Avelina, Criada para Todo o Çerviço

Avelina

Comprei a Avelina na Feira do Livro de 2017, e já isso me faz ter pena de ter decidido não comprar mais livros este ano, porque fiquei cheia de vontade de ter mais livros do Vilhena. A sua mordacidade e sentido de humor, tão brejeiramente portugueses, mas pejados de crítica social e visão global do que se passava no tempo do outro senhor, fazem ler os seus livros um verdadeiro prazer.

Mas quem é a Avelina? Avelina é uma moça pré-adolescente das Bouças, lugar fictício do interior rural português, mas que podia ser qualquer aldeia no final dos anos quarenta, onde se passa fome de rabo e por isso ela é mandada servir numa casa da vila mais próxima a troco de cama e comida. Aí começa a escrever o seu diário, muito livre, que nos vai dando conta das diferenças sociais vincadas, mas também do chico espertismo tão português e tão comum a toda a gente, independentemente do lugar social que ocupam. Vilhena tem um olhar muito aguçado sobre os males da sociedade, mas ao mesmo tempo descreve-os sem pena, sem “coitadismos” e com imenso sentido de humor.

Confesso que este livro me impressionou por dois motivos, não só por estar escrito dum modo muito cru e com graça, mas porque a minha avó materna também cresceu numas Bouças deste Portugal e quando tinha oito anos, consideravelmente mais nova que a nossa personagem, foi servir para casa da professora primária da terra, a troco de educação, comida, cama, etc. Confesso que sempre tive uma visão romântica sobre esse assunto, e este livro fez-me ver as coisas um bocadinho mais próximas da realidade.

O livro é a compilação de três volumes originais que seguem o crescimento da Avelina desde as Bouças até finalmente se instalar em Lisboa, com passagem pelo Porto, mas confesso que o último volume foi para mim o mais fraquinho, talvez pela perda da inocência da nossa protagonista.

Aconselho vivamente, não só porque a edição fac similada da E-Primatur está lindíssima, como já nos vêm habituando, mas porque é um documento dum tempo que já passou mas que não nos podemos esquecer, porque sem nos apercebermos a censura está sempre à espreita, e hoje está tão activa como no tempo da outra senhora, apenas se reveste de outros contornos. Mantenhamos a todo o custo a liberdade de ler o que queremos e pensar livremente.

Goodreads Review

Boas Leituras!

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