Luiz Pacheco -Como descrever o indescritivel?

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Há muitos autores dos quais só tive conhecimento muito tarde. O nosso mercado português é muito pequeno, limitado, não há muito espaço para coisas diferentes e alternativas serem divulgadas em meios com mais visibilidade.

Como já referi várias vezes o acesso ao Kindle veio ajudar-me a descobrir autores em inglês que nem sempre estão nos nossos tops editoriais. Quando chega a autores portugueses, a coisa é um bocadinho diferente, e descobrir coisas novas e interessantes pode ser um trabalho árduo.

E por vezes pode mesmo ser tarde demais, como no caso de Luiz Pacheco. Muita coisa tenho lido sobre este autor dito “maldito”, que tem uma história de vida conturbada, que viveu sem regras nenhumas a não ser as suas, e que era hábil a dizer exactamente o que pensava sobre toda a gente, o que não lhe granjeou muitas amizades. Era um homem profundamente livre, em todos os aspectos que a palavra inclui, e com todas as consequências que isso arca também. Não era subserviente a nada a não ser os seus desejos, e por isso foi tão marginal.

No entanto, pouco posso dizer sobre o seu estilo literário, porque os seus livros são muito difíceis de encontrar. Já corri vários alfarrabistas onde me costumo “abastecer” e nenhum tem livros disponíveis, ou se têm são muito caros. Nas livrarias, idem aspas. É possível recorrer a sites como o OLX e afins, mas o preço dos livros que aí se encontram é proibitivo, pelo menos para mim.

Os livros que ainda restam disponíveis por aí são itens de coleccionador e têm o preço ajustado a isso. Para uma pessoa como eu que apenas quer ler o texto, 60€ é um pouco demais. Por isso acho que estava na hora de reeditarem alguns textos deste autor para os tornarem mais acessíveis ao público em geral. De preferência também em formato digital.

Enquanto isso não acontece partilho aqui algumas coisas que se encontram espalhadas pelo mundo digital, para podermos ir descobrindo um pouco mais sobre este autor/editor.

Uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro com Luiz Pacheco, quando ele vivia já num lar. Muito interessante.

Um especial do Observador já antigo onde podemos conhecer também muito da sua biografia e bibliografia.

E por fim esta gema, o conto Comunidade aqui ilustrado por Cruzeiro Seixas e disponibilizado online pela Livraria Almedina. Foi este conto que acabei agora de ler e de que vos venho aqui falar.

Comunidade é muito pequeno, mas é compacto e denso. A comunidade que Luiz Pacheco nos descreve é a sua família à altura, que vivia em condições muito precárias, como ele aliás viveu toda a vida. Escreveu sobre a miséria conhecendo-a por dentro.  É um corpo que mexe como um, mas que é feito de muitos corpos que vivem separadamente. No entanto, o livro não é miserabilista, e cada frase nos dá para pensar e reflectir na nossa própria vida e nas nossas escolhas.

Aconselho a todos os que tenham estômago forte e ideias livres e que queiram conhecer mais um dos nossos autores menos mainstream. Deixo-vos um excerto.

Goodreads Review

Boas Leituras!

Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos,
lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o
vómito; fui até às entranhas da Besta e não me arrependo.
Nada sei do futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi
pior. Conheci gente variada nesta Viagem. Pobre gente:
estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos,
foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos,
estes) chulos do próprio talento desperdiçando tudo: as horas
do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo
tem seu calor e seu exemplo; ou frustrados falhados tentando
arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por
impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada
perdoa). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e
muito mal mascarados. Uma caca a respirar.

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3 thoughts on “Luiz Pacheco -Como descrever o indescritivel?

  1. A Peixinho tocou num ponto sensível: Luiz Pacheco é, a meu ver, o autor moderno que melhor tratou a língua portuguesa (apesar do vernáculo); e “Comunidade” é, no dizer de Rui Zink, uma das melhores e mais importantes obras da literatura universal do Século XX. Há uma colectânea de textos de Pacheco editada pela Estampa com o título “Exercícios de Estilo”, a qual, além de “Comunidade”, inclui “O Artista Precisa de Um Cachecol”, “O Mistério das Criancinhas Desaparecidas” e o essencial “O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor”.
    Pode encontrar uma biografia interessante em “Puta Que Os Pariu”, de João Pedro George. O título é deplorável na sua boçalidade, mas a biografia é razoavelmente interessante. Mas, se quer realmente conhecer o Pacheco, há o “Diário Remendado” (não consegui encontrar o meu exemplar, por isso não lhe sei dizer qual é a editora).

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