Um Dia no Nos Alive, ou Está Tudo Bem

pearl Jam
Foto de Rita Carmo, no Blitz

A primeira vez que eu fui a um festival de Verão ainda eles não tinham esse nome, e foi ao Super Bock Super Rock de 1996. Na realidade a edição estava a ter tão pouco sucesso que eu ouvi na rádio que iam abrir as portas ao público e isso fez-me rumar a Alcântara fardada a rigor de preto e botas da tropa para ver algumas das minhas bandas favoritas da altura, Moonspell , Nefilim e Paradise Lost. Foi um dia memorável, mesmo sendo eu na altura uma papa concertos.

Em 2000 fui experimentar o Sudoeste, depois de já ter falhado edições com Portishead e Massive Attack, mas foi festival que não me encheu as medidas. Os desconfortos não suplantaram os concertos e a única coisa que ganhei nessa edição foi ter conhecido Placebo.

Em 2004 voltei ao Super Bock, naquele mítico dia com Pixies e Massive Attack, que estava a rebentar pelas costuras, tudo esgotou, não se conseguia andar e jurei pela minha saúde mental que não me voltava a meter nessas coisas. Fiz um ano de paragem e voltei em 2006 para ver Tool, Placebo e Alice in Chains. Naquele tempo chegava-se ao recinto pouco antes dos concertos e comprava-se o bilhete lá à porta, não tinha de ser com meses de antecedência com medo de esgotar.

Em 2007 despedi-me dos grandes festivais, novamente no Super Bock, a ver Underworld, Scissor Sisters e conheci aí Interpol, que foi um amor que não mais me deixou. Depois continuei obviamente a ir a concertos, é um hábito que não me larga, mas prefiro largamente os em nome próprio, sítios mais sossegados em vez destes fast foods de bandas.

No entanto este ano decidimos ir ao Alive porque nenhum de nós tinha visto ainda Pearl Jam ao vivo e não queríamos que eles acabassem sem passar por essa experiência. Acho que dos grandes da minha juventude só me faltava mesmo ouvir Pearl Jam (bom, e Type O Negative, mas esses infelizmente nunca terei oportunidade).

Fomos preparadíssimos. Felizmente estava mau tempo, o que significou que não apanhamos nenhuma estopada de calor, levámos uma sandes de casa para não ter de estar nas filas para comer mais do que o necessário, roupa e calçado confortável, e espírito aventureiro. Chegámos cedo para evitar a confusão, e fomos de Uber porque já não temos paciência para ir de transporte e não fizemos mal a ninguém para passar horas a tentar estacionar e depois deixar o carro quase ao pé de casa.

O espaço está bem organizado, cheio de ideias de sustentabilidade giras. Os copos de cerveja são de material vegetal biodegradavel, igual ao plástico, as palhinhas de papel, há imensos ecopontos. Há muita coisa para ver e para fazer, mas 55 mil pessoas são 55 mil pessoas e o concerto de Pearl Jam foi… aconchegante. Para quem tem pouco mais que 1.50m foi mesmo claustrofóbico. Nas primeiras músicas não vi mais do que as costas do gigante que estava postado à minha frente, até conseguir uma aberta para lhe passar à frente e ver finalmente o ecrã. Afinal até circulava um ventinho agradável.

Para mim os melhores concertos da noite foram sem dúvida os Pearl Jam, que foram brilhantes, mas também os Franz Ferdinand que me fizeram saltar do principio ao fim. The Last Internationale, a banda que abriu o palco principal também foi uma agradável surpresa. Jack White era promissor, mas em algum momento nós teríamos que abraçar a árdua tarefa de enfrentar a fila para o wc e comer qualquer coisa, e foi essa a altura escolhida. Foi complicado, e fez com que bebesse muito menos água e cerveja do que me apetecia só para não ter de lá voltar. Mas ainda consegui voltar a tempo de ver a última música.

Pearl Jam tocaram não só as músicas esperadas e ansiadas, como algumas versões bonitas, do Imagine por exemplo. Eddie Vedder tem o dom da comunicação, fala imenso com o público e dá-se ao trabalho de ter uns textos em português para se sentir mais próximo dos seus fãs. Aquele está tudo bem do título vem do refrão duma das músicas, entoado por todos em bom português, um dos momentos bonitos do concerto. No fim ainda chamaram Jack White para cantarem a música do Neil Young Rockin’ in the Free World em conjunto, numa apoteose final.

Eu estava oficialmente morta, mas como ainda ninguém me tinha dito, decidimos esperar por MGMT. Gosto da Pop electrónica desta banda, as quatro primeiras músicas foram logo muito boas, começando pela minha panca recente My Little Dark Age, sem esquecer Time to Pretend.

Mas estava na hora de rumar ao Uber antes que os últimos convivas começassem a sair e fosse demasiado tarde. Não sei se voltaremos a estas aventuras, porque acho que prefiro concertos em nome individual e bandas mais do momento do que festivais de revivalismo, mas certamente não me arrependo da experiência. Em baixo para quem não quis ler tudo, um resumo dos concertos, com os principais momentos.

Resumo dos concertos:

The Last Internationale: a tipa tem uma grande voz e ele sabe dizer Força, caralho!

Alice in Chains: relembrem-me lá porque é que gostei tanto disto? As letras já desapareceram da minha cabeça, e as músicas pareceram-me todas iguais.

Franz Ferdinand: Ainda se dança tão bem ao som destes tipos, a idade não passou por eles. Por mim mais ou menos, mas ainda andei aos saltos a cantar This fire is out of control, I’m gonna burn this city, burn this city. Grande concerto!

Jack White: Pão com chouriço não é o que eu escolheria, mas era o que tinha menos fila e a paciência para filas esgotou com a da casa-de-banho. Seven Nations Army é uma grande malha.

Pearl Jam: Uns senhores, um grande concerto, mas como diria a minha mãe, não vai mais vinho para essa mesa. A falta de sobriedade de Eddie Vedder só trouxe mais animação ao concerto, e pessoas com mais de 1,80m deviam ser obrigadas a ficar nas filas de trás.

MGMT: Essas 4 músicas foram óptimas, mas se não for embora agora nunca mais apanho um Uber para casa. Obrigada por terem começado logo com o Little Dark Age, assim vou sem peso na consciência.

franz ferdinand
Foto de Rita Carmo aqui
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