Luíz Pacheco Essencial

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Aproveitei os dias de descanso em Aljezur para pôr alguns livros em dia, nomeadamente este que foi presente de aniversário.

Foi um livro que li num dia, talvez porque, para além do muito tempo livre, o tema era muito interessante. Luiz Pacheco foi um personagem sui generis, entre o genial e o louco, mas sem dúvida fracturante, e saber mais sobre a sua vida ajuda a perceber a sua obra que era tão biográfica.

Ler este livro ajudou-me a apreciar ainda mais o conto que li no início deste ano, Comunidade, já que o contextualizou, e fiquei a perceber exactamente quem eram os membros desta tribo.

No entanto o estilo demasiado coloquial desta biografia às vezes pareceu-me desnecessário, e faltou um certo distanciamento em relação ao objecto da biografia. Claramente o autor é grande admirador de Luiz Pacheco e com isso tudo se torna normal ou desculpável. Por exemplo, não deve ter sido nada fácil ser filho do escritor, viver sempre na incerteza do amanhã, mas o autor escreve levemente que Paulo Pacheco amadureceu cedo, para poder cuidar do pai.

Eu não sou apologista de julgamentos em praça pública, ou de falsos moralismos, mas um certo reconhecimento que estas escolhas de viver em profunda liberdade têm efeitos nos que nos rodeiam não seria descabido.

Mas é uma boa biografia, fluida, aconselho a quem queira saber mais sobre este autor maldito mas que teve um papel importante no surrealismo português.

Goodreads Review

Boas Leituras!

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Dado Não É Comprado

Presentes

Não sei se estão recordados, mas um dos desafios que coloquei a mim própria em 2018 foi o de não comprar livros, para ver se finalmente dava um destino aos livros por ler que ainda tenho aqui em casa e arranjar espaço na estante para os que se começam a amontoar em todos os recantos disponíveis (cadeiras, chão, em cima de caixas de arrumação onde estão livros técnicos… começa a ser dramático).

No entanto os meus amigos sabem que pouca coisa me faz mais feliz que um livro novo, e neste aniversário encheram-me de mimos e títulos novos. E eu não podia ter ficado mais agradecida, porque isso significa que tenho coisas novas na estante para ler, sem ter feito batota! Ora então vamos ver o que tenho para ler nas próximas semanas:

Everything is Iluminated – de Jonathan Safran Foer. Curiosamente ainda há poucos dias tinha andado a investigar este livro no Goodreads nem me lembro a propósito de quê, e tinha decidido que seria um dos próximos a adquirir, assim que pudesse adquirir coisas novas. Acontece que é um dos autores favoritos desta minha amiga que partilha comigo o amor por Neil Gaiman, e foi assim que me veio parar às mãos. Estou ansiosa para o ler.

O Caminho Imperfeito – de José Luís Peixoto. Dispensa apresentações, é um dos meus autores de conforto e esta aventura passada na Tailândia estava na nossa lista de livros a ler ainda ele o estava a escrever.

Luiz Pacheco Essencial – de António Cândido Franco. Este é o tiro no escuro, mas à falta de originais disponíveis de Luiz Pacheco será pelo menos interessante ler uma boa biografia desta figura tão complexa, e é isto que eu espero que este livro seja.

E pronto, depois virei prestar contas da leitura destes títulos, bem como do progresso do desafio. Para mim não comprar poesia está a revelar-se de longe a tarefa mais difícil, já que este ano parece que os livros de poesia estão a saltar de baixo das pedras e aparecem de todos os lados, só para me afrontar, e cada vez descubro mais autores que queria MESMO ter. Felizmente ainda não me cruzei com nenhum livro de Manuel de Freitas em pessoa, porque não sei se conseguirei resistir. Vamos ver como corre a Feira do Livro este ano… se calhar não corre…

Boas Leituras!

Luiz Pacheco -Como descrever o indescritivel?

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Há muitos autores dos quais só tive conhecimento muito tarde. O nosso mercado português é muito pequeno, limitado, não há muito espaço para coisas diferentes e alternativas serem divulgadas em meios com mais visibilidade.

Como já referi várias vezes o acesso ao Kindle veio ajudar-me a descobrir autores em inglês que nem sempre estão nos nossos tops editoriais. Quando chega a autores portugueses, a coisa é um bocadinho diferente, e descobrir coisas novas e interessantes pode ser um trabalho árduo.

E por vezes pode mesmo ser tarde demais, como no caso de Luiz Pacheco. Muita coisa tenho lido sobre este autor dito “maldito”, que tem uma história de vida conturbada, que viveu sem regras nenhumas a não ser as suas, e que era hábil a dizer exactamente o que pensava sobre toda a gente, o que não lhe granjeou muitas amizades. Era um homem profundamente livre, em todos os aspectos que a palavra inclui, e com todas as consequências que isso arca também. Não era subserviente a nada a não ser os seus desejos, e por isso foi tão marginal.

No entanto, pouco posso dizer sobre o seu estilo literário, porque os seus livros são muito difíceis de encontrar. Já corri vários alfarrabistas onde me costumo “abastecer” e nenhum tem livros disponíveis, ou se têm são muito caros. Nas livrarias, idem aspas. É possível recorrer a sites como o OLX e afins, mas o preço dos livros que aí se encontram é proibitivo, pelo menos para mim.

Os livros que ainda restam disponíveis por aí são itens de coleccionador e têm o preço ajustado a isso. Para uma pessoa como eu que apenas quer ler o texto, 60€ é um pouco demais. Por isso acho que estava na hora de reeditarem alguns textos deste autor para os tornarem mais acessíveis ao público em geral. De preferência também em formato digital.

Enquanto isso não acontece partilho aqui algumas coisas que se encontram espalhadas pelo mundo digital, para podermos ir descobrindo um pouco mais sobre este autor/editor.

Uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro com Luiz Pacheco, quando ele vivia já num lar. Muito interessante.

Um especial do Observador já antigo onde podemos conhecer também muito da sua biografia e bibliografia.

E por fim esta gema, o conto Comunidade aqui ilustrado por Cruzeiro Seixas e disponibilizado online pela Livraria Almedina. Foi este conto que acabei agora de ler e de que vos venho aqui falar.

Comunidade é muito pequeno, mas é compacto e denso. A comunidade que Luiz Pacheco nos descreve é a sua família à altura, que vivia em condições muito precárias, como ele aliás viveu toda a vida. Escreveu sobre a miséria conhecendo-a por dentro.  É um corpo que mexe como um, mas que é feito de muitos corpos que vivem separadamente. No entanto, o livro não é miserabilista, e cada frase nos dá para pensar e reflectir na nossa própria vida e nas nossas escolhas.

Aconselho a todos os que tenham estômago forte e ideias livres e que queiram conhecer mais um dos nossos autores menos mainstream. Deixo-vos um excerto.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos,
lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o
vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo.
Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi
pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente:
estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos,
foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos,
estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas
do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo
tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando
arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por
impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada
perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e
muito mal mascarados. Uma caca a respirar.