Livros que Recomendo – Os Filhos da Droga

christiane f

Nunca é demais relembrar que eu sou uma filha dos anos 70, e isso influencia muito não só o meu gosto literário, mas também os livros que marcaram a minha juventude. Sei que hoje em dia uma adolescente de 13 anos provavelmente não terá acesso a este livro, mas os meus pais acreditavam que eu conseguia ler qualquer livro de forma responsável e na realidade foi isso que aconteceu.

Li este livro muito cedo, com cerca de 13/14 anos e fiquei bastante impressionada no bom sentido. Sei que muitas adolescentes que leram este livro na altura fizeram dele uma espécie de modo de vida, e as zonas que lá são faladas tornaram-se quase atrações turísticas, mas eu fiquei muito sensibilizada com os perigos que as drogas representavam para uma jovem adolescente.

Christiane F. era uma jovem de 12 anos, com uma família disfuncional, que se mudou de Hamburgo para Berlim Ocidental nos anos 70. Neste livro seguimos o seu percurso de entrada na droga aos 13 anos, desde 1975 a 1978. É um percurso assustador, que nos mostra um submundo de Berlim, com prostituição de menores. Foi como testemunha num caso desses que os jornalistas que escreveram o livro conheceram Christiane F. fazendo depois várias entrevistas ao longo de 2 meses para dar origem a este livro.

Infelizmente, e apesar da sua vida ter mudado radicalmente após o sucesso do livro, Christiane nunca conseguiu dar um rumo diferente à sua vida, e continua a lutar contra a droga e o alcóol. Chegou mesmo a escrever um novo livro que mostra a sua jornada na dependência, e espera que isso sirva como disuasor para outros jovens.

Este é um livro muito datado, a realidade berlinense é hoje completamente diferente. No entanto, a natureza humana continua a mesma, e as lutas contra a dependência são hoje iguais às de ontem, apesar das roupagens puderem ser diferentes. É por isso, ainda, um livro relevante.

Aconselho a todos os que gostam de livros de não ficção e de histórias fortes.

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Closer

. closer

Esta coisa das leituras por vezes é como as cerejas e um novo autor chama outro. Neste caso nas críticas ao livro de Virginie Despentesque li recentemente falavam-se de muitos autores que navegam no mesmo género transgressivo, entre os quais este Dennis Cooper. Fiquei curiosa porque gosto destes livros que andam no limite do que se consegue ter estomâgo para ler, e resolvi começar por Closer, que marca o início duma série de livros à volta da personagem de George Miles.

George Miles é um adolescente americano lindíssimo, homossexual, duma cidade americana não identificada algures nos anos 90. É ele que está no meio de toda a história, contada em várias perspectivas, e é a cola que une toda a história. Todos os narradores interagem com ele, normalmente de forma amorosa, desde outros adolescentes como ele a homens mais velhos com fetiches de abusar de jovens.

Todos estes adolescentes parecem desligados das suas vidas, fazem grandes esforços para não sentir nada, principalmente tédio, e para se alhearem do que se passa à sua volta. Estão imersos numa vida de alcóol, drogas, sexo e violência. À superfície parecem meninos mimados duma certa classe média alta, que tem demasiado dinheiro e pouca educação, mas à medida que a história progride nós temos pequenos vislumbres da sua vida real e das dificuldades que os rodeiam. Pais com doenças terminais, abusos, negligência, estes adolescentes foram expostos a mais do que conseguiam absorver e refugiam-se no que conseguem para abafar a realidade.

Este é um livro muito cru e com descrições muito violentas. Tem muitas cenas de sexo, mas nenhuma de carácter erótico. Tudo é violência, abandono ou, no caso mais simples, uma forma de passar tempo.

E a unir tudo isto temos George Miles, o adolescente mais bonito de todos, mas com uma passividade assutadora, como se não fosse dono da sua própria vida. É ele que todos admiram, cobiçam, querem ter como troféu, e é ele que acaba por sofrer com isso.

A história é interessante e tem mais do que aquilo que mostra à superfície, no entanto este é um livro muito difícil de ler. Houve alturas em que me questionei se conseguiria chegar ao fim, mas ainda bem que sim. No entanto não sei se continuarei o resto da série.

É um bom livro, mas se escolherem lê-lo vão avisados que não é uma aventura fácil e que é bastante gráfico e violento.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Acabei de Ler – A Wizard of Earthsea

ursula le guin

Já há muito tempo que andava para ler algum livro de Ursula k. Le Guin, já que cada vez que se fala de fantasia ou sci-fi o nome dela aparece como incontornável. O problema é que esta autora escreveu imensos livros e eu estava um bocadinho sem saber por onde começar. Até que num grupo de fãs de Neil Gaiman se falou de A Wizard of Earthsea como precursor duma história de feiticeiros dele, que se crê que inspirou J. K. Rowling a escrever Harry Potter. Confuso, eu sei, mas na minha cabela fez sentido e achei que seria um bom ponto de partida.

A primeira coisa que temos que nos lembrar ao ler este livro, é que foi escrito em 1968, muito antes de escolas de feiticeiros estarem na moda, por isso fazer comparações com qualquer coisa mais actual não adianta. Foi com este espírito que embarquei nesta aventura. Ao princípio foi difícil de entrar na história. Os personagens principais não eram muito interessantes, e na realidade não me despertavam simpatia sequer.

Mas o livro desenvolveu devagar, em direcções inesperadas, e a história acabou por ser bastante interessante. Na realidade é um clássico de fantasia, um rapaz que nasce com numa família pobre com poderes mágicos especiais que acabam por ser descobertos por acaso. Vai para uma escola de feiticeiros, não se dá bem com todos, e acaba por soltar uma sombra maligna no mundo por causa duma disputa infantil. Mas é o modo como depois se lida com isso que torna este livro tão diferente e especial. Não vemos aqui grandes batalhas épicas, criaturas estranhas e exércitos poderosos. Na realidade vemos a luta dum rapaz com o seu ego, com os seus demónios, e nalgumas partes fez-me lembrar “O Velho e o Mar” de Hemingway.

Surpreendente e envolvente depois de passada a fase inicial, recomendo a todos os fãs de fantasia e de histórias bem contadas sobre a natureza humana.

Boas Leituras!

Goodreads Review

Pequena Cantiga À Mulher

Maria Teresa Horta

Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza

Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros

O suor pela
Barriga

Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos

Procura o pão
Na gaveta

Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada

Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

Maria Teresa Horta

Livros Que Recomendo – A Cabana do Pai Tomás

cabana

Mais uma vez venho aqui falar dum livro que li nos meus primórdios, ainda muito nova, e que talvez por isso tenha tido tanto impacto. Na realidade não me lembro dos pormenores da história, apenas das sensações e da compaixão que o livro me provocou. O Pai Tomás era um velho escravo norte-americano à volta do qual todos se reuniam, e as histórias estavam congregadas.

Escrito em 1852 é um retrato da vida dos escravos afro-americanos, e diz-se que estabeleceu as fundações para a guerra civil americana. A sua autora, Harriet Beecher Stowe era uma abolicionista e o seu livro foi um êxito de vendas no século XIX, ficando apenas atrás da Biblia. foi recebido com muita critica no Sul, que mantinha que era baseado em mentiras, e nada fiel à realidade.

Apesar de ter tido um papel histórico muito importante, tem-se visto rodeado de algumas críticas, nomeadamente por ter ajudado a gerar algusn estereótipos em relação aos afro-americanos e às mulheres, no entanto não podemos perder de vista o facto de que foi escrito no século XIX, altura em que o contexto social era radicalmente diferente do actual.

Recomendo a todos os que gostem de boas histórias, de HIstória e de contos bem contados.

Boas Leituras!

Livros que Quero Ler – O Pacto da Letargia

letargia

O Peixinho adora o trabalho de Miguelanxo Prado, e já li praticamente todos os livros dele. Para além disso é também uma pessoa interessante e terra a terra, pelo que se pode ver no modo como lida com os fãs que o seguem no Facebook (eu, culpada, me confesso).

Saiu este Janeiro o novo livro dele, O Pacto da Letargia (El Pacto del Letargo, em galego) e mal posso esperar para lhe deitar as mãos. Este é um daqueles casos em que nem sequer preciso ver a sinopse, porque dificilmente sairei desiludida, mas em todo o caso espreitei e é uma história que se passa quando são encontradas as notas dum professor aposentado sobre uma antiga ordem de anjos e demónios, e o mistério começa aí.

Estou entusiasmada, e desejosa de lhe poder pôr as mãos para começar a ler.

Até lá, Boas Leituras!

Acabei de ler – O Natal de Poirot, Poirot #20

poirot 20

Este livro começa com uma introdução da própria Agatha Christie, uma espécie de carta ao seu melhor fã, que se queixou que os crimes dos livros de Poirot estavam a ficar fraquinhos, com pouco sangue. Assim, para satisfazer o cunhado, Christie escreve este mistério onde não há dúvidas que o morto foi assassinado brutalmente, e onde se vê sangue por todo o lado.

Vindo imediatamente a seguir a um dos crimes mais psicológicos da série, este livro prima pelo contraste.

É mais uma vez uma investigação onde todos os principais suspeitos se encontram na mesma casa, em que todos são prováveis mas poucos os possíveis.

O assassino é uma surpresa engraçada, se bem que um pouco rebuscada. Não foi o meu mistério favorito, se bem que está bem escrito como de costume.

Recomendo a todos os fãs de Poirot e de policiais.

Boas leituras!

Goodreads Review

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!

fernando-pessoa

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!

Faltar é positivamente estar no campo!

Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!

Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.

Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.

Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.

Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.

É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,

Deliberadamente à mesma hora…

Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.

É tão engraçada esta parte assistente da vida!

Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,

Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

Livros que Recomendo – À Noite Logo Se Vê

mario zambujal

Já aqui falei de Mário Zambujal para recomendar o seu livro mais emblemático “Crónica dos Bons Malandros“. No entanto este não foi o primeiro livro dele que li. Quando era miúda os meus pais eram sócios do Círculo de Leitores, e eu era a principal leitora da casa, por isso era eu que ia escolhendo os livros para ler. Nalguns trimestres arriscava em coisas nova, quando não havia nada dos escritores do costume para me entusiasmar. Foi assim que cheguei a este título de Mário Zambujal.

E foi uma maravilhosa surpresa. Neste livro conhecemos Mino, investigador do sobrenatural, que é chamado para descobrir porque há mais de 4 anos que não nasce nenhuma criança na aldeia do Roseiral. Ao fazer isto leva-nos por outros meandros de histórias secundárias, personagens hilariantes, sem que a história nunca se perca ou se torne desnecessária.

Mário Zambujal sabe captar muito bem uma certa portugalidade muito própria, os seus personagens são muito típicos e de certeza que todos nos cruzámos com alguns deles no nosso percurso. É isso que torna esta leitura tão divertida, bem como o mistério que se vai desenrolando até desvendar a sua sobrenaturalidade.

Recomendo a todos os amantes de boa literatura portuguesa, de boas histórias e de livros divertidos.

Boas Leituras!

Acabei de ler – Jaime Bunda, Agente Secreto

Jaime-Bunda

Há muitos anos que eu ando para ler um livro de Pepetela, desde que a sua filha foi minha colega na faculdade. Fiquei sempre com curiosidade, mas acabei por nunca pegar em nenhum livro da sua já vasta bibliografia. Entretanto este ano achei que estava na hora e era uma maneira de ler mais em português.

A dúvida seguinte foi por onde começar. Depois de mais umas semanas de indecisão achei que este era o título perfeito e prometia muito.

Nem sei o que vos dizer sobre este livro. Foi muito mais surpreendente que o que eu antecipava, e seguramente o melhor que eu li este ano, e mesmo nos últimos tempos.
Jaime Bunda é um personagem delicioso. Agente estagiário da polícia secreta, que tem o emprego graças a ligações familiares, mas que em 2 anos nunca investigou um caso. Cai-lhe agora nas mãos o assassinato duma jovem de 14 anos, pobre, mas que lhe dizem ser muito importante. Depois disto as peripécias sucedem-se, sempre com muito humor e sátira social duma Angola pós guerra civil.

Jaime Bunda é muito parecido com Ignatius Reilly duma “Confederação de Estúpidos“, desde fisicamente até às ilusões de grandeza que tem em relação a si próprio, e as situações em que se vê envolvido acabam por ser hilariantes.

Outra nota original é a dicotomia entre autor e narradores. O autor está constantemente a apreciar o trabalho de cada narrador e a trocá-los por incompetência, dando-nos pontos de vista diferentes da história, e tornando tudo mais divertido.

É um livro que é difícil pousar antes de terminar, e que nos mantém agarrados à história até ao final.

Recomendo a todos os que gostam de literatura em português, de livros divertidos que falam de coisas sérias a brincar.

Boas leituras!

Goodreads Review