Relações Inacabadas

Quando era miúda lia vorazmente tudo aquilo a que deitava a mão. Quando ia um mês de férias para a terra, metade da bagagem eram livros que esgotava na primeira quinzena, e depois ficava reduzida a reler Selecções do Readers Digest dos anos 70 (que o meu pai assinava), livros do Harlequim da minha tia-avó (Bianca, Sabrina, que é feito de vocês?), ou a TV Guia que chegava às quintas feiras. Tempos duros.

Nesse tempo todos os livros eram para ser lidos até ao fim, e os melhores relidos incessantemente, até se decorar as partes favoritas. Na nossa visão de crianças somos imortais, com todo o tempo do mundo pela frente para ler todos os livros que existem.

Conforme fui crescendo e apareceu a faculdade, não só o horizonte de livros para ler aumentou exponencialmente com a exposição a pessoas novas de contextos diferentes, como o tempo diminuiu, porque pela primeira vez na vida tive que começar a estudar. Isso obrigou-me a fazer escolhas, decidir estilos que me agradavam mais, autores que se tornavam favoritos. Mas ainda assim não se deixa nunca um livro a meio, é quase um tabu que raramente é quebrado (excepção para o Memorial do Convento, que até hoje não consegui acabar).

Com o Kindle, nos dias de hoje em que já estou nos quarenta (inhos, mas mesmo assim) já percebi que há mais livros interessantes do que terei anos de vida para os ler, e todos os anos novos livros bons saem no mercado. A paciência também já não é a mesma e já não faço fretes. E sinceramente, se não me está a prender o interesse, se  recorrentemente quando tenho um momento livre prefiro ir ver o Facebook do que ir ler aquele livro, se calhar está na altura de seguir para o próximo, sem ressentimentos, amigos como dantes.

Por isso, meu caro Mário de Carvalho, és um dos meus autores portugueses favoritos,  adorei o Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre O Assunto (ainda hoje um dos meus livros portugueses favoritos), mas a minha relação com O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana ao fim de 45 páginas vai ter de ficar por aqui.

Mario de Carvalho

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Na Calha

Para Ler

A minha pilha de livros para ler deu mais um salto esta semana. Para começar há sempre quem goste de me presentear com livros no meu aniversário, e que bom que assim é. Depois tive umas mini férias onde aproveitei para rever velhas amizades, bibliófilas como eu, e com quem troquei ideias e nomes de livros. Por fim, o Peixinho Vermelho teve um ataque de consumismo e resolveu comprar um livro também. Quatro livros novos, três são portugueses, parece-me muito bem! Mas vamos por partes, e ver o que está na calha.

José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz: Não conheço este escritor, mas a amiga que me ofereceu este livro é a mesma responsável pelo João Sem Medo e Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, por isso a expectativa é alta. Gosto de literatura assim, cheia de portugalidade mas não daquele lirismo bacoco do antigamente. Com o nosso ADN, as nossas idiossincrasias, a nossa identidade. Depois falarei dele aqui.

Mário de Carvalho, O Livro Grande de Tebas, Navio e Mariana: Um escritor que gostei muito quando li o livro que falei acima, Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto. Escrita aparentemente simples, mas um vocabulário muito rico. Precisei mais vezes dum dicionário do que quando leio livros em inglês. Uma história irónica e fluida, um retrato social de costumes que gostei muito. Entusiasmada por começar a ler este.

José Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa: Li nas férias passadas, cortesia dum passatempo da TimeOut o último livro deste obscuro autor radicado há anos na Holanda. Gostei bastante, tal como o Peixinho Vermelho, que resolveu que estava na altura de comprar mais um para juntar à nossa biblioteca. Já vem a caminho.

Shirley Jackson, We Have Always Lived in the Castle: Por último, uma amiga que me aconselhou muitas das coisas boas que já li na vida, e com tenho gostos muito parecidos, incluindo Margaret Atwood, aconselhou-me este livro. Pela sinopse parece-me que sai um bocadinho da minha zona de conforto, o que é só mais uma razão para o ler. Estou ansiosa, e depois direi aqui de minha justiça… suspense gótico… se conseguir dizer alguma coisa.

E pronto, por hoje é tudo que ainda tenho 25% do Fall of Hyperion para acabar de ler, o livro que não sei se quero que acabe ou se não me quero separar daquelas personagens nunca.