Livros que Recomendo – Os Maias

Os Maias

Poucos livros terão sido tão injustiçados na literatura portuguesa como o que eu recomendo hoje. Nada faz pior a um livro do que tornar obrigatória a sua leitura durante a adolescência, aquele período de rebeldia em que só nos apetece fazer o contrário do que nos dizem.

Quando eu andava na escola, os Maias fazia parte da leitura obrigatória do 11º ano, tal como as Viagens na Minha Terra do Almeida Garrett. O meu professor de Português, do qual eu até gostava muito, começou o ano por dizer que na disciplina dele ninguém passava sem efectivamente ler os dois livros. Ora, se há coisa que o Peixinho gosta é de um bom desafio. Os Maias já não ia a tempo, porque tinha lido por prazer (imagine-se) durante o verão antes de começarem as aulas, mas decidi logo ali internamente que não iria ler o Almeida Garrett e que iria passar. Não me enganei, tive 16 como nota final a Português sem nunca ter pegado no chatíssimo livro, situação que se mantém até hoje.

Mas Os Maias era outra história, já que como disse tinha lido durante as férias de verão, em vertigem. Lembro-me de serem 5 da manhã e ter a minha mãe a ralhar comigo para apagar a luz que já eram horas e eu estar vorazmente a ler para descobrir o desfecho da história e o mistério associado.

O grande problema deste livro, para além de ter sido (ainda ser?) de leitura obrigatória é que começava com uma longuíssima descrição da casa do Ramalhete, dos pormenores todos de decoração, que se não me engano dura quase 30 páginas e faz lembrar a descrição bíblica da Arca da Aliança em que descreve ao pormenor quantos côvados media cada item.

Mas se nos abstrairmos de tudo isso, Os Maias é um belíssimo livro. Uma grande crónica de costumes que nos mostra uma Lisboa que evolui, o espírito provinciano de Portugal na altura do Eça, uma visão da classe politica que de muitas formas não é diferente da que temos hoje. Sendo uma obra de ficção não deixa de ser um documento histórico por toda a envolvência que narra. O meu professor de português, que na realidade era um visionário, deu-nos trabalhos de grupo e a mim calhou-me “A Lisboa nos Maias”, que tivemos depois de apresentar em forma de visita guiada, e ainda hoje muitos dos locais me estão gravados na memória como estando presentes na narrativa.

Aconselho a todos os que gostem duma história bem contada, um documento duma parte da nossa história, e que consigam passar a prova de fogo das primeiras páginas com a sua descrição do Ramalhete.

Boas Leituras!

O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixa-la incompleta, exagera-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita… Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.

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6 thoughts on “Livros que Recomendo – Os Maias

  1. A minha primeira leitura dos Maias remonta ao tempo escolar, no tempo em que fazia parte da tal “leitura obrigatória”.
    Má memória desse episódio!
    Um ano inteiro para ler a obra, mas outros afazeres, como jogar à bola ou andar de bicicleta, lá foram desviando a atenção para o necessário.
    Atalhando caminho lá convenci os meus pais a adquirirem um livro resumo da obra, com as principais características dos lugares, personagem e da história, no entanto, no final de semana que antecedia a prova lá tive de entrar em modo hibernação…. e de sexta a domingo não fiz quase mais nada senão ler, ler, ler… pois bem, domingo ao final do dia já vomitava Maias!!!
    A 30 páginas do fim e cansado arrisquei ler as últimas, quatro ou cinco, páginas para ver como aquilo acabava.
    Dia da prova, sento-me e olho para o texto e penso… não me recordo de ler isto!!!!
    Pois bem, quis o destino ou castigo divino 🙂 que o texto era exactamente da parte que não tinha colocado a vista em cima!!!
    O episódio serviu para tirar alguns ensinamentos que ainda faço questão de cumprir…
    Anos mais tarde, já mais velho, com mais calma li a obra e considero-a excelente, muito bem contada… uma leitura obrigatória das obras na língua de Camões.

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  2. Também tive 16 a português!!!
    E também desprezei “Os Maias” por ser de leitura obrigatória, com a agravante de a minha professora de português ter sido uma idiota que, apesar de o Português ser uma disciplina diária, apenas se materializava nas aulas às sextas-feiras – e não a todas.
    Fazer uma apreciação d’”Os Maias” não é tarefa para um comentário num blogue. Nem sequer para um artigo. A sátira social, a construção e o simbolismo das personagens e a moral deste romance –
    mas tamb+em o estilo literário – superam tudo o que foi escrito em língua portuguesa e fazem-no ombrear com as obras de Zola, Flaubert e Victor Hugo. “Os Maias” são a obra de prosa mais importante da literatura portuguesa.
    Depois da escola, devo ter relido “Os Maias” umas três vezes. Lembro-me que estava sempre a encontrar algo de novo em cada leitura, algo que me deixava a pensar. E, se me der para o reler ao fim de todos estes anos, vou certamente encontrar mais qualquer coisa.

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