Ode à Noite (Inteira)

manuel-de-freitas

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
– ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
– como eu – insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita – o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço e sem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
– ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.

Manuel de Freitas in Sunny Bar

No Dia Mundial da Poesia tinha de haver poesia no Peixinho!

 

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Dia Mundial da Poesia

Assim que aprendi a escrever que comecei a brincar com as palavras e a fazer pequenos versos. Creio que a maioria deles perdidos para sempre em cadernos que ficaram na casa dos meus pais. Quando entrei na adolescência a minha madrinha ofereceu-me O Livro em Branco para eu poder registar os fervores da vida que me assolavam. Esse ainda o tenho lá por casa, guardado numa estante.

Quando comecei a crescer e a realmente apreciar poesia, percebi que faria melhor em ler quem percebe do assunto e deixar-me de fantasias. E mergulhei de cabeça, primeiro nos clássicos de Florbela Espanca, e depois por ali fora, devagarinho, saboreando, partilhando com que desfruta do mesmo prazer.

Isto tudo para dizer que na próxima segunda feira dia 21 é o Dia Mundial da Poesia. E que o CCB vai fazer amanhã uma série de actividades ligadas a esse tema, incluindo uma feira do livro de poesia. Programação aqui.

E para celebrar a poesia, nada melhor que Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis, in “Odes”