3 sugestões de fim de semana (e não só)

Este fim de semana que passou, por causa do mau tempo, acabei por ficar metida em casa sem fazer grande coisa para além de aborrecidas tarefas domésticas. Ora, apesar de serem importantes e de nunca estarem realmente terminadas, não são propriamente satisfatórias (pelo menos para mim), e fico sempre com a sensação que me faltou alimento para o cérebro.

Por isso queria aqui deixar 3 sugestões que são, antes de mais nada, para mim própria. Ou seja, são as 3 exposições que tenho na calha e que espero sinceramente não perder. Duas delas estiveram ao rubro no fim de semana passado, com filas de espera, o que realmente mostra que andamos atentos aos nossos artistas. Por isso abriguem-se do mau tempo em qualquer uma delas.

Miró em Serralves: Tenho com Miró a mesma relação que tenho com tantos outros artistas. De alguma maneira insinuaram-se na minha infância, fizeram-se presentes devagarinho, e agora fazem parte da minha vida. Miró, Bosch e Chagall, estavam pendurados na sala dos meus padrinhos, que era onde eu dormia quando lá passava fins de semana, e adormecia a decorar pormenores dos quadros. De algum modo ficaram gravados na minha memória e foram os embriões do meu gosto por arte mais moderna, e sempre que tenho oportunidade de ver obras deles vou com agrado. Por isso ando a tentar arranjar um espacinho para ir até Serralves, espaço que muito me agrada, agora que me fizeram o favor de estender a exposição até dia 4 de Junho.

Almada na Gulbenkian: Almada Negreiros é um homem da modernidade e um artista muito completo. Pintor, escritor, escultor, desdobrava-se em demonstrações artisticas, algumas bem nossas conhecidas. Agora podemos ver uma exposição na Gulbenkian, cheia de eventos associados para melhor podermos compreender a sua dimensão. Até 5 de Junho.

Amadeo de Souza Cardoso no Museu do Chiado: A recriação duma exposição polémica deste artista feita em 1916, e muito aclamada por Almada Negreiros. Souza Cardoso foi um modernista que andou junto dos grandes, mas cuja morte prematura às “mãos” da gripe espanhola (e o facto de ser português), fez com que não tivesse o merecido reconhecimento internacional (e o nacional é o que se sabe). No entanto os seus quadros são espantosos, e estou ansiosa por ir ver esta exposição, que será também uma oportunidade para finalmente conhecer o Museu do Chiado.

Ficam as minhas sugestões. Irei dizendo de minha justiça à medida que as for visitando. Boas visitas!

A Flor

Almada negreiros

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis.A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
:Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros. Enquanto não vêm as descrições de São Tomé, um poema dum artista que nasceu lá. 

A Engomadeira do Almada

A Engomadeira

Num ano em que resolvi retomar a leitura em português, cruzei caminhos com este conto do Almada, a Engomadeira. Para além de toda a experiência de o ler, este conto permitiu-me também saber o que é o Intersecionismo, um movimento criado por Fernando Pessoa e no qual se sobrepõem vários niveis de realidade. Perfeita descrição daquilo que li neste conto.

Ler A Engomadeira foi como ver um quadro do Almada, uma experiência em que a realidade se expõe perante os nossos olhos deformada em beleza. Escrito em 1915 é também um retrato da altura, e da ruptura agressiva que este grupo de autores tentava fazer com a norma e a tradição da altura. Podemos ver, como nas telas, o movimento Surrealista em plena laboração. Suponho que se eu conhecesse um pouco mais da história da altura, tivesse desfrutado ainda mais dos nomes que foram aparecendo na narrativa.

Aconselho muito, a ler com olhos abertos e capacidade de deslumbrar intacta.

“Eu sentia que cada poro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada submundo mesmo os das últimas subdivisões tivessem um mapa e leis onde cada ser fosse tão complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu.”

“Uma noite estava eu a escrever um conto realista e o aparo da caneta era uma vespa. Pensei toda a noite na vespa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com letra da minha amante que, mais extraordinário é, nunca aprendeu a ler.”