Bookshout

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Quem segue este espaço já percebeu que eu ando sempre à procura de maneiras de ter acesso a livros de modo barato (ou mesmo de borla), e sem que para isso tenha de sacrificar em qualidade dos títulos.

Quando procuro livros físicos já compro essencialmente em alfarrabistas ou lojas de segunda mão, que mato dois coelhos duma cajadada. É mais barato ao mesmo tempo que é mais ecológico. Para livros digitais já aqui falei do Projecto Adamastor, Project Gutenberg, Netgalley, Edelweiss, tudo plataformas onde podemos obter livros de forma gratuita e legal.

Agora descobri mais um, o Bookshout,  (na realidade quem descobriu foi a cara-metade), que é uma multi-plataforma onde se pode comprar livros digitais, lê-los online, mas que ao mesmo tempo disponibiliza muitos títulos gratuitamente para lermos. Para mim, a grande desvantagem é que temos de ler na plataforma, ou seja no computador ou na app deles, o que é bem menos confortável que no Kindle, mas por outro lado temos acesso a alguns títulos interessantes.

Para aqueles mais competitivos, a aplicação também permite manter um registo das horas que lemos, do número de páginas que lemos por dia, palavras por minuto, uma panóplia de estatísticas para nos manter felizes ou paranóicos.

Eu ainda estou a experimentar e comecei com O Estranho Caso de Benjamim Button, de F. Scott Fitzerald, mas como sou pessoa que não consegue ler muitos livros ao mesmo tempo ainda não fiz grandes progressos. De qualquer modo fica a recomendação, experimentem e digam se gostaram.

Boas Leituras!

Posteridade

rui knopfli

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

Livros que Recomendo – Pequeno-Almoço de Campeões

breakfast of champions

Eu não tenho livros favoritos, nem aquele autor que amo mais que tudo, mas tenho um pequeno conjunto de escritores, nacionais e estrangeiros, cujos livros raramente me desiludem. Kurt Vonnegut é um deles, acho que ainda não houve um livro dele que eu não tivesse gostado, e na maioria dos casos fiquei literalmente de queixo caído a desejar pudesse ter sido eu a pensar em semelhante golpe de génio.

De todos os livros que li até agora, e que ainda não foram muitos, o meu favorito é sem dúvida este Breakfast of Champions. Começa logo pelo título ser um trocadilho que não faz sentido nenhum para nós portugueses. É não só o slogan duma conhecida marca de cereais americanos, como também o nome que sarcasticamente se dá a um pequeno-almoço que consiste essencialmente de álcool e tabaco. E isto sei porque fui investigar, coisa que faço muitas vezes quando estou a ler livros que me entusiasmam.

Kurt Vonnegut escreve uma mistura de ficção cientifica com surrealismo, mas isso é apenas o meio que ele usa para se debruçar sobre temas mais importantes e interessantes, como o livre arbítrio, a diferença de classes e de raça nos Estados Unidos, a destruição do ambiente, temas que são recorrentes em todos os seus livros. Também recorrente nos seus livros é a personagem de Kilgore Trout, um escritor de ficção cientifica, que é um dos personagens principais neste livro, e que nos vai ajudar a pensar em todos estes temas, nomeadamente no livre arbítrio que todos temos, ou não.

É um livro que roça a genialidade, muito bem escrito, e que não me canso de aconselhar a toda a gente. Kurt Vonnegut não será dos autores mais fáceis, mas a recompensa mental que se tem ao ler um livro destes compensa claramente. Foi daqueles escritores que, quando finalmente o descobri, fiquei a pensar onde esteve escondido toda a minha vida. Considerando que o livro foi escrito em 1973, ainda antes de eu ter nascido, mantém-se surpreendentemente actual, o que diz muito acerca da nossa sociedade e a sua (não) evolução.

Recomendo a todos os amantes de bons livros, de histórias que façam pensar, mas de humor delirante.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Kilgore Trout once wrote a story called “This Means You”.” It was set in the Hawaiian Islands, the place where the lucky winners of Dwayne Hoover’s contest in Midland City were supposed to go. Every bit of land on the islands was owned by only about forty people, and, in the story, Trout had those people decide to exercise their property rights to the full. They put up no trespassing signs on everything. This created terrible problems for the million other people on the islands. The law of gravity required that they stick somewhere on the surface. Either that, or they could go out into the water and bob offshore. But then the Federal Government came through with an emergency program. It gave a big balloon full of helium to every man, woman and child who didn’t own property.

 

Escapadela a Aljezur

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O pónei e o jardim onde passámos muito tempo a ler ao sol.

Estes 3 últimos livros que li (Verdade sobre Animais, Caminho Imperfeito, e biografia de Luiz Pacheco), foram todos “despachados” numa espécie de retiro que fiz com a cara-metade até à zona de Aljezur.

Depois duns últimos meses complicados e trabalhosos, estávamos os dois a precisar de recarregar baterias e nada melhor para isso do que estar num sítio rural e próximo do mar. Já conhecíamos a zona de Aljezur de escapadas anteriores onde ficámos apaixonados pelo local, por isso foi novamente a zona escolhida este ano.

Fizemos tal e qual como no ano passado. Parámos em Porto Covo para almoçar e partir a viagem em dois, e depois fomos até à nossa morada da semana seguinte, um turismo rural rodeado de vaquinhas, rãs e passarada, que tinha também um pónei e uma cadela do mais simpático com que já nos cruzamos. Foram uma bela companhia durante a semana.

Depois dum primeiro dia de chuva intensa, em que aproveitámos para ficar pelo apartamento a pôr a leitura em dia, nos restantes dias apanhámos um sol bonito e não demasiado quente, que nos acompanhou no reencontro de praias já conhecidas (Vale dos Homens) e descoberta de locais novos (Monte Clérigo, Odeceixe, Bordeira). Este pedaço de Algarve é realmente ao nosso jeito, cheio duma beleza selvagem, poucas pessoas, fracas acessibilidades, poucos apoios de praia (e caros), poucas urbanizações (se bem que infelizmente de ano para ano mais).

Descobrimos muita coisa nova, mas ficou muita mais por descobrir, o que é bom pois desejamos voltar em breve. Há qualquer coisa de mágico naquelas ondas embaladas por arribas dramáticas, campo cheio de relas e rapinas mesmo a dois passos do mar. mas não é zona para picuinhices, porque está abençoada por muita bicheza, Abril então é o mês das carraças, o que nos levou a apelidar a cadelita da casa de Carraceda de Anciães. Maravilhosa.

Boas Leituras!

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A comissão de boas vindas ao alojamento.
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Praia da Amoreira, onde se estava lindamente ao sol
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Amanhecer
Luiz Pacheco
A ler no jardim
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Odeceixe
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Roxy, sempre à espera de festas ou comida.
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Tínhamos sempre escolta em todo o lado.

O Fim do Indie

Sleepwalk
Sleepwalk, de Filipe Melo

Na semana que passou terminou o Indie e ainda tive tempo para ir ver mais duas sessões. Curiosamente este ano as três sessões a que fui foram todas de filmes portugueses, o que demonstra a aposta forte do festival neste tipo de programação, e ainda bem.

Mas, começando pelo início como deve ser nestas coisas, quarta feira passada fui assistir a uma sessão de 4 curtas nacionais, essencialmente por culpa do filme acima, Sleepwalk do Filipe Melo, baseado numa história de BD que ele fez para a revista Granta com o também nosso conhecido (de outras aventuras, como o Pizzaboy e Dog Mendonça), Juan Cavia. Feito nos EUA, é uma curta visualmente muito bonita, com uma história simples mas bem conseguida, bons actores, que em 15 minutos consegue passar uma mensagem forte e inteligente tendo uma fatia de tarte de maçã como pano de fundo. Gostei bastante e recomendo que andem atentos para não perder. Podem ver o trailer aqui.

Seguiram-se mais duas curtas (uma felizmente muito curta, porque realmente não era o meu género de cinema) mas que não me animaram. Demasiado esotéricas/experimentalistas para serem apelativas para os meus gostos mais prosaicos.

Mas terminámos com chave de ouro, a curta mais longa, quase 30 minutos, Os Mortos de Gonçalo Robalo, a minha favorita e que acabou por ser a vencedora do prémio do júri. É um filme diferente, e, tendo em conta a minha história recente e sendo o tema os mortos do autor, confesso que ia um bocadinho de pé atrás e disposta a sair da sala se fosse caso disso. No entanto foram mais os momentos de riso descontraído do que os de tristeza. Para mim esta curta representa o verdadeiro espírito dos filmes do Indie, filmes completamente diferentes daqueles que encontramos nas salas normais, recheados de clichés e super heróis, filmados de modos não convencionais, mas que nos apresentam uma reflexão sobre a vida (neste caso a morte), e nos fazem pensar de modo descontraído e descomprometido, unindo uma plateia de espectadores em torno dum tema comum. Gostei mesmo muito, e recomendo a todos que vejam, se conseguirem, que já se sabe que é dificílimo ver cinema português. Podem ver o trailer aqui.

Terminei o meu périplo pelo festival no Sábado com mais um documentário, este realizado pelo Edgar Pêra e sobre um poeta, Alberto Pimenta. Com direito à presença dos dois na sala, e devida introdução ao que íamos ver, o que sempre dá outro sabor a estas sessões. Gostei também bastante deste filme, e fez-me pensar que realmente a poesia tem vindo a conquistar alguma visibilidade recentemente, quando já há sala cheia para se ver um documentário sobre a vida dum poeta. Claro que Alberto Pimenta é um homem especial, transgressivo, que vai muito para além dum poeta convencional, e isso mesmo pode ver-se neste filme.

Portanto, a avaliar por esta pequena amostra, o cinema independente português vai de boa saúde e recomenda-se, as salas enchem-se quando a programação é boa, e eu acho que fiz definitivamente as pazes com o Festival IndieLisboa.

Para o ano há mais.

Bastille Day

ron padgett

The first time I saw Paris
I went to see where the Bastille
had been, and though
I saw the column there
I was too aware that
the Bastille was not there:
I did not know how
to see the emptiness.
People go to see
the missing Twin Towers
and seem to like feeling
the lack of something.
I do not like knowing
that my mother no longer
exists, or the feeling
of knowing. Excuse me
for comparing my mother
to large buildings. Also
for talking about absence.
The red and gray sky
above the rooftops
is darkening and the inhabitants
are hastening home for dinner.
I hope to see you later.

Ron Padgett

Livros que Recomendo – Quotidiano Delirante

Quotidiano Delirante

Nos meus 20 e poucos eu era muito fã de Moonspell, ao ponto de ter assistido a todos os concertos que deram em Lisboa e arredores durante anos. Ainda gosto bastante, mas já não os sigo para todo o lado, não compro todos os cd’s, nem vou a todas as sessões de autógrafos. Vou apenas a alguns concertos que me parecem interessantes e ouço de vez em quando, o novo e o antigo.

Mas que têm os Moonspell a ver com o galego criador de BD absolutamente delicada e delirante, Miguelanxo Prado? Porque foi através de um espectáculo na Brandoa a partir de textos dele, algures na década de 90, encenado pelo Fernando Ribeiro, onde eu fiquei rendida à mestria deste senhor. Obviamente só fui ver a peça de teatro porque tinha o cunho do vocalista de Moonspell, e na altura eu era uma incondicional. Mas os textos, retirados de um dos tomos de Quotidiano Delirante (há três) eram deliciosos, e fiquei imediatamente cheia de curiosidade de ir investigar quem era aquele autor.

E foi assim que cheguei até estes livros que vos apresento hoje. Comecei por ler os seus livros cómicos, em que lança um olhar sarcástico sobre a vida (Quotidiano Delirante, Crónicas Incongruentes). O facto de ser tão geograficamente próximo de nós também dá um carácter de frescura a esta leitura. No meu início de idade adulta foi com estes livros que eu comecei a gostar de BD mais elaborada, mais longe dos Tio Patinhas da minha infância, e a perceber que há mensagem em todas as formas de escrita.

Tal como eu, este autor também cresceu e evoluiu e os seus livros mais recentes afastaram-se deste olhar divertido, crítico e mordaz e entraram numa linguagem mais poética e mágica, belíssima. Os seus desenhos são duma beleza extraordinária e acho mesmo que este é o meu autor favorito de momento. Tenho em casa o Ardalén para ler em Galego, mas ando a guardar como quem não quer comer o ultimo quadradrinho de chocolate.

Aconselho este livro a todos os amantes de banda desenhada, de histórias divertidas e bem contadas e leitores em geral.

Boas Leituras!

Luíz Pacheco Essencial

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Aproveitei os dias de descanso em Aljezur para pôr alguns livros em dia, nomeadamente este que foi presente de aniversário.

Foi um livro que li num dia, talvez porque, para além do muito tempo livre, o tema era muito interessante. Luiz Pacheco foi um personagem sui generis, entre o genial e o louco, mas sem dúvida fracturante, e saber mais sobre a sua vida ajuda a perceber a sua obra que era tão biográfica.

Ler este livro ajudou-me a apreciar ainda mais o conto que li no início deste ano, Comunidade, já que o contextualizou, e fiquei a perceber exactamente quem eram os membros desta tribo.

No entanto o estilo demasiado coloquial desta biografia às vezes pareceu-me desnecessário, e faltou um certo distanciamento em relação ao objecto da biografia. Claramente o autor é grande admirador de Luiz Pacheco e com isso tudo se torna normal ou desculpável. Por exemplo, não deve ter sido nada fácil ser filho do escritor, viver sempre na incerteza do amanhã, mas o autor escreve levemente que Paulo Pacheco amadureceu cedo, para poder cuidar do pai.

Eu não sou apologista de julgamentos em praça pública, ou de falsos moralismos, mas um certo reconhecimento que estas escolhas de viver em profunda liberdade têm efeitos nos que nos rodeiam não seria descabido.

Mas é uma boa biografia, fluida, aconselho a quem queira saber mais sobre este autor maldito mas que teve um papel importante no surrealismo português.

Goodreads Review

Boas Leituras!

IndieLisboa 2018

Cutileiro

Comecei a frequentar o Indielisboa para aí na sua segunda ou terceira edição, já lá vão muitos anos. Nessa altura via imensas sessões, chegava a ver 3 por dia, e saltitava de cinema em cinema (quando deixou de se centrar só na Culturgest), e via coisa indescritíveis como uma sessão de curtas alemãs no finado cinema Londres sem conseguir ver as legendas. Foram quase 3 horas de puro sofrimento.

Vi filmes maravilhosos, outros que nem tanto. Apenas saí da sala uma vez, e mesmo assim só depois de mais de metade da sala ter saído antes de mim. Mas confesso que andava zangada com o indie há já alguns anos. Já não me lembro o último ano que fui, mas lembro-me o último (e penoso) filme que vi, O Sabor do Leite Creme, um filme português que acompanha o dia-a-dia de duas irmãs nonagenárias onde nada mais se passa para além de apanhar sol no jardim de sua casa, fazer crochet, e mexer leite-creme com uma colher de metal num tacho de metal. Durante minutos sem fim aquela alma raspou uma colher de sopa num tacho de metal, e eu estava sentada no meio duma fila, numa sala cheia de gente e tive pudor de incomodar e sair. Mas temi que os ouvidos me sangrassem de dor.

Deve ter sido isto há cerca de 5 anos, e finalmente este ano senti-me suficientemente recuperada para tentar de novo. E ontem lá fomos à aventura, ver um documentário chamado “A Pedra Não Espera” sobre o João Cutileiro, extremamente bem feito, em estreia mundial, com direito a presença do próprio e tudo. Um documentário que nos mostra algumas peças importantes na obra do escultor para ilustrar a sua importância na arte nacional, com imagens de arquivo, entrevistas, maquetas e também poesia.

Tivémos direito a uma pequena introdução feita pela realizadora, e são estes pequenos mimos que tornam o Indie tão especial.

Gostei muito, infelizmente foi sessão única no Indie, mas de certeza que aparecerá em breve, até porque foi feito para uma exposição a realizar em Évora este ano com obras do escultor. Ainda tenho mais algumas sessões na manga, depois darei conta aqui. Até lá vejam a programação aqui.

Indie
A conversa inicial, lá ao fundo.