Respiro o Teu Corpo

eugenio de andrade

 

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

Eugénio de Andrade

Livros que Recomendo – Lunário

lunario

Hoje venho recomendar um livro de um poeta, mas que não é um poema. Será talvez prosa poética, e a sua temática está também imbuída dum certo ennui comum a alguma poesia. Tudo boas razões para recomendar este livro de Al Berto. Editado pela Contexto em 1988, reflecte profundamente sentimentos da noite lisboeta dessa década.

Em Lunário seguimos a vida de Beno, um homem solitário mas rodeado de pessoas que povoam os seus dias e que vão todas, aos poucos, vetando-o ao abandono. Beno lida com os seus fantasmas pessoais através das pessoas que se cruzam na sua vida, um grupo desconexo de pessoas que vão andando pela noite (e pela vida) à deriva, sem um propósito, sem outra ambição que não fosse viver depressa e intensamente, e morrer de preferência ainda jovem.

Recheado de passagens muito belas, este é um livro forte e intenso, e que não nos deixa indiferentes. Eu própria já o li mais que uma vez, e de vez em quando volto lá. É pequeno, mas recheado de emoções intensas.

Recomendo a todos os amantes de poesia, de prosa diferente, de histórias que andam ao sabor do vento e da noite.

Boas Leituras!

De imobilidade em imobilidade a vida avançou, avançou
por ininteligíveis iluminações. Hoje, neste fim de século,
desloco-me sem saber como dentro das fotografias que revestem as paredes
deste quarto. E é-me indiferente estar aqui. Sempre que posso fujo,
fujo no olhar que cegou o meu. Porque eu fujo e vou com tudo
aquilo que me chama e toca. Vou com o azul dos olhos do
marçano ali da esquina, vou com as folhas das árvores no outono da
minha rua, vou com a noite à procura da manhã sobre o rio. Vou
pelos arranha-céus acima e contemplo dos altos terraços o sono
esbranquiçado dos mortos. Vou com o teu corpo que me desgasta a
memória doutros corpos e me transforma em esquecimento… vou,
vou sempre, pela humidade dos cardos presos em tua boca.

Abro depois as mãos, e não há mar nas suas linhas, nem
barcos que venham descansar na ponta dos dedos, e a linha do
coração – repara – é uma calosidade. E por uma noite da
imensa cegueira, quando já morar definitivamente em ti,
abandonar-te-ei… à hora dos répteis recolherem o calor nas fissuras do
tempo.

Intacto, irei à procura do merecido repouso.