Livros que Recomendo – O Mundo de Sofia

Sofia

Já que aflorei filosofia no livro que recomendei a semana passada, nada como abraçar o tema de braços abertos e recomendar este Mundo de Sofia. Sofia é uma adolescente que quando está perto de completar 15 anos começa a receber envelopes com mensagens estranhas (quem és tu, de onde vens, etc), escritos por um filósofo, Alberto, que toma a cargo a sua educação filosófica. Ao mesmo tempo começa a receber postais endereçados a uma rapariga, Hilde, escritos pelo seu pai, e isso vai desencadear uma investigação vertiginosa, já que cada postal leva a uma interrogação filosófica diferente e a um passo mais na história da Filosofia, desde os Pré-Socráticos até ao pós-modernismo.

 Eu, que como já disse aqui um punhado de vezes, venho de uma área de ciências (no secundário estive numa turma especial de Quimicotecnia), por vezes tenho algumas lacunas nestas áreas das humanidades que tento colmatar com os livros que leio. Filosofia é certamente uma dessas áreas, não por falta de esforço da louquinha da minha professora do secundário. Devia ser dificílimo tentar entusiasmar para o pensamento abstracto uma turma tão pseudo-científica como a nossa, em que as experiências e os números dominavam o nosso dia a dia, mas ela fez um esforço titânico, vejo eu agora a esta distância. Em vez de debitar matéria chata, dizia as maiores barbaridades (por exemplo, que tinha um carro místico, um dois cavalos que dava 200 km por hora nas descidas), tudo para solicitar uma resposta das nossas cabeças duras e encetar diálogos acesos nas aulas.

Claro que quando nós próprios temos 15 anos, não somos emocionalmente inteligentes como a Sofia do livro, não vamos com o nosso amigo Alberto em busca das respostas filosóficas para os enigmas da vida, ou os carros que atingem 200km por hora nas descidas, é mais fácil rotular a pessoa que está à nossa frente como louquinha, mas a esta distância o bichinho por gostar de pensar e questionar ficou lá e acompanha-me até hoje.

Este livro é uma pequena pérola, muitos alunos usam como auxiliar nas aulas de tal maneira as coisas aparecem de modo escorreito, simples de entender e , mais importante que tudo, interessante e envolvente. Os ingleses têm uma expressão que resume lindamente: este livro é um page turner.

Recomendo a todos os que gostam dum bom mistério, de filosofia, e de livros que só se conseguem pousar quando se chega ao fim.

Boas Leituras!

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Revista Nervo

Nervo

Eis que chegou às mãos do Peixinho mais uma revista de Poesia. Felizmente nos últimos tempos parece que finalmente a Poesia deixou de ser um género obscuro e destinado apenas a algumas elites para, graças ao esforço de muitas pessoas que se dedicam a procurar e editar poetas, estar mais acessível ao comum dos mortais.

Já aqui vos tinha falado da Eufeme, a primeira revista que adquiri para o estaminé, que lançou recentemente o seu sétimo número, e acima temos a Nervo, que já vai no seu segundo número, com autores nacionais e estrangeiros.

É uma revista lindíssima, com imenso cuidado visual, que dá gosto folhear e recheada de belos poemas. Recomendo a todos os amantes de poesia e boa literatura em geral. Vão espreitar a página deles aqui.

Boas Leituras!

Vencedor Man Booker International 2018

Manbooker internacional

No passado dia 22 de Maio foi anunciado o vencedor deste ano do Prémio Man Booker International, para o melhor livro traduzido para inglês em 2017. Esse título coube à polaca Olga Tokarczuk num livro que é sobre viagens no século XXI e gostaria de dizer sobre o que mais, mas o resumo do meu Goodreads está em polaco.

No entanto fiquei com vontade de ler este livro, já que é muito raro eu ficar desiludida com vencedores deste prémio. Fica a sugestão.

Boas leituras!

Para Lá do Mapa

Beyond the map

Alastair Bonnet é um professor universitário inglês que vive em Newcastle, cidade de onde eu já não esperava nada de melhor que os Geordie Shore‘s desta vida, mas que me surpreendeu com este livro muito agradável sobre geografia, particularmente lugares que escapam à geografia dos mapas comuns.

Neste livro Alastair Bonnet conduz-nos numa visita a espaços tão díspares como a cidade do lixo no Cairo ou as Hidden Hills de Hollywood, ambos excluídos da ferramenta Street View do Google por razões opostas (os muito pobres vs. os muito ricos), ilhas no meio do Pacífico feitas exclusivamente de plásticos mas que há alguém a lutar para as reconhecer como país em nome próprio. O país mais pequeno do mundo (a Ordem Soberana e Militar de Malta) que tecnicamente ocupa um edifício em Roma, mas que na realidade tem lugar de observador nas Nações Unidas, emite passaporte, cunha moeda e tem muitas centenas de anos, e que fez o autor pensar no que realmente define um país, que fronteiras são essas que podemos defender.

Mas a parte que mais me tocou foi toda a reflexão sobre os espaços públicos, que à força de serem pertença de todos, dessa entidade abstracta que é o Estado, na realidade não pertencem a ninguém e muitas vezes nos sentimos inibidos de fazer as mais corriqueiras actividades nesses espaços. Temos o exemplo extremo da China, com a introdução de bancos de jardim com moedas, que se não forem pagos libertam espigões que obrigam os caminhantes cansados a voltar a andar ou gastar moedas de x em x minutos pelo privilégio de usufruir do mobiliário urbano. Mas temos exemplos mais próximos de mobiliário urbano aqui na Europa para nos impedir de caminhar em determinados espaços que à partida seriam públicos, em nome da “segurança”, ou as polémicas medidas anti sem-abrigo que tanto têm dado que falar.

Por tudo isto este autor nos conduz, sempre com uma visão muito sóbria, realista, mas nada iludida sobre a realidade que nos rodeia. Os últimos capítulos foram para mim particularmente penosos de ler, porque mais uma vez nos falam que enquanto andamos todos distraídos com as nossas vidinhas internas, os campeonatozinhos de futebol, os casamentos de revista, festivaizinhos, os fait-divers para distrair e essas coisinhas que a comunicação social nos vai dando à boca como papinha para bebés, a Rússia, o Reino Unido, Os EUA, a Dinamarca, desbravam a última fronteira possível, disputam as reservas do Ártico, e prevêem que tão cedo como 2020 já se consiga fazer uma rota exclusivamente marítima através do Pólo Norte graças ao contínuo degelo dos últimos anos, tornando cada vez mais acessíveis os recursos de gás natural e petróleo que se encontram lá por baixo, e dando mais uma machadada (a derradeira?) no já tão precário ambiente em que vivemos.

Como diz o autor: In future years, we may be known as the generation that gave away the Artic, even though it was not ours to give. Mas o que interessa isso, já não estaremos cá para ver, certo?

Boas Leituras!

Goodreads Review

There are many types of love, and many bonds between them. The love of nature and the love of place – biophilia and topophilia – have a particularly intimate relationship. Our lifelong affinity with animals and plants is a passionate commitment that tumbles over and into our bond with place. These love affairs merge in the garden, the age-old site and symbol of human well-being. This helps explain why we have such a problem with the modern city. Walking or, more likely, driving past barren and stony land – shards of unloved territory in between roads heavy with traffic, or endlessly ripped-up and rubbish-strewn ‘development sites’ – is an affront, a poke in the eye and, more than that, a source of guilt and loss. The land should be a garden. It should not just be beautiful; it should be alive. To see others treat it with contempt and, worse, to know that I treat it with contempt – for, of course, I just hurry past, eyes down – is unforgivable.

 

 

Livros que Recomendo – A Insustentável Leveza do Ser

Kundera

Já aqui falei levemente deste livro, quando sugeri os cinco melhores livros de amor. Este foi o primeiro que li de Milan Kundera, um autor que apreciei muito durante a minha década dos vintes, que me ajudou a entrar na idade adulta. Ao contrário de alguns que já falei aqui (as Brumas de Avalon, por exemplo) creio que este livro resiste ao passar do tempo e tenho mesmo vontade de o reler.

Por um lado o livro conta-nos a história de Tomas e Teresa, ele um médico, ela uma moça de província que coloca a sua vida e a sua felicidade nas mãos do companheiro. Mas Tomas é um homem livre, incapaz de se prender, e ao mesmo tempo de se libertar. Tem uma relação casual com Sabina, uma sua amiga de longa data, que é muito parecida com ele.

Ao mesmo tempo todo este triângulo amoroso desenrola-se na Checoslováquia no final dos anos 60, na altura da Primavera de Praga  e subsequente invasão russa e isso vem trazer alterações profundas a estas vidas e dinâmicas. Mais uma vez foi-me possível aprender algo da nossa história mundial enquanto lia um livro bem escrito. Está também recheado de filosofia e obriga-nos a reflectir sobre temáticas tão díspares como o peso e a leveza das nossas decisões, o que é que as torna mais difíceis ou mais certas, o impacto que as nossas escolhas têm nos outros, entre outros temas.

Um livro lindíssimo, com uma história de amor esculpida em história, filosofia e política, com pedaços de nós em cada personagem. Deu também origem a um filme delicado, com Juliete Binoche e Daniel Day-Lewis novos e poderosos, com cenas envolventes das quais me lembro até hoje. Enquanto pesquisava para escrever este artigo deparei-me com a versão áudio no Youtube, e eu, que nunca me entusiasmei muito com livros que não em papel/ecrã, fiquei rendida à narração deste senhor que me acompanhou por muitos dias. Definitivamente aconselho a todos os que forem fluentes em inglês, encontram-na aqui.

Recomendo a todos os que gostam de boas histórias, livros com várias camadas, aprender e ler ao mesmo tempo.

Boas Leituras!

Anyone whose goal is something higher, must expect someday to suffer vertigo.

Feira do Livro 2018

Feira do Livro 2018.jpg

Começa já amanhã a 88º Feira do Livro de Lisboa, no sítio do costume e dizem que este ano vai estar ainda maior. Ver para crer, como São Tomé, e nem sempre maior tamanho significa maior qualidade ou maior diversidade de escolha, mas isso digo eu que sou uma céptica.

No entanto este ano tenho um dilema acrescido que é, como raio me vou manter fiel ao meu próprio desafio de não comprar livros em 2018, se já as pontas dos dedos me tremem só de pensar em aumentar a minha colecção de poesia. Quer dizer, há que perceber que ainda não tenho nenhum exemplar de Manuel de Freitas, por exemplo.

Infelizmente acho que a solução terá de passar por evitar o local do crime, e nem sequer passar por lá.

Mas, todos vocês, pessoas normais e sem problemas sérios de espaço como este Peixinho de aquário demasiado pequeno para os seus livros, aproveitem a ocasião. É um sítio encantador para passear, e saem de lá com um saco cheio de guloseimas se assim quiserem.

Boas Leituras!

Festival Internacional da Máscara Ibérica

Fimi 04

Já há vários anos que eu queria assistir a este Festival, mas por uma razão ou por outra acabava sempre por falhar a data e por perder o evento. O ano passado, depois de perceber que não só tinha perdido o evento, mas também um concerto de Galandum Galandaima, meti imediatamente um lembrete no meu Google Calendar já para 2018 e esperei ansiosamente um ano pela data correcta.

Foi por isso com alguma antecipação que fui este sábado que passou assistir ao desfile de todos os grupos que vieram à Praça do Império desfilar em quentíssimos fatos de Inverno debaixo do inclemente sol de Primavera com muita animação e energia.

Tínhamos grupos portugueses, espanhóis, irlandeses e um brasileiro, e a temática demoníaca era comum a todos. Eu adoro não só a estética destes carnavais (para mim os únicos que me interessam), como a música de inspiração celta (adoro percussão), por isso para mim foi uma tarde em cheio.

Os meus grupos favoritos acabaram por ser os caretos de Bragança e os de Podence pela festa que trouxeram e pelas “maldades” que fizeram. Qualquer mulher da organização que andasse lá pelo meio não foi poupada, e mesmo uma fotógrafa não se escapou a ser mandada ao chão e andar a rodopiar nas mãos de vários “diabos”. Uma alegria para nós, menos para ela, imagino eu pela cara de pânico da senhora. Os grupos espanhóis também souberam fazer a festa, e foi uma tarde muito bem passada. Deixo-vos com algumas (más) fotos, todas tiradas a contra-luz.

Para o ano por esta altura espero repetir, o desfile e a sidra asturiana que era bem boa. Mais informações aqui.

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Nos Teus Olhos Alguém Anda no Mar

Manuel-Alegre

Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.

Manuel Alegre, in SETE SONETOS E UM QUARTO

Livros que Recomendo – Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto

Era-Bom-que-Trocaemos-umas-Ideias-Sobre-o-Aunto

Este deve provavelmente ser o título mais longo que eu alguma vez pus num post, mas efectivamente é assim que se chama este livro do Mário de Carvalho, escritor português que me foi dado a conhecer pela mesma amiga que me falou do João Sem Medo e do José Rodrigues Migueis.

Mário de Carvalho tem uma escrita ilusoriamente simples, em que a narrativa é fluida e eficaz, mas que por trás disso esconde-se um grande domínio da língua e do vocabulário. Por várias vezes tive de recorrer ao dicionário para perceber exactamente o que a palavra ali significava, e até então isso só me tinha acontecido com Aquilino Ribeiro (sendo que nesses casos raras vezes o dicionário é alguma ajuda).

Mas este livro é uma leitura muito interessante, duma Lisboa que cresce e está recheada de clichés que nós tão bem conhecemos. Acho que é impossível ler este livro sem nos revermos nele, e o entendermos como uma espécie de espelho onde vemos reflectida a nossa urbanidade muito própria. Desde os pseudo-intelectuais, à jornalista que não percebe nada do que faz, ao pai que tem o filho preso mas vai dizendo aos amigos que ele está a estudar na Suíça, ou no Canadá, tudo nos parece estranhamente familiar, próximo, mas sobretudo extremamente cómico.

Recomendo a todos os que gostam de boa literatura portuguesa, uma boa história que nos faça rir e pensar ao mesmo tempo.

 

ADVERTÊNCIA V.V.
Este livro contém particularidades irritantes para
os mais acostumados. Ainda mais para os menos.
Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns
anacolutos.