20 anos de luta

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Algures em Agosto faz 20 anos que  Chuck Palahniuk publicou o livro Fight Club que foi o seu primeiro livro a ver a luz do dia. Tal como o Trainspotting, o Fight Club foi um filme que me marcou imenso, e tal como este, ainda não li o livro. Desde que tenho o kindle que tenho este livro numa pasta, sossegadinho, à espera do momento certo.

Já li deste autor 4 livros e a infame história Guts que já levou 73 pessoas a desmaiar, mas por alguma razão ainda não li o mítico Fight Club. Na realidade quando li Snuff em 2012 fiquei surpreendida por ter demorado tantos anos a conhecer este escritor.

Vi o filme assim que estreou e fiquei fascinada. Obviamente já o revi várias vezes, e até arranjei a banda sonora para prolongar o prazer. Deve ser por isso que tenho andado a adiar o livro. Não quero correr o risco de ficar desiludida.

No entanto, creio que esta efeméride pode ser a desculpa que precisava para finalmente pegar no livro e lê-lo de vez.  Boa opção para leitura de verão, agora que as férias se aproximam.

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Vida Louca em Edimburgo

Irvine Welsh

Eu adorei o Trainspotting, filme que vi assim que saiu algures nos 90. Foi assim como que um despertar para filmes melhores e mais originais que as costumeiras xaropadas de Hollywood. Com o Kindle tive também acesso ao Trainsppoting em livro, por traduzir claro, e fiquei um bocadinho desanimada quando percebi que nem com o dicionário de Oxford eu conseguia seguir minimamente o que se estava a passar. Escrito no mais profundo calão escocês, tudo aquilo estava claramente fora do meu alcance. E assim deixei-o ficar no fundo da minha to read list.

 Agora, mais uma vez graças ao Netgalley, chegou-me às mãos a mais recente sequela do Trainspotting. Este Blade Artist segue um Frank Begbie mais maduro, com uma vida nova, a viver em LA depois de ter cumprido uma longa pena em Edimburgo e de ter conhecido a mulher que o regenerou. Ou mais ou menos.

O livro é alucinante, este personagem que me deixava absolutamente enervada nos idos anos ’90 é agora fascinante, cativante, e dei por mim a torcer que tudo lhe corresse bem independentemente das escolhas mais ou menos duvidosas que ele fazia. Irvine Welsh é um mestre a fazer-nos gostar de sociopatas.

Aconselho muito este livro a quem tenha um estômago de aço e não se impressione com facilidade. Da minha parte vou voltar ao Trainspotting e dar-lhe uma nova chance.

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A Engomadeira do Almada

A Engomadeira

Num ano em que resolvi retomar a leitura em português, cruzei caminhos com este conto do Almada, a Engomadeira. Para além de toda a experiência de o ler, este conto permitiu-me também saber o que é o Intersecionismo, um movimento criado por Fernando Pessoa e no qual se sobrepõem vários niveis de realidade. Perfeita descrição daquilo que li neste conto.

Ler A Engomadeira foi como ver um quadro do Almada, uma experiência em que a realidade se expõe perante os nossos olhos deformada em beleza. Escrito em 1915 é também um retrato da altura, e da ruptura agressiva que este grupo de autores tentava fazer com a norma e a tradição da altura. Podemos ver, como nas telas, o movimento Surrealista em plena laboração. Suponho que se eu conhecesse um pouco mais da história da altura, tivesse desfrutado ainda mais dos nomes que foram aparecendo na narrativa.

Aconselho muito, a ler com olhos abertos e capacidade de deslumbrar intacta.

“Eu sentia que cada poro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada submundo mesmo os das últimas subdivisões tivessem um mapa e leis onde cada ser fosse tão complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu.”

“Uma noite estava eu a escrever um conto realista e o aparo da caneta era uma vespa. Pensei toda a noite na vespa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com letra da minha amante que, mais extraordinário é, nunca aprendeu a ler.”

Histórias de Poligamia

The First WifeNiketche

Parece-me difícil acreditar que de toda a literatura africana lusófona eu conheça os óbvios Mia Couto, Pepetela, Ondjake e pouco mais. É uma lacuna no meu conhecimento, que eu espero que seja apenas isso e não reflexo duma falta de aposta das nossas editoras em nomes menos conhecidos, mas nem por isso menos interessantes.

Portanto, assim que o Netgalley me apresentou uma escritora moçambicana, mesmo que traduzida para inglês, eu corri a agarrar a oportunidade. E ainda bem que o fiz, não fiquei desiludida. First Wife conta-nos a história duma mulher que luta para manter a familia unida, mesmo quando descobre que tem de partilhar o marido com quatro outras mulheres. Mas há muitas camadas entrelaçadas na história de Rami e suas rivais. Temos as diferenças culturais entre o norte e o sul de Moçambique, temos o legado colonial que ficou, temos a luta dum país para se afastar de tradições que considera antigas mas que estão enraízadas no dia a dia da população, temos a procura da modernidade.

oMas acima de tudo temos aquilo que nós mulheres europeias sabemos mas esquecemos tantas vezes, o relato ficcionado mas decerto não longe da realidade que é a luta desigual que muitas mulheres ainda passam no resto do mundo, a luta que é serem reconhecidas como dignas, como iguais, como seres de direito. Grande parte deste livro eu passei-o zangada, e muitas vezes tive de o fechar para recuperar o fôlego e recomeçar. Porque é também realidade que nós somos as nossas maiores rivais, porque ainda se educam os meninos de maneira diferente das meninas, porque ainda nos criticamos umas às outras de maneira aguerrida e mesquinha, porque o que vestimos é motivo de crítica, e se somos assertivas não estamos a ser femininas.

E para além de tudo, o livro estava lindamente escrito, envolvente, com algum humor à mistura. Recomendo vivamente, principalmente se o conseguirem encontrar em português. O título é “Niketche, uma história de poligamia“, e eu aconselho vivamente.

Women should be better friends with each other, show more solidarity. We are the majority, we’ve got strength on our side. If we join hands, we can transform the world. 

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Emoções Animais

Not so different

Mais uma vez a plataforma Netgalley proporcionou-me o acesso a um livro interessantissimo, em troca duma opinião honesta. Falarei desta plataforma num dos próximos posts, até porque o balanço da minha utilização até agora está a ser claramente positivo.

Entretanto cada vez mais me sinto atraída por livros que não são ficção, mas que falam de vários temas que me interessam, normalmente viagens ou ciência. Muitas vezes a combinação das duas. Este livro era sobre comportamento animal, e creio que a data de publicação será algures em Maio, versão em inglês.

É um livro que fala de coisas testadas, experimentadas e observadas, ciência na sua verdadeira acepção, no entanto estava escrito dum modo extremamente acessível e interessante. É um livro que questiona. Podemos pensar muitas vezes no que é que define humanidade, de que forma somos diferentes dos animais, mas essa linha de separação é por vezes muito ténue, e aquilo que se chama pensamento consciente pode ser encontrado em varíadissimas espécies, assim estejamos à procura.

O autor leva-nos numa viagem por várias emoções humanas, desde o amor, ciúme, medo, dor da perda dum ente querido, e mostra-nos como num espelho onde podemos encontrar coisas muito semelhantes nos nossos companheiros de planeta. E desengana-nos logo se pensamos que estas coisas estão limitadas às inteligências que consideramos mais próximas das nossas, comos os primatas, pois até de peixes e aves se fala aqui.

Recomendo vivamente a quem gosta de ler sobre ciência, expandir os horizontes e a quem gosta de olhar o mundo com outros olhos.

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Perto do Céu

after the wind

Thanks to Netgalley and Good Hart Publishing for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Que melhor maneira de comemorar o aniversário do que terminar um bom livro? Não estou a ver.

Eu, que sou uma pessoa que tem vertigens a subir um banco de cozinha, por alguma razão sinto-me muito atraida para livros sobre montanhismo, e quanto mais alta a montanha melhor. Já tinha lido um livro sobre esta tragédia do Evereste, do Jon Krakauer, um livro muito bem escrito que me marcou imenso. Este é mais um relato na primeira pessoa sobre o que se passou, escrito 16 anos depois por um dos sobreviventes, um dos que voltou para trás e por isso sobreviveu.

A tragédia de 1996 foi a maior de sempre até às avalanches de 2014 e 2015, onde morreram 8 pessoas e várias feridas com gravidade. Muita coisa já se escreveu e debateu sobre os eventos que culminaram nesta tragédia, culpas foram discutidas e atribuidas, mas nunca se conseguirá saber com toda a certeza exactamente o que aconteceu.

Quando leio estes livros fico sempre a pensar o que levará uma pessoa a ultrapassar os seus limites dessa maneira, a colocar-se em risco de vida tendo em troca breves momentos no cimo duma montanha sabendo que poderá estar em condições fisicas demasiado fracas para poder apreciar o feito.

Creio que é acima dos 8000m que se chama “death zone” porque literalmente o nosso corpo está a morrer, e não se pode permanecer muito tempo por lá. As descrições que leio são sempre de intenso sofrimento fisico e emocional. No entanto, todos os anos, muitas pessoas continuam a procurar essa “satisfação” pessoal.

É atribuida uma frase a George Mallory, um dos primeiros a tentar este feito, que creio define isto dum modo definitivo: “Porque é que queres escalar o Everest? Porque está lá!”

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A Terra do Fim do Mundo

Last Tango in Buenos Aires

Thanks to Netgalley and Matador for an ARC of this book in exchange for an honest review.

 
Aqui temos mais uma vez a prova que é preciso mais do que um destino interessante para fazer um bom livro. E este parecia uma receita para o sucesso. Uma viagem pela Argentina, essa terra de promessa e dramatismo, das paisagens inóspitas do fim do mundo que é a Patagónia. 
É um destino que já está vendido à partida para mim, e no entanto soube a tão pouco. Existiram muitos episódios interessantes ao longo do livro, aflorou-se muito sobre a história e as histórias, no entanto os capítulos eram disconexos, não haviam uma sensação de jornada, de caminho percorrido, de intencionalidade. 
Mesmo o próprio trajecto Norte-Sul seguido pelo autor foi dificil de descortinar no meio de tanta inconsequência e a maior parte do tempo eu senti-me perdida geografica e cronologicamente. E o fim foi chocho, sem força. Teve a mais valia de citar um poema de Guerra Junqueiro algures lá pelo meio a propósito de qualquer coisa que não me lembro bem, e aquecem sempre o coração estas referências pátrias.
Portanto, não é um mau livro, mas também não é bom, e de livros mornos estão as prateleiras cheias.

Caminhar com Sentido

Ken Ilgunas_Trespassing Across America

Thanks to Netgalley and Blue Rider Press for an ARC of this book in exchange for an honest review.

Desde que tenho o Kindle que desenvolvi uma preferência por não ficção, especialmente livros de viagens ou ciência. Este livro encerra em si um misto das duas coisas. Por um lado descreve uma jornada dum norte-americano pelo caminho destinado a um novo oleoduto, megalómano como tudo naquele continente. Por outro lado vai-nos levando pelas polémicas do aquecimento global naquele que deve ser o país ocidental que mais nega a sua existência.

É uma jornada ao mais profundo da América da actualidade, ao conflicto de mentalidades naquele país tão bipolar. E é ao mesmo tempo enternecedor. Porque as pessoas são genuinas e multidimensionais e o autor soube retratar bem isso. Ao mesmo tempo, está bem documentado de factos, estudos, correntes de pensamento que nos vai apresentando sem nunca ser entediante.

Escusado será dizer que a minha visão está muito próxima da do autor. É necessário tomar consciência, acção, perceber que gastamos demasiada energia, antes que estejamos no ponto de não retorno (se é que já não estamos). Por vezes é dificil não entrar em desespero, principalmente quando vemos noticias como as da Amazónia, que nunca chegam cá porque estamos demasiado entretidos nas nossas quintas. Mas podem ler-se aquiaqui ou aqui.

Por fim é sempre curioso ver como as coisas são tão culturalmente diferentes noutros sitios. A mim parece-me tão estranho não poder caminhar livremente pelo meu próprio país, observar as belezas naturais. Poucos são os sitios onde não nos é permitido caminhar, onde a figura do “trespassing” está presente. E creio que se passa o mesmo a nivel europeu (o autor aliás menciona isso mesmo). No entanto, na América passa-se o contrário. Tudo está vedado, tudo é propriedade privada onde não se pode caminhar livremente, a ameaça de se ser atingido a tiro é bem real.

Aconselho a todos os que gostam de ler sobre viagens, ciência, o mundo de hoje, questões ambientais. Mas com cuidado, porque dá uma vontade irresistivel de largar a pé até ao fim do mundo.

“When I think about our culture’s addition to fossil fuel, its indifference to the natural world, and the sheer impossibility of any major change happening soon, I can’t help but despair. Almost as depressing as an inevitable collapse is how powerless I feel as an individual.”

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To Sleep, perchance to Dream

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Há mais anos do que aqueles que eu gosto de me lembrar, uma colega de faculdade introduzia-me no fabuloso mundo dos Joy Division e dos livros do Sandman. Foi uma emotion overload, e o meu coração povoado de hormonas, angústia existencial e excesso de horas de estudo conseguiu apenas devotar-se militantemente à música gótica, destino que carrego até hoje de forma mais ou menos evoluida.

O Sandman acabei por ler na Fnac, quase todos os volumes, mas de passagem e sempre com a promessa de voltar. Este ano é o ano do sonho novamente. Por intermédio de outra amiga tenho-me reencontrado com o regente dos sonhos, devagarinho, e temos redescoberto a nossa relação.

Já li os três primeiros volumes, e espero acabar 2016 com os 10 volumes terminados. A delicadeza dos desenhos acentua a crueza das histórias, já que o Neil Gaiman nunca tem pudor em espicaçar a nossa mente e testar os nossos limites.

Verdadeiramente, banda desenhada não é uma coisa de crianças. Pelo menos a que é feita a sério, com mensagem e a expandir os limites da criatividade e realidade.

Quem quiser saber um resumo pode encontrá-lo aqui

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Terceiro Apocalipse em Lisboa

Dog Mendonca

Esta saga de BD do Filipe Melo é uma pérola para todos os amantes do género. Não só é visualmente muito bonita, com um traço delicado e envolvente, como tem uma luz quente que nos lembra muito o ambiente duma certa Lisboa decadente mas sempre vibrante, a cidade do Bairro Alto, de Alfama, e até de Sintra. A ponte 25 de Abril também costuma fazer sempre uma cameo appearance, porque é tão cinematográfica.

Este é já o terceiro volume da série e eu creio que o tinha comprado há mais de um ano, mas uma certa nostalgia antecipada por ser o último duma série que não vai continuar tinham-me impedido de o ler até agora. Estava a custar-me despedir-me destes personagens, especialmente o Pazuul, um demónio milenar que habita o corpo duma menina de 12 anos. O livro não desiludiu, era mais intimista e põe realmente um ponto final na história. Para quem, como eu, está quase a fazer 41 anos, foi aconchegante ver o carinho com que se lida com envelhecer, o passar do tempo.

pazuul

Aconselhado a todos os que acham que banda desenhada é intemporal, os Lisbon Lovers e todos os que gostam duma boa história.

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