Natal

miguel torga

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?

Miguel Torga

Quase um Poema de Amor

miguel torga

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor

Miguel Torga

Acabei de Ler – Contos da Montanha

contos da montanha

Ainda há pouco tempo vim aqui recomendar o Bichos, de Miguel Torga, e o que me fez lembrar deste livro foi ter começado a ler o também seu Contos da Montanha. Ou se calhar foi ao contrário, agora não consigo precisar. O que é certo é que este livro me acompanhou nas últimas semanas, alguns contos de cada vez, antes de mudar para um novo livro. Porque este livro é assim, um tesouro para ser saboreado aos poucos e nos encher de arte.

Miguel Torga é transmontano, e a montanha que esse livro se refere são as terras altas transmontanas, onde a vida era (e ainda será?) difícil, dura, dependente dos caprichos da natureza, que tanto dá e tanto exige. Cada conto destes é uma pequena porta de entrada para um mundo que se passava no nosso país, mas que bem podia ser na lua. Há histórias duras, diferentes, outras cheias de beleza, mas todas nos marcam de algum modo.

A primeira de todas, Maria Lionça, é fortíssima, uma espécie de Pietá transmontana, e marca logo o tom de todo o livro, dureza, dignidade e beleza.

Gostei muito, consegue perceber-se porque Miguel Torga foi candidato a um Nobel, e recomendo a todos os que gostam de boa literatura, de clássicos portugueses, que gostam dum livro que é para ser saboreado aos poucos. Uma pérola.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Livros que Recomendo – Bichos

bichos

Para aqueles que têm mais tempo agora nesta quarentena, porque não pegar num clássico da nossa literatura? E para os que têm menos tempo, este é um livro de contos, perfeito para ser saboreado aos poucos.

Talvez por fazer parte do currículo nos tempos em que eu andava na escola, sinto que este foi um livro de algum modo injustiçado. Por um lado, como cada capítulo representa um animal, pensa-se que este é um livro juvenil, e foi-me apresentado no 9º ano de escolaridade. Depois, como é dado na escola, os adultos tendem a olhá-lo de lado. No entanto, claramente no 9º ano eu não tinha maturidade suficiente para abarcar todos os significados escondidos por trás de cada animal nestas histórias.

Miguel Torga nasceu em Trás-os-Montes e muitos dos seus livros estão impregnados deste viver rural, de viver no limite da humanidade, numa terra que tem tanto de belo como de impiedoso. A isto junta-se a conjectura política de quando o livro foi escrito (1940) e percebe-se o retrato que o autor tenta pintar por trás de cada personagem, animal humanizado ou humano que vive quase como animal.

Muito forte e bonito, este é um livro que impressiona. De tal modo, que ainda me lembro bastante bem do capítulo sobre o qual tive que fazer um trabalho, há tantos anos atrás, Miúra, o touro na arena, que por certo marcou a minha visão das touradas.

Este é um livro muito bem escrito, com linguagem simples mas muito cuidada, com vocabulário regional próprio, quase poético. Recomendo a todos os amantes de literatura portuguesa que não se deixam enganar por recomendações escolares.

Boas Leituras!

 

Fábula da Fábula

miguel torga

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demônio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga