Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

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Bookshout

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Quem segue este espaço já percebeu que eu ando sempre à procura de maneiras de ter acesso a livros de modo barato (ou mesmo de borla), e sem que para isso tenha de sacrificar em qualidade dos títulos.

Quando procuro livros físicos já compro essencialmente em alfarrabistas ou lojas de segunda mão, que mato dois coelhos duma cajadada. É mais barato ao mesmo tempo que é mais ecológico. Para livros digitais já aqui falei do Projecto Adamastor, Project Gutenberg, Netgalley, Edelweiss, tudo plataformas onde podemos obter livros de forma gratuita e legal.

Agora descobri mais um, o Bookshout,  (na realidade quem descobriu foi a cara-metade), que é uma multi-plataforma onde se pode comprar livros digitais, lê-los online, mas que ao mesmo tempo disponibiliza muitos títulos gratuitamente para lermos. Para mim, a grande desvantagem é que temos de ler na plataforma, ou seja no computador ou na app deles, o que é bem menos confortável que no Kindle, mas por outro lado temos acesso a alguns títulos interessantes.

Para aqueles mais competitivos, a aplicação também permite manter um registo das horas que lemos, do número de páginas que lemos por dia, palavras por minuto, uma panóplia de estatísticas para nos manter felizes ou paranóicos.

Eu ainda estou a experimentar e comecei com O Estranho Caso de Benjamim Button, de F. Scott Fitzerald, mas como sou pessoa que não consegue ler muitos livros ao mesmo tempo ainda não fiz grandes progressos. De qualquer modo fica a recomendação, experimentem e digam se gostaram.

Boas Leituras!

Seventeen

seventeen

Mais uma vez recorri ao Netgalley para arranjar uma leitura diferente, e este autor, Hideoa Yokoyama apresentava-se como um mestre do thriller asiático. Foi com essa expectativa que comecei a ler este livro, uma investigação às causas dum grande desastre aéreo no Japão, com 520 mortos, o maior até então.

A realidade, no entanto, foi um bocadinho diferente, já que de investigação o livro teve muito pouco e centrava-se essencialmente em office politics, lutas de poder nos bastidores dum pequeno jornal local que ficou encarregue, um pouco por acidente, de cobrir a notícia da queda do avião. Através destas peripécias podemos ter um bocadinho de noção de como é rígida a hierarquia num local de trabalho japonês, como as coisas se vergam a outros interesses maiores para lá de simplesmente relatar as notícias.

Neste livro seguimos Kazumasa Yuuki, um homem de 40 anos, já velho para reporter de rua segundo os padrões da altura, e a sua luta para conseguir gerir o cargo de chefe de reportagem no caso da queda do avião, enquanto batalha com os seus próprios demónios internos que o tornam irascível e de pavio curto.

O livro foi interessante, se bem que por vezes difícil de seguir (não estou muito habituada a nomes japoneses e por vezes confundia algumas personagens), e uma das partes que descreviam no resumo e que me levou a pedir o livro, a escalada duma montanha dificil, quase não aparece.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Rise of Endymion – O Final do Ciclo

Rise of Endymion

Agora que finalmente terminei os quatro livros que constituem o Hyperion Cantos, fiquei com mais questões do que propriamente coisas resolvidas. E as minhas questões são muito simples. Não tenho dúvidas nenhumas que esta foi a melhor série de ficção científica que eu já li, não só pela sua complexidade temática, que abrange desde biologia a filosofia, religião, política, etc, etc, mas também pela mestria com que foi escrita, já que é uma história alucinante. Apesar de se desenrolar ao longo de quatro grandes livros, raras foram as vezes em que achei que o autor estava a ser repetitivo, ou que o que estava a ser relatado era redundante ou supérfluo.

No entanto isso leva-me a duas questões que para mim são relevantes. Porque é que, sendo estes livros tão bons (e não é apenas a minha opinião, o rating no Goodreads é altíssimo para qualquer dos 4 volumes, e todas as pessoas a quem recomendei tiveram a mesma opinião) nunca foram adaptados para série, filme ou qualquer coisa do género. E, questão 2, como é que não há uma tradução para português, nem sequer português do Brasil. Vi nalguns blogs que do outro lado do Atlântico, já em desespero de causa, alguns amantes de sci-fi se juntaram para fazer uma espécie de tradução caseira e tornar o livro mais acessível a quem não domina inglês.

Porque falando dum modo realista, ler sci-fi em inglês é um acto de amor. Por vezes é difícil perceber se estamos perante uma palavra que simplesmente não conhecemos ou se foi inventada pelo autor (e este inventou imensas palavras e conceitos). Felizmente o Kindle, com o seu dicionário incluído ajuda nessa tarefa, mas os primeiros capítulos são sempre tarefa árdua.

Eu tenho uma opinião em relação a isso, claro. Na minha visão, este autor fala de temas muito desconfortáveis, nomeadamente religião, política, e o modo como determinadas instituições são retratadas (e mesmo a espécie humana) não é propriamente numa luz favorável, o que não agrada numa perspectiva hollywoodesca.

Quanto à tradução para português, o problema é sempre o mesmo. Mercado pequeno, inundado de lugares comuns, em que pouco mais se tem para além de best-sellers garantidos, e ficção científica deve vir no fundo da lista de prioridades. No entanto, sei que mesmo assim há mercado, e há lançamentos a acontecer, por isso fica lançado o desafio. Agora, o que eu achei desta conclusão da história?

Para já foi interessante estar a acabar de ler este livro na Semana Santa, sendo que parte do culminar da acção acontece exactamente durante a Semana Santa. Certo que numa versão futurista e distorcida da igreja, mas interessante mesmo assim. Depois foi bom finalmente perceber ligações que demoraram 4 livros a entender (mas o que raio é o Shrike, sendo a principal delas), e saber o final de histórias paralelas sobre as quais apenas tínhamos tidos vislumbres e suposições. Mas o mais impactante é a mensagem que este livro transmite, que é não só ecológica, já que como sempre o Homem tem como instinto dominar toda a Natureza em que toca em vez de trabalhar colaborativamente com ela, mas também a mensagem mais filosófica.

No fundo neste livro fala-se de escolhas. A mensagem transportada por “Aquela que Ensina“, figura central da história, nova salvadora da humanidade, é incrivelmente simples. Escolhe novamente. Apenas isso. Em cada dia, quando recomeçares a viver, escolhe tudo novamente. Se estás feliz com as tuas escolhas (as tuas crenças o teu emprego, o teu companheiro), valida-as novamente e segue sendo feliz. Se alguma dessas coisas não te preenche, não faz sentido, não se enquadra no teu código de valores, escolhe uma coisa que se coadune melhor contigo. Parece simples, não? Juntamos a isso uma empatia universal por todos os seres vivos, e temos uma receita para o sucesso da nossa espécie.

Se fosse assim tão simples… Aconselho a todos os que gostam de ficção cientifica, e livros que façam pensar enquanto nos contam uma boa história.

Goodreads Review

 

Às Vezes Não Se Aguenta!

Oh Please

Não sei se vos acontece frequentemente, a mim confesso que não. Mas às vezes lá calha, e normalmente significa que estou a meio dum livro mesmo bom, daqueles que estou a viver por dentro.

Daqueles que a história que se passa nas páginas passa-se na nossa cabeça e na nossa pele e de repente, vindo do nada e sem avisar acontece um facto verdadeiramente inesperado que simplesmente o nosso coração não aguenta e simplesmente fechamos o livro e deixamo-lo ali de lado para lhe pegar novamente quando tivermos recuperado o sangue frio.

A mim é raro porque sou chata e estou sempre a desconstruir o que leio, por isso raramente sou apanhada de surpresa, mas acabei de ter um desses momentos de “Oh please I cannot deal with this shit right now“, fechei o meu Kindle e não sei quando o vou reabrir.

Provavelmente daqui a umas horas… mas devagarinho.

Boas Leituras!

Prendas Natalícias

Kindle Paperwhite

Anteriormente alonguei-me bastante sobre as vantagens e desvantagens de ter um Kindle (ou outro e-reader qualquer), mas a realidade é que nesta altura já me seria muito difícil não ter um. A quantidade de portas que me abre (como o Netgalley ou Edelweiss), e a variedade de títulos que disponibiliza, principalmente a alguém que, como eu, lê principalmente em inglês tornam este pequenote numa ferramenta essencial.

Tendo em conta a provecta idade do meu Kindle anterior e o facto de que a bateria já estava a dar sinais de querer descanso, o senhor Peixinho Vermelho resolveu obsequiar-me com um novíssimo Kindle Paperwhite este Natal (e aniversário, e se calhar por vários anos).

Claro que como bom Peixinho estou aqui cheia de pena do velhinho que me foi tão fiel durante estes quase 6 anos, ao mesmo tempo que estou cheia de excitação para experimentar o brinquedo novo e explorar todas as suas potencialidades. Uma das maravilhas que este tem é que já traz uma luz incorporada, por isso acabaram-se as noites a ler com uma lanterna de mola agarrada ao Kindle, ou (pior ainda), com a lanterna do telemóvel apontada ao ecrã. Sim, é verdade, isso aconteceu algumas vezes, e durante mais horas do que vou admitir aqui.

Como a capa protectora que encomendei demorou a chegar (e autocarros da Carris são ambientes hostis a tecnologia desprotegida) a rodagem está a ser feita pelo próprio obsequiador do presente, que estas coisas têm que ter um test drive como deve ser. Mas em breve darei notícias do comportamento do bicho novo.

Boas Leituras!

Fresh Complaint

Fresh Complaint

Estava com algum receio de ler um livro de contos logo a seguir à mestria de Chekhov, mas na realidade este foi mais um presente do Netgalley e já sou fã deste autor há muitos anos, desde que li o genial Middlesex. Em Midlesex o autor falava-nos de temas tão díspares como a emigração, a revolução sexual, Detroit na era da Proibição, tudo através da saga duma familía de origem grega que culmina em Caliope, um hermafrodita que mais tarde escolhe tornar-se Cal. É uma obra duma grande envergadura, quer em páginas, quer em história, e tenho a certeza que voltarei a ela mais tarde.

Jeffrey Eugenides foi também o autor de Virgens Suicidas, que mais tarde se transformou num também belissimo filme de Sofia Coppola, e um terceiro livro que ainda não tive oportunidade de ler. Tudo isto serviu para que me lançasse de cabeça à oportunidade que o Netgalley estava a oferecer de ler este livro de contos, e que desse pulos de contente quando finalmente me disseram que tinha sido aprovada.

E não fiquei mesmo nada desiludida. Tal como Chekhov, mas num estilo diferente, Eugenides é um mestre a descrever a condição humana, as idiossincrasias dos nossos tempos, a dificuldade de viver nos tempos modernos.

Creio que os meus favoritos foram logo os primeiros contos, e alguns deixaram-me com lágrimas nos olhos. Talvez porque ressoaram com algo cá dentro que está muito próximo da minha realidade, e não consegui ter distanciamento, mas também isso é a marca duma boa prosa. O primeiro, The Complainers, fala de duas amigas que já passaram a flor da idade. Na realidade, estão já bem avançadas naquilo que se convencionou chamar a terceira idade, e a mais velha encontra-se à beira da demência a viver numa residência adaptada à espera do apagão final. Mas o que as une é um livro com a história de duas idosas índias que foram abandonadas pela sua tribo num Inverno particularmente rigoroso e de extrema fome, numa tentativa de poupar recursos. E foram abandonadas não por acaso, mas porque eram as que mais reclamavam do grupo todo. No final são capazes de regressar aos ensinamentos de juventude e sobreviver à fome. Esse livro existe na realidade, e foi escrito por uma nativa americana que nasceu e cresceu no Alasca, e é baseado numa das lendas da sua tribo. O modo como Eugenides o tece na sua história está bastante emocionante, e deu-me vontade de adicionar este livro à minha lista de futuras leituras.

Outro que me emocionou foi The Baster, o terceiro conto, que nos fala duma mulher que chega aos 40 solteira e sem filhos e desesperada por assim ser. Resolve então dar uma festa onde vai escolher um dador para ter um filho por inseminação artificial. Todo o conto se desenvolve à volta das oportunidades perdidas na vida, nos desencontros, em casos mal resolvidos, e a cena em que ela olha os autocarros escolares e vê as crianças que poderiam ter sido suas a acenar-lhe lá de dentro, como se fossem fantasmas, está bastante forte.

No seu todo está um livro bastante conseguido, e apesar das histórias terem sido escritas ao longo de várias décadas, sente-se alguma coesão nos temas. Aconselho a fãs do autor e pessoas que gostam de boas histórias, pouco convencionais.

E com este, já só me faltam 3 livros para o meu objectivo anual do Goodreads. Mais um esforço.

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A Beleza de Chekhov

Chekhov

Desta vez o Netgalley proporcionou-me uma incursão à Rússia do final do século XIX pelas mãos de Anton Chekhov, conhecido dramaturgo mas também um belíssimo autor de contos (aclamado por alguns como o mestre da escrita deste género). E é exactamente isso que este “The Beauties” é, um livro cheio de pequenas pérolas que nos enchem de espanto e reflexão.

Estes 13 contos pretendem ser mais do que pequenas histórias, e na realidade são um retrato duma pequena porção da vida das pessoas que os habitam, que não são assim tão importantes enquanto personagens, mas que são fundamentais enquanto documento da mentalidade e sociedade dum país. Neste caso, o interior da Rússia rural do final do século XIX. Eu costumo sublinhar passagens que acho interessantes ou marcantes, e nalguns contos apetecia-me sublinhar quase tudo.

Como sempre percebemos que estamos a ler contos sobre o interior russo mas poderiam bem ser passados em Trás os Montes, ou na América do Sul, porque na realidade a natureza humana é igual em todo o lado, para o melhor e para o pior. Mas é sempre a caricatura do pior que nos faz sorrir.

Dois destes contos marcaram-me especialmente, por razões diferentes. O segundo (The Man in a Box), descreve a figura dum homem que vivia absolutamente espartilhado nos seus pensamentos do que é certo e com isso influencia toda a aldeia onde vive mesmo após a sua morte é absolutamente delicioso e tem paralelismos incriveis com os nossos tempos de viver sob uma ditadura. Um dos seus lemas de vida era: Se não há uma lei a permiti-lo é porque não se pode fazer, que é uma completa subversão da realidade mas que com isso conseguiu subjugar todos os seus pares.

Noutro conto chamado A Blunder, temos um casal escondido atrás da porta a escutar a conversa da filha com um pretendente, e a planear aparecerem com o icone ortodoxo na mão depois do rapaz professar o seu amor, para, segundo a tradição ele ser obrigado a casar. Os pais estavam claramente desesperados para casar a sua filha, não nos é dito porquê, mas quando conseguimos “ouvir” a conversa entre os namorados percebemos que na realidade o rapaz não está assim tão apaixonado e a filha está aborrecida que ele não corresponda às suas expecativas de amor romântico. Quando finalmente os pais saem de icone em punho, triunfantes, e o rapaz se sente encurralado, dá-se o mais divertido twist que dá o nome ao conto, já que em vez do icone, simbolo da tradição e compromisso, trazem o retrato dum artista para grande alivio do “noivo”.

Aconselho muito, principalmente a quem, como eu, não está familiarizado com literatura russa, já que este é com certeza um excelente ponto de entrada. Deixo uma última nota para o tradutor desta versão, Nicolas Pasternak Slater, neto doutro autor russo, Boris Pasternak, que soube manter a autenticidade do discurso.

Goodreads Review

 

Reality upset him, frightened him, kept him in a constant state of alarm; and perhaps it was to justify this timidity on his part, his aversion towards the present time, that he always praised the past, and things which had never been. The ancient languages he taught served essentially the same purpose as his galoshes and umbrella – he used them to hide away from real life. “‘Oh, how resonant, how splendid is the Greek language!’ he used to say with a sweet smile. And as if to demonstrate the truth of his words, he would screw up his eyes, point a finger in the air, and pronounce ‘Anthropos!’ “And Belikov tried to hide his thoughts in a case, too. Nothing seemed clear to him except circulars and newspaper articles prohibiting something. If there was a circular forbidding pupils to go out into the streets after nine at night, or if some article proscribed carnal love, that made sense to him. Those things were forbidden, and that was that. Authorizations and permissions, however, always seemed to him to conceal an element of doubt, something vague and not fully expressed. When there were discussions in town about setting up a drama group, or a reading room, or a tearoom, he would shake his head and quietly say: “‘Well, that’s all well and good, of course, but it might lead to something…’

 

But aren’t we ourselves, living in stuffy towns, in cramped conditions, writing pointless papers, playing at vint – aren’t we living in boxes too? And the way we spend our whole lives surrounded by idle, petty men and vain, stupid women, talking and listening to all sorts of rubbish – isn’t that living in a box?

5 Desvantagens do Kindle

Compras Feira 2017

Ora falei-vos no último post sobre as vantagens mais importantes de ler num e-reader, mas é claro que não são tudo rosas e também há desvantagens. Vou falar-vos das principais já a seguir.

1. Livros em Português: Tirando o Projecto Gutenberg e Adamastor, é muito díficil arranjar livros em português para o Kindle. E como estes trabalham apenas com livros que já estão em domínio público, isso significa que autores recentes é dificílimo arranjar. As editoras vendem formatos digitais, mas altamente protegidos, e nunca consegui fazer com que nenhum funcionasse no meu kindle, apenas no computador. Ora convenhamos que ler no computador não é a mesmo coisa. E no mercado português o preço dos livros digitais é ridiculamente próximo dos físicos, considerando que não há gastos de produção nem distribuição. Não compensa. Para livros em português, recorro ao alfarrabista ou, em último caso, ao OLX.

2. Não se consegue emprestar: Um dos maiores prazeres que tiro dum livro que gosto muito é a seguir emprestá-lo àquela amiga/o que eu sei que vai gostar muito. Ora, com o formato digital esse prazer é amputado. Eu sei que a Amazon tentou colmatar isso e criar a figura do empréstimo digital, mas tem prazo para a outra pessoa ler e todos nós sabemos que o risco de nunca mais nos devolverem um livro que gostamos muito faz parte da emoção de emprestar. Ainda agora li um livro maravilhoso que me chegou precisamente pelas mãos duma amiga, e que me vai obrigar a marcar um cafezinho para devolver. Os livros ao serviço da socialização.

3. Não serve para BD: Eu adoro BD, e o kindle tem um ecrã pequeno e a preto e branco. A Amazon bem tentou colmatar isso com o Kindle Fire, mas isso já é mais um tablet, e ficou uma coisa que não é carne nem peixe, por isso resignemo-nos. Para ler boa BD, de bom tamanho e com boa qualidade, o bom e veljho papel ainda é a melhor opção. E aí sim, a textura do papel conta muito para mim, parece que os desenhos saltam cá para fora.

4. É um gadget: e como tal, é frágil. Ou seja, tem de ser protegido. No meu caso, eu nun ca o levo para a praia porque as nossas são ventosas e se entra areia na reentrância de carregar, lá se vai o e-reader. Por outro lado já tem uns risquitos no ecrã, coisa normal ao fim de 5 anos, mas mesmo assim estou a limpá-lo e ao fim de um bocado percebo que por mais que limpe é um risco, não vai sair, e sim vai estar sempre por cima das letras.

5. Toda a gente consegue publicar: Aquilo que é uma grande vantagem, também é uma desvantagem. Se toda a gente consegue publicar livros sem passar pelo crivo de uma editora, isso quer dizer que há muita gente por aí sem nada de interessante para dizer que nos bombardeia com as suas criações. No meu Goodreads há uma quantidade infinda de coisas com uma estrela que o provam. No entanto, continuo a preferir ler umas desilusões de vez em quando, das quais posso desistir a meio se me apetecer, e mesmo assim ter o mercado aberto a mais gente. Haverá espaço para todos.

E pronto, os bons e velhos livros nunca nos irão deixar, e isso é uma coisa boa, no entanto é sempre bom haver opções para cada ocasião.

Boas Leituras!

As 5 Vantagens de ter um Kindle

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Resolvi vir aqui falar das vantagens de ter um e-reader (não necessita ser um Kindle, temos cá em casa um Kobo e as vantagens são exactamente as mesmas), porque é uma temática com que me deparo imensas vezes no meu dia a dia. Muita gente com quem me cruzo, que são leitores tão ávidos como eu, têm muita relutância em experimentar ler digitalmente, e sentem uma profunda antipatia pelo gadget, muitas vezes sem sequer terem dado uma hipótese.

Ora, eu não sou de todo uma fundamentalista, e leio em qualquer formato, mas tenho de convir que pelos motivos descritos abaixo, o Kindle mudou a minha abordagem à leitura. Ora vejam.

1. Portabilidade: Sem dúvida, para mim, a sua maior vantagem. Como já disse inúmeras vezes, leio essencialmente nos transportes públicos, e carregar volumes como a Guerra dos Tronos na mala, ou mesmo conseguir ler em pé enquanto não chega a nossa paragem é virtualmente impossível. Por outro lado, tenho sempre o kindle carregado, por isso é-me possível acabar o volume 1 à ida para o trabalho e começar imediatamente o volume 2 à vinda para casa (ou à hora de almoço, se for impossível esperar). Já para não falar que nunca mais tive de me preocupar com quantos livros vou levar para férias. Um Kindle e está o problema resolvido.

2. Espaço: Se forem como eu, o espaço em casa não aumenta e chega um ponto em que ou nos vemos livres de roupa e tachos, ou temos de por um travão na compra de mais livros. Eu atingi esse ponto do não retorno, sendo que ainda tenho bastantes livros em casa dos meus pais, que tenho de ir lá buscar (sooner rather than later). Ora, neste momento, tenho mais livros dentro do Kindle do que em minha casa, e na minha biblioteca digital tenho certamente mais títulos do que terei anos de vida para os ler. Sem gasto de espaço. Nenhum.

3. Ecologia: Pois, menos livros físicos, menos papel gasto, menos árvores abatidas, menos eucaliptos que foram necessários. Só vantagens. E como eu sou uma moça pouco estragadinha, o meu e-reader já fez 5 anos,o que quer dizer que em termos de durabilidade também não está mau, e quando eventualmente se estragar (batam na madeira) irá certamente para a reciclagem também.

4. Acesso a livros: Com plataformas como o Netgalley, o Edelweiss ou o Kindle Unlimited da Amazon, é muito fácil termos acesso a uma grande variedade de livros, quer gratuitamente, quer a preços muito simpáticos. Mais por cá podemos aceder ao Projecto Gutenberg ou o Adamastor para procurar autores portugueses. Nada mau, já nos dá pano para mangas, e se pesquisarmos com cuidado a panóplia de coisas que temos acesso não se fica por aqui.

5. Toda a gente consegue publicar: Hoje em dia, com o advento do formato digital, toda a gente que tenha acesso a um computador e que tenha algo a dizer pode, em teoria, editar o seu livro. Os recursos são facilmente acessiveis, e através da Amazon pode pôr-se o livro em formato digital ao alcance de toda a gente que o queira ler. Isso veio dar oportunidade a imensa gente que tinha portas fechadas antigamente, especialmente em mercados tão pequenos como o nosso, completamente dominados por grandes grupos editoriais que apenas publicam uma meia dúzia de nomes de sucesso garantido. Os gastos com distribuição são nulos, e com a ajuda das redes sociais consegue, mais uma vez em teoria, fazer-se chegar o nosso livro até uma maior audiência, assim haja trabalho, esforço e passa a palavra.

Eu desde que comecei fiquei fã incondicional. Não leio e-reader em exclusividade, porque há imensa coisa que continuo a ler em papel, mas mais por casa, ou na praia, para onde não levo o kindle (areia não combina com electrónica). Há com certeza mais vantagens, mas estas são as que me falam mais ao coração.

Boas leituras.