Breves São os Anos

Almada Negreiros - Portrait of Fernando Pessoa, 1954

No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.

Ricardo Reis, in “Odes”

Cada Dia Sem Gozo Não Foi Teu

fernando-pessoa

Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis, in “Odes”

Dia Mundial da Poesia

Assim que aprendi a escrever que comecei a brincar com as palavras e a fazer pequenos versos. Creio que a maioria deles perdidos para sempre em cadernos que ficaram na casa dos meus pais. Quando entrei na adolescência a minha madrinha ofereceu-me O Livro em Branco para eu poder registar os fervores da vida que me assolavam. Esse ainda o tenho lá por casa, guardado numa estante.

Quando comecei a crescer e a realmente apreciar poesia, percebi que faria melhor em ler quem percebe do assunto e deixar-me de fantasias. E mergulhei de cabeça, primeiro nos clássicos de Florbela Espanca, e depois por ali fora, devagarinho, saboreando, partilhando com que desfruta do mesmo prazer.

Isto tudo para dizer que na próxima segunda feira dia 21 é o Dia Mundial da Poesia. E que o CCB vai fazer amanhã uma série de actividades ligadas a esse tema, incluindo uma feira do livro de poesia. Programação aqui.

E para celebrar a poesia, nada melhor que Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”