Jogos de Cartas

cartas peixinho

Numa altura em que o vintage está na moda, há revivalismo por toda a parte, há uma coisa da minha infância da qual tenho muitas saudades e que ainda não foi ressuscitada, e parece-me que nunca o será, que é o jogo da sueca. Por algum motivo os jogos de cartas continuam relegados para idosos em mesas de jardim (a sueca) ou para esquemas manhosos online (o poker). No entanto, das melhores recordações que tenho dos meus verões na aldeia são tardes e noites a jogar às cartas, nas suas diversas vertentes.

Havia vários “campeonatos” chamemos-lhe assim. Quando eram os primos todos, só para a galhofa, normalmente escolhiamos o Keims (nunca tive de escrever isto antes, escolhi livremente a grafia). Este jogo envolvia um complexo sistema de sinais que invariavelmente acabava com gritaria e acusações de batota, e proporcionava horas de diversão enquanto fazíamos a digestão antes de ir para a banhoca no rio.

À noite, quem tinha idade jogava à sueca. Os adultos na minha sala (as reuniões eram sempre em casa da minha avó), os primos mais crescidos na mesa do terraço, e os primos pequenos que ainda não tinham idade jogavam todos juntos à ronda, com a minha avó que era a única com paciência para nos aturar e ensinar. Subir de divisão era o que todos almejavam, e ir compor a mesa dos adultos se faltava alguém era sinal de ter entrado num patamar superior.

Algumas pessoas, como a minha mãe, mantinham-se sempre à parte disto tudo. Ela gostava de paciências pela noite dentro, ou crapô com o meu pai, lugar que eu assumi depois de ele ficar doente, mas nada mais que isso.

Mas muitos serões se passaram na terra em torno das cartas e o pior que nos podia acontecer era não sermos 4 parceiros para uma boa jogatana. Anos mais tarde, já eu adulta feita, quando ia sozinha passar uns dias com a minha avó, ainda me lembro da alegria dela e da minha tia por finalmente sermos quatro e podermos disputar umas partidas. Eu costumava fazer par com a minha avó, excepto quando um primo mais competitivo aparecia e as irmãs se protegiam e me calhava a mim jogar com ele. Ainda me lembro dele muito enervado a questionar-me porque raio tinha posto a minha sota debaixo do conde dele. Ora, eu até sabia o que era uma sota e um conde, apesar de não ser a terminologia que habitualmente usávamos, mas a estratégia profunda daquela questão escapava-me, a mim que jogava para me divertir e não para descobrir o sentido da vida, ou validar nada, e percebi porque o meu primo nunca tinha o mesmo parceiro.

Em Lisboa jogavam-se outras coisas, como o sobe e desce, o King, e mais tarde na faculdade deixei-me apanhar pela febre do Magic, mas isso já era um post totalmente diferente.

De qualquer modo tenho muitas saudades de jogar às cartas. A cara-metade não gosta nada, o que significa que nem umas partidas de Crapô jogamos, para grande pena minha, e nunca encontrei um sitio digno onde se dispute um torneio de sueca. As regras da ronda, primeiro jogo que a minha avó me ensinou, já se desvaneceram na minha memória, e mesmo na sueca já não seria capaz de contar os pontos e as cartas que saíram ao mesmo tempo que o jogo decorre. Qualquer dia também as regras se perderão na minha memória cada dia mais frágil, mas antes que isso aconteça quis deixar aqui este pedacinho do meu passado.

Hoje em dia tudo se transformou numa app, e claro que já há apps da sueca. Mas nunca será tão satisfatória como quatro pessoas à volta duma mesa num terraço numa noite de Verão.

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O Candy Crush

Candy Crush

Mas o que é que o Candy Crush tem a ver com livros? Nada e tudo. Eu sou uma leitora obsessiva, que passa muitas horas por semana a ler, como já referi inúmeras vezes. No primeiro ano que me registei no Goodreads consegui ler imensos livros, apesar das pausas diárias que tenho de fazer para trabalhar.

Mas no ano seguinte aderi, ainda que tardiamente, à febre dos smartphones e deixei-me consumir. Para conseguir chegar ao objectivo de livros que tinha traçado, muito menor que no ano anterior, tive de ler muita banda desenhada e livros pequeninos de 100 páginas. Em vez de ter viagens de autocarro vibrantes em terras distantes, a viver aventuras desmedidas, passei a estar rodeada de rebuçados, chocolates e gomas. Nas horas de almoço era a euforia colectiva, com toda a gente a tentar ultrapassar mais um nível, e o meu cérebro foi ficando diabético e mirrado.

2016 é o ano da desintoxicação alimentar, os doces e outros jogos tentadores estão em segundo plano e as minhas viagens diárias voltaram a ser um mundo para descobrir.