Livros que Recomendo – The Summer Tree

summer tree

Já há algum tempo que não vinha aqui recomendar um verdadeiro livro de fantasia, que me agradam tanto. Às vezes torna-se dificil descolar das opções óbvias e encontrar algo verdadeiramente novo nestes mundos, mas outras vezes encontramos umas pérolas, que apesar das óbvias referências a Tolkien, que foi o maior influenciador do género, continuam a cativar-nos e a fazer ler um verdadeiro prazer.

Foi o caso com este livro de Guy Gavriel Kay, um escritor canadiano que foi assistente do filho de Tolkien a compilar as notas dos trabalhos por publicar de JRR Tolkien, e ajudou a editar o Silmarillion. Está assim perdoada a óbvia referência existente neste The Summer Tree, o primeiro volume da trilogia The Fionavar Tapestry, que foi também o primeiro livro deste autor, publicado em 1984.

The Summer Tree começa no nosso mundo nos dias de hoje (ou nos de 1984 para ser mais exacta) seguindo um grupo de 5 amigos universitários, que estudam na Universidade de Toronto. Após assistirem a uma palestra, descobrem que o professor que a deu é na realidade um mago dum outro mundo que veio à Terra buscar 5 convidados para participar na festa do quinquagésimo aniversário do reinado do rei Ailell of Brennin. Cauções atiradas ao vento, os 5 amigos lá seguem para Fionavar, embarcando numa aventura delirante onde descobrem muitas coisas sobre si próprios e o seu lugar no(s) mundo(s).

Nota-se aqui também uma influência de C. S. Lewis e as suas Crónicas de Nárnia, no facto dos amigos pertencerem ao nosso mundo e integrarem simultaneamente outro, mas não deixem que tudo isto vos impeça de apreciar um livro (ou 3) que são verdadeiramente alucinantes, carregados de ritmo e boa história, e que todos os minutos são poucos para irmos desvendando a trama. A história é coerente e bem desenhada, e no fim temos uma experiência muito gratificante que só temos pena que não se repita com todos os livros.

Recomendo a todos os amantes de fantasia, de livros que entretêm com uma boa história.

Boas Leituras!

Poeta no Supermercado

fernando assis pacheco

 

1.

Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte…
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2.

Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

Fernando Assis Pacheco em “Cuidar dos Vivos”, 1963. Incluído em “A Musa Irregular”, 1991.

Livros que Recomendo – Into Thin Air

into thin air

Faz sensivelmente um ano, mais coisa menos coisa, que eu vim aqui recomendar o livro mais conhecido deste escritor. Into the Wild é um dos livros que ainda hoje tem um lugar especial no meu coração, e que eu gosto de partilhar com quem gosta de bons livros.

Mas Jon Krakaeur é um jornalista de actividades ao ar livre, desportos radicais, e por isso embarcou numa expedição ao Everest em 1996 para escrever sobre o assunto para a sua revista da altura, a Outside. Tendo sido uma das mais letais épocas de escalada que há memória, Krakaeur viu a sua vida em risco e vem neste livro contar os factos no seu ponto de vista.

Em 1996 várias expedições e montanhistas a solo estavam a preparar-se para ascender ao cume da montanha mais alta do mundo. Duas dessas expedições, a de Rob Hall (Adventure Consultants) e Scott Fisher (Mountain Madness) estavam entre as maiores e os seus guias eram uma espécie de super estrelas do montanhismo. Muita coisa correu mal nesta expedição. Em resumo, a subida foi começada a 6 de Maio, numa tentativa de evitarem a tempestade que se sabia estava a caminho e chegaria a 10 de Maio, no entanto muitos erros foram cometidos por todos os envolvidos, e a descida acabou por atrasar imenso, tendo sido apanhados em pleno pela enorme tempestade. Houve mortos do lado Norte e Sul (as duas vias de aproximação ao cume), no entanto foi o Sul o lado mais afectado, também porque estava mais sobrelotado. No total, nestes dois dias morreram 8 pessoas, e na época toda 12.

Mas estes são apenas os factos, relatados a frio, e o livro é muito mais que isso. Krakaeur é um exímio escritor, perito em dar vida aos seus personagens, que neste caso eram pessoas bem reais, com história, família, ambições e responsabilidades. Apesar de não ser um olhar isento, já que a sua ascensão ao cume foi feita integrado na equipa de Rob Hall, um neo-zelandês que estava a poucos meses de ser pai, tem uma visão a partir do interior, que muito nos ajuda a viver também esses dias trágicos.

O montanhismo, a escalada destes gigantes terrenos exerce um fascínio em muitos que me ultrapassa. Mas gosto de ler sobre isso sentada no conforto do meu sofá, com os pés quase ao nível da água do mar. Não percebo esta coisa de desejar estar sempre com a adrenalina em alta, sempre no fio da navalha, no entanto respeito quem gosta de se desafiar dessa maneira, e este livro está magistralmente escrito. Tal como em Into the Wild, chorei copiosamente com o final deste livro, já que o autor tem o condão de tornar os personagens em nossos amigos pessoais.

Tal como o anterior, também este livro foi polémico, com muitas respostas de outros dos presentes que contaram as suas versões. Mas este é um dos testemunhos e muito bem escrito. Alguns dos sobreviventes deste desastre já morreram entretanto noutras escaladas, o que nos deixa a pensar.

Foi feito um filme em 2015 (e um telefilme anteriormente do qual nem vale a pena falar), que sem ser espectacular é bastante interessante.

Recomendo a todos os amantes de não ficção, de livros bem escritos, de adrenalina e desportos radicais e da vida em geral.

Boas Leituras!