na casa do macedo

ondjaki

na casa do camarada macedo

as estrelas já não pedem licença

(ganharam à-vontade de entrar);

os gambuzinos expulsaram os sapos da noite,

tomaram uma minúscula colina.

de repente o céu entornou uma estrela

sobre a casa.

a poeira cósmica faz sombra

na casa dele.

hoje mesmo, agorinha, os gambuzinos recuaram

e se recolheram – perto da represa.

fizeram as pazes com os sapos.

um dia, atrás do tempo,

o camarada macedo chegou nesta colina

e cumprimentou um lagarto (dono de uma nocheira);

esse lagarto é que autorizou o camarada macedo

a habitar o local.

nesta casa circulam abelhas mansas,

quissondes inofensivas.

até estrelas.

o camarada macedo ainda agora me disse:

«esse lagarto faz parte da família.»

[o camarada macedo também deve fazer parte da família

do lagarto.]

louvada seja a huíla.

Ondjaki in Materiais para a confecção dum espanador de tristezas

o início

ondjaki

segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância perdido no tempo. escorreguei no tempo.

nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a aldeia de ynari];

adormeci na aldeia.

ouvi um barulho – era a lesma a sorrir.

o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele coleccionava no quarto ou no coração das mãos.

abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.

Ondjaki in materiais para confecção dum espanador de tristezas

Prendisagem

Ondjaki

o tomate avermelha mundos.
o cheiro da terra perdoa constipações.
folha é parede verde
para sol chegar.
flor é uma outra narina de abelha.
alcunha de qualquer jardim
é biolabirinto.
a mosca exagera em
amizades com a merda.
o pirilampo é a lanterna do poeta.
o porco-espinho exagera em
modos de precaução e
a mandioca tuberculiza o chão.

o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade.

Ondjaki em “Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas)”