Os Andróides e as Ovelhas Eléctricas

Philip K Dick

Já andava com o livro que deu origem ao mítico Blade Runner no meu Kindle há muito tempo à espera de vontade ou inspiração para o ler. Agora, nesta reta final do ano pareceu-me finalmente a altura acertada para finalmente pegar nele e deixar-me enredar pela história.

A primeira coisa que tive de ter em consideração é que o livro foi escrito em 1968 e isso explica uma certa falta de elegância nos termos usados quando comparamos com o filme. Por exemplo Rick Deckard é um bounty hunter e não um blade runner, e os Nexus 6 são “andys” e não replicants. No entanto, passando a fase inicial de habituação, percebemos que o livro está muito bem escrito. Todo ele é como um filme noir policial dos anos 50, mas passado num futuro à altura ainda distante (2021), distópico como convém, e onde as fronteiras entre ser humano e não o ser continuam, como sempre, muito difusas.

A segunda coisa que temos de ter em consideração é que o filme foi apenas vagamente baseado no livro, e este último tem várias histórias paralelas que o tornam muito mais intrincado e rico em imagética. As diferenças que mais se destacam são a esposa de Rick Deckard, que nos ajuda a perceber o tecido social da altura, bem como o impacto que o apocalipse nuclear teve na vida familiar e reprodutiva da humanidade. Temos também o Mercerismo, uma ideologia desenhada para promover a empatia entre os seres humanos, na realidade aquilo que os coloca no topo da escala evolutiva, antes dos especiais (pessoas com deficiências mentais), animais, andróides e finalmente a importância dos poucos animais verdadeiros que ainda restam, e os animais eléctricos que os substituem. Cuidar de um animal é mais uma vez um potenciador de empatia, e um sinal exterior de riqueza e balanço psicológico, e muitas vezes até a progressão na carreira dependia disso.

Como já tenho dito aqui, nomeadamente quando falei doutro grande livro de ficção cientifica, o Hyperion, este é o género por excelência onde por trás duma grande história se podem debater grandes temas filosóficos, religiosos, ecológicos, e mais uma vez este livro é prova disso mesmo, já que os andróides são em tudo semelhantes aos seres humanos, aparentemente só lhes faltando empatia, respeito pela vida, incluindo a sua própria, no entanto os humanos que à partida seriam os seres empáticos são também aqueles que se esforçam tanto por erradicar os androides que vêem como ameaça por serem tão parecidos consigo.

Este foi um livro qua gostei bastante de ler, apesar de achar que não foi o melhor livro do género que já li. Pareceu-me muito completo e deixou-me várias vezes a pensar no que é que se estava realmente a passar, e que mensagem é que o autor nos queria passar, que é normalmente a marca dum grande livro.

Recomendado a todos os fãs do filme, de ficção cientifica e de livros que nos deixem a pensar num amanhã que está aí mesmo ao virar da esquina.

Goodreads Review

Banda Sonora

He thought, too, about his need for a real animal; within him an actual hatred once more manifested itself toward his electric sheep, which he had to tend, had to care about, as if it lived. The tyranny of an object, he thought. It doesn’t know I exist. Like the androids, it had no ability to appreciate the existence of another.

 

Blade Runner

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