Dia 6 – Adeus ao Mucumbli

Nesse dia acordámos com o coração pesado porque a estadia no Mucumbli estava a chegar ao fim, e isso significava que também os dias em São Tomé estavam a entrar na reta final. Não percebia como era possível que uma coisa que tinha acabado de começar pudesse estar a aproximar-se do fim. Havia ainda tanto para ver e descobrir naquele pequeno país. Resolvi pôr as ansiedades de lado e desfrutar em pleno do que ainda me restava.

Comecei por me entreter a fotografar as canoas enquanto a cara metade dormia. Mal passava das 6h, não valia a pena ter pressa, mas já era dia claro e queria aproveitar todos os minutos.

Canoas
Pensamos nós que o paddle board é um desporto radical, e afinal estes pescadores fazem-no há gerações.
Canoas2
Mais uma canoa solitária.
Canoas3
Nada a fazer contra o poder dum motor.
Canoas4
Havia para todos os gostos, incluindo estas a vela.

Depois desta sessão fotográfica, rumámos ao pequeno-almoço, divinal como sempre. Já em Portugal devo dizer que ainda é difícil comer fruta ou beber café sem me lembrar com saudades dos pequenos-almoços do Mucumbli. Enfim, haveremos de voltar. De seguida praia com sabor a despedida. E desta vez sem a companhia dos nossos novos amigos, que com a curiosidade sobre nós saciada no dia anterior resolveram ir brincar para novas paragens.

Almoço rápido e sobremesa no terraço! Acho que podia passar meses lá sem nunca me cansar daquele terraço maravilhoso. Desta vez a experimentar banana prata seca (voltarei a ser capaz de comer bananas por aqui?) e a ver um dos nossos programas de “televisão” favorito: O Vôo do Falcão. O outro era A Guerra das Osgas. Sim, o Mucumbli não tem televisão, mas sinceramente nunca nos fez falta e até agradeci a falta de “ruído” que isso provoca.

Banana Seca
A banana seca do Mucumbli… é deliciosa.
Falcões Mucumbli
Os falcões em pleno vôo (na realidade são milhafres-negros).

Resolvemos ir explorar um dos muitos caminhos pelo meio das bananeiras antes que anoitecesse. Foi uma aventura, quente como sempre, estava irrespirável (estação fresca, estação fresca), mas valeu a pena. Andámos atrás de lagartos, a passar pontes instáveis e divertimo-nos como miúdos. Claro que fomos devorados por mosquitos apesar de estarmos cobertos de repelente. Repelente é o prato favorito do mosquito santomense.

Bola
Bola, o cão residente que se mete com os turistas sempre que acha que vai ganhar comida e que os ignora no resto do tempo.
Flor Mucumbli
Há sempre flores em todos os caminhos no Mucumbli.
Cacau
Cacau, por todo o lado em todas as fases de maturação. É fascinante ser sempre verão.
Bananeiras
As bananeiras de todo o género e feitio.

Final do dia um belo jantar de barracuda com banana pão e fruta pão. Come-se tão bem em São Tomé, e em 9 dias nunca comi carne. E os santomenses que dizem generrrrrosa e carrrrroço depois dizem baracuda. Adoro, todos os dias aprendia uma coisa nova. Tivémos de nos controlar para não raptar a cozinheira e trazê-la na mala.

Barracuda
Barracuda, com banana frita e fruta pão assada.

Viémos embora no dia certo porque nessa noite o Mucumbli ficou cheio de cientistas que estavam lá a fazer um encontro. Vinham de várias partes do mundo e percebia-se que estudavam África, não só São Tomé, mas o sossego ia acabar por isso era tempo de irmos para outras paragens. O Mucumbli deixou muitas saudades, espero voltar um dia e desejo que tenha muito sucesso mas que mantenha a autenticidade. E espero que a Ana tenha uma excelente nota no estágio.

No dia seguinte esperava-nos mais um passeio pelo Norte da ilha e a mudança para o novo alojamento já na cidade de São Tomé. Novas aventuras a caminho!

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Dia 5 – Uma praia cheia de sorrisos

Acordar no Mucumbli é uma experiência única. Por volta das 5h30 da manhã começa a ouvir-se um ruído como se estivessemos mesmo à beira duma estrada, mas na realidade são apenas os primeiros pescadores que estão a partir para o mar nos seus barcos a motor (ou os últimos a regressar duma noite de pesca de peixe voador). Juntamos a isto a fauna de pássaros e temos uma sinfonia ininterrupta até finalmente nos levantarmos da cama. Muitas manhãs levantei-me mais cedo e fui para o terraço absorver o “fresco” matinal, os sons, os cheiros e apreciar o facto de que finalmente estava em África e no país com que sonhava desde miúda.

Canoas
As canoas a regressar a Neves ao inicio da manhã

Nessa manhã e contrariamente ao que tinha acontecido até aí, a praia não era só nossa. Éramos 7 pessoas no total. Nós, um casal russo, um casal francês e a Ana que tinha vindo ter connosco depois de treinar os burrinhos no passeio. Casa cheia. Como havia gente no areal pudemos fazer snorkelling à vontade sem receio que o nosso amigo patudo do costume nos viesse tentar roubar a mochila. Foi o melhor dia para ver o fundo do mar, até teve direito a moreias. Só saímos de dentro de água por receio de torrar demasiado as costas. E na realidade minutos depois eu acabei por voltar.

E vejo chegar ao longe um grupo de cerca de 20 meninos com a farda da escola a encaminharem-se para a praia. As nossas amigas do dia anterior tinham trazido os colegas para ver as pessoas estranhas que estavam na praia, e melhor, tinham o bónus de ser mais. Como os outros casais não falavam português cedo se desinteressaram deles e ficaram só a fazer-nos companhia.

Primeira tarefa foi apedrejar as árvores. O caroço (carrrrrroço em sotaque local) é um fruto que se come a parte de fora, parte-se o dito cujo caroço e tem uma semente semelhante a uma amêndoa por dentro que também é comestível. Os nossos amigos tinham pontaria e fizeram cair imensos maduros, e quando isso falhou toca a descalçar e a subir às árvores.

A tatuagem da Ana revelou-se entretém para uns largos minutos, eram uns pássaros a levantar vôo e deixou-os fascinados. Tal como as nossas (possíveis) relações familiares. Três pessoas juntas na praia têm obviamente de ter uma relação familiar qualquer para além da simples amizade e a primeira conclusão é que a Ana era nossa filha. O meu desagrado foi bastante vocal, mas caramba, apesar de ser tecnicamente possível eu ser mãe duma mulher de 24 anos, não quer dizer que essa ideia me seja simpática. “Estão a chamar-me velha?”

Depois de muita conversa e brincadeira, os meninos vão todos para a água atirar pedrinhas.  Há muitos anos que eu não brincava assim na água, e resolvi juntar-me a eles com a Ana. O Peixinho Vermelho já tinha tido a sua quota parte de raios solares do dia e ficou à sombra a fazer companhia a um menino caladinho que não se juntava às brincadeiras. Mas foi um desastre total. Por mais que o Rai, o meu novo amigo, me desse as melhores pedrinhas da praia, elas simplesmente se afundavam com um ploc, enquanto ao meu lado a franzina Suzete mandava lindos voos de 5 saltos com as suas pedritas. “Mais força senhora” diziam-me eles a rir. Isso, façam pouco da velhinha, que nem tem força nos braços.

A brincadeira terminou com um merecido banho de mar e muitos risos à mistura. “Vem ao banho connosco, senhora?” As meninas sempre que podiam agarravam-me os cabelos para sentir a textura, tão diferente dos delas. Foi uma risota pegada, e sem dúvida o melhor banho que tomei em São Tomé.

Perto da uma a brincadeira acabou com a urgência de quem terá mães em casa à espera para o almoço e largaram todos a correr em direcção a Neves. Nós voltámos para cima de coração cheio e sorrisos na cara. Não há fotos porque há momentos que são só para viver.

O resto do dia passou-se a desfrutar da vista, do terraço e do calor. Jantar espetada de peixe, acompanhada de banana pão frita. Tudo delicioso como sempre. Mais um dia estava para vir.

Mucumbli 2
A eterna vista do terraço.
Papaia
As papaias que crescem por todo o lado.
Mucumbli
É sim senhora!

Dia 4 – Descansar e burricar

Depois dum dia de caminhada estávamos oficialmente de rastos. Eu mais que o outro confesso. O calor misturado com os efeitos do comprimido anti-malária tornaram-me uma pessoa muito pouco funcional neste dia. E completamente dependente de ultralevur e imodium deste dia em diante. Mas, como já disse a alguém, pequeno preço a pagar para desfrutar do paraíso.

Depois do já costumeiro pequeno-almoço de fruta fresca, sumo natural e hoje sem ovo por razões acimas descritas, fomos mais uma vez relaxar na praia. Passadas umas horas apareceram 3 meninas com a farda da escola da Irmã Lúcia que nos vieram cumprimentar e investigar, como seres estranhos que éramos. O mais engraçado era a maneira descomplexada como faziam comentários sobre nós entre elas, como se não as pudéssemos ouvir, ou, mais realisticamente falando, completamente desinteressadas do facto de as conseguirmos ouvir. Acabámos a partilhar o nosso lanche com elas antes de voltarmos para cima.

Praia Mucumbli
Eu e um pescador artesanal naquela manhã de praia.

Optámos por ter um dia mais relaxado, e depois da praia e duma refeição ligeira fomos passear pela propriedade que tem muito que ver. O Mucumbli tem um programa de criação de burros com o apoio da Embaixada da Austrália, e pudémos vê-los a passear tranquilamente, a comer ou a recolher a galope ao sítio onde passam a noite. A Ana, estagiária em eco-turismo que estava no Mucumbli por esta altura e que tantas vezes nos fez companhia, está a desenvolver um programa de passeios para crianças com alguns dos burrinhos, mas não chegámos a acompanhá-la.

Depois do passeio o dia acabou da maneira a que já estávamos habituados. Pôr-do-sol no bungalow e jantar cedo com a bela cerveja nacional, Rosema, cuja fábrica era ali mesmo em Neves. O dia seguinte estava já ao virar da esquina.

Flor S Tome
Flor à porta do quarto
Flor S Tome 2
Mais uma das muitas flores que embelezam o Mucumbli
Por do Sol Mucumbli
O pôr-do-sol visto do Piri-Piri
Rosema
Uma Rosema fresquinha para terminar o dia.