Dia 3 – Caminhar na floresta

O nosso terceiro dia em São Tomé começou cedo. Tinhamos planeado um passeio aos túneis e à Cascata dos Angolares, disponibilizado pelo alojamento, e íamos aproveitar a boa vontade do guia e do motorista para deixar uma mala com roupas e sapatos de criança com a Irmã Lúcia na Paróquia de Neves.

Antes de irmos o Peixinho Vermelho teve a ideia de aproveitar o facto de cada um poder levar 2 malas na TAP para arranjarmos uma com roupas de criança. Como não temos filhos, recorremos ao sistema de suporte dos nossos amigos e muitos se disponibilizaram para tornar esta vontade uma realidade, e até a mala que levámos foi oferecida por uma amiga. Uma gota de água no mar de necessidades de São Tomé, mas de pequenas gotas se faz um oceano.

Assim restava a tarefa de, sem transporte, levar a mala até à Irmã Lúcia, com quem já tínhamos estado em contacto. Valeu-nos a simpatia do guia e do motorista, que vimos pela reacção que adoram a Irmã (ela é uma santa, foi como a descreveram), e assim a fomos buscar a meio da Eucaristia de Domingo para receber as coisas. Fez-nos uma mini visita guiada às instalações, e não nos pudémos demorar mais tempo por causa do casal russo que nos acompanhava e que também ia fazer a visita aos túneis. Mas deu para perceber o muito trabalho que a irmã faz naquela comunidade. Uma escola com mil crianças, um lar com 150 idosos, uma oficina de carpintaria outra de costura e apoio domiciliário a todo o distrito de Lembá. Ficou a vontade de voltar a Portugal e pensar em mais estratégias para fazer chegar o nosso apoio.

Paroquia de Neves
Igreja de Neves
Neves
A caminho de Neves, como em todos os bocadinhos de rio que víamos, as mulheres a lavar roupa.

 Terminada esta tarefa, estava na altura de rumarmos aos túneis, bem dentro da floresta de São Tomé. Para lá chegar tivémos um difícil mas delicioso percurso de jipe por estradas que dificilmente merecem esse nome. Atravessámos as localidades de Ponta Figo, Generosa (generrrrosa, dito com sotaque local) e vimos os primeiros cacaueiros. Melhor, provámos o primeiro cacau, assim, tirado da árvore, com cuidado para não trincar porque amarga. Delicioso e estranho porque não é em nada parecido com o chocolate.

Ponta Figo
Ponta Figo
Generosa
Generosa
Generosa2
A Generosa tinha uma vista espectacular!
Cacaueiro
Um dos muitos cacaueiros que encontramos à beira da estrada.
Cacaueiro2
O nosso guia, Nito, a escolher uns cacaus maduros.
O Cacau
O Nito a preparar um fruto de cacau para provarmos.

O senhor Agnaldo, novamente o nosso motorista, ia desfiando sem parar o nome das árvores que íamos vendo pelo caminho. Ele e o guia, Nito, eram ambos nascidos e criados na zona, por isso conheciam-na muito bem e sabiam transmitir-nos isso. Os nossos colegas russos aproveitaram menos desta visita, porque mesmo a nossa tradução para inglês não os ajudava muito. Admiro pessoas que se aventuram num país estrangeiro onde mal conseguem comunicar. Pelo que pude observar nos dias em que estivémos juntos, isso nunca foi impedimento para que, com mais ou menos esforço, eles conseguissem o que queriam.

O que mais me impressionou nesse dia, como nos outros em que fizémos passeios em S. Tomé, foi a abundãncia de comida sempre disponível em toda a parte. Há imensas árvores de fruto, de diversos tipos, e sempre com fruta madura. É só apanhar e comer. E pelo que me foi dado experimentar, não há nada naquela ilha que não seja delicioso.

Finalmente chegámos ao percurso a pé, e a primeira parte foi uma “maravilhosa” subida, muito cénica mas muito dificil, principalmente se tivermos em conta que estava um calor absurdo (época fresca era o meu mantra interno, para aguentar os primeiros kms). Tudo o que víamos era deslumbrante, e um dos sítios em que parámos para eu recuperar o fôlego era uma parede feita de raízes de árvore. O guia era óptimo e estava sempre a ver se eu ainda falava e estava viva (alguém me explique como é que os russos aguentam o calor como se não fosse nada com eles) e ía-me dizendo quanto tempo faltava para entrarmos nos túneis.

Quando finalmente entrámos nos túneis a experiência mudou completamente. Eu, parva, puxei as calças um bocadinho para cima, achando que ia ter água pelos tornozelos. Como sou baixa, houve alturas em que estava pelo meio das ancas. Mas era água muito fresca e eu senti que estava a voltar de novo à vida. Como levava os meus sapatos de borracha de ir à praia, conseguia alternar facilmente entre os túneis e caminhada em chão normal, mas não aconselho a levarem chinelos. O facto de não se ver debaixo de água pode fazer com que nos sintamos inseguros e uma simples folha pode parecer um bicho horrível, mas pior que isso deixamos os dedos vulneráveis a alguma pedra mais escondida. Também não aconselho a tocar nas paredes dos túneis por causa das aranhas, nunca se sabe quando alguma pode ter uma picada mais agressiva. Tirando isso, só morcegos, lindos, búzios terrestres (imaginem caracoletas, mas maior), e uns bichos de conta tamanho familia. Tudo inofensivo.

Tuneis
Caminho perto dos túneis
Tuneis2
O primeiro túnel.

Depois de percorrermos o primeiro túnel , que era maior do que eu antecipava, saímos para uma paisagem deslumbrante, a cascata dos Angolares. Valeu a pena todo o caminho até ali, a barra energética que tive de comer e os litros de água que tive de beber. É deslumbrante e ficamos com uma sensação de missão cumprida. Senti-me como se estivesse no interior da cratera dum vulcão, e esperei que a qualquer instante um pterodáctilo cruzasse os céus. Não aconteceu, mas ao menos refrescámo-nos na cascata (nós e a máquina fotográfica, que nunca mais foi a mesma).

Cascata Angolares
A cascata, com o Peixinho Vermelho para escala.
Cascata Angolares 2
Isto era o que víamos do céu. Se olharmos para a foto 5 minutos sm pestanejar conseguimos ver o pterodáctilo. Ou não.

Depois de fazer seis túneis não voltámos a encontrar uma cascata como esta, mas toda a paisagem valia a pena. Estávamos rodeados de verde por todo o lado ouviam-se os pássaros a cantar. Era um conto de fadas.

Caminho
O final do caminho.

No final chegámos à barragem (muito diferente do que aqui chamamos barragem, na realidade eram uns enormes depósitos de água) e voltámos ao jipe para regressar. Mas mal sabíamos que ainda nos esperava uma tarde magnifica de surpresas.

Depois de fazer o caminho contrário, o Sr. Agnaldo diz que era dia celebração da vitória do Benfica no campeonato na praia Monte Forte e se queriamos passar por lá para ver. Claro, diz o benfiquista Peixinho Vermelho. Diz-nos também que a maioria dos santomenses são benfiquistas apesar dele ser uma excepção, já que é sportinguista. E assim começou um belo passeio pela zona norte da ilha. A festa do Benfica estava alucinante. Um mar de vermelho numa praia ao fim de tarde. Têm de acreditar em mim, que não tirei fotos. Daí fomos para o local onde os primeiros portugueses desembarcaram em S. Tomé, o padrão Anambó. Depois para Santa Catarina, uma das aldeias mais pobres e sem dúvida das experiências mais difíceis. Mais uma vez não tirei fotos, porque simplesmente não fui capaz. Mas depois de Santa Catarina, onde a estrada acaba e já vemos café em vez de cacau, viramos para dentro do mato cerrado, entramos no “quintal” dum senhor que nos recebe de catana na mão (toda a gente tem catana em São Tomé, até crianças pequenas. É como nós andarmos com um canivete na mala). O Sr. Agnaldo explica-lhe que vamos só ver a praia e desembocamos numa pérola escondida, a praia Boca Bela. Linda, deslumbrante, e aparentemente local onde vinham os nossos guias em miúdos.

No regresso para casa ainda temos tempo de ver um famoso peixe voador acabado de pescar, e quando já estamos a ver o pôr-do-sol no nosso bungalow o Nito ainda nos vem presentear com deliciosas bananas-prata e laranjas santomenses. Dificilmente poderia ter sido um passeio melhor, com melhores guias e melhores companheiros de viagem, mesmo que só nos entendessemos parcialmente. No dia seguinte haveria mais.

Padrão Anambo
Local onde os primeiros portugueses chegaram a S. Tomé, o padrão Anambó
Padrão Anambo 2
Ainda no padrão Anambó
Roça Diogo Vaz
A caminho da roça. Neste momento a ser explorada por uma empresa camaronesa.
Roça Diogo Vaz 2
Na roça Diogo Vaz. Mesmo com o céu assim nunca chegou a chover.
Roça Diogo Vaz 3
Eles estão em toda a parte…
Roça Diogo Vaz 4
Os secadores de caucau da roça Diogo Vaz
Praia Brita
Praia Brita – com pedra em vez de areia.
Tunel Sta Catarina
O túnel de Sta Catarina
Sta Catarina
Sta Catarina ali ao fundo
Praia Boca Bela
A Praia da Boca Bela tem esse nome devido aquela abertura na rocha.
Praia Boca Bela 2
Ainda a Boca Bela
Sta Catarina 2
O peixe-voador.
Bananas e Laranjas
Banana e laranja. Parecem comuns mas não são. São maravilhosas.
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5 thoughts on “Dia 3 – Caminhar na floresta

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