Poema Verde

raquel

Não me peças para amadurecer
que não sou peça fruta,
sou peça de outra engrenagem,
e a vida não é árvore nem fruteira.
Depois ninguém sabe o que é a vida,
a vida vai-se fazendo,
ou vai-se sem mais,
sem chegar a ser inteira.
E eu quero continuar verde
como o mar, verde
como um poema de Lorca, verde
como o verde dos meus olhos, verde
apesar do comprimento dos dias, verde
às vezes de raiva, que com duas patas
também se pode ser cão, verde
por saber o que é a tristeza
e a inutilidade da alegria ao ponto de cortar os pulsos,
mesmo quando temos vários corações a bater fora do corpo.

Raquel Serejo Martins

Deixa-me Dar-te o Verão

jose tolentino mendonça

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras.

José Tolentino Mendonça in De Igual para Igual

É Por Ti Que Escrevo

antonio_ramos_rosa

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’

Acto de Contrição

joao luis barreto guimaraes

Pela luz rara da garagem dois vultos
vão pôr o lixo. São velhos desconhecidos. Um
ao outro dão passagem (a
máscara de um cumprimento) esquivos na
escatológica arqueologia das misérias.
Homens de lixo na mão: exímios
a ocultar
versos da vida doméstica (quando
o gesto liso cabe ao avental abundante que os
devolve a casa). Há
em todo esse agravo uma redenção ferida
(um juízo resolvido) como que um
indulto lento.

João Luís Barreto Guimarães, in ‘Luz Última’

Dreamlessly

bukowski

Imagem daqui

old grey-haired waitresses
in cafes at night
have given it up,
and as I walk down sidewalks of
light and look into windows
of nursing homes
I can see that it is no longer
with them.
I see people sitting on park benches
and I can see by the way they
sit and look
that it is gone.

I see people driving cars
and I see by the way
they drive their cars
that they neither love nor are
loved –
nor do they consider
sex. it is all forgotten
like an old movie.

I see people in department stores and
supermarkets
walking down aisles
buying things
and I can see by the way their clothing
fits them and by the way they walk
and by their faces and their eyes
that they care for nothing
and that nothing cares
for them.

I see a hundred people a day
who have given up
entirely.

if I go to the racetrack
or a sporting event
I can see thousands
that feel for nothing or
no one
and get no feeling
back.

everywhere I see those who
crave nothing but
food, shelter, and
clothing; they concentrate
on that,
dreamlessly

I do not understand why these people do not
vanish
I do not understand why these people do not
expire
why the clouds
do not murder them
or why the dogs
do not murder them
or why the flowers and the children
do not murder them,
I do not understand.

I suppose they are murdered
yet I can’t adjust to the
fact of them
because they are so many.

each day,
each night,
there are more of them
in the subways and
in the buildings and
in the parks

they feel no terror
at not loving
or at not
being loved

so many many many
of my fellow

creatures

Charles Bukowski in Burning in Water, Drowning in Flame

Acabei de Ler – K2, Life and Death on the World’s Most Dangerous Mountain

k2

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Quem segue o Peixinho sabe que eu gosto de ler sobre montanhismo. Eu, que tenho vertigens se subir a um banco, gosto de ler as experiências de quem se aventura a escalar os picos mais altos do planeta. E não há altura melhor para o fazer que em plena vaga de calor. Talvez ler sobre temperaturas abaixo de zero ajude a suportar os quarenta que sentimos a meio de Julho.

K2 é a segunda montanha mais alta do mundo, e situa-se no Paquistão, na cordilheira do Karakoram. Não é tão popular como o Evereste, mas é bastante mais técnica e perigosa de subir. Ed Viesturs é um alpinista americano muito experiente, e foi o primeiro americano a subir todos os 14 picos com mais de 8000 metros de altura. Só há 4 alpinistas no mundo com maior número de subidas de alta montanha, a acreditar no que a Wikipedia nos diz.

Após a trágica época de 2008 no K2, em que morreram 11 alpinistas, e tendo tido uma experiência dramática quando fez a sua própria subida em 1992, Ed Viesturs decide investigar a história da montanha e mostrar-nos porque é tão perigosa, usando o relato de várias campanhas anteriores.

A premissa é boa, e Ed Viesturs é realmente uma autoridade na matéria, mas de algum modo este livro não foi brilhante. Acho que teria beneficiado de uma melhor edição. O autor fala-nos de várias expedições ao K2 desde 1902, os sucessos e os insucessos. Reconta novamente a sua própria experiência de 1992, com Scott Fisher que viria a falecer mais tarde no desastre de 1996 no Everest, mas por vezes os saltos entre experiências eram pouco claros, e confusos. Era necessário muita atenção para percebermos em que ano estávamos, e se já tínhamos ou não lido anteriormente sobre isso. Depois foram largos capítulos sobre a expedição de 1939 onde pela primeira vez morreram pessoas a escalar esta montanha, com uma análise detalhada sobre a atribuição de culpas, e confesso que essa parte não foi nada interessante e acabei por ler meio na diagonal. Devo dizer que me agradou bastante o destaque dado aos sherpas e paquistaneses que se distinguiram na montanha também, já que é tão raro vermos isso noutros livros.

No fundo, um livro que tinha imenso potencial mas que ficou um pouco aquém. Se gostarem de ler sobre montanhismo, há opções mais interessantes, nomeadamente Buried in the Sky, também sobre escalada no K2 mas com uma extensa história dos sherpas que acompanharam a expedição e que raramente recebem atenção mediática.

Rumo ao próximo. Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

If you follow this blog, you already know I like to read about mountain climbing, even though I have severe vertigo if I climb something as high as a park bench. Still, I love reading about the experiences of those who dare to climb the highest mountains on the planet. And I was reading this through a heat wave, reading about freezing temperatures actually helped to bear the heat.

K2 is the second highest mountain on Earth, and is in Pakistan, on the Karakoram mountain range. It is not as widely known to the general public as the Everest, but is much more difficult and technical, making it one of the most dangerous peaks. Ed Viesturs is a very accomplished American climber, the first (and only) one to reach all the 14 peaks that stand above 8000m. According to Wikipedia, there are only other 4 climbers with more high peaks climbs than him.

He wrote a previous book detailing his journey to the 14 peaks, but after the 2008 tragic K2 season, with a death toll of 11 climbers, and having had his own dangerous experience in this mountain in 1992, Ed Viesturs decided to investigate K2’s history and delved into past ascents to show us why K2 is considered such a dangerous mountain.

This promised to be an interesting book, and Ed knows what he is talking about, however the book fell a little short for me, and I believed it would have benefited from better editing. The author details several K2 expeditions, since the first one in 1902, including his own experience in 1992 with none other than Scott Fisher that became sadly famous with the 1996 Everest disaster, where he perished. However, the leaps between each expedition were sometimes confusing and a lot of brain power was needed to understand in which timeline we were at any given point. There were also several chapters dedicated to the 1939 ascent, the first time K2 claimed lives. There was a detailed analysis, trying to justify who was (or not) to blame, which was not interesting to me. But it got better after that, and it was very refreshing to see the Sherpas and the high-altitude guides being recognized for their efforts and their sacrifices, which, sadly, is not something common in these books.

This book had a lot of potential, but it fell a bit short. If this is a theme that interests you, there are more interesting options out there. Buried in the Sky was also about K2, but the writing was more interesting and engaging, and it was very informative about the differences between high altitude and low altitude porters, all of which are amply used in these expeditions but with very low recognition.

On to the next one, Happy Reading!

Acabei de Ler – Slade House

slade house

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David Mitchell é o que mais se aproxima do que se pode chamar o meu autor favorito. É pelo menos um autor do qual eu leio tudo o que é publicado, e, obviamente sendo eu, eu, por ordem de publicação. Slade House é de 2015 e o penúltimo a ser publicado. Andei a guardá-lo religiosamente porque não quero acabar os livros dele sem ter outro no horizonte.

Se não conhecem David Mitchell começo por vos dizer que todos os seus livros estão ligados, mais subtilmente ou à bruta, como este com o anterior (The Bone Clocks). O autor considera que toda a sua obra é um grande romance que se passa num universo próprio, muito semelhante ao nosso mas com algumas regras próprias e algumas peculiaridades. É comum existirem personagens que vão fazendo aparições especiais em vários livros, e encontrar referências a obras anteriores é quase um passatempo adicional à normal leitura dos livros. No entanto todos podem ser lidos separadamente e sem conhecimento prévio dos anteriores. Há aí pela internet fora várias páginas que falam sobre as ligações entre os vários livros e são muito interessantes. Por outro lado, David Mitchell tem também uma história de vida muito rica, viveu em muitos lugares diferentes e a sua escrita tem essa matriz embebida e isso é outro dos factores que a torna deliciosa. É um dos autores que conheço que melhor consegue escrever vozes diferentes e todas soam realistas, o que é uma coisa bastante difícil. Mas vamos ao livro.

Este Slade House vem imediatamente a seguir a The Bone Clocks e está muito ligado a ele. A história não está relacionada, mas as personagens sim, e muito do vocabulário utilizado também. Não será obrigatório ler um antes do outro, mas certamente desejável. Eu já não me lembrava de algumas especificidades, mas elas foram sendo explicadas ao longo do livro, por isso nunca me senti perdida, tirando no primeiro capítulo em que não se sabia bem o que estava a passar, mas isso fez parte da jornada.

Este não é o melhor livro de David Mitchell. Mas, sendo ele quem é, foi mesmo assim um livro muito bom. A cada 9 anos, numa pequena viela duma cidade inglesa, aparece um pequeno portão de ferro. É a entrada para a Slade House, e quando cada convidado entra  nunca mais vai querer sair. Ou poder… Esta é a história em traços largos, sem estragar nenhuma surpresa. Está muito bem escrita, cada capítulo é contado na perspectiva dum convidado diferente, e tem momentos de bastante suspense. Conhecer os livros anteriores faz-nos sorrir de cada vez que aparece um nome familiar, e saber mais ou menos o que esperar em determinadas situações, o que amplifica a experiência.

Como disse, é um livro bom, umas sólidas 4 estrelas (em 5), um prazer de ler, mas não o melhor para quem se quer estrear neste autor. Para isso, continuo a achar que Cloud Atlas é o melhor. Agora só me falta o último, Utopia Avenue, mas vou esperar até estar quase a ser publicado o seguinte.

Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

David Mitchell is the closest I have to a favourite author. I am reading everything he writes in publication order, as per usual with me. Slade House was published in 2015 and there is only one more after it, so I have been saving it for a long time.

If you are not familiar with Mitchell’s books, let me start by saying that they are all connected, either on a subtle way, or more bluntly, as is the case with this one and the previous, The Bone Clocks. The author considers that all his works form one big novel, all taking place in a big metaverse, similar to our own reality but with some different rules and peculiarities. In each book we can find characters that have appeared previously and will appear again, relatives of previous characters, and references to previous situations. However, they can all be read and enjoyed separately, and this previous knowledge is not necessary to understand the stories. We can find many pages online that refer to these connections, try to explain them, or at least cross reference the books, and they are all interesting. David Mitchell’s life story was also interesting, he lived in many different countries, like Japan, and all that he has learned and experienced now permeates his books and make them so rich. He is also one of the best author’s I know to write stories with different POV’s and making them all sound real, which is quite an accomplishment.

As I said, Slade House comes immediately after Bone Clocks and the two are very connected. The story is not related, but some of the characters are, and so is a lot of the vocabulary used. It is not mandatory to read one before the other, but in this case, I think it will make the experience better. As I read Bone Clocks a while back, I did not remember some of the details, but luckily those were explained throughout the book, so I never felt lost. The first chapter seems a bit confusing, but that is part of the experience, do not let it deter you.

This is not Mitchell’s best work, but it is still a very good book, with a delightful story. Every 9 years, on a narrow alley on an English town an iron gate appears. This is the entry to the Slade House, and when a guest goes in, they will not want to come out. Or might not be able to. This is the brief summary of the story, with no spoilers. Each chapter is written in the guest’s point of view, and we can really feel their personality. Knowing the previous books makes us smile in some situations, or when someone appears, and we can envision what might come next, which is always exciting.

This was a delightful book, 4 out of 5 stars, and a joy to read. If you have never read David Mitchell I recommend you start with something else, being Cloud Atlas the best choice. Now I only have the last one left, Utopia Avenue, but I will hold on to it for a while longer, as I do not want to run out of Mitchell’s books.

Until then, Happy Reading!

O Pássaro da Cabeça (Versos Para Crianças)

manuel antonio de pina

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

Manuel António de Pina

Nomeados Booker 2022

booker 2022

Saiu na passada terça-feira dia 26 a lista dos nomeados para o prémio Booker deste ano. São 13 e, ao contrário de anos anteriores, há na lista um que já li em pré-venda, graças ao Netgalley. Como habitual, vou mostrar-vos em baixo a lista dos nomeados com algumas consideraçãos minhas baseadas nas sinopses.

The Colony de Audrey Magee – Este foi o livro que vi mais vezes citado nas fontes que leio como um possível candidato, e que parece reunir mais consenso. Passa-se numa ilha irlandesa remota, em 1979, que vai ser visitada por um italiano e um francês que têm visões radicalmente diferentes sobre o que deve ser o destino da ilha. Ao mesmo tempo, os seus habitantes também querem ter uma palavra a dizer. Este livro parece-me interessante, até porque junta a isto a pano de fundo que se vivia na Irlanda nesta altura, fiquei com vontade de ler!

After Sapho de Selby Wynn Schwartz – Este é um livro sobre mulheres que quebraram padrões e que forçaram barreiras nos inícios do século XX. Tem excelentes críticas no Goodreads, mas não parece ser muito ao meu gosto. 

Glory de NoViolet Bulawayo – O que se segue num país quando um líder ditatorial de longa data finalmente é afastado? E se essa nação for no reino animal? Esta é a premissa desta sátira à queda de Mugabe no Zimbabwe em 2017. Parece ser um livro muito interessante, e esta autora já não é nova nestas andanças de ser nomeada para os Booker. 

Small Things Like These de Claire Keegan – Mais um livro passado na Irlanda, em 1985, sobre Bill Furlong, um homem normal com uma vida banal, mas que tem a oportunidade de fazer uma coisa extraordinária. Esta sinopse dá-me imensa vontade de pegar já no livro, e o facto de ser só 118 páginas ajuda muito também. 

Nightcrawling de Leila Mottley – a história de dois irmãos adolescentes que moram em Oklahoma City e que precisam de sobreviver sozinhos num mundo complicado e cheio de dificuldades. O retrato da probreza, da adversidade que podemos encontrar em grandes centros urbanos. Pareceu-me muito interessante e fiquei com imensa vontade de ler, apesar de pressentir que vai ser bastante difícil. Esta foi a autora mais nova de sempre a ser nomeada, com 20 anos. 

Maps of Our Spectacular Bodies de Maddie Mortimer – Este é um título fabuloso para um livro, e só por aí já chama a atenção. Conta-nos a história de Lia, o seu marido e a sua filha adolescente, e o seu percurso após Lia ser diagnosticada com cancro terminal. Se alguém ler, que me diga se é tão bom como parece. Não está na minha lista de livros para ler, porque nesta altura do campeonato tento proteger-me de sofrimento desnecessário.  

Case Study de Graeme Macrae Burnet – Este livro mistura realidade com ficção, já que um dos personagens, o Dr. Collins Braithwaite, existiu mesmo e tem uma história curiosa. Neste livro a nossa personagem principal acha que a irmã cometeu suicídio depois de ser paciente de Braithwaite, e assume uma nova identidade para se tornar também ela paciente e tentar descobrir o que aconteceu com a irmã. A premissa parece-me muito interessante, quase um thriller, e fiquei definitivamente curiosa por ler. Vai para a lista. 

Treacle Walker de Alan Garner – Este livro tem críticas excelentes, mas devo dizer que mesmo após ter lido a sinopse, não sei bem do que se trata. A amizade entre um rapaz e um caminhante, imersa em mitos e lendas rurais, pelo que percebi. Não está na minha lista de prioritários para ler. 

The Trees de Percival Everett – Uma série de assassinatos estranhos no Mississipi são difíceis de ser investigados por pouca colaboração da polícia local, mas quando se começa a perceber as ramificações, percebe-se que estamos perante algo muito estranho. Esta é a premissa inicial dum livro que é muito estranho e muito actual, já que se foca nas tensões raciais na América, que continuam a ser ainda tema corrente. Parece-me uma boa aposta!

Trust de Hernan Diaz – Ficção histórica sobre um casal dos anos 20 do século passado, que enriquece  imensamente sem se saber bem como. Não me pareceu muito o meu género, não me parece que vá ler. 

Booth de Karen Joy Fowler – Mais uma ficção histórica, desta vez sobre a família de John Wilkes Booth, antes e depois dele ter assassinado o presidente Lincoln. Ficção histórica não é muito a minha praia, este livro tem 480 páginas e as críticas no Goodreads não são famosas. Para já não está na minha lista de livros para ler.

Treacle Walker de Alan Garner – Este livro tem críticas excelentes, mas devo dizer que mesmo após ter lido a sinopse, não sei bem do que se trata. A amizade entre um rapaz e um caminhante, imersa em mitos e lendas rurais, pelo que percebi. Não está na minha lista de prioritários para ler. 

Seven Moons of Maali Almeida de Shehan Karinatilaka – Tendo a personagem principal um apelido tão maravilhoso, obviamente que este livro tem que ser lido. Quero também realçar que tem sido delicioso ver vídeos sobre os nomeados de booktubers anglófonos, e ver como tentam pronunciar isto. That being said, o autor é do Sri Lanka e a trama passa-se na sua capital, Colombo. Maali Almeida aparece morto e tem sete luas para conseguir descobrir como isso aconteceu. Parece-me delicioso, e está no topo da minha lista de livros a ler. 

Oh William! de Elizabeth Strout – O único livro desta lista que eu já li, há precisamente 1 ano, cortesia do Netgalley. É com personagens de livros anteriores, nomeadamente Lucy Barton, mas mesmo se não leram não perdem nada, porque a autora explica tudo o que é necessário, que é pouco. Gostei bastante, é  um livro que se lê muito rápido, e Lucy Barton é uma personagem deliciosa com a qual nos identificamos muito. Não deve ser o vencedor, porque há outros nomeados que são mais falados, mas é um livro que vale a pena ler. 

Já leram algum, ou planeiam ler algum? Partilhem comigo se valeu a pena. 

Boas Leituras!

Acabei de Ler – Crime no Vicariato

murder at the vicariage

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Terminei a minha “tarefa” de ler todos os Poirots por ordem de publicação o ano passado, mas não consegui ficar longe da Agatha Christie por muito tempo e resolvi experimentar a Miss Marple, sem compromisso de permanência desta vez. Comecei pelo primeiro livro dela, sendo que tecnicamente a sua primeira aparição foi num livro de contos, para os quais eu não tenho paciência em policiais. Sinto que falta tempo para desenvolver a trama de maneira satisfatória.

Mas atirei-me a esta Miss Marple com algumas saudades das peculiaridades da Senhora Agatha Christie, e não fiquei desiludida. Na realidade até fiquei alegremente surpreendida.

Não ia com expectativas muito elevadas para este livro. Sempre gostei muito de Poirot, e a série televisiva só veio reforçar essa ideia, mas a Miss Marple parecia-me chochinha, e nunca consegui interessar-me muito pela série televisiva. Mas em livro o caso muda de figura. Miss Marple nem aparecia assim tanto na história, que era narrada pelo vigário duma pequena aldeia inglesa. Mas o crime foi muito interessante, e acima de tudo, as descrições da vida numa pequena comunidade rural eram deliciosas. Mesmo sendo em Inglaterra, consegui sentir um cheirinho do que experiencei por terras lusas nas pequenas aldeias por onde andei. O retrato social da época está muito bem feito, os estereotipos estão todos lá, e há frases absolutamente deliciosas espalhadas por toda a parte. O facto da velhinha Miss Marple ser retratada como a bisbilhoteira da aldeia é também maravilhoso. Agatha Christie nem sempre era caridosa a descrever as suas personagens principais, e isso esteve bem patente neste livro.

De resto, a história não é surpreendente, é um clássico mistério ao estilo whodunnit, como dizem os nossos amigos britânicos. Há um homicídio, há um leque reduzido de suspeitos que são todos conhecidos e que todos podem ter motivo ou oportunidade para o cometer, e tudo vai sendo lentamente desvendado ao longo do livro. Não sabia quem era o culpado, mas isso nem foi o mais importante. Depois de ter lido tantos livros de Agatha Christie pensei que ela não tivesse nada de novo para me oferecer, mas aí sim estava redondamente enganada. Estava bem escrito, interessante, e deixou-me o gosto por ler os seguintes.

Recomendo vivamente a todos os que gostam de mistérios, policiais, thrillers, como quiserem chamar. Na minha humilde opinião, que só interessa a mim, não se pode ser fã de mistérios sem ter lido a raínha do género.

Rumo ao próximo. Até lá, Boas Leituras!

Goodreads Review

“The young people think the old people are fools — but the old people know the young people are fools.”

Last year I reached the end of my self-imposed task of reading all Poirot novels in publication order, but I could not stay way from Dame Agatha Christie for long. So, I dived into the Miss Marple series, but with no formal commitment this time. I started with her first full novel, and disregarded the first short stories that were published, as I don’t like short mystery books, they feel incomplete to me.

I started this book missing Agatha Christie’s peculiarities and was not disappointed. Quite the opposite, I was pleasantly surprised.

My expectations weren’t high when I started this book. I loved Poirot, both the novels and the TV series and I had the feeling Miss Marple was dull in comparison. I also could not relate to the TV series, did not bond with the actresses chosen for the part. But the book is so much better. Miss Marple is almost a secondary role in the story, which was narrated by the village’s vicar. The crime was interesting and the depictions of life in a small British village were delicious, and it could portray any small village in the world. It was also a very good portrait of its time, with all the expected stereotypes, and it was filled with glorious cheeky phrases. Miss Marple keeps getting portrayed as the town gossip, which spends her time gardening to better be able to see and listen everything that goes on. Brilliant. Agatha Christie was not very charitable in her characters descriptions and that was amazing.

The story itself is not a novelty, it’s a classic whodunnit mystery. There is a murder and a reduced cast of people that could have committed it. Many people had motive and opportunity, but the plot is slowly unveiled throughout the book. I could not guess who did it, but that was not the most important to enjoy this book. For someone that thought that Agatha Christie didn’t have anything more to offer, I was gladly proved wrong. I might even read the next ones.

I recommend it to all that like murder mysteries and thrillers. You cannot be a true fan of this genre without having read at least one Agatha Christie book, in my humble opinion.

On to the next. Until then, Happy Reading!