Feira do Livro

Feira do Livro 2016

Faltam exactamente duas semanas para abrir a Feira do Livro de Lisboa. Quando era miúda era um dos momentos altos do ano, equiparado ao Natal, pois os meus pais levavam-me lá no dia da criança e eu vinha sempre com sacos repletos de livros e brincadeiras.

Mais tarde, em jovem adulta, continuei a fazer a minha peregrinação anual religiosamente, e vinha mais uma vez com sacos carregados de livros, deslumbradas com descontos, oportunidades, novos lançamentos, mundos novos.

Hoje em dia a Feira está diferente. As editoras agruparam-se em gigantes monopólios, aqueles livros escondidos de fundo de catálogo que faziam as minhas delícias são cada vez mais inexistentes, os títulos à venda são sempre os mesmos, os autores são sempre os mesmos, a diversidade é cada vez menor. Nos últimos anos saí de lá apenas com alguma BD e livros de alfarrabista.

Apesar disso, continuo a ir todos os anos passear à Feira, até porque gosto do ambiente e de andar a pé por lá. E parecendo que não é um pulinho do meu trabalho, o Parque Eduardo VII é um sítio muito bonito com uma belissima vista, e há algo de reconfortante em hordas de pessoas reunidas em torno de livros.

Os 5 tipos de livros que eu nunca lerei.

Livros que nao vou ler

Bom, tavez o título seja um bocadinho exagerado, e não se possa dizer que há livros que eu NUNCA lerei. No entanto há livros que não me atraem mesmo nada, e que sinto que passo bem sem eles. Para ser trendy, e mostrar que o Peixinho está na vanguarda do que se faz por aí nas redes sociais, fiz uma lista dos 5 tipos de livros que não me apanharão no autocarro a ler.

  1. Biografias de Celebridades: Não tenho paciência. Não quero saber. Muito raramente me apanham a ver programas de celebridades, SIC Caras e coisas semelhantes, não me consigo lembrar dos nomes de actores e actrizes a não ser os mais óbvios e conhecidos, por isso genuinamente não tenho interesse por biografias de pessoas que “apenas” são famosas. O que não quer dizer que não goste de biografias. Gosto bastante e tenho lido algumas bastante interessantes, de pessoas com muito para dizer e muita história para partilhar. Como por exemplo este livro, escrito por uma senhora muito peculiar, muito à frente do seu tempo, uma aventureira no verdadeiro sentido da palavra no sentido em que isso estava vedado à mulher comum.
  2. Livros de Auto-Ajuda: Nada contra, mas não fazem o meu género. Não consigo interessar-me pelo tema, e fico sempre ansiosa para ver o “fundo ao tacho”, neste caso o fim ao livro. Claro que há sempre excepções à regra e livros que nos ensinam muita coisa útil como esta preciosidade.
  3. Livros de Politica: Não há paciência para política. Não há, pronto. Sei o suficiente para ser uma cidadã do mundo informada, vejo notícias, voto, tenho opinião, mas por favor não me obriguem a ler livros sobre política. Acho que adormeceria ao fim do segundo parágrafo.O melhor livro político que li, e que aconselho ferozmente a toda a gente é este antigo mas actual exemplar.
  4. Livros de exercicio: Eu sou uma pessoa de aprender com fazer mais do que com ver. Por isso quando toca a exercicio e afins, livros não resultam para mim. Mais depressa recorro a um vídeo no Youtube do que propriamente a uma descrição morosa sobre como fazer correctamente determinado movimento. Claro que toda a regra tem excepção, e li este livro sobre ultra maratonistas que me deixou absolutamente fascinada. Quase me transformava numa corredora eu própria, mas depois acordei e voltei à minha realidade de hidrodeep e tai-chi.
  5. Livros de Religiões alternativas: ou não alternativas. Não sou muito dada a ler livros sobre religião. Tal como acima, acho que é uma actividade mais de praticar que de ler, e no tema das religiões alternativas há muito joio no meio do trigo. O melhor livro que li neste tema foi dum dos meus autores favoritos. Aconselho.

E pronto, fica a minha lista, vou já pensando na próxima.

Cântico Negro

José-Régio

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
– Sei que não vou por aí!

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’

Game of Thrones – Viver e Morrer em Westeros

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Foto daqui

Há um verdadeiro reboliço nas redes sociais sobre o Game of Thrones. Não se fala doutra coisa, toda a gente sabe o nome dos personagens e respectivos actores, e lêm-se as sinopses no IMDB com o mesmo fervor que a minha avó lia os resumos da Escrava Isaura na TV Guia. Gostava muito de me sentir imbuida da mesma euforia, de esperar cada temporada nova como se fosse a última garrafa de água do deserto, que o facto da morte ou não morte do Jon Snow ocupasse um espaço privilegiado na minha mente. Mas não consigo.

Tentei ver alguns bocados de episódios, mas não me sinto fascinada. O GoT foi dos primeiros livros que li assim que me deram o Kindle. Li todos de enfiada, com voracidade e ansiedade. Quando morreu a primeira personagem que eu julgava principal, o Ned Stark, o meu coração parou. Depois disso foi sendo dilacerado pouco a pouco, mais ou menos violentamente consoante o grau de apego que eu tinha ganho a cada pessoa.

E de repente tudo acaba, sem acabar. As sequelas prometidas há anos não saem. Ao princípio ainda há esperança, porque se a série começou os livros hão-de sair para não perderem o comboio. Mas nada. Só espera.

E agora a série ultrapassou vergonhosamente os livros e eu já não quero saber. Quem morre ou quem vive, ou quem resiste à ira dos argumentistas. Porque isto agora já não é criatividade, é a lei das audiências. Morre e ressuscita quem der mais patrocínios e vender mais episódios, e nisso já não estou interessada.
Se os livros um dia acabarem talvez os leia, se não tiver nada mais genuíno para ler.

Diz que a série está muito boa para quem gosta do género.

Crochet mania

Crochet

 

Quando era pequena a minha mãe a a minha avó paterna ensinaram-me a fazer crochet (já falei doutras tentativas delas aqui). Foi uma coisa que me deu imenso prazer, mas de imediato percebi que nunca teria jeito/paciência para fazer mais do que os simples abertos e fechados. No entanto isso foi suficiente para fazer alguns estojos de canetas, bolsinhas para maquilhagem, e até uma mala, numa altura em que poucas mais linhas estavam disponíveis que o algodão branco 6, 12 ou 20 (para as mais ninjas como a minha avó).

Mais recentemente, nos últimos anos, a minha empresa associou-se à Comunidade Vida e Paz e forneceu-nos lã e agulhas para tricotarmos agasalhos para os sem abrigo na época de Inverno. E isso reavivou todas as memórias de infância de férias de Natal passadas com a mãe e a avó na sala a (tentar) fazer crochet.

O resultado foi um renovado entusiasmo para reapreender técnicas esquecidas e juntar-me ao frenesim que circula por aí das novas tricotadoras. Comprei/ofereceram-me os livros acima, lãs/linhas, agulhas, toda uma parafernália de coisas que me enchem sacos e sacos.

Alguns anos e um cachecol depois chego à mesma conclusão de infância. Safo-me nos abertos e fechados, gosto de crochet mas tenho pouca paciência para tricot, e nunca mais me vejo livre de tanta lã. Ficaram os livros para futuros projectos.

Ainda o Mário de Sá-Carneiro

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Retrato de Mário de Sá-Carneiro, Júlio Pomar 2014-2015

Falei aqui no dia 26 de Abril, neste post, do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro. Foi também nesse dia que começou uma exposição na Bibioteca Nacional que está integrada nas diversas comemorações da obra deste autor.

É uma excelente oportunidade para vermos de perto alguns documentos fotográficos, ilustrações, livros, coisas que contextualizam e dão corpo à vida do autor. É também uma maneira para vermos o interior da Biblioteca Nacional para todos aqueles que nunca lá entraram. Apesar de muito perto da minha faculdade, só lá entrei uma vez para acompanhar uma amiga.

A não perder até 31 de Agosto, com entrada livre.

A Engomadeira do Almada

A Engomadeira

Num ano em que resolvi retomar a leitura em português, cruzei caminhos com este conto do Almada, a Engomadeira. Para além de toda a experiência de o ler, este conto permitiu-me também saber o que é o Intersecionismo, um movimento criado por Fernando Pessoa e no qual se sobrepõem vários niveis de realidade. Perfeita descrição daquilo que li neste conto.

Ler A Engomadeira foi como ver um quadro do Almada, uma experiência em que a realidade se expõe perante os nossos olhos deformada em beleza. Escrito em 1915 é também um retrato da altura, e da ruptura agressiva que este grupo de autores tentava fazer com a norma e a tradição da altura. Podemos ver, como nas telas, o movimento Surrealista em plena laboração. Suponho que se eu conhecesse um pouco mais da história da altura, tivesse desfrutado ainda mais dos nomes que foram aparecendo na narrativa.

Aconselho muito, a ler com olhos abertos e capacidade de deslumbrar intacta.

“Eu sentia que cada poro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada submundo mesmo os das últimas subdivisões tivessem um mapa e leis onde cada ser fosse tão complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu.”

“Uma noite estava eu a escrever um conto realista e o aparo da caneta era uma vespa. Pensei toda a noite na vespa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com letra da minha amante que, mais extraordinário é, nunca aprendeu a ler.”