A Amante Holandesa

A Amante Holandesa

Acabei de ler A Amante Holandesa do Rentes de Carvalho e ainda tenho um sabor amargo na boca. Este é um autor transmontano, relativamente desconhecido em Portugal, em parte porque abandonou cedo o nosso país, desencantado, em busca da liberdade que não encontrava cá. Acabou por se fixar na Holanda, tem desenvolvido a sua carreira literária a partir de lá, e não tem penetrado muito o nosso minúsculo mercado, saturado que está dos suspeitos do costume. No entanto, tem uma escrita forte, honesta, e ao mesmo tempo quase poética.

Chegou cá a casa pelo livro “O Meças” que ganhamos num passatempo da Time Out e ficamos apaixonados. De tal maneira que o Peixinho Vermelho não perdeu a oportunidade de comprar este.

Tal como O Meças, também este se passa na zona de Bragança, no interior profundo, e o autor não nos trata com paninhos quentes, não romantiza o que é viver num meio rural isolado, pobre e atrasado. Para mim, que estou profundamente cansada da cidade e sonho um dia estabelecer-me no campo, penso os seus livros como um alerta para uma possível realidade.

Tendo passado grandes temporadas numa aldeia minúscula desde miúda sei em primeira mão o poder do mexerico, da pressão social, das verdades instituídas. Mas este livro vai muito mais além e a aldeia é apenas o pano de fundo para a busca que um homem faz sobre o sentido da sua vida. O desespero de quem sente que viveu para as aparências, para as convenções sociais, nunca teve ambição porque nem teve espaço para isso. E chegando à meia idade sente também que chegou a um beco sem saída, preso numa vida sem sentido, onde as fantasias são o seu único escape, e as teias em que se vê enredado formam já um labirinto donde é difícil escapar.

Este livro questiona também quem somos na realidade, e se o modo como vivemos a nossa vida é honesto, ou se pudéssemos viver escondidos de todos seríamos mais fieis a nós próprios e aos nossos instintos. Na realidade, apesar de ter uma escrita muito poética como já disse acima, Rentes de Carvalho consegue ser por vezes brutal, e fez-me voltar atrás muitas vezes para reler várias passagens e ver se estava a entender todos os significados escondidos.

Eu costumo dizer de alguns livros que não são para todos (not for the faint of heart, como dizem os ingleses), mas a crueza serrana deste autor não será certamente do agrado de todos os públicos. Depois de ler o livro fica um sabor amargo, mas fica também um sentimento de reconhecimento, como se aquele narrador pudéssemos ser nós, as suas questões existenciais fossem semelhantes às nossas, os pensamentos em loop que só abrandam quando ele afadiga o corpo em longos passeios na serra não difere assim tanto de algumas pessoas que vemos no ginásio.

Os temas, como disse, não são para todos, mas as angústias são universais. Da minha parte, depois de digerir este, estarei já a pensar onde estará o próximo.

A Amante Holandesa_quote

Goodreads Review

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