Acabei de Ler – Agosto

Agosto

Rubem Fonseca faleceu a 15 de Abril, um dia antes de Luís Sepúlveda, mas sem ter o mesmo alcance mediático, pelo menos aqui em Portugal. O que me impressionou foi o meu desconhecimento deste autor. Com imensa gente a referir-se a ele como um nome maior da literatura brasileira contemporânea e eu nunca tinha ouvido falar dele. Como leitora, senti-me envergonhada. Depois, pus-me a pensar nos escritores brasileiros que já tinha lido (Jorge Amado, Chico Buarque, Patricia Melo, Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, André Sant’Anna) e pensei que realmente conheço muito pouco de tão rica literatura e resolvi começar a colmatar isso desde já.

Foi neste contexto que escolhi Agosto, de Rubem Fonseca para começar esta incursão. O início do livro foi difícil. Não só o vocabulário é muito calão brasileiro, no qual não sou versada, como a história entra simultaneamente por várias frentes, com transições abruptas. Por vezes passavam-se várias frases até eu perceber que estávamos noutro contexto. Claro que este cérebro mal dormido de pessoa em quarentena com um bebé em casa há mês e meio não me ajudam a ser brilhante, mas mesmo assim sentia-me a desmotivar. Depois resolvi investigar um bocadinho sobre o contexto histórico do livro. Passa-se em Agosto de 1954, nas semanas que culminam com o suicídio do presidente em exercício Getúlio Vargas, e embora seja ficção, muito da história assenta no ambiente que se vivia na época. Essa pequena pesquisa deu-me uma nova perspectiva e foi com entusiasmo que retomei o livro.

O Comissário Mattos é o heroi desta história. O único polícia incorrupto de toda a força, o que não aceita dinheiro dos bicheiros e que se preocupa com as condições dos presos na sua cadeia, é um homem desenquadrado do seu ambiente, que os outros respeitam e odeiam ao mesmo tempo. Ele vai ser encarregado de investigar um estranho assassinato que se deu no início do mês, e que tem implicações políticas escondidas. É a partir daqui que toda a trama se desenrola, sempre entrelaçada com os factos históricos que iam ocorrendo, e que enriqueceram muito a história. Um livro com imagens fortes, com sexo e violência, com trama política e policial, uma viagem muito intensa. Mais que o assassinato que lhe dá o mote, e que está resolvido a meio do livro, é a caminhada política de Getúlio Vargas em pano de fundo que dá o tom principal ao livro. Coisas que continuam tão actuais, como manipulação da imprensa, corrupção política, manobras de bastidores, são a trama real desta obra, onde a realidade e ficção se misturam primorosamente. Muito rica e interessante.

Recomendo a todos os amantes de boa literatura, crua e forte como a vida, que gostam de literatura brasileira e boas histórias em geral.

Goodreads Review

Boas Leituras!

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