Um Filme que é um Poema

Paterson

Aqui há umas semanas, num daqueles domingos à tarde frios e cinzentos, pesquisámos os filmes que tínhamos aqui por casa para ver e decidimo-nos pelo Paterson. Eu ia completamente sem expectativas porque não sabia bem sobre o que era, só sabia que era de Jim Jarmush e que era com o herdeiro do Darth Vader. Por isso fui completamente surpreendida quando me deparei com um belíssimo filme sobre poesia, cheio dela, com tantas referências a autores que eu ainda não conhecia que estou há semanas a digeri-lo.

Paterson é o nome do personagem principal, um condutor de autocarros na cidade com que partilha o nome, e todo o ritmo do filme é como se fosse um poema. Vemos o acordar diário de Paterson, a sua ida para o emprego, o almoço a contemplar a paisagem enquanto trabalha nos seus poemas num caderno de anotações, até terminarmos com o passeio nocturno com o seu cão e uma cerveja no bar do costume. Toda esta rotina lhe permite observar pessoas e rituais e isso lhe serve de inspiração para a sua poesia, seguindo uma corrente americana que dizia no ideas but in things (expressão que podemos encontrar num poema de Williams Carlos Williams, poeta que serviu de inspiração a este filme) como quem diz que temos que olhar em volta para ter inspiração. Esse é um tema que ecoa muito em mim, que nas minhas fantasias de escrita procuro sempre inspirar-me no meu quotidiano e naquilo que me rodeia, só ainda não tinha descoberto que havia uma corrente literária que o explorava. Também não tenho a disciplina deste condutor de autocarros que escrevia religiosamente todos os dias, como quem se exercita. E vemos toda esta rotina e quotidiano através de imagens muito bonitas, um poema visual também. Um tesouro!

Os poemas do filme, que podemos ouvir serem escritos ao mesmo tempo que vemos as palavras desfilarem no ecrã para melhor nos envolvermos neles foram escritos por um poeta americano chamado Ron Padgett, amigo do realizador, que foi desafiado a trabalhar como consultor poético numa primeira abordagem e mais tarde a contribuir com os poemas que vemos o protagonista trabalhar. Gostei bastante e isso fez-me pesquisar mais sobre o autor, bem como outros autores relacionados.

Portando depois disto tudo posso dizer que se ainda não viram este filme, vejam. Não esperem grande acção, ou mesmo qualquer acção, porque não é essa a intenção do autor. Na realidade este filme é um poema de amor à própria poesia e por isso não poderia deixar de falar nele aqui. Se quiserem ler os poemas do filme vejam aqui. Se quiserem ler uma apreciação interessante vejam aqui, e se quiserem ler o poeta que escreveu os poemas de Paterson espreitem aqui.

Recomendo a todos os amantes de poesia, os que andam todos os dias de autocarro a ver pedaços de vida e a tomar notas mentais, a todos os que têm um emprego repetitivo e monótono mas que o vêem como uma estrofe do seu próprio poema. A todos os que sonham acordados e a dormir, a todos os que não se conformam na sua vida de conformidade, a todos os amantes da beleza.

Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain

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2 thoughts on “Um Filme que é um Poema

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