there. Buried in the Sky was also about K2, but the writing was more interesting and engaging, and it was very informative about the differences between high altitude and low altitude porters, all of which are amply used in these expeditions but with very low recognition.

On to the next one, Happy Reading!

Acabei de Ler – Slade House

slade house

Keep scrolling if you prefer to read in English.

David Mitchell é o que mais se aproxima do que se pode chamar o meu autor favorito. É pelo menos um autor do qual eu leio tudo o que é publicado, e, obviamente sendo eu, eu, por ordem de publicação. Slade House é de 2015 e o penúltimo a ser publicado. Andei a guardá-lo religiosamente porque não quero acabar os livros dele sem ter outro no horizonte.

Se não conhecem David Mitchell começo por vos dizer que todos os seus livros estão ligados, mais subtilmente ou à bruta, como este com o anterior (The Bone Clocks). O autor considera que toda a sua obra é um grande romance que se passa num universo próprio, muito semelhante ao nosso mas com algumas regras próprias e algumas peculiaridades. É comum existirem personagens que vão fazendo aparições especiais em vários livros, e encontrar referências a obras anteriores é quase um passatempo adicional à normal leitura dos livros. No entanto todos podem ser lidos separadamente e sem conhecimento prévio dos anteriores. Há aí pela internet fora várias páginas que falam sobre as ligações entre os vários livros e são muito interessantes. Por outro lado, David Mitchell tem também uma história de vida muito rica, viveu em muitos lugares diferentes e a sua escrita tem essa matriz embebida e isso é outro dos factores que a torna deliciosa. É um dos autores que conheço que melhor consegue escrever vozes diferentes e todas soam realistas, o que é uma coisa bastante difícil. Mas vamos ao livro.

Este Slade House vem imediatamente a seguir a The Bone Clocks e está muito ligado a ele. A história não está relacionada, mas as personagens sim, e muito do vocabulário utilizado também. Não será obrigatório ler um antes do outro, mas certamente desejável. Eu já não me lembrava de algumas especificidades, mas elas foram sendo explicadas ao longo do livro, por isso nunca me senti perdida, tirando no primeiro capítulo em que não se sabia bem o que estava a passar, mas isso fez parte da jornada.

Este não é o melhor livro de David Mitchell. Mas, sendo ele quem é, foi mesmo assim um livro muito bom. A cada 9 anos, numa pequena viela duma cidade inglesa, aparece um pequeno portão de ferro. É a entrada para a Slade House, e quando cada convidado entra  nunca mais vai querer sair. Ou poder… Esta é a história em traços largos, sem estragar nenhuma surpresa. Está muito bem escrita, cada capítulo é contado na perspectiva dum convidado diferente, e tem momentos de bastante suspense. Conhecer os livros anteriores faz-nos sorrir de cada vez que aparece um nome familiar, e saber mais ou menos o que esperar em determinadas situações, o que amplifica a experiência.

Como disse, é um livro bom, umas sólidas 4 estrelas (em 5), um prazer de ler, mas não o melhor para quem se quer estrear neste autor. Para isso, continuo a achar que Cloud Atlas é o melhor. Agora só me falta o último, Utopia Avenue, mas vou esperar até estar quase a ser publicado o seguinte.

Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

David Mitchell is the closest I have to a favourite author. I am reading everything he writes in publication order, as per usual with me. Slade House was published in 2015 and there is only one more after it, so I have been saving it for a long time.

If you are not familiar with Mitchell’s books, let me start by saying that they are all connected, either on a subtle way, or more bluntly, as is the case with this one and the previous, The Bone Clocks. The author considers that all his works form one big novel, all taking place in a big metaverse, similar to our own reality but with some different rules and peculiarities. In each book we can find characters that have appeared previously and will appear again, relatives of previous characters, and references to previous situations. However, they can all be read and enjoyed separately, and this previous knowledge is not necessary to understand the stories. We can find many pages online that refer to these connections, try to explain them, or at least cross reference the books, and they are all interesting. David Mitchell’s life story was also interesting, he lived in many different countries, like Japan, and all that he has learned and experienced now permeates his books and make them so rich. He is also one of the best author’s I know to write stories with different POV’s and making them all sound real, which is quite an accomplishment.

As I said, Slade House comes immediately after Bone Clocks and the two are very connected. The story is not related, but some of the characters are, and so is a lot of the vocabulary used. It is not mandatory to read one before the other, but in this case, I think it will make the experience better. As I read Bone Clocks a while back, I did not remember some of the details, but luckily those were explained throughout the book, so I never felt lost. The first chapter seems a bit confusing, but that is part of the experience, do not let it deter you.

This is not Mitchell’s best work, but it is still a very good book, with a delightful story. Every 9 years, on a narrow alley on an English town an iron gate appears. This is the entry to the Slade House, and when a guest goes in, they will not want to come out. Or might not be able to. This is the brief summary of the story, with no spoilers. Each chapter is written in the guest’s point of view, and we can really feel their personality. Knowing the previous books makes us smile in some situations, or when someone appears, and we can envision what might come next, which is always exciting.

This was a delightful book, 4 out of 5 stars, and a joy to read. If you have never read David Mitchell I recommend you start with something else, being Cloud Atlas the best choice. Now I only have the last one left, Utopia Avenue, but I will hold on to it for a while longer, as I do not want to run out of Mitchell’s books.

Until then, Happy Reading!

O Pássaro da Cabeça (Versos Para Crianças)

manuel antonio de pina

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António de Pina