O Rock dos Invisíveis

Subutex 1.jpg

Mais uma vez o Netgalley proporcionou-me uma leitura fora do comum, um livro brutal em todas as acepções da palavra, neste que foi o meu primeiro contacto com a autora, a francesa Virginie Despentes.

Vernon Subutex é um livro profundamente francês nas suas referências, europeu, contemporâneo, mas ao mesmo tempo duma imensa universalidade. Vernon é um homem de meia idade que foi proprietário duma loja de discos em vinil, essa coisa obsoleta engolida pela tecnologia. Perdeu a loja, e os amigos que costumavam por lá parar, desde ex membros de bandas que nunca foram hits, a fãs obcecados, pessoas que vivem nas franjas, todos vivem centrados nas suas próprias espirais enquanto Vernon vai lentamente descendo a sua.

A única pessoa que o mantém à tona é também o único que teve algum sucesso, Alex Bleach, a derradeira estrela do rock, odiado por todos porque teve sucesso onde os outros falharam. Mas quando até ele é levado por uma morte prematura, Vernon vai percorrendo todos os amigos que ainda lhe restam até chegar às ruas de Paris.

A escrita de Virginie é absolutamente vertiginosa, como a vida, e mantêm-nos sempre em sentido para acompanhar as mudanças bruscas de tempos e de personagem. Cada pessoa nova que é introduzida é mais um pedaço de nós que é exposto, das nossas cidades, da nossa rua, da vida de todos os dias. E pouco a pouco, quanto mais caminha para a indigência, mais Vernon se vai tornando invisível para todos aqueles que o rodeiam. É duma clareza brutal a maneira como a autora nos mostra a facilidade como hoje estamos aqui, com casa, trabalho, vida corriqueira, e basta um deslize, uma desatenção, um deixar andar na tristeza, para a corrida voraz e impiedosa dos dias nos devorar completamente e passarmos a ser completamente invisíveis àqueles que nos rodeiam, que ficam também reduzidos ao mais básico, uma mão que pode trazer umas moedas ou uma ameaça.

Sinceramente este livro fez-me reflectir muito na minha postura na sociedade actual. Os estereótipos estavam todos muito bem conseguidos. O livro começa com uma descrição absolutamente maravilhosa da cena musical, de todas as referências que me dizem alguma coisa, do mundo que eu própria gravitei nos meus 20 anos, para fazer lentamente a transição para a obsessão que temos hoje em dia com as redes sociais, os jogos de telemóvel, sem esquecer as drogas, a moda, as tendências. Por tudo isso Vernon passa sempre com o seu ar calmo e impassível de quem não quer incomodar.

Na cena mais impressionante, uma das mulheres que lhe está a dar guarida num dos dias, sem saber da situação precária em que ele se encontra, mostra-lhe a foto dum sem abrigo com o seu cão, no Facebook. Está preocupadissíma porque o cão tem de ser submetido ao abuso de dormir ao frio, e alguém devia fazer alguma coisa em relação a isso. E Vernon percebe que está na hora de mais uma vez procurar outro sítio onde ficar.

Entretanto, no meio de tudo isto, ele é possuidor de umas gravações inéditas de Alex Bleach, e na realidade toda a gente o procura porque elas são valiosas. Ironia.

Recomendo a quem se quiser questionar, quem gostar de desafios, quem gostar de livros intensos, actuais e diferentes. Eu fico à espera que traduzam as partes 2 e 3 do francês para saber o que se passa a seguir.

Goodreads Review

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s